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Aspecto da estação no fim da década de 1990

(José Roberto Moraga Ramos)

 

Todos os escritos nesta página têm Iperó como tema: poesias, poemas e textos diversos, originalmente publicados no site através do livro de visitas. Pela riqueza do material, abrimos este espaço especialmente para divulgá-los. Cada nova contribuição recebida será acrescentada à página.

 

"Iperó e o trem"

por Hugo Augusto Rodrigues - 2014

 

A Iperó primitiva era uma área com grande presença de nativos e se integrava às trilhas da Peabiru, caminho que ligava o Pacífico ao Atlântico. Séculos depois, no fim dos anos 1500, se tornou o berço da siderurgia americana, o que se confirma através dos remanescentes das fundições no morro Araçoiaba. Mais um século se passa e a região se torna rota dos bandeirantes e posteriormente dos tropeiros. Depois, com a chegada da Família Real ao Brasil, nasce a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema (atual Floresta Nacional de Ipanema). O empreendimento foi de grande importância para o desenvolvimento do Brasil e funcionou durante 85 anos. O espírito de progresso sempre pairou por essas terras. E assim, acelerando a linha do tempo por mais um século, chegamos à primeira metade do século XX, quando a ferrovia rasgou o território do atual município.

 

Iperó teve o trem como um aspecto importante na sua história e desenvolvimento, o que levou à criação dos primeiros serviços públicos, estabelecimentos comerciais e vilas com casas para os ferroviários. Esses primeiros núcleos urbanos organizados, construídos pela própria Estrada de Ferro Sorocabana (EFS), deram ar de cidade à pequena Santo Antonio. A ferrovia movimentava o comércio, criou clube, time de futebol, campo e cinema para oferecer lazer aos iperoenses daqueles tempos.

 

Sem o trem, possivelmente o novo povoado de Santo Antonio não tivesse existido ou demorasse mais tempo para se desenvolver e sonhar em se tornar município. O trem impulsionou o lugar durante os anos 1930 e 1940. Nas décadas seguintes, anos 1950 e início dos 1960, a presença da ferrovia e o imenso movimento de pessoas eram marcantes para o “distrito de Iperó”. Isso dinamizou o povoado e contribuiu para que as lideranças políticas locais e a população levassem adiante o sonho da emancipação.

 

Sem o trem, talvez tivéssemos ficado pelo caminho, sem a possibilidade de conviver com tantas famílias que vieram para cá e fincaram suas raízes com o sonho de uma vida melhor. O trem abriu fronteiras para além do nosso pedaço de chão à margem esquerda do rio Sorocaba. Na estação, embarcavam e desembarcavam sonhos e projetos de vida. O romantismo da juventude passeava pela plataforma da estação na esperança de encontrar a “cara-metade”. Namoros. Casamentos. A estação como um ponto-de-encontro. A praça dos iperoenses. Época onde havia o orgulho de ser ferroviário ou pertencer a uma família de ferroviários. E mesmo quem não tinha ligação com a ferrovia, também se orgulhava em viver aqui e trabalhava muito para ajudar no desenvolvimento do povoado: comerciantes, servidores públicos, agricultores, pecuaristas e trabalhadores das mais diversas áreas contribuíram para o crescimento do lugar. E todos se orgulhavam ainda por muito mais: a grande festa do padroeiro reconhecida em toda a região, os bailes no Sorocabana, o time de futebol muito respeitado por onde passava...

 

Olhar Iperó hoje é enxergar duas cidades: antes e depois da EFS. Anos de administrações ruins nas diversas companhias que operavam no Estado de São Paulo levaram à criação da empresa Ferrovia Paulista S.A. no início da década de 1970. A Fepasa nasceu em crise, iniciou um processo de decadência já nos primeiros anos, intensificado a partir dos anos 1980, que se arrastou até 1998 quando ocorreu a privatização. De lá para cá, acompanhamos o triste destino das ferrovias em São Paulo e também pelo Brasil afora.

 

O ‘pós-EFS’ pesou para Iperó e não foi apenas economicamente. Foi quase um ‘pós-guerra’ que levou a um desânimo geral durante muito tempo. Quando a ferrovia acabou, parece que o orgulho de ser iperoense também se foi. As coisas se arrastaram. A cidade ficou órfã e as pessoas passaram a repetir muitas lamentações. É triste, realmente. Sentimos saudade da ferrovia e do trem, das lembranças da infância e adolescência. Mas, se por um lado o nosso "saudosismo" lembra que houve vida ativa e pulsante no entorno da ferrovia, por outro lado isso só foi possível graças às pessoas. Pessoas que atuaram nas mais diversas frentes de trabalho e ajudaram a impulsionar a cidade. A ferrovia acabou, mas as pessoas continuaram. E a cidade continuou. Então, é preciso seguir em frente.

 

A esperança de revitalização das áreas do pátio, estação e depósito tem um significado que vai além da retirada dos vagões. É preciso trazer de volta o orgulho dos iperoenses e preservar aquele complexo que por várias décadas trouxe desenvolvimento ao município. É preservar também a memória de todos os que participaram da saga da Sorocabana em Iperó, pois uma história que representou tanto progresso não pode ser esquecida. As novas gerações devem se orgulhar daquele espaço e utilizar o local com respeito à memória de todos os ferroviários que ali dedicaram grande parte das suas vidas.

 

Cabine de Iperó, inaugurada em 30 de julho de 1934, onde eram efetuadas todas as mudanças de linha no pátio local

Na fachada havia a inscrição "SANTO ANTONIO - CABINA"

(Arquivo Thomas Corrêa)

 

Locomotiva a vapor ao lado da estação - 1959

(Arquivo Alberto Del Bianco)

 

Locomotiva a vapor ao lado da estação - década de 1960

(Luiz Simonetti - Arquivo Daniel Gentili)

 

"Poesia sobre Iperó"

por Accácio Garcia - publicada no "O Jornal de Iperó" em 27 de julho de 1958

 

Não sei qual o mistério desta terra
Que prende a pessoa que aqui chega.
Não sei se o ar,se a água ou a paisagem;
Se o perfume das flores que aconchega.

Mais de uma vez daqui partiste, para voltar
Qual ave sem ninho, buscando um pouso
Ou uma aventura, um sonho, uma ilusão fugaz...
Quem daqui parte, um dia volta saudoso

No olhar incerto, um brilho estranho...
Nos lábios entreabertos um sorriso,
No coração talvez quem sabe, a esperança
De um dia encontrar um paraíso.

Esse talvez, quem sabe, encerra muito
Inutilmente eu busco desvendar-te
És sombra sutil, miragem, mentira verdadeira
Quem bem pouco vale o tanto desejar-te.

Quem importa que seja a flor ou seu perfume...
Que seja o ar, a água ou a paisagem...
Ou as manhãs cheias de orvalho e primavera...
Ou o tempo que se desfaz em sua voragem...

 

Iperó, 1953

por Zeca Corrêa Leite


"A procissão seguia e levava o andor tremulante como as chamas das velas e o canto das mulheres e dos homens entoando “Ave Maria” e os rapazes com os pelos despontando na pele macia fumavam seus primeiros cigarros para serem homens e machos e bravos na frente dos semelhantes e do mundo. De um lado se via a frente da casa do feitor da estrada de ferro e o cão latia feito um danado, seu latido feroz e inútil; do outro lado o quintal da casa do seu Mundico, o limoeiro, mixiriqueira, a cerca de madeira vermelha, enxu de vespa na árvore, a casa mais adiante. O trem vinha resfolegando, apitando longe, antes de chegar na ponte pedindo trilho, manobrador, água, lenha, embarque e desembarque.

 

Bandeira com fita azul e ponta de metal no mastro refletindo a luz da lua, levada pelo homem que puxava rezas onde tinha gente doente ou morta, quando a lojinha de Dona Diva abria de madrugada e se compravam meias grossas para os pés do corpo rijo deitado em cama simples para acordar nunca mais. O homem levava a bandeira e cantava em voz grossa e alta os hinos e as mulheres cantavam devagar e de modo choroso falando da cova de Iria a treze de maio, a Virgem Maria, os três pastorzinhos banhados de luz. As velas queriam acender e apagar, elas brincavam de lume e dançavam e queimavam as mãos das mulheres e das meninas e dos homens e do padre.

 

Depois chegavam à igreja e tinha menina subindo as escadas e puxando a corda e batendo o sino e acordando os pássaros que dormiam ali por perto e assustando a própria noite e chegando por detrás do som do rádio que apresentava novela. As janelas das casas eram vermelhas e azuis e todas tinham um jardinzinho na frente e tramela no portão e tinha latidos de cães e o barulho forte dos trens que faziam tremer a terra e passavam todas as noites às 2h45.

 

Na estaçao os bêbados dormiam, os mendigos cantavam de vez em quando, os guardiães andavam de capa escura e comprida, pra lá e pra cá, atordoados. No meio da escuridão, as almas bondosas repetiam cantigas da procissão e as mulheres mortas, vestidas de branco e fitas nos cabelos, seguindo cantando os três pastorzinhos banhados de luz, a Virgem Maria, a Mãe de Jesus."

 

"Homenagem a Iperó"

por Izildinha Domingues dos Santos

 

Seus fundadores desbravaram suas matas, fizeram o lugar ideal para viver.

Suas árvores cobertas de flores; o amarelo, o roxo do ipê.

Do seu morro brotam rios, cascatas e minérios; progresso do amanhã.

Em suas terras, o que se planta colhe; a cana, o arroz, feijão e algodão.

As manhãs são perfumadas pela relva. O açúcar preto adoçava o café.

O  céu é tão límpido, que quase se toca nas estrelas.

Povo festeiro e forte na sua fé:

Santo Antonio era seu nome, padroeiro hoje o é.

A viola alegrava os terreiros com a chegada dos tropeiros.

Jundiacanga foi sua primeira escola;

A estrada de ferro despertou-a para o mundo.

Maria-fumaça vai e vem; lperó cresce também.

E lpanema com seu portão monumental, homenagem à família imperial.

Tu és o berço da siderurgia nacional.

lperó, centro da tecnologia, contribui, com a independência e a soberania.

Iperó, siderurgia outrora, tecnologia agora.

 

"Mulheres de Iperó"

por Zeca Corrêa Leite

 

A Vânia com essa saia comprida e magra

Me lembra as mulheres de Iperó.

A Vânia me lembra, com essa saia,

As mulheres de domingo de Iperó

Que passeavam na praça, em frente à igreja,

Junto do cinema,

E que tomavam sorvetes do Bibe

E que andavam de caminhão

E que iam até Bela Vista

E que eram parentes da madrinha Francisca

E que conversavam com o Tide.

 

E que me carregavam.

 

A Vânia com essa saia comprida

Me lembra Iperó

Em 1953,

Poses de fotos batidas na Kodac

Que tinha um olho vermelho

A olhar constantemente ao fotógrafo.

 

Lembro dos trens e do vento

Dos eucaliptos e das canções

E de minha mãe.

 

Eu me lembro das saias magras

Nas caipiras tardes

Que abraçavam e beijavam

As moças não beijadas

Da pacata Iperó.

 

"Lembranças da minha terra"

por Silvana Mello

 

Lembranças da minha terra,
Meu povo querido, saudades!
De cima do meu pé de pitanga avistava uma casa branca.
Pensava eu, como criança: Será quem mora lá?
No meu coração imaginava que lá haveria de ter crianças,
E que de longe me observavam também.

Passava horas sentada no pé de pitanga olhando a casa.
Hoje, depois de tantos anos, ainda consigo fechar os olhos e me vem lembranças da minha terra.
Como foi doce a minha infância querida, de onde pequena saí,
Mas carrego comigo o cheiro da terra, o verde das plantas, meu pé de pitanga, a casa branca,
A estação, o apito do trem.

Corre o coração, dispara, a alegria não tem fim... chegou o meu bem!
Isso é saudade desse tempo que não volta mais,

Mas está aqui registrado no coração de todos a quem Iperó encantou e continua encantando com sua história e beleza.

Obrigada, terra querida.

Saudades.

 

"Festa do padroeiro"

por Adroaldo Jacques Eid - junho/2008

“Dedico este poema a todos aqueles que fizeram de Iperó um lugar

de inesquecíveis eventos, quando era ainda distrito e não município”

 

Depois do “Deus louvado seja”,
Os fiéis deixavam a igreja
E se misturavam à multidão.
Era a festa do padroeiro,
Santo Antonio, casamenteiro,
Conforme reza a tradição.

Tinha banda no coreto
Uma fogueira de graveto,
Barraquinhas de montão.
Tinha barraca de vários jogos,
Barraca que vendia fogos
E a barraca do quentão.

Parece que não tinha perigo,
O céu virava um abrigo,
Que acolhia foguetório e balão!
Tinha até correio-elegante;
No serviço de alto-falante,
O Udovaldo, o Dito-cabra e o Enxadão.

Em cima de um tabuleiro,
O mais famoso dos leiloeiros,
Dava início ao leilão.
Mas antes de exibir as prendas,
O tio Calil fazia uma oferenda:
“Senhores, viva Santo Antonho”, com emoção.

“Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe treis”,
Entregava o prêmio ao freguês
Que vencia a competição.
Muita gente disputava,
Porém, quem mais ganhava
Era seu Hamilton, pai do Dilão.

Tinha doce e salgadinho,
Champanha, litro de vinho,
E pinga de garrafão.
Tinha boneca e litro de quinado,
Bolo, chapéu e frango assado,
Um quarto de cabrito e de leitão.

Domingo, o último dia,
A cidade outra vez exibia
Outra grande manifestação.
Vindas de longínquas brenhas,
Chegavam carretas de lenha,
Para mais um bonito leilão.

Tinha ainda o leilão do gado,
Que ficava abarrotado
De carreiro e de peão.
Depois daquele alvoroço,
O festeiro lhes ofertava um almoço,
Como forma de gratidão.

No crepúsculo daquele dia,
O sino da matriz batia
Chamando a população,
Que, contrita e silenciosa,
Cumpria a parte religiosa,
Seguindo a procissão...

Faz tempo, mas me lembro ainda,
Era uma das coisas mais lindas,
Que guardo na recordação.
Aquele mundaréu de gente
Parecia uma enorme serpente
Deslizando pelo chão...

Uma profusão de lindas flores
Enfeitava os andores,
Que iam de mão em mão.
Percorria a cidade inteira
A frente alcançava a rabeira,
Formando um cinturão.

De volta à capela,
O padre, na frente dela,
Erguia a cruz com devoção.
Enquanto o sino repicava,
O povaréu se amontoava,
Debaixo de uma salva de rojão.

Em cima do tabuleiro,
O tio Calil, todo prazenteiro,
Falava no seu jeitão:
“Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe treis”,
“Que Santo Antonho”, outra vez,
“Derrame sobre nós sua bênção!”

 

"Flores do inverno"

por Genésio dos Santos Ferreira - 30 de agosto de 1969

 

Era inverno, nevava naquele dia
Nem transeuntes naquela alvacenta estrada
Só a neve cobria tudo, mais nada
Aquela alva paisagem interrompia

E no algor da alta madrugada
Só vi que a luz do luar luzia
Sobre as alvas flores que ora pendiam
Das árvores àquela estrada aladas

Mas que árvores! Tão nuas as que então eu via
E que flores! Tão alvas no esplendor do inverno
Flocos de algodão que a neve escondia

Não divisei as flores. Só um alvor eterno
Eu vi, porém não vi a neve que caia.
E aqueles flocos? Seriam flores do inverno?
 

"Tradições de um povo feliz"

por Ângelo Lourenço Filho

 

Vento ventania, ironia
Que transpassa bravo os gravetos
Do mato seco carregando no epicentro
Do seu redemoinho
Pelas campinas, florestas e flores
Pássaros, que por ali gorjeiam
E animais que por lá se escondem.

Vento ventania, contamina
Passas no pico do morro descampado
Sob cinzas, madeiras em brasa, chamuscado.
Pelas lagoas da imensa várzea,
Pelo grande lago Ipanema, idem rio Ipanema,
E também o Sorocaba
Também o riacho Alcoléa,
Vide as lagoas no desleixo
E os brejos bronqueados

Vento ventania, não judia
Faz carícia. Acabou o mês de abril
O povo tem saudade
Abril é mês de festa
E também de devoção
É chegado o momento
É São Jorge o guerreiro

Vento ventania, vagueia
Lá pelas campinas de George,
Na capelinha enfeitada
Com flores cor de abóbora
Da planta São João.
São Jorge, São João, contradição?
Corroboradas com cores de petúnias
Em maio já finadas. Aleluia!

Vento ventania, ameniza
Pois o povo divertia,
São Jorge a espada elevava,
Jesus menino sorria
E nosso povo se alegrava.
Cada qual na sua data,
George, Araçoiaba, Ipanema,
Araçoiaba com São Roque,
Ipanema com São João.

Vento ventania, alumia
A luz que vinha de “gato”
De postes de madeira
De fiações improvisadas,
E duma enorme fogueira.
Ajudavam vagalumes ou olhos de corujas,
Se tivesse lua cheia melhor ainda seria

Vento ventania, acampe um só instante
Veja que maravilha:
Araçoiaba, George, Bacaetava, Ipanema,
Barracas de bambu empalhadas,
Entrelaçadas, recobertas de sapé e de palmeiras de indaiá,
Folhas de eucalipto e flores da laranjeira.

Vento ventania, devaneia,
No alvo sorriso da menina
Brincando de saco de corrida
Ou carregando uma colher com ovo
Para ganhar a graça e a benção da honraria

Vento ventania, assopra,
Ajuda, não derruba as travessuras do menino,
Totalmente lambuzado
Tentando ganhar o brinde
No cume do poste ensebado
De pouco valor venal, talismã de poder real.

Vento ventania, explode
Com a pólvora de São Roque das roqueiras.
Do pipocar dos rojões de vareta e com os estalos da batata doce
Assada nas brasas das fogueiras.

Vento ventania, se delicie
Com arroz doce, cravo e canela,
Doce de cidra, figo doce e doce de abóbora.
E nenhum doce mais doce
Que o nosso doce da batata doce.

Vento ventania, experimente
As guloseimas da nossa terra:
Quentão, vinho quente, pipoca,
Bolinho de polvilho azedo, pinhão, milho verde,
Pamonha, canjica e paçoca.

Vento ventania, admire
Metro por metro daquela terra
O mastro de rústica madeira
Se orgulhando em sustentar
A bandeira com o patrono santo

Vento ventania, admita
E reserve um grande espaço
Pra falar da bela cidade
De tradições seculares,
Com seus filhos adoráveis.

Vento ventania, direcione
Norte ao sul de Ipanema,
Horizonte do céu de outono,
Da nossa Iperó querida
De alvorecer serena geada.
Faces rubras, mãos doídas,
De orvalho na gramínea
Formatando gotas congeladas!

Vento ventania, parabenize
O céu vermelho, azul e roxo
O sol por trás do altivo morro,
Clareando um horizonte perdido.

Vento ventania, não judia, acaricia
É mês de maio, mês das noivas,
Das filhas de Virgem Maria.
Do manto branco e azul piscina,
De fita e medalha no peito,
Dos congregados de Maria.

Vento ventania, abençoe...
O mês do nosso santo padroeiro.
Festas de Santo Antonio,
Corpus Christi, amor, frio e calor humano...

 

"Caminho de tantos pés"

 por Isabel Pakes - homenagem à Fazenda Ipanema


Leva-me o trem da saudade à borda do céu azul,
Remanseando sereno no espelho azul do lago,
Na casa de minha avó, hospedeira de minhas asas,
Onde de quando em quando me embalava no teu seio,
Em brancas vestes levada na procissão de São João,
Seguindo os passos da fé: meu pai, minha mãe, meus irmãos.

Chão verde que percorri e contemplei das alturas,
Meus pés trilhando caminhos, caminho de tantos pés...
Repouso para meu olhos, meu coração e minha alma,
Em leitos de água e de pedra, de relva fresca e de palha.
Velavam-me as construções de antigas formas e raras.

Histórias da tua história, relíquias da minha memória,
Enluaradas no lago em tuas místicas noites,
Pairadas sobre o teu morro cuja encosta venci
Na juventude do tempo do tempo que já vivi.
Histórias da minha história, verde chão onde nasci.

 

"Estrada velha"

por Adroaldo Jacques Eid

“Era o antigo caminho por onde passavam carroças e carros de boi, "cortando" o terreno de meus pais.

Este poema fora inspirado nela, fruto das minhas reminiscências”


Estrada velha, recoberta de capim,
Como você, também fui abandonado!
Poucos se lembram de você e de mim;
Somos apenas dois farrapos do passado...

Estou de volta para juntos recordar
Os belos dias da nossa tradição,
Que só o poeta consegue guardar
No esconderijo da imaginação.

No céu azul, a estrela-guia,
Raios de sol espantando a escuridão;
Findava a noite e clareava o dia,
Exibindo toda a beleza do sertão!

O cantar da passarada lá na tiguera,
O gado leiteiro fechado no mangueirão,
Pobres crianças que saíam das taperas,
Pra ver a boiada puxando o carretão.

Como era belo o arvoredo das beiradas!
Todo enfeitado com cipó-de-são-joão,
O joão-de-barro cantando pra sua amada;
O triste curiango na cabeça dum mourão.

Os longos braços daquele pé de carvalho,
Por malvadeza parece que abriam as mãos
E despejavam uma chuvinha de orvalho
Nas manhãs frias de cerração.

Estrada velha, me desculpe o embaraço,
Mas um pedido eu preciso lhe fazer:
Proteja os meus derradeiros passos
E no seu colo me permita morrer.

 

"Visão"

por Genésio dos Santos Ferreira - 14 de abril de 1970

Sentimentos de um quase adolescente que se preparava para embarcar de mala e cuia

para a cidade grande em busca de emprego, de aventura, do necessário, ou sei lá do que, talvez atrás de um

pouco disso tudo. Iperó ficava para trás, como ficou, mas não ficou esquecida mesmo


Vi num céu longínquo além dos horizontes
Onde habitam os anjos, os querubins de Deus,
A doce imagem da vila onde eu vivi, ontem,
E que já não existe. É um sonho meu.

Vi surgir nos céus, pairar lá no infinito,
A imagem de Iperó, sinto-a dentro de mim,
Tão amiga se desenhava que não contive o grito:
- Ó Deus meu, por que hei de sonhar assim?

Impossível sonhar com quem está distante,
Impossível lembrar do que já não existe.
Olhando o futuro eu seguirei confiante,
Deixando a vila tornei meu ser triste.

Sei que a vila chora por seu filho ausente,
Sei que o filho chora, longe, de saudades
Mas no âmago, meu mundo, toda a vila sente
Por deixá-la só e, longe, na cidade,

Onde vi nos ares a imagem de Iperó,
Lembrei no meu passado e vi o céu nublar,
Eram lágrimas do povo por deixá-los a sós.
Senti, ó vila, e resolvi voltar.

Desci na estação e contemplei extasiado
Iperó, lá no alto, parece tocar nos céus.
Subindo as escadas, lágrimas chorei e fiquei admirado,
Pareceu-me subir nos ares ao encontro de Deus.

E lá de cima eu vi a estação vazia,
E então senti na face o pranto me molhar;
Senti-me tão culpado, senti-a distante e fria,
Talvez por minha ausência, por não querer voltar.

Tudo me foi hostil, a rua me devorava,
Ninguém acenou pra mim, já que parti um dia
E esqueci a vila. E minh"alma chorava
Por saber-me estranho a quem ontem me queria.

Peregrinei em vão pelas ruas desertas;
Tentei fazer amigos, nem isso me restou.
Só trevas na cidade que caminhava incerta
Nos meus tempos de infância que a idade levou.

Nada restou da vila, da minha vila antiga,
Que a tarde me encontrava a correr pelas matas,
Que recebeu no seio as melodiosas cantigas
Dos rudes moradores com suas serenatas.

Não vi as avezinhas a pousarem nos galhos
Se nem árvores existem no seio da cidade,
Só cheiro de fumaça e tinir de malhos...
Gente laboriosa contemplei com saudades.

Pensei na gente simples que eu conheci um dia
E que deixei chorando por um capricho meu.
Preferi as aventuras, pois minha rebeldia
Pedia outros mares. Vaguei de déu em déu.

O que é feito da vila que eu deixei outrora?
Tudo morreu pra mim, sou forasteiro aqui.
Só restaram saudades no meu mundo de agora,
Vivo atormentado desde que parti.

Perdoe-me Iperó, por deixá-la sozinha,
Perdoe minha falta, enfim, eu sou humano!
E lá no azul do céu a imagem ia e vinha,
Tomara fosse ilusão e eu estivesse sonhando.

 

"Museu de tradições"

por Adroaldo Jacques Eid - 14 de abril de 1970

“Composição inspirada na minha infância, repleta de coisas que, infelizmente, a vida moderna ceifou”


Vem comigo, meu filho,
Desligue a televisão.
Dê uns passos para trais,
Pra ver o que não existe mais,
No museu da tradição.

Vê aquelas meninas sapecas!
Com a força de suas munhecas,
Elas batem palma na peteca,
Pra ela não cair no chão...

Olha ali aquela turminha!
São meninos jogando bolinha,
Moleques virando figurinha,
Com os craques da nossa Seleção.

Esse quadro, faiz tempo, saiu de moda:
São crianças brincando de roda,
Mocinhas pulando corda
E marmanjos soltando pião...

Veja o pescador remando o barco,
O caçador de rã atolado no charco,
O garotinho guiando o seu arco,
Levantando poeira no estradão...

Aquilo é uma casinha de barro!
O caipira sentado naquele carro,
Do seu cachimbo tira o sarro
Com a unha do dedão...

Ouça o apito da maria-fumaça!
Toda vez em que ela passa,
Enche meu sertão de graça
E pinta o céu com seu carvão!

Como é lindo o luar cor de prata!
Onde os boêmios, tocando serenata,
Chamam na janela a moça ingrata,
Que machucou o seu coração...

 

 

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- DESENVOLVIDO POR HUGO AUGUSTO RODRIGUES -

 

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