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Ponte sobre o rio Sorocaba - lazer da cidade durante décadas

(Arquivo Chislaine de Campos)

 

Fragmentos de história - crônicas escritas pelos visitantes do site para relembrar a cidade

 

Fragmentos de história é o espaço onde são publicadas as narrações sobre os mais variados aspectos da Iperó de antigamente. Através de relatos de pessoas diversas, de épocas diferentes, falando sobre fatos que tenham vivido, conseguimos ter uma noção, por exemplo, de como era sociedade local nos anos passados (a cidade, as pessoas, hábitos, lazer, trabalho, estudos, festas, etc.). Em meio às histórias, algumas imagens relembrando aspectos de Iperó.

 

Muita gente utiliza o livro de visitas para contar histórias vividas em Iperó. Isso é muito bom. Assim, conforme surgirem novos relatos sobre a "Iperó dos anos passados" (e Iperó de hoje vale também), eles serão acrescentados neste espaço reservado aos fragmentos de história.

 

Um espaço que se assemelha a um grande quebra-cabeça, idealizado pelo Augusto Daniel Pavon. Isso nos ajudará a contar uma história menos formal da cidade, mas ao mesmo tempo rica em detalhes.

 

Conseguiremos estimular as pessoas a participarem da história viva de Iperó, cada um com a sua, cada um na sua época, a fim de que façamos um trabalho de resgate histórico através de “crônicas”.

 

 

José Roberto Moraga Ramos e Mariza Aparecida Rodrigues Moraga Ramos

Reza a lenda que você é iperoense se:
- Aprendeu a nadar no córrego da vila;
- Brincou de faroeste no "valetão";
- Correu do boi do Prestes;
- Acompanhou o desfile de 1º de maio ;
- Acompanhou a procissão de Santo Antonio até a Vila;
- Ficou na fila do cinema pra guardar lugar;
- Pulou carnaval no Sorocabana;
- Aprendeu a dançar nos bailinhos;
- Tomou sorvete no Bibe;
- Comeu canudinho feito pela Dona Maria, mãe do Giba;
- Ia nadar ou brincar no porto;
- Escorregou no cano da caixa d’água do cinema;
- Tomou injeção na farmácia do Sr. Orlando;
- Torceu para a banda não comer o frango assado no leilão cantado pelo Calil;
- Contou quantas carretas de lenha tinha no leilão da Festa de Santo Antonio;
- Dava voltas na estação e admirava a máquina de fazer pipocas do Zé Borba;
- Trocava gibis ou figurinhas antes de começar os filmes;
- Sentia medo dos bois que andavam pelas ruas quando eram levados ao matadouro;
- Ainda lembra do “cheiro“ do Gaspar quando recomeçavam as aulas;
- Conheceu Nhá Nina e levou xingo do Pedro Louco, quando o chamou de careca;
- Lembra do conjunto do Dimas e da banda animando os carnavais;
- Lembra dos tachinhos que o Politani fazia com as latas de banha;
- Lembra da carrocinha e depois do jipe que o Carlito, com a ajuda do Cica, entregava leite;
- Lembra do Aníbal e do João Soldado;
- Teve medo ou correu atrás das varetas que eram soltas durante as procissões;
- Foi fotografado pelo seu João da Banda;
- Lembra do Cachimbá;
- Teve na sua família um ferroviário;
- Foi benzido pelo Nicola, Dona Aurora, Benta, Maria Balanço, etc...;
- Sempre sentiu uma certa rivalidade com Boituva;
- Sentia-se importante quando andava de trem Super-Luxo;
- Faltou da escola e o Gaguinho do bar foi buscá-lo;
- Torceu pelo Sorocabana, no campo lotado, inclusive por muitas mulheres, nas tardes de domingo;
- Comprou bananas ou verduras do Felisbino Bananeiro;
- Comprou fiado no comércio local;
- Foi pego em flagrante pelo lanterninha do cinema.

 

 

Odacir Peixoto

Faltou mencionar o seguinte:
- As estórias do Ditinho Curador;
- Nosso inesquecível Paulo Berduega, que um dia (noite) roubou uma galinha do galinheiro da mãe dele e nos fez um arroz com frango. Inclusive o Said, meu irmão Peixoto Filho e outros estavam presentes;
- Dona Clarinha, mãe do Zibi, que foi parteira em Iperó. Assim como Dona Aurora, mulher do seu Campos;
- Dona Efigênia, do Bairro da Minhoca, que também era benzedeira;
- A molecada da Vila do Depósito que ajudava o Rubens e o Antonio, ambos filhos do Francelino Domingues, a carregar lenha e depois descarregar as carretas nas gôndulas da Sorocabana atrás do Deposito, quando da época do corte dos eucaliptos;
- O assassinato do Rubens do Francelino, pelo Guilherme, filho do Salim;
- O assassinato do Celso de Lima pelo Zé Tarzã;
- O Bu-Bu, filho do chefe do Depósito, que corria atrás da criançada da Vila do Depósito, inclusive de mim;
- A inauguração do novo prédio da loja da Casa São Benedito, salvo engano em 1956. E que grande festa aconteceu naquele dia.

 

Nos quintais das casas tinha mandioca, hortas, goiaba, mamão, chuchu, criação de porcos, cabras, galinhas, patos, ovos, legumes, frutas, etc. Mas esses produtos não eram vendidos, e sim, dados para a vizinhança. Nessa época, a maioria das mulheres torrava e moía o pó de café e fazia pães em casa, nos fornos de barro, porque em Iperó não tinha padaria. Salvo engano, a primeira padaria instalada em Iperó foi a de seu Luizinho, pai da Ruth padeira. Até quando apareceu em Iperó o Café Excelsior vindo de Sorocaba. Depois de certo tempo, o mesmo aconteceu com os pães que eram enviados de Tatuí pelo senhor Vicente, pelo trem N.2, e quem os recebia era o Samuel Silveira. A distribuição era feita pelo meu irmão Peixoto Filho e eu. A entrega dos pães era feita à cavalo, porque percorríamos grandes distâncias. Mas depois que comecei a trabalhar na Casa São Benedito, em 1952, Loja da Diva, cessei aquela função de entregador de pão e passei a ser caixeiro. Naquele época ainda usava calça curta. Quando chegava o vagão de compras do Armazém de Abastecimento de Sorocaba, era uma festa. O luxo eram as bolas de mortadelas, marmeladas e bolachas. Por um bom tempo, o lanche escolar deixava de ser pão com ovo frito.
Lembro-me de alguns comerciantes da época: Luizinho (barbeiro); Agenor (barbeiro); Horácio (barbeiro); Calino (alfaiate); Felício Eid (bar); Salim (bar); Pedrinho Jacques (açougueiro); Simão, Salomão e Dona Sada (padaria); Calil (vendeiro); Vital Rosa (vendeiro); Augusto Garcia (vendeiro); Lazinho Eid (carroceiro); Amadeu Eid (bar), Capitão (vendeiro); Olaria dos Del Vigna; Maria Gouveia (mulher Celestino Gouveia – olaria atrás do Depósito). Tinha o Sr. Rubinho, um mascate que vinha vender roupas; também o alfaiate Sr. Paulo, de Porto Feliz; depois veio a Dona Mariazinha de Sorocaba; os De Nadai de Cerquilho; aquele senhor de idade que morava em Tatuí, que vendia Melhoral ("Minhorar").
Lembro também da Dona Ritinha, Galvão Velho, Nhô Francisco, Dedé, Nenê Prestes, Pavão, Francelino Domingues, Nhá Nina, Gamero, Adão Pinto, os Leite, Speglis, Dório, Pastini, Berto DeI Vigna, Cônego Sandoval, Valério Moraes, Nhô Hamilton, Joãozinho Samuel, Soldados Tomé e Durvalino, João Vaz, Angelim, os Andrade, os Paula, os Vitorino (um deles fogueteiro da Festa de Santo Antonio), Floriano, os Domingues, Nhô Pedro das moças (ele era apaixonado pela então Deputada Ivete Vargas), Pedro Louco, Motinha, os Antunes e outros.
Na época da guerra, passávamos por um racionamento total. Para comprar pão, sal e óleo, era necessário ter um talão de controle. Qualquer problema disciplinar (brigas) nas vilas, quem resolvia era o chefe de estação ou chefe de depósito. Na cidade, o Sr. Campos (sub-delegado) e os soldados Sr. Tomé e Durvalino. Depois veio o Luiz Soldado, Gaguinho, João Soldado, Oneide, e outros.
Tinha o lixeiro João Pinto, com seu famoso cavalo branco chamado Pombo. O médico era Dr. Artur e vinha uma vez por semana de Boituva. Primeiro era levado no Sr. Orlando e, se o caso exigisse de médico, aí chamava-o pelo seletivo da estação. Não tinha Telesp ou outro meio de comunicação. O Dr. Artur descia de Boituva em trem de cargas. Após examinar, se necessário encaminhava para Santa Casa de Sorocaba (com Dr. Estelitano) ou para Hospital da Lapa. Depois vieram os Drs. Barros, Miranda e, por fim, Arnaldo.
No cinema de madeira tinha que levar cadeiras reservadas às famílias. O cinema, segundo a Revista Nossa Estrada, foi construído em 1940. Era chefe de estação o Sr. Cruz, e chefe de depósito o Sr. Epitácio, os fundadores do Sorocabana Esporte Clube. Muitos outros colaboraram na construção do cinema. Como eu era pequeno, quem me levava ao cinema era a Dona Glória Cunha. Chegava na casa um porco de sujo. O mocinho lutava na tela com o bandido, e nós, criançada, lutávamos no chão do cinema. Eram filmes de cowboy.
Tem uma historia interessante: os filmes eram transportados por trens. Alguns, dependendo do destino, faziam baldeação em Iperó. Quando tinha filme de sucesso no vagão de bagagem do N.1, era pego, passava no cinema de Iperó, depois mandava para o destino com outro trem. Lembro-me de alguns dos filmes que assistimos: Ben Hur, Dez Mandamentos, Sansão e Dalila, Maior Espetáculo da Terra e outros.
Quando alguém falecia, quem fazia o caixão de madeira era o Orlando Redini (surdo) e o enterro em Boituva, em "cabouse" ou vagão de passageiro. Ia lotado, rebocado pela locomotiva manobra. A propósito, quando morria alguém na Vila do Depósito, a garotada se comportava como carpideiras somente com interesse de tomar café com leite e comer os sanduíche fornecidos nos guardamentos. O Dório era o rezador oficial da época. Sabem o que ele fazia? Rezava uns versos e para abençoar (purificar) o defunto, tomava goles de pinga e depois cuspia no chão! Esse enterro era uma festa para a garotada que aproveitava tomar sorvete em Boituva, porque em Iperó não havia sorveteria nessa época.
 

 

Marcos Cunha

Isso quer dizer que eu “sou um iperoense”, pois além se ter nascido lá na Vila do Depósito pelas mãos da parteira Dona Clara (mãe da Fiica, da Laura, do Zibi e do Zé Alves), eu conheci todos os itens enumerados e muitos mais. Por exemplo:
- Sou filho de um maquinista (Elias Cunha);
- Fui escoteiro no tempo do Sr. Virgílio (diretor) e aluno da Dona Henory;
- Vendi pipoca na estação, onde a Dona Aurora (mãe da Henory) era a proprietária do bar e servia cafezinho para os passageiros que por lá circulavam;
- Vendi sorvete da sorveteria do Felício e como não havia caixa de isopor naquela época, o sorvete era conservado na caixinha por gelo em formato de tubo e dentro de serragem (acreditem!);
- Fui benzido pelo Nicola, sim, e pelo Dito Curador também (Conhecem as histórias dele? Hilárias!). Fui benzido também pela Dona Salvatina (Lembram-se dela?) que morava numa casinha de taipa lá perto do mangueirão e criava o neto Zezinho (um espoleta e eu tenho uma foto deles, só preciso achar). Esse mangueirão, como a gente chamava, era uma série de mangueiras que havia lá perto do sítio dos Speglis, indo lá pras bandas do Pastini, onde moravam Dona Nina e Sr. Dedé, pais do Pedro (chamado de louco) e do Tonho;
- Nadei no porto de areia, aliás, aprendi a nadar lá. Brinquei no triângulo (viradouro), onde as "marias-fumaças" faziam a manobra para voltarem às origens. Joguei bola no campinho do Depósito, etc;
- Lembram-se do Cizino, que narrava o futebol em tempo real? Lembram-se do Bertolli, que era o chefe da estação e “meio dono" do time dos ferroviários? Ele gritava pro Dito (goleiro) quando a bola ia em direção do gol: “Agarra, Dito!”;
- Lembram-se da Rute padeira? Linda! E a irmã dela: Sara? Minha irmã (menina na época) dizia que ela tinha um cheiro delicioso. Minha mãe comprava pão e marcava na caderneta (isso existe ainda hoje aqui em Itapê);
- Lembram-se da banda que fazia retreta todo domingo lá na Vila onde eu morava? Eu era fã do Pigico que tocava tuba, só por causa da bochecha dele que era engraçada ao tocar e do som que ele tirava do instrumento;
- Uma vez pegou fogo no filme. Não houve um grande perigo, apenas fumaça, muita fumaça! Mas foi o suficiente pra causar um pânico imenso. Eu me lembro que minha mãe me pegou no colo e ficou sentada calmamente na sua cadeira, enquanto o povo socava a porta lateral, que não se abria. Gritavam muito. Foi só o susto, graças a Deus!
- Quem se lembra do “seu” Jaime, inspetor de alunos?
- Eu tomei muita injeção na bunda, na farmácia do Sr. Orlando. Sabiam que a Verona (filha dele) era, ou é ainda, ambidestra? Escrevia perfeitamente com ambas as mãos.
- Gente, são tantas lembranças que seria preciso uma vida inteira pra relatá-las. Hoje eu tenho sessenta e quatro anos, quinze dos quais foram maravilhosamente vividos em Iperó, que na época ainda era Santo Antonio. Eu fui registrado em Boituva, como todo mundo que nascia lá, na época.
- O meu primeiro ano de estudo foi feito numa das salas do Pernoite, que servia de escola até que fosse concluído o Grupo Escolar Dr. Gaspar Ricardo Jr., onde eu fiz o restante do primário. Fui pioneiro lá! Cheirava a tinta ainda e as carteiras eram lindas. Os tinteiros encaixavam-se em buracos na carteira e as canetas eram de pena ainda (aquela bifurcada). Foi lá que pela primeira vez escrevemos à tinta, pois o primeiro ano só se escrevia com lápis.
- A nossa estação era muito movimentada e o burburinho quando chegavam os trens ainda ressoa nas minhas lembranças. A estação era imensa (claro, pois eu era pequeno) e o “escadão” parecia não ter fim. Hoje parece um brinquedo e a estação ficou muito, muito pequena. E o barranco então? Cansei de subir por ali, escalando.
- Havia o Pixe, delegado; o Lazinho, carroceiro; o Durva; “seu” Vitoriano; a Ceinha do correio.
 

 

Augusto Daniel Pavon

Sobre Francisco Politani: É, de fato, Politani, como outros, é um nome na terrinha. Do que eu sei vem dele; seu Chico, o velho Chico Politani. Do tempo em que o conheci já tinha os cabelos finos, ralos e, não me lembro bem, mas parece-me que era um pouco gordinho. Usava suspensórios? Parece-me que sim. Homem bom, nas vezes em que estive perto dele, sempre levando um serviço, ia com minha mãe, era delicado, agradável, uma pessoa na qual eu, menino, sentia ser boa. Sei que das latas, latinhas e latões, levávamos para casa todas com cabo, muito bonitas bem acabadas. Parece-me até que o café com leite das manhãs eram melhores nessas canecas do seu Chico Politani. Mês de maio, mês dos casamentos, mês de Nossa Senhora, mês de frio, mês das procissões que saiam da velha igreja, davam voltas na cidade com todos rezando e cantando. Nós a "molecada" na frente passando o pé no da frente, dando tapas na cabeça, carregando uma vela que insistia em apagar pelo vento frio daqueles invernos gostosos da terrinha.Tudo isso para falar das velas que dia a dia, cinco vezes por semana, insistiam em se apagar tirando nossa concentração nas rezas. E como éramos concentrados!!! Então, depois de muito refletir, alguém achou a solução. Seu Chico, aquele, o velho Politani. Havia uma lata alta, penso que era de óleo, de onde ele com sua técnica e uma boa dose de carinho, construía as lanternas. Na lata, colocava um cabo de madeira no fundo, quatro hastes da própria lata nos cantos, o resto revestido por papel, aquele de fazer papagaios, azul, verde ou amarelo. No meio, no exato local onde estava inserido o cabo por baixo, dentro, acoplado ao cabo, estava o local onde ia a vela, que não mais se apagava. Entenderam? Esse era o seu Chico, velho Politani da minha infância. Os nomes não tem vida. São as pessoas, somos nós, foi seu Chico quem deu vida aos Politani. Bela família...

 

 

Eliana Gasparini Del Vigna

IPERÓ, meu chão abençoado! Rua do meio, queimadas, pega-pega, cinema, matinê, festa de Santo Antonio, sorvete do Bibe, pipoca do Zé Pequeno, carnaval, boi do Prestes, tardes de domingo. Infância, juventude, primeira comunhão, primeiro amor, pai,mãe, irmãos, amigos. IPERÓ!

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Estes registros fazem parte da minha historia. Não tenho a menor preocupação com datas, ordens cronológicas, etc. Minha única e tão somente preocupação é o registro destes fragmentos, de imagens que povoaram a minha infância e juventude. Iperó era, no final dos anos 50, uma vila pequena, como todas as cidades pequenas nascidas às margens da ferrovia. A Sorocabana rasgava as terras iperoenses com todo vigor e plenitude, e o doce cheiro do café sendo torrado por vó Luisa impregnava o ar quente e abafado do verão.
Do alto do barranco, eu sentava e observava o movimento das locomotivas a vapor no interminável vai e vem, compondo os vagões, formando mais um trem com destino ao desconhecido. Via os ferroviários com seus quepes surrados, e o chefe da estação com seu impecável terno de linho, quepe vermelho, com galões dourados. Um desses ferroviários, o velho Pixe, guardou por uma vida inteira o quepe usado pelo então Governador (e depois Presidente) Jânio da Silva Quadros. Nessa época era bem clara a divisão entre os "j

"janistas" e "adhemaristas". Lembro-me que meu pai tinha uma carteira de identidade da União Cívica Jânio Quadros. Com apenas seis ou sete de idade, já fazia panfletagem para o Sr. Jânio Quadros.
Iperó contava com poucas ruas e todas elas eram de chão batido. Nessas ruas, a criançada brincava de policia e ladrão, pião, bolinha de gude, empinava papagaio, cachuleta e taco. Lembro-me que o armazém do Bibe tinha uns degraus para se chegar ao estabelecimento. Quando estavam construindo o sobrado do Sr. Benedito Paula Leite, onde funcionou durante décadas a loja, brincávamos à noite de pega-pega, nos esgueirando pelos andaimes. E quando estávamos prestes a ser apanhados, saltávamos no monte de areia. Brincadeiras que me renderam várias e boas surras de vara de marmelo. Quando não estávamos entretidos com as brincadeiras, íamos até o bar do Sr. Pedroso, onde Rin-tin-tin nos aguardava para novas aventuras.
Ao lado do clube Sorocabana existiu um campo de bocha, que caiu durante um temporal. Após, construíram um novo campo atrás do clube. Este teve seus pés direitos feitos em trilhos ferroviários e era amplo; espaço ideal para os assíduos freqüentadores. Nesse espaço desfilaram jogadores como o velho Brahma, Bertão, Mauro Folim, Acácio Pires (que nas horas vagas cantava cururu) e tantos outros que a memória insiste em não me ajudar.
A rua Porfírio de Almeida era a principal. Ali estava todo o comércio, começando pela farmácia do Sr. Orlando Ferreira, bar do Felício, Correio onde dona Ceinha (ulher do Dimas de Campos) era a responsável, logo após vinha o bar e pensão do Pedroso (onde Dona Maria, sua esposa, servia refeição e o canudinho recheado de leite condensado). Vizinho do Pedroso era o bar do Sr. Tristão, que era vizinho do Bibe, onde havia um dos poucos aparelhos de televisão da cidade e pagava-se para assistir um jogo de futebol. Até a inauguração do sobrado, a loja do Sr. Dito Paula Leite e Dona Diva funcionava numa das casas vizinhas à padaria do João Del Vigna. Tinha a delegacia, onde Sr. Luiz Soldado, único praça, desfilava sua valentia e autoridade.
O ponto de encontro às segundas-feiras era a barbearia do Agenor, onde havia uma tabela com a posição de cada time no campeonato paulista. Era ali que nos atualizávamos com os resultados de domingo. Vizinho do Agenor funcionava o armazém do Olímpio Pavon, o armazém do Calil Eid, a padaria do Salomão, Simão e Dona Sada Eid, o bar do João Marques e açougue do Flamínio e Genésio Paula Leite. Após, tínhamos o bar do Mingo, a igreja Congregação Cristã no Brasil, açougue do Zé Vitorino, o consultório dentário do Dr. Pagnoca, armazém do Zé Calixto e a padaria do Sr. Luis Ramos. Tinha também o armazém do Sr. Vital e a máquina de beneficiar arroz do Sr. Guerino.
A rua Santo Antonio tinha a padaria do Laerte Bíscaro (onde hoje funciona o supermercado do Waldir), a quitanda da tia Adélia (onde hoje é a sorveteria do Giba), a loja da dona Julieta e na outra esquina, o bar do Gaguinho (depois bar do Santista e hoje a Skina modas). Onde hoje funciona o Banco Real era a residência da Dona Henory e Zé Borba. No final da rua funcionava a loja de móveis do Sr. Cordeiro. Durante muito tempo, os donos de açougue conduziam os bois para abate pelas ruas, criando para nós crianças, o maior pânico. O matadouro do Flamínio e Sr. Genésio funcionava onde hoje está instalado o clube Esplanada. O matadouro do Zé Vitorino era próximo ao antigo supermercado Vem-Ká.
Não posso deixar de registrar também que onde hoje funciona a escola da Apae foi cadeia durante muitos anos e antes de transformar em cadeia, foi farmácia da Sorocabana. O escadão que dá acesso para estação era protegido por cedrinhos podados cuidadosamente e da mesma forma eram esculpidos os cedrinhos da sub-estação. De uma forma geral, todas as casas da Sorocabana eram limpas, as ruas conservadas, os quintais com pomares e hortas.
Os carnavais eram fantásticos. A Banda Santa Cecília abrilhantava todos os bailes que eram realizados no salão do Sorocabana. Mas, nas ruas, o povo saía para o boi dos Prestes. O boi do Milton Sartorelli foi um dos mais perfeitos. Sinceramente, era de meter medo. Lembro também de um carnaval onde o Paulo Vieira e mais alguns fizeram um barco e saíram pilotando pelas ruas empoeiradas. Todos os carnavais o Piva fantasiava-se de dominó, e aquele mascarado brincava todas as noites sem que, pasmem, soubéssemos quem era. O mistério só era revelado na terça-feira, pois à meia-noite tirava a máscara. Era pecado brincar mascarado na quarta-feira de cinzas. A Corporação Musical Santa Cecília era presidida pelo Sr. João Figueiredo e regida pelo Maestro Lazinho Rosa, composta em sua maioria por ferroviários. A banda tinha uma sede na rua São Bento, próximo à maquina de beneficiar arroz. No reveillón, a banda tocava até à meia-noite sambas, boleros e outros ritmos sempre na voz do Ari Araújo. A meia-noite o baile parava, tomava-se posse a nova diretoria do Sorocabana, entoava-se o Hino Nacional e, em seguida, o baile se transformava num grande carnaval.

Os ferroviários amavam o Clube Sorocabana, a ponto de arriscarem suas carreiras profissionais. Desviavam materiais para o clube, faziam o "diabo". Quem não se lembra das traves do campo do Sorocabana, que segundo consta, estavam sendo despachadas para a Ferroviária de Botucatu? Até hoje estão esperando por elas. Outra prática comum era exibição de filmes. Mesmo modus operandi: retiravam os rolos de filme do bagageiro, exibiam na sessão das 19 horas e em seguida despachavam para o destino.
Houve um reveillón em que o Egidio Gasparini retirou um sino de uma locomotiva. Prenderam o sino no forro do clube que era de ripas. À meia-noite o sino badalou e choveu confetes lá de cima. A passagem de ano era muito alegre: apitava a usina do Rosa, a solda de trilhos e as locomotivas que naquele momento encontravam-se no pátio da Sorocabana. A banda sempre esteve presente em todas as atividades culturais e festivas de Iperó, desde as alvoradas até as procissões. Naquela época a população é predominantemente católica e a Festa de Santo Antonio era o ápice. Para se ter idéia da participação popular e do volume de pessoas, a Sorocabana paralisava suas atividades para que a procissão passasse rumo à Vila do Depósito, hoje Vila Santo Antonio. Da ponta do escadão da Sorocabana via-se o início da procissão lá na Vila.


 

"Éramos seis" – livro de Maria José Dupré (pág. 155)

Personagem Lola relembra o dia em que foi a Itapetininga para reencontrar o filho Carlos, que defendia o Estado de São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932: "O movimento de pessoas que passavam, falavam, davam ordens, era incessante enquanto um batalhão se instalava num outro trem ao lado do nosso. Senhoras e meninas traziam pacotes e mais pacotes que distribuíam aos soldados: eram da MMDC. Quando uma das senhoras nos viu, veio falar conosco: era uma vizinha que encomendava sempre doces para eu fazer nas festas que dava. Contei que ia visitar meu filho em Itapetininga e que ele combatia no sul, em Buri. Ela sorriu e disse que também tinha um filho no ‘9 de Julho’. O trem começou a rodar levando tropas para o Setor Sul. Nosso trem seguiu logo depois. Na estação de Santo Antonio [Iperó] parou durante muito tempo. Chegamos muito tarde em Itapetininga."

 

 

Augusto Daniel Pavon

Há uma Iperó linda, maravilhosa, dos nossos sonhos, inesquecível. A Estrada de Ferro Sorocabana com sua estação, seus funcionários todos uniformizados conforme a função e posição hierárquica que tinham. O bar, os trens manobrando, as baldeações para o ramal de Itararé, a vila ferroviária, o escadão com os cedros que o envolviam, o cinema com seus filmes e maravilhosos bailes.

A nossa vida na cidade era como uma grande família, onde todos sabiam tudo sobre todos. Os nossos sonhos, nossas primeiras paixões, o futebol, o rio onde aprendemos a nadar e muito mais. Essa Iperó ficou na nossa memória e eu adoro recordar. Mas não existe mais, senão em nossa memória, colocada vez ou outra pra fora, para pessoas que tenham sensibilidade para ouvir.

 

 

Suely Gonzaga de Jesus

Eu me lembro, quando menina, que se estivéssemos nas aulas, o tempo mudasse e se pronunciasse ‘chuva brava’, as professoras nos mandavam para casa. Muitos alunos tinham que passar pela ponte para ir embora. Como era um perigo, me lembro das professoras dando conselhos, caso o trem estivesse próximo. Não havia outro jeito. Não havia estradas.

A professora que está na foto com os alunos, a Henory de Campos, eu a conheci muito. Ela era amiga de minhas irmãs. Estudei até o quarto ano no Grupo Escolar “Gaspar Ricardo”.

Naquele tempo, era na descida que ia para a estação. Esse novo prédio que existe hoje ainda estava em construção. Durante a construção, vinha para cá uma caravana de ciganos, que ficava acampada na construção (que ia devagar).

Lembro-me também de quando colocaram luz em Iperó: eu era bem pequena, devia ter uns cinco anos ou menos.  

 

 

Udovaldo Jacques Eid

Apresento algo que pode vir ser a ser uma contribuição interessante. Trata-se do tema apelidos - essa verdadeira marca de nossas pequenas cidades, e que tem a ver quase que exclusivamente com a população masculina. Na relação que minha memória produziu, há figuras que viveram em nossa terra lá pelos idos de 1950; outras são nossos companheiros de hoje. Muitos desses iperoenses já estão no 'Além', e espero que de lá vejam nossa lembrança como uma homenagem cheia de saudade.
Cuitelo / Cabeção / Santista / Tonhão / Bil / Americano / Quico / Chupa-dedo / Bilim / Espiga / Japão / Noi / Taturana / Neno /Gilo / Paco / Cica / Tigüera / Urutago / Guiné / Carboreto / Tuco / Cabana / Cajarana / Bafo / Reco / Dito Bom / Garça / Nenê /João d'Olaria / Nenê Saravá / Bibe / Chico Lê / Mário Filé / Telo / Zé Pinga / Peninha / Zague / Coruja / Quico / Alemão / Ticão /Mingo / Ganso / Quinho / Majó / Tanaca / Parafuso / Tocha / Teco / Saúva / Dito Cabra / Enxadão / Prumo / Dito Cueio /Charuto / Dito Preto / João Conhaque / Zé Miau / Bagre (ou Peixe) / Pedro Peludo / Zé Bisteca / Joaquim das Moças / Marron /Pedro Louco / Paulo Berdoega / Zé da Farmácia / Pé-de-Ferro / Paraná / Pepê (ou Paulo Bim) / Quibe / Ligô / Dilão / Bino / Zibi / Canaviá / Tisiu / Sabiá / Caçapa / Falinha / Pedro Gramadinho / Dito Curador / Dito Carregador / Bodinho / De Sordi / Manca / Crodô / Campeão / Salim / Gordo / Touro / Zé d'Ordaia / Brama-chope / Tudo Azul / Zé Borba / Pixe / Giba / Socó / Ivan Pelinho / Bolota / Rodapé / Toco / Zé Turquinho

Se você gostou, esta relação poderá ser enormemente enriquecida, com a colaboração de muita gente apelidada ou não.

 

 

Elisabeth Rodrigues ... Chico Padeiro, Sodinha, Tubaina, Fiica...

 

 

Augusto Daniel ... Faltou um mais humilde, mas não menos famoso: Cu riscado...

 Falando em apelidos, na relação estava o Dito Preto (Benedito Galvão Sobrinho). Esse apelido me levou a mais uma época das tantas maravilhosas do "Perozinho". Não me lembro de não haver opções para lazer, pelo menos para mim.Uma delas eram os bailes, todos fantásticos, porque a nossa idade assim os via (os bailes). Um mês antes a preparação para ele começava. O acerto do dia (em sábado), o acerto com músicos (faziam parte da banda), o cantor Ary Araújo (que cá entre os que viveram a época, cantava muito, era bom demais). Músicas La Barca, Relogio, etc...

A cata junto ao comercio de enfeites para o salão (papel crepom) que eram pendurados junto às ripas que se entrecruzavam formando o forro do "templo", pois isso é o que foi e sempre será na imaginação de quem viu, viveu aquilo tudo. Nós, que com um mês de antecedência, vivíamos cada minuto esperando a "DIA", íamos nos preparando.Camisa com mangas compridas, punhos dobrados onde se encaixavam um par de abotoaduras que combinava com uma presilha que prendia a gravata junto à camisa. Tudo isso associado a um belo terno de preferência azul marinho, e uma maravilhosa gravata bem fina de cor também combinando. Havia mais o cinto, as meias e o sapato. Tudo isso era comprado em Sorocaba (O Camiseiro, Ducal, etc...) e não bastava uma viagem porque tinham os resmungos e as trocas.Tudo isso regado a muita imaginação, muita expectativa, que era muito mais gostoso que o próprio baile, A expectativa. Como dizia Gandhi, "a batalha tem um prazer muito maior que a vitória final". E se não foi ele quem disse, também já está dito. Chegado o grande dia surgiam fantasmas, temores que não raro costumavam cair como um balde água gelada em cima de tudo isso. Chuva, às vezes só trovão, isso era o suficiente para que a "Luz" se fosse e outro enorme temor, BRIGAS. Aí entra o sr Benedito Galvão Sobrinho (Dito Preto), que junto ao "NIRTO CACHAÇO”, outra bela figura da gloriosa Iperó, na juventude de ambos, e regados a algumas "biritas", tomadas fora do templo, adentravam ao mesmo e aquilo que era um sonho (porque tudo isso tinha como objetivo estarmos próximos de alguma pretendida), tornava-se um grande pesadelo e transformava-se em palco de luta livre. Como no samba do Adoniran, não "avuava as Brachola", mas "avuavam" as cadeiras, as garrafas e também "avuavam" as famílias com as nossas pretendidas. É isso aí. Endendo que são muitos os apelidos. Não valem por si só. Valem pelas pessoas que os levavam. Se não ficarmos só nos apelidos, mas associarmos "UM CAUSO" a cada apelido, o que é muito fácil, estaremos colaborando para uma "visão" geográfica, arquitetônica, social, religiosa (que é social) e política de nossa cidade. E assim montarmos a estória não oficial, que a meu ver é mais bonita, da nossa GLORIOSA IPERÓ.

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Outra festa imperdível era a do 1º de maio. Nessa data havia o torneio de futebol. Todos os times convidados dirigiam-se até o salão do Sorocabana e de lá, devidamente uniformizados, saíam desfilando pelas ruas até chegar no campo. Dentro do gramado os times ficavam perfilados e a banda Santa Cecília executava o hino Nacional. Era de arrepiar. Iperó sempre foi celeiro de bons jogadores, tornando o time Sorocabana praticamente imbatível. Atletas como Ulisses e Olavo Guazelli, Otavinho, Jorjão, Jumbé, Julião, Rubinho Barba, Diógenes, Serginho Folim, Carlinhos Feliciano, Flores, Quinho e tantos outros. Nessa época, o time do Santos F.C. era o melhor time do mundo e, guardadas as devidas proporções, o timaço do Sorocabana parecia o Santos quando entrava em campo com seu uniforme branco. Certa vez o time foi jogar contra o Fronteira da cidade de Itararé. Um vagão dormitório foi cedido para transportar o time, tamanho era o seu prestígio. Toda essa importância, toda essa grandeza da entidade "Sorocabana Esporte Clube", foi conseguida através de muitos iperoenses e em especial o Sr. Bertolli, chefe da estação, ferrenho defensor das causas de Iperó, e como muitos outros esquecidos, sem um nome de rua sequer para retribuir o que fizeram por este chão.
O futebol era praticado por todos os meninos do meu tempo. Tinha o time da Vila Depósito, da rua do Meio, do bairro da Minhoca, da Santa Rita, da Vila Moraes. Nesses timinhos nasceram craques como Silvano, Bartolo, Manca, Paulo Bim, Paulo Zovaro, Rubens Cigarra, Toninho Cumbina, Tonho, Tanaka, João Padeiro, Tarcisio. Uma pessoa que muito ajudou a criançada foi o velho João Porto. Antes do treino o campo era limpo por nós e, todos os galhinhos caídos dos eucaliptos eram retirados um a um. Fora o futebol, o jogo de botão era que tomava nosso tempo. O piso do Pernoite da Sorocabana era nosso Maracanã. Naquele espaço, o Silvano Mioni organizava, formulava as tabelas, confeccionava o troféu com papel alumínio, arbitrava e tomava conta do campeonato. Orlandinho Ferreira, Cica, Giba, Augusto Daniel, Paulo Zovaro, Groff e toda a molecada ficavam na maior agitação, aguardando sua vez. E o time feito de botões de paletós e capas ficava "concentrado" na caixa de pó de arroz "Cashemer Bouquet". Quando o campeonato dava uma trégua, jogava-se taco ao lado do cinema. Certa ocasião, o Zé Marques acertou a cabeça do João Mena, abrindo uma "avenida" no couro cabeludo. Para variar, o Sr. Dito Paula Leite, que era farmacêutico, consertou mais um.
Além dessa atividade toda, nadar no córrego da Vila Deposito era obrigatório. Com paus de eucalipto, barro e folhas, construía-se um dique e ali nadava-se. Era importante não nadar no tanque feito pelos irmãos da Cristã no Brasil, pois, dentro da nossa imensa ignorância, era "perigoso" nos transformamos em adeptos daquela religião.
Houve uma ocasião que foi proibido atravessar o pátio da Sorocabana para irmos nadar. Como nada segurava a molecada, foi dado um jeito. Atravessamos pelo sistema de galeria que corta todo o pátio e nadamos até quase o anoitecer. Realmente a molecada era terrível. Para que se tenha uma idéia dessas brincadeiras, houve uma vez que o Cica e o Giba seguraram o Jorge do Bibe que teve um problema numa das pernas. Enquanto o coitado estava imobilizado, o Cica urinou dentro da perna engessada. Apesar do dia agitado, ainda sobrava energia para, à noite, irmos ao cinema. Antes do início da sessão, formava-se uma longa fila e cada um com uma tira de pano nas mãos. Tão logo era aberto o portão, entrávamos alucinados marcando todos os lugares possíveis, para que a família inteira viesse assistir o filme. Levávamos ao cinema um pacote de gibis para serem trocados. Eram revistas do Fantasma, Cavaleiro Negro, Superman, Batman , Zorro, etc. Era o maior escambo. Quando soava o sinal de que a sessão iria começar, arrumávamos as revistas e deitados no chão, com as revistas feitas travesseiros, assistíamos o filme. Era comum dormir durante a projeção, e quando acordava, todas as bitucas de cigarro estavam na boca. O velho cinema foi cúmplice de muitos namoros, noivados e casamentos. Quando ele queimou, o incêndio não levou somente suas tábuas, levou uma parte de nossas vidas.
Naquele tempo o transporte de passageiros via ferrovia era o único. A ferrovia tinha cerca de 11 trens que iam para a capital e 11 para o interior. Era comum todas as moças e rapazes passearem na estação. Nos dias de baile, retiravam todas as cadeiras do cinema e colocavam no campo de bocha. O salão era limpo, decorado e colocado fubá no piso para que os casais deslizassem melhor, rodopiando feito Fred Astaire e Ginger Rogers tupiniquins. Nesse dia (do baile) não se via uma moça na cidade. Todas estavam empenhadas na confecção de um vestido novo, na arrumação do penteado fixado graças ao laquê e, pasmem, cerveja. Um acontecimento importante era a eleição da Rainha do Sorocabana Esporte Clube. As jovens candidatas vendiam votos e a que conseguisse maior quantia era a rainha. Os prêmios eram oferecidos pelos comerciantes e não passavam de coisas simples, tais como perfumes, pó de arroz e outros mimos.
Devido ao próprio isolamento, e sem algum atendimento medico, tivemos benzedeiras e curandeiros famosos como o Sr. Ditinho Curador, Maria do Balanço, o velho Nicola e Dona Augusta (que moravam em frente ao Clube Esplanada), Dona Aurora Gutierres, esposa do Sr. Paco Gutierres (cuja casa ficava onde hoje funciona o posto de gasolina do Moacir Padovan). O Sr. Ditinho (Benedito Eduardo de Paula Oliveira) tinha uma clientela que vinha de outras cidades para ser atendida. Embora não fossem curandeiros, duas pessoas que prestaram um grande serviço à comunidade foram o Sr. Orlando Ferreira, farmacêutico que sempre foi um pai para todos, atendendo com carinho e sobretudo com conhecimento. Outra pessoa que muito contribuiu foi Dona Isaura Jamas Fogaça, a parteira que ajudou a nascer centenas de iperoenses.

Certa ocasião fomos a Bandeirantes (Paraná) para uma visita a minha avó paterna Carmen Palomar. Lá chegando, meu irmão Airton começou a passar mal e teve que ser operado às pressas devido a uma crise de apendicite. Tão logo foi liberado pelos médicos, viemos embora. Aqui chegando, lembro-me do tio Miro e do vô Mário esperando por nós com uma cadeira na qual colocaram o Airton e subiram o escadão. Passados alguns dias, Airton começou a passar mal, tendo febres constantes. Levado à farmácia, Sr. Orlando não teve dúvidas. Passou éter e, com ajuda do meu pai, abriu o corte e retirou um dreno que haviam esquecido durante a operação.
Lembro-me que às vezes acordava durante a madrugada e presenciava a molecada na estação vendendo pipocas. O bar da estação era do Sr. Campos (Gumercindo) e era administrado pelo genro, o Zé Borba( José Homem de Góes), o qual adquiriu uma máquina de fazer pipocas. Na parte inferior da máquina, ficavam pulando umas bolinhas de ping-pong. Era simplesmente fantástica. A nossa infância foi feita de sons e cheiros. Quem não se lembra do cheiro de cedrinho do campo de bocha após a chuva ? Quem não se lembra dos apitos das locomotivas? Dos canudinhos da Dona Maria Pedroso? Do sorvete de ameixa do Bibe? Quem não se lembra do cheiro de pipocas do carrinho do Zé Pequeno? Quem não se lembra do Felício Eid chamando as pessoas de raposa? Quem não se lembra da música que tocava antes de começar a sessão de cinema? Podem apostar: era Noturno, de Chopin.
E o trem pagador? Normalmente era composição curta, onde uns soldados da Força Pública davam segurança, armados com fuzil (arcaicos) e todos os funcionários da Sorocabana eram chamados para receberem seus salários em dinheiro vivo. Bons tempos. Aos sábados apanhava minha caixa de engraxate e ganhava uns trocados engraxando os sapatos das pessoas que se preparavam para o baile ou uma sessão de cinema. Naquela época, os calçados tipo tênis eram raros (ainda bem). A influência ferroviária era visível inclusive nas nossas brincadeiras. Apanhávamos latas de óleo comestível, principalmente as retangulares, com martelo e talhadeira fazíamos um afundamento em forma de "V" em cada lata. Após, emendávamos umas às outras e formávamos um longo trem. As latas em "V" formavam um trilho no chão batido. Vale lembrar que o Laurentino (Cardoso) tinha um pátio e tanto. Ocupava todo pomar da chácara , que hoje fica vizinha ao bairro Novo Horizonte. Os sinaleiros eram feitos de tampas do creme dental Kolynos (verde) e Colgate (vermelho). Brincávamos horas a fio, arrastando aquela longa fila de latas. O calção de saco de açúcar, geralmente tingido, ficava uma lástima de tanta sujeira. O velho "Gaspar", nossa escola. Pelos corredores encerados desfilavam grandes mestres: Dona Alzira, Mirtes, Pedrina, Henory, Therezinha Galvão, Liris, Prof.José, Benvindo Jacó (carinhosamente nos chamava de Coió), Wanderlei (Saraiva), Jurema e tantos outros que a memória insiste em não me dizer. Funcionários como Cícero, Cema, Jonas Ferreira. Tínhamos um mundo a descobrir. Bendita hora do recreio. Ali corríamos, rolávamos. Não tínhamos o hábito de matar aulas, embora a escola fosse cercada por arame farpado. Às vezes, colocávamos alguém dentro da lata de lixo e outras vezes cutucávamos com a folha de pinheiro (araucária) que crescia no pátio.

 

Elisabeth Rodrigues

Eu me lembro das lanternas da procissão de Santo Antonio, quando estava escurecendo e a procissão retornava da vila. Era emocionante. Havia a cerimônia do hasteamento da Bandeira, poesia e Hino Nacional defronte ao “Gaspar”: todo mundo queria puxar a cordinha (hastear a Bandeira).

Os desfiles de “Primeiro de Maio”, com os times dos bairros e de algumas cidades, cada um com seu uniforme. Era a festa das cores, do “fashion esportivo”, da criatividade. Muito orgulhoso vinha o Sr. Bertolli, incentivador-mor desse esporte em Iperó.

Seu Bertolli no esporte e dona Eulina na catequese e primeira comunhão. Ficou gravado na minha memória e no meu coração o dia da minha primeira comunhão. Depois da missa, dona Eulina nos levou até a sua casa e nos serviu um delicioso café com leite, bolachas, etc. Que delicadeza. O bule de louça, as xícaras, a melhor toalha, com certeza.

As fotos políticas também são preciosas, pois muita coisa se perdeu.

 

 

Odacir Peixoto

Morei em Iperó no período entre 1942 e 1960, quando me mudei com a família para a cidade de Itapetininga. Desde tenra idade trabalhei na saudosa loja denominada "Casa São Benedito", onde tive oportunidade de trabalhar com o José Vieira dos Santos, Paulo Simões e outros.

Boa época foi aquela em que organizávamos bailes, tais como o famoso “Baile das Saias”, no qual participaram várias moças de outras localidades e de Iperó. Dentre elas, a Maria Silvia Paula Leite sagrou-se vencedora.

Tempo bom aquele das locomotivas a vapor, do pessoal do depósito, da via permanente, do pessoal de máquina (do qual meu saudoso pai fazia parte como maquinista), da estação e do Grupo Escolar. A gostosa sopa que era servida aos alunos pelo seu Jaime e dona Catarina, a nossa saudosa professora Henory de Campos que muitas vezes me deixou de castigo ajoelhado em grãos de milho.

 

 

Zeca Corrêa Leite

Da cidade lembro vagamente, mas com muita emoção, de pessoas como a Henory (hoje nome de colégio), a dona Diva, o Salim (os sorvetes que ele fazia ficaram para sempre como os melhores da minha vida), o Bib, dona Catarina, dona Carmosina.

Ruídos de trens - o dia todo, quebrando o silêncio da noite - eram uma coisa fantástica.

Tenho um poema que se chama "Iperó, 1953" (o nome da cidade consta somente no título) e costumo falar da cidade por onde ando. Visitei-a em 2006, tentei achar a casa onde nasci e, com tristeza, vi o abandono da casa onde morei, ao lado do escadão (como chamávamos a escada que dá acesso à estação de trens, igualmente abandonada).

Subindo pelo escadão, era a primeira à direita. Era ladeada por um jardim muito bonito, tinha janelas vermelhas. Tinha tanta vida, mas hoje não tem mais. Nem tem mais trem; a estação é um silêncio. Seja como for, Iperó reside em mim. Neste peito curitibano - 30 anos aqui nesta cidade -, Iperó continua presente, onde seus mortos ainda magicamente vivem e ninguém é nome de rua, de colégio, nem é história.

 

 

Augusto Rodrigues Filho

As pessoas iam até a estação, porque como em Iperó acontecia a baldeação para Tatuí, o trem demorava mais. O cinema era próximo e antes de começar o filme ficávamos paquerando. Uma vez fomos ver o Jânio Quadros; ele estava no restaurante do trem. Cabelão preto, terno escuro, bigodão, óculos, vassourinha na lapela, comendo umas fatias de pão com ovo frito e cumprimentando as pessoas.

Vi também muitos acidentes. O pior deles aconteceu quando um trem estava manobrando e foi atingido por outro cargueiro que vinha de Sorocaba. Tentei retirar o maquinista, mas ele estava preso nas ferragens. As mãos dele tremiam e o sangue pingava. Não pude fazer nada. Tentei levantar a cabeça e foi aí que vi vários furos em sua testa.

 

 

Romeu de Campos

Cheguei em Iperó em dezembro de 1931. As pessoas chamavam o vilarejo de ‘Esplanada’ por causa das obras da ferrovia. Minha família veio de Sarapuí, região de Itapetininga, em busca de melhores condições de vida. Meu pai, Benedito Aires de Campos (“Dito Carregador”), passou a trabalhar como carregador de malas na estação. Tinha apenas umas 40 famílias na vila.

Batizado com o mesmo nome da estação, o local passou a se desenvolver juntamente com a ferrovia. A própria EFS construiu várias casas, durante a década de 1930, a fim de fixar residência para seus funcionários. A vila foi feita aos poucos. Inicialmente, umas 15 casas, depois 20. As construções eram feitas conforme aumentava o movimento de trens.

 

 

"Negro político, político negro" – livro de Oracy Nogueira (pág. 53)

Biografia do médico Alfredo Casemiro da Rocha, que foi Senador pela então Província de São Paulo. Aqui é relembrado o período logo após a formatura no curso de Medicina:

"Em princípio de 1878, após uma viagem fatigante e com o máximo de economia no percurso, inclusive alimentação – dez dias de vapor até Santos e quatro horas de trem do porto até São Paulo –, Alfredo encontrou a pequena cidade serrana [São Paulo] sob o clima frio e úmido que lhe valeria o cognome de ‘terra da garoa’. Nos dois dias de permanência em São Paulo para contatos e informações, por mais que se agasalhasse, Alfredo não conseguiu livrar-se do desconforto daquele frio úmido, tolhedor e enervante que o fazia tiritar ininterruptamente. Embora fosse pleno verão, sua passagem pela cidade coincidiu com a chegada de uma onda de frio. Pessoas familiarizadas com o instável clima paulistano lhe explicaram que mesmo nessa época do ano, não se estava livre dessas ondas de frio que os ventos traziam do sul do continente através do litoral. Ao partir para Avaré, Alfredo já estava encatarrado, com tosse e indisposto. Viajou de trem até Santo Antonio do Iperó, levando quatro horas de viagem, num comboio lento e a expelir fagulhas e cinzas. No ponto final da ferrovia, a ponta de linha como se dizia [Santo Antonio Velha era o fim da linha à época], Alfredo contratou um camarada, dono de animais e afeito ao trajeto, para levá-lo ate Itapetininga. Viajaram ambos a cavalo e levariam um burro cargueiro com os pertences de Alfredo e alguma provisão para a alimentação. Foram três dias de viagem a socar por uma estrada rústica, aberta e mantida basicamente a casco de burro."

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, os alimentos foram racionados. Muitas pessoas saqueavam os trens que chegavam carregados. Meu avô, Mário de Melo, era uma dessas pessoas. À noite, ele e alguns amigos iam até o local onde estavam os vagões. Lá, faziam um furo no fundo do vagão (que na época era de madeira), retiravam a quantidade necessária de farinha ou açúcar e tampavam o furo novamente.

 

 

Hélcio Pedroso

Na década de 1960 passava minhas férias na casa de meu avô, Sr. Totó como era conhecido. Ele foi mestre de linha da Sorocabana. E o melhor: toda minha família é de origem ferroviária, de maquinista a chefe de estação.

 

 

Claudinei de Jesus Fiúza

A gente fica triste em saber que a Fepasa acabou em nada. Sou filho de ferroviário e morei em Iperó em frente à estação. Hoje moro em Itapetininga. Aqui também a ferrovia virou sucata. Viajei muito para São Paulo de trem passageiro. Quantas vezes embarquei nesta estação. Agora só resta saudade. Infelizmente, esta é a realidade.

 

 

Eliana Corrêa

Sobre antiga praça da matriz: Nesta praça brinquei muito quando ia passear na casa da minha avó. Ela se chamava Alice, que comandava a cozinha da igreja. Na época das festas, começava o terço todas as tardes. Fui batizada nessa igreja. Sinto saudades das festas de fim de ano, pois fazíamos a ceia rodeada de amigos, reunindo todos nas calçadas.

Brincávamos de corda, pega-pega, corre - cotia, etc...

Assistia filmes no cinema perto do escadão. Adorava ir para Iperó só para andar de trem. Coisa que não deveria ter acabado.

 

 

Renato Américo

A minha geração ainda teve a oportunidade de apreciar as festas de Santo Antonio, com a igreja antiga, o coreto, a praça arborizada. Tinha uma magia especial. As festas na "rua da alegria", onde dançávamos quadrilha. As festas nas igrejas de Bacaetava, Corumbá, Jutuba, Sapetuba. Os carnavais de rua e no Esplanada. Os bailes de finais de semana no Sorocabana. A piscina na área de lazer. O camping no domingo. O futebol era mais empolgante, porque tínhamos, além dos campeonatos e times tradicionais da cidade (campo e salão), "campinhos" espalhados por toda cidade. Muitos deles construídos por nós mesmos.

A escola Gaspar também tinha uma magia diferente em todos os sentidos! Não podia deixar de citar as lanchonetes/bares: Barracão, Copa 70, Pastelaria do ‘Baixo’, Navio Pirata, entre muitos outros! Enfim,são tantas as lembranças, mas nostalgia à parte, minha geração teve o privilégio de viver anos incríveis em nossa cidade!

 

 

Edson Gamero

Sobre o carnaval em Iperó: O quartel general, onde eram montados os carros alegóricos (tanque de guerra, dinossauro e outros) era a chácara do vô Tristão. Tudo era feito lá e muitas vezes ficávamos dia e noite fazendo a nossa arte. E o nhô Tristão sempre dava sua contribuição com idéias e a experiência de fazer "bugigangas". Tempo bom que não volta nunca mais. A única maneira de poder relembrar é ver algumas fotos que tenho da época.

 

 

Augusto Daniel Pavon

- [Hugo], seu pai [Zé Augusto] tem a minha idade. Vivemos a mesma Iperó, freqüentamos os mesmos lugares e conhecemos as mesmas pessoas. Seu avô [Gusto Canaviá], um homem bom, de poucas palavras, pelo menos assim me parecia. Se não me engano ele tinha o hábito de usar um boné. O ‘Zé Tigüera’, velho conhecido, de uma família muito querida, incluindo o avô dele, o velho Mário de Melo, que durante muito tempo teve um barzinho no nosso templo, o cinema de madeira de onde não saíamos. Isso aí [Iperó] era uma imensa família, com as alegrias, as brigas, as fofocas, sem que nos preocupássemos com poder aquisitivo, cor, religião e outras coisas.

A Iperó que eu conheci, uma delas – pois são várias, de acordo com a época –, quando eu a vi como criança, me parecia gigante, linda. A nossa casa era na ‘Porfírio de Almeida, 85’, meu avô tinha uma ‘venda’ e havia muita vida. Toda aquela rua era comércio. As pessoas subiam e desciam: ela é um pouco inclinada no sentido contrário do cinema, como quem ia para a beneficiadora de arroz do ‘Guerino’, lá perto da linha de Tatuí. Para entender, só sendo da terrinha daquele tempo.

Bem, a rua era de terra, mas era uma terra especial, tão especial que ainda consigo sentir o cheiro. E o barro, então, quando chovia ele era maravilhoso de se pisar e não me lembro de carro algum ter ficado atolado, até porque não havia [carro].

Havia muita festa quando vinha uma carreta, duas ou três parelhas de boi, gemendo, com uma pessoa dos ‘Paula’ ou outro, em cima com um relho comprido ordenando aos bois. Aquilo era simplesmente fantástico. Eu ficava na calçada de casa parado encantado. Confesso que até agora fico. Logo nos enchíamos de coragem e na volta, subindo em direção a Santo Antonio (naquele tempo subia) nós trepávamos na carreta, com ela andando. Que feito! Como eu me sentia importante. Normalmente o condutor que nos conhecia fingia não ver. E nós, importantes pelo feito, ainda mais escondido dos pais, estávamos como hoje não nos sentiríamos tão bem num Boeing indo a... sei lá... Paris!!!

 

- Pelo começo; as coisas não acontecem ao acaso, estamos em contato rafazendo nossas histórias, conhecendo melhor nossas famílias, é por elas e graças a elas que estamos fazendo tudo isso. Vivemos com eles, estamos vivendo, e os conhecemos como pais, avós, bisas, e agora, todos devemos isoladamente ou num contexto-uma crônica- falar sobre eles, não só dos nossos, mas dos outros, como tenho tentado fazer. Todos são a nossa história, e a história de nossa terra; o pai do Hugo cresceu comigo e temos História, a tia do Hugo também, a mãe do Tanaka e até a avó dele são minha história, o Paulo, o Berduega, é minha história, a sra. Dordaia, nos expulsando do campo de futebol é minha história. É muito fácil porque não falamos de desconhecidos. Hugo me perguntou se conheço as pessoas da foto mais antiga do apostolado; conheço sim, 90% delas, as pessoas e sobre cada uma delas temos uma história que elas viveram conosco. Basta pensar e escrever. Ao fim escrevo que as coisas não acontecem ao acaso, estamos nos aproximando, todos, para resgatarmos uma história, a história informal de nossa gente, e como consequência a de nossa terra. A minha história é tão importante como a história do Hugo, de alguem mais novo, é so começar. Hugo meu amigo, vou vê-lo,porque ainda não o conheço pessoalmente, mas não é necessário, as coisas não acontecem ao acaso; já nos conhecemos.

 

- Meu avô, pai de minha mãe (Cida), de meu tio (Lazinho) e de mais dois que morreram com a febre amarela (Santo Antônio, agora Santo Iperó) Augusto Garcia, e minha avó, Alice Guazzelli, se casaram em 1925, ele de Pereiras, e ela da Bacaetava. Vieram para Iperó entre 1930-1935, quando iniciaram no comércio, abrindo uma venda, e segundo meu avô, a outra, prôs lados da vila do depósito, mais à direita, anda muito mato, era do seu Vital Rosa, pai da Profa. Jurema, do João (do Vital). Meu avô teve venda lá no fim da Porfírio, bem em frente à casa que era da Banda, que não existia, é claro. Teve venda onde era a casa do Flamínio Paula Leite, Açougue, em frente a última casa da sorocabana, que era de meu bisavô, Emílio Guazzelli, ali eu cheguei a morar em 1953. O lugar definitivo onde ficamos, que também era de meu bisavô, foi na Porfírio 85, casa que é nossa, onde minha mãe se casou, onde eu nasci, passei a fase mais linda de minha vida, onde minha prima, filha de meu tio Lazinho nasceu, onde meu pai morreu, onde está toda minha história, memória, e que ainda vou escrever Ali vivemos meu avô(Augusto Garcia), minha avó(Alice Guazzelli Garcia),minha mãe (Aparecida Garcia), meu pai (Olímpio Pavon), meu tio (Lázaro Garcia), minha tia ( Inês Brienza Garcia), minha prima(Sônia Nancy Garcia), meus cachorros, meus gatos, não o Clodô, que existiu pouco antes deu nascer, ou era muito pequeno, sei da história dele porque minha mãe conta. Ali todos os gatos e cachorros fizeram história. Ali está o meu umbigo.

 

 

José Roberto Moraga Ramos - texto extraido de "O Jornal de Iperó" (13/07/01958)

"Embora já se tenha falado na necessidade de instalação de um sinal luminoso, ou rabo de peixe, ou mesmo uma campainha de alarme na travessia de passagem de nível da Estrada de Ferro Sorocabana (saída para estrada Iperó/Boituva), até o momento o nosso D.D.Prefeito Municipal nada solucionou.
É clara a grande necessidade de tal instalação, pois a travessia ali é em curva perigosa e os trens saem de um corte e em seguida atingem a passagem de modo que o perigo ronda os passageiros que necessitam atravessar em demanda à Boituva. A propósito, no dia 15 do mês passado, por perícia ou sorte do sitiante Henrique Wellendorf, não tivemos vitima a lamentar. Ao atravessar a referida passagem, o seu carrinho foi apanhado pelo Trem Extra 2037, dirigido pelo maquinista Lúcio Vitorino, matando seu animal e danificando seu carrinho.
O snr.Henrique, rápido, conseguiu escapar-se. Quem irá pagar o prejuízo?
A Estrada de Ferro Sorocabana? Ou a Prefeitura Municipal por essa falta de providência?
Agora, com a inauguração da ponte sobre o rio Sarapuí, o movimento de veiculos em demanda a Porto Feliz, Itu, Campinas, Tatuí, Itapetininga, etc, cresceu assustadoramente. É de grande urgência a instalação daquele sinal, evitando desastres ou mortes de inocentes. Lançamos aqui o nosso apelo ao snr. Prefeito e esperamos que nos atenda."

 

Para os saudosistas:
A última sessão de cinema em Iperó foi no dia 10/05/01980, filme Tarzã . Extraido do livro de controle de filmes, cedido gentilmente pelo sr. Adilson Nóbrega.

 

 

Augusto Daniel Pavon

Já escrevi sobre as lanternas nas procissões, feitas pelo seu Chico Politani, para proteção das velas nas noites frias do mês de maio. No final dos anos 50, início dos 60, era frio de geada nas manhãs. Devia Iperó ter mais ou menos 3 a 4000 habitantes, se tivesse. Formávamos uma enorme família. Minha casa era (é) na Porfírio de Almeida, 85, e comparada com a do Agenor (lado direito quando estamos na casa voltados para a rua) e com a casa do seu Calil à esquerda, era bem mais baixa, tanto que para subirmos ao quintal, havia uma escada de mais ou menos 10 degraus. O terreno é declive vindo da "Vila do Moraes" para a estação e provavelmente ainda foi escavado o lugar onde fica a casa. Isso fazia dela mais fria no verão e mais fria ainda no inverno. O Agenor citado anteriormente, era dono da barbearia (assim se chamava) mais famosa de Iperó, até porque ele, se não me engano, foi o segundo. Na mesma casa havia talvez a primeira barbearia, do seu Mimi, mas não era do meu tempo. Famosa porque, como toda barbearia, era o local onde todas as coisas aconteciam, "todas", tudo passava por ali; os sucessos e os fracassos, os lucros e os prejuízos, as vitórias e as derrotas, as mulheres que se iniciavam na vida e as que apenas continuavam, e seus respectivos cornos, a doença e a saúde, enfim, "TUDO"!!!. A rua era de terra e vez em quando pedregulhos, areia, pó, barro quando chovia (não é queixa, eu amava), blocos grandes de paralelepípedos fazia a sarjeta, o meio fio. A calçada era de tijolos. Havia duas portas velhas com um grande buraco em cada uma, onde anteriormente haviam duas fechaduras. Para quem entrava tínhamos duas cadeiras "de barbeiro" voltadas a parede da esquerda com dois espelhos a frente. Eu as achava lindas; giravam, inclinavam, subiam, desciam e, para os adultos havia um lugar onde os pés eram colocados, e lá estava escrito o local onde haviam sido feitas em São Paulo.Para nós crianças, que o Agenor detestava cortar os cabelos e, tinha motivos; choro e pais dando palpites.Ainda olhando da porta para dentro ( da barbearia), havia uma porta que comunicava com a casa do Agenor, e as cadeiras, fortes, verniz escuro que contornavam o salão. Penso que havia um velho cabide. Lembro-me do chão, eram ladrilhos vermelho/branco (sujo), fazendo desenhos, consertados em alguns lugares por cimento que quebrava a simetria. Na parede à direita de quem entra, haviam fotografias de times de futebol mais antigos, final da década de 40, início de 50,onde víamos Alcídes Zovaro, "Charuto", irmão do Noi, ou do Floriano, não me lembro(alguem fará a correção) e meu tio, irmão do meu pai (Alberto Pavam). A camisa lembrava a do Vasco da Gama. Havia na parede do fundo, no alto à direita, um pequena lousa indicando sempre o dia do treino "COLETIVO TITULARES X ASPIRANTES". Era comum vermos o Paulo Berduega, já citado nos apelidos, quando não estava "surtado" dando "show" no jogo de damas. Ali não faltava a "gazeta esportiva", um belo jornal esportivo.A barbearia era uma grande escola, escola da vida, e nós das pequenas cidades devemos muito ao barbeiro, no caso ao Agenor. Ali aprendíamos a decência e a indecência (a vida), ali foi meu início na literatura, com muito orgulho li um Catecismo "As aventuras de dona Custódia e seu Jegue". Agenor, grande Agenor, ouvia sempre de fregueses os cortes que eles queriam, as vezes até desenho faziam e, ele sempre entendia e consentia mas, fazia sempre os mesmos cortes (Cheio, americano ou escovinha) gostassem ou não. Esse, o Agenor, era, dentro daquelas quatro paredes, filósofo, poeta, conselheiro, capeta, fofoqueiro, enfim, um Sábio; de tudo ele entendia. Mas, voltando ao mês de maio e ao Politani, era o mês das noivas, mês das procissões à Nossa Senhora de Fátima que aconteciam todas as tardes/noites, das lanternas que protegiam as velas, da música que cantávamos, como a música que tinha uma letra mais ou menos assim:-"A 13 de maio na cova da Iria, no céu aparece a Virgem Maria....e, hoje, 13 de maio é dia Dela, Maria. Viva a Terrinha!!!!!

 

 

Elisabeth Rodrigues

E no tempo em que as estações eram bem definidas, no inverno, em Iperó aconteciam as geadas. O frio era absurdo, quase insuportável e para nós as paisagens eram magníficas. Brancura da geada no capim seco e os raios de sol, nas manhãs, só espetáculo. E fileiras de andorinhas nos fios elétricos. Pode?
Mês de Maio, mês de MARIA e vinham os dias de procissões. As famílias enfeitavam coroas de flores que as meninas transportavam com graça. Lá na frente sempre estava o Ricardo do seu Pedroso puxando a procissão levando erguida a cruz. A procissão tinha a sua sequência. Crianças na frente, jovens, os adultos mais atrás. Não esquecendo da Banda Santa Cecilia que abrilhantava vários eventos principalmente a festa de SANTO ANTONIO em junho. E já que estamos falando de memórias e o seu resgate seria interessante xerocar as partituras da BANDA e recolher memórias na área musical, pois sua presença foi marcante na cidade. A BANDA fazendo a Alvorada, juro que nunca vou esquecer. E por falar em alvorada também tivemos ESCOTEIROS . Coitado do bastão, quanta lixa. Voltando ao mês de MAIO, os pontos de destaque eram as lanterninhas de lata e papel de seda, as coroas de flores e Dona Odete, acho que do bairro da Minhoca, lá no final da rua, era florista de primeira e recebia encomendas. Minha mãe bolava florzinhas de papel crepom. Um tipo de flor, ela fazia enrolando papel no lápis e enrugando (parecia taturana) e outro tipo eram meio jeito de margaridas que ela fazia em branco e amarelo. Depois de tudo pronto, montava-se a coroa.
No final do MÊS de maio havia a coroação de Nossa Senhora com sua imagem no altar, rodeada de anjos iperoenses e cânticos. Era o dia do encerramento. Vestidos brancos e asas de vários tipos pontilhavam a praça na saída da igreja.

 

 

Maria Sílvia Paula Leite Bíscaro

Não posso deixar de lembrá-los da obra de arte em cedrinho (animais) em volta do posto de atendimento onde meu pai, Benedito Paula Leite Júnior, atendia aos ferroviários e aos acidentados nos desastres com trens. Dos concursos de Boneca Viva nas festas de Santo Antonio. Dos jogos de queimada e barrabol em frente a loja do Sr. Benedito/Diva, onde participavam as filhas do Sr. Adolfo Pires, minhas amigas de então, das irmãs Antoninha (par predileto do dançarino João Vital nos bailinhos do Sorocabana) e me perdoem esqueci o nome da outra, Dulce, Marina, Vera (filhas do Sr. Orlando). Me lembrei agora, certa vez durante o jogo eu fiquei sem ar e quando me socorreram chamaram seu Orlando, de tanto medo eu voltei a respirar normalmente, pois sabia que vinha injeção! Gente! Que delícia recordar esses momentos de minha infância com vocês! Agora me permitam dirigir-me ao Peixotinho. Lembra-se de quando eu e o KiKo (meu irmão) o acompanhávamos na hora do almoço até sua casa na Vila do Depósito? Nós dois adorávamos ficar na "pontinha" jogando pedras no riacho, até um dia quando vimos uma cobra!Que saudades! Como a Vila do Depósito era linda! Casas brancas, com portas e janelas vermelhas e nas janelas lindas floreiras! Preciso parar agora mas, procurarei me lembrar de outras passagens e então voltarei a conversar com voces. Abraços a todos! Que felicidade a nossa, pela infância pura e feliz que tivemos em nossa querida Iperó!

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Alguém ai se lembra do refeitório da Sorocabana, na descida para a Vila Depósito, onde Sizino reinava? Certa vez o Bibe me confidenciou que mesmo não sendo ferroviário, ia ao refeitório e se deliciava com a feijoada.
Lembro-me vagamente que havia um tipo cartão destacável para poder retirar a comida.
Lembram-se também da famosa Requisição que o ferroviário preenchia com o nome das pessoas da familia que iam viajar, o desconto era de 75 por cento. Tinha que ser levada pelo menos meia hora antes do horário do trem para que o chefe da estação assinasse a autorização.

 

 

Elisabeth Rodrigues

E por falar em refeitório e feijoada, me lembrei do nosso antigo quintal, na casa da rua Duque de Caxias. No tempo em que nós crianças, tínhamos nossas tarefas, uma delas era molhar diariamente a nossa horta e dessa mesma horta muitas vezes o seu Cizino levava um balaio de couve que negociara anteriormente com meu pai. Boa lição essa de lidar com plantas. Aprendi a gostar de plantas com meus avós na região de Boituva que plantavam muita coisa das quais as que eu mais gostava eram :milho verde, amendoim e rosário que minha avó nos levava para nossas artes com as contas. Em Iperó, dona Isabel, esposa do ex-prefeito seu Carlito Sartorelli, possuía um belo caramanchão de vasos e me arrumava muita muda. Outra pessoa antiga da cidade era a alemã dona Ana (avó da Miriam Covos) que gostava muito de plantas e me dava mudas para meus vasos (latinhas ). Dona Ana gostava muito do TREVO e da barriga de SAPO, planta que eu nunca mais vi. Cada pessoa que passa pela nossa vida nos marca de alguma forma, na medida em que nos transmite algo importante e que em nós permanece. Gostaria de registrar também a presença em Iperó de uma pessoa singular. Em sua casa, no humilde quarto um guarda roupa antigo com um gavetão cheio de livros que ela fazia questão de emprestar. Eram as nossas viagens no mundo da imaginação. Dona Joana, do Chicão e mãe da Chiquinha, era meio ruiva, com muitas sardas e se não me falha a memória tinha olhos azuis. Era o sinônimo do bom coração. Ela descortinou para nós, lá de casa, o mundo maravilhoso da literatura. Será que alguém tem foto da dona Joana ?

 

 

José Roberto Moraga Ramos

JUNHO. Festa de Santo Antonio, quermesse, Praça cheia. Banda, Leilão das prendas arrecadadas, leilão de gado, leilão de lenha com suas carroças encantadas, leilão de bolos, concurso de boneca viva.
Barraca do Bingo, Roleta ( feito com uma roda de bicicleta), casinhas numeradas onde o porquinho da índia entrava. O f.d.p entrava em todas menos na minha. Correio Elegante.
Senhoras e moças com blusas de ban-lon, meninas com vestidos de organdi suiço e as japonas com gola de material acrílico na cor verde (comprada na Casa dos Presentes - Tatuí)
Festa de Santo Antonio com o seu Pino (sogro do Toninho Gimenes e do Filé ) soltando rojões de vara, praça com buscapé, bexigas.
Alguém lebra-se de algo mais ?
É com você Augusto Pavon .

 

 

Augusto Daniel Pavon

- Mais uma vez voltando à barbearia do finado (finado é bom, hein!) Agenor, num daqueles dias em que eu ficava lá sentado ouvindo todo tipo de "papo", surgiu a história do "lobisomen", que eu menino ficava atento. O lobisomem, pasmem vocês, tinha nome. Era um operário da ferrovia que nas noites de lua cheia, invadia o galinheiro de um seu colega de profissão e, rolando no chão do galinheiro do mesmo, é claro, todo sujo de merda de galinha (isso era fundamental para a transformação) tornava-se um lobisomem.O lobisomem era figura manjada e respeitada na "city". Preu aqui era o espanto total. Eu criança ficava assustado e, admirava o lobisomem quando com ele me encontrava. Figura gorda, bonachona, com um charuto nas mãos, brincalhona, torcedora do "Mengo". Era assustador imaginá-lo na figura de lobisomem. Isso foi sustentado muito tempo e também por muito tempo ocupou a minha imaginação. Tempos depois tudo veio por terra, primeiro porque eu já não era criança mais, segundo porque o nosso Lobisomem apenas fazia uma visita noturna à esposa de seu colega de serviço e entrando pelo quintal do mesmo caiu no galinheiro escorregou no punhado de cocô das galinhas, caiu e se sujou todo. Teve que ir embora pois como daria assistencia à solitária dama (o maridão estava de plantão) todo sujo de merda de galinha? Na fuga foi visto, acabou contando e então surgiu a lenda do Lobisomem de Iperó. Tinha dessas...

Não gosto muito dessa coisa de que naquele tempo as coisas eram melhores, mas penso, isso sim, que a minha idade em épocas passadas era menos responsável, menos preocupada, então eu via tudo melhor, mais gostoso, despreocupado. Bem, enfim naquele tempo tudo era melhor, e tempo houve em que uma moça, linda, de uma família tadicional de Iperó, os Azeredo, chamada Ana, resolveu criar um programa de calouros. Isso se deu no velho e querido cinema de Iperó. Resolvi que iria participar. Charles Chaplin, genial cineasta, crítico sagaz, que através do humor, com aquela figura conhecidíssima, nos fazia rir, mas que embutida nos engraçados filmes colocava duras críticas à sociedade capitalista. Isso foi tão sério que ele foi expulso dos Estados Unidos, acusado de comunista. Há uma música maravilhosa, chamada Luzes da Ribalta, linda pela música e principalmente pela letra, que nos leva a pensar adiante, não ficando presos ao passado, a lembranças que embora agradáveis não voltam mais "...para que chorar o que passou, relembrar perdidas ilusões...", que também é do genial Chaplin. Fiquei um mês ouvindo num 78 rotações e cantando sem parar. Gosto muito dessa música até hoje, mas naquela tarde de domingo, no velho e amado cinema, quando cantei essa música, inverti, esqueci a letra, pela tensão e fui vaiado, que tristeza. Foi o fim de uma carreira que mal começava, foi uma grande frustração, sim foi.Talvez deva procurar um psicólogo, vou pensar a respeito.

 

- Muito a falar, escrever sobre as pessoas que passaram por nossas vidas. Na cidade de Iperó, como tudo era feito com vagar, próprio das pequenas cidades do interior, essas pessoas passavam por nossas vidas também com vagar, marcavam mais, e via de regra, eram pessoas boas. Uma delas, citada algumas vezes neste livro, inclusive por mim, quando de sua passagem marcou muito, as vezes me parecia nem ser desta esfera, tal sua compenetração, seriedade, sensatez, equidistância na avalição de problemas que afligiam nós os mortais, fossem de órdem física ou mesmo angustias de ordem emocional. Pessoa fantástica (e eu só queria o nome dele no P.A.), reto no andar, altivo sem ser soberbo, que tinha uma característica que na minha infância eu achava "esquisito"; ele se virava em "bloco", ou seja (como diria nosso presidente) ele não conseguia rodar o pescoço, e fazia esse movimento rodando todo o corpo, em bloco. Nunca se soube o motivo e, olha que na terrinha se você soltasse um pum na igreja protestante (essa é difícil, igreja protestante?), lá na casa da banda (aquela fantástica, do Maestro Lazinho Rosa, da clarineta; irmão do Tino, do piston, que eu cansei, ou nunca me cansei, de perseguir, até nos ensaios), bem lá embaixo, alguém já estaria sabendo que o pum era meu, mas porque soltei o pum mesmo? Ah! Foi para dizer que do seu Orlando, isso mesmo seu Orlando Ferreira com sua seridade, sobriedade ninguém se atreveria perguntar o porque de seu pescoço não rodar. Bem, a meu ver, este senhor além de ter as filhas mais lindas de Iperó, foi o padre, médico, farmacêutico, psicólogo de muita gente na terrinha, foi pessoa que numa época em que ele imperava, conseguiu não enriquecer numa atividade que até hoje consegue-se "faturar bem". Entrou em minha casa inúmeras vezes com uma latinha na mão que eu simplesmente odiava. Dizia bom dia ou boa noite, mais uma ou duas palavras, um leve sorriso, e se não estivéssemos atentos nem isso veríamos. Aquela latinha se abria e a tampa tinha dois suportes que colocada por baixo da latinha transformava-se no local onde ia o álcool que depois de aceso, servia para ferver a água que estava na caixa onde se encontrava uma seringa e sua agulha "rombuda" (nada era descartável) preparando-se para também sem uma "risadinha" espetar a bunda de alguém, quase sempre a minha. A última imagem que dele tenho foi de 1963, novembro, Sorocabana de greve, muita chuva, eu vindo de Sorocaba pós uma INSOLAÇÃO, adquirida numa manhã e tarde nadando no rio, lá no porto do Joãozinho, lá onde agora "tacaram" uma ponte que cruza o rio. Bem naquele lugar, viemos por estrada de terra (não havia outra), com o ônibus "dançando", indo ao barranco, voltando Bem, em Boituva saimos do ônibus e subimos em um caminhão que nos levaria a Iperó. Lá estava ele. Confesso que sentia aquela presença com algum receio tal a seriedade, mas naquela tarde, quase crepúsculo, ele se dirigiu a nós, nos olhou e nos comunicou que Johnn Kennedy havia sido assassinado. Eu ainda um menino, 13, 14 anos ouvi aquilo e, na ocasião pareceu-me muito mais importante o fato dele ter nos dirigido a palavra. Então, esse homem simples e tão importante na terrinha poderia ou não ter seu nome emprestado ao Pronto Atendimento e futuro Hospital de Iperó. Ele emprestaria e nós iperoenses sentir-nos-íamos (usando uma mesóclise) honrados. Foi uma pessoa que passou em minha vida e eu só tenho a agradecer.

Escrever sobre Iperó ou escrever sobre nós mesmos que em dez,doze, dezesseis anos lá vividos, valeram por uma eternidade, tal era a intensidade com que vivíamos a nossa cidade.Nada faltava, tudo sobrava e sobrava em abundância. Desde as primeiras brincadeiras no nosso quintal, as primeira saídas para a rua, o escorregador do posto, o cano brilhante que descia daquilo que nos parecia ser uma altura infindável, a caixa dàgua de fronte ao cinema, a primeira matinê de carnaval, a paixão pela menina do circo, Sandra, que naquela tarde de carnaval,59 ou 60, entrou na matinê maquiada vestida de preto "shorts" e meias escuras que penso eram vestidas como meias-calça, quadriculadas, não sei explicar bem, e que terminavam em sapatilhas daquelas que eram usadas para os números de malabarismo. Eu me lembro que estava com uma camiseta xadrez e um tubo de lança perfumes da Rhodia, o perfume ainda hoje me lembro; naõ deve haver nada melhor. Sei que me esqueci de tudo, das músicas que eu sabia todas, de todo o barulho, dos confetes e das serpentinas, dos "sangue de diabo", e fiquei hipnotizado pela figura daquela menina, de tal maneira que dias depois o circo deixou a cidade e eu ficava tempo em frente ao Gaspar olhando para aquele espaço vazio acima da casa do Zé Borba, penso até que cheguei a ir de bicicleta até Boituva, onde estava o circo, não me lembro bem mas pensei em ir embora com o circo. Eu tinha 11 ou 12 anos.

 

- [Hugo,] Você recebeu de todos uma cacetada de elogios e você os merece. Assino embaixo de todos. Eu me lembrei de mais uma coisa interessante, muito mesmo. 62, 1962, um belo ano!!! Eu estava no segundo ano do ginásio (se você não sabe o que é isso, pergunte a uma de suas tias e elas irão te explicar) e "muntava" no trem às 10h, acho que era a "composição japonesa", (pergunte mais uma vez às suas tias), e ia até a não menos querida Sorocaba, estudar no"Ciências e Letras" que aliás tinha uima linda blusa com o emblema da escola nas costas, onde se lia em latin;"Veritas et virtus", "a verdade é uma virtude", lindo não é mesmo??. Bem, naquela época eu estava novamente muito apaixonado. A menina era muuuito linda!, Morava na rua do meio, aquela que começava no pernoite e terminava noa campinho, onde moravam o Cica, Celinha, Silvano, o Paulão (Zovaro), o Jõao Batata, o Coquinho(Diógenes Fornel),o Vando, etc, etc, etc...., mas ali , bem no meio da rua do meio, à esquerda de quem vai do pernoite ao campinho, havia uma casa, igual a todas as outras, mas muito diferente, porque lá morava ela, a Vera. Tudo isso prá falar da Vera!!!!!. Antes do N1(mais uma vez sugiro que consulte os universitários para saber quem era o N1) havia um trem que, penso eu, nascia em Mairinque, era uma composição japonesa, uim trem exatamente como é hoje o METRO, bancos estofados, verdes, alguns de lado, paralelos à porta e outros um atrás do outro ou, um de frente ao outro, como quizéssemos.Três ou seis vagões, com portas que se abriam somente nas estações(1960, é mole!!!!, ar condicionado)É, em 2009 o METRO, idêntico!.Bem voltemos à Vera, dois ou três anos mais nova, graciosa, sem nenhum dos artefatos que hoje não permitem que nenhuma menina seja feia, já prestaram a devida atnção a isso?. Hoje não há menina feia. Todas , pelas roupas , pela maneira como se produzem, pelos perfumes, Ah! os perfumes, são lindas e gostozíssimas. Antes não. As lindas tinham que ser lindas MESMO!!, e em Iperó elas eram, eram muito lindas, incluindo a VERA. Bem, eu chegava em Iperó as seis ou seis e trinta (tarde), correndo subia os 61 degraus do escadão(se não acredita vá contar, mas não pergunte ao Cica porque ele não subia, ia pelo Armazém), e todos os dias um ano ou pouco mais, ela lá estava, na frente da casa a me esperar. Depois eu subia, virava no posto ou na cadeia, depende da época; a cadeia veio depois do posto, e descia a Porfírio pela calçada da Sorocabana, até chegar na casa que fazia fundo á casa da Vera, e lá estava ela, ficávamos um tempo nos olhando. Havia um "cara" que sempre vinha perguntar se havia alguma coisa entre eu e ela. Algumas vezes era até ameaçador, como se eu estivese avançando no pedaço dele. Insinuava que havia uma atração entre eles. Não era claro, mas havia uma "ciumeira" entre nós. Bem, finalizando, a Vera foi embora para Mairinque, eu fui à estaçao para me despedir, de longe "of course", e chorar quando, mais uma vez a " composição japonesa" partiu. Então ficamos VIÚVOS eu e o seu PAI (pergunte a ele).

 

 

Suely Gonzaga de Jesus

Nas fotos de Iperó, vi várias pessoas que me lembro e senti saudades. Hoje falarei um pouco de minha família. Eu ,Eunice, Miltes e José Luiz nascemos em Iperó, mas fomos registrados em Boituva, porque em Iperó naquele tempo não existia cartório.
Morávamos numa casa construída por meu pai pegada onde era a cadeia. Naquele tempo, o senhor Gumercindo de Campos, pai da professora Henory, era o delegado. Tinha somente um soldado, que era o senhor Luiz. Meu pai, o senhor Luiz Gonzaga de Jesus, era barbeiro. O senhor Agenor barbeiro aprendeu o ofício com meu pai. Eram muito amigos.
Quando eu tinha uns 5 anos, meu pai construiu a casa pegado na casa onde moravam a família da Henory de Campos. Nessa casa, meus pais montaram um restaurante e confeitaria. A senhora minha mãe, dona Geny Pacheco de Jesus, foi uma cozinheira e confeiteira de mão cheia. Nunca mais experimentei nada igual os quitutes que ela fazia.
Em 1945 ou 1947, teve uma epidemia de gripe. Penso agora que pode ter sido meningite, porque naquele tempo essa doença não era conhecida. Muita gente morreu. Aí em Iperó, que eu me lembre, foram só eu e mais um garoto, de nome José Machado de Oliveira, que pegamos essa deonça. Nós nao morremos, mas ficamos entre a vida e a morte. Ficamos surdos. Não existia médicos aí. Meu pai trazia o dr Luiz Cassano, de Boituva, para me tratar. Ele ficava vários dias na casa de meus pais, porque eu estava muito mal. Devo a esse médico a minha vida. Deus o tenha.
Quando eu tinha 13 anos, meus pais venderam tudo para o senhor Pedroso e fomos embora para Itapetininga. Eu ia muito para Iperó, para os bailes que naquela época eram maravilhosos. Vinham moços e moças até de Sorocaba e das redondezas. Não existia nada melhor que os bailes daí. Eunice, Miltes e eu, nos casamos com rapazes de Iperó. Mas só a Eunice continuou a morar onde está até hoje. Já o José Luiz, se casou com uma moça de Boituva.
Em frente ao cinema existia o posto de saúde, onde era enfermeiro o senhor Benedito Paula Leite Júnior, esposo de dona Diva, pai da Silvia, do Kiko e de vários outros filhos que não me lembro no momento. Gente ótima, amiga. Em volta do posto existia uma plantação de cedrinhos, muito bem cuidada. Tinha um senhor, que não me recordo o nome, que podava os cedrinhos dando-lhes formas de animais. Umas obras de arte! Vindos de São Paulo, quem viajava para Bauru, Itapetininga, tinha que fazer baldeação de trens e geralmente os passageiros se hospedavam na casa de meus pais. Eles tinham quartos nos fundos de casa para alugar. Esses passageiros ficavam admirados com os animais feitos de cedro. Tiravam fotos, mandavam para os jornais. Uma maravilha mesmo aquilo.
Pena que acabou. Agora, quando vou aí, vejo tudo abandonado. Sinto pena, sinto saudades. Sinto saudades dos carnavais também. Do boizinho correndo atrás de todos na rua. Do senhor Lucas, que consertava as bicicletas. Do Faustino, do Pixinho, da Therezinha Galvão, dos irmãos Ferreira – Iria, Irene e Jonas –, do Geraldo e Suenilda Dias, do Said Jorge Moraes e de uma infinidade de amigos que nunca mais vi.
Posteriormente, falarei mais sobre as pessoas que me lembro e dos acontecimentos.

Vou contar o que me lembro da rua Porfirio de Almeida do meu tempo, dos moradores daquela rua. A rua começava  ao lado do cinema e do cinema para trás era o ‘bairro da Minhoca’, onde só tinha um caminho  continuando a rua Porfirio de Almeida. A primeira construção era a Igreja Protestante e, logo depois, tinha outra rua. Nessa esquina, morava o senhor Orlando farmacêutico. Era a única farmácia na cidade. Seu Orlando era casado com dona Ercília e tinha vários filhos, mas só me lembro no momento da Vera. Depois da casa de seu Orlando, vinha a casa do senhor Jaziel de Campos, cunhado do senhor Agenor barbeiro. Jaziel era casado com dona Nenê e tinha as filhas Nicinha e Edite. Eles tinham um bar e alugavam quartos para viajantes. Esse bar depois foi comprado pelo senhor Felício Eid.

Ao lado era a casa do senhor Gumercindo de Campos, pai da Henory e do Edmur (que era conhecido por Dimas). Nessa casa do senhor Campos, tinha uma primavera plantada no portão de entrada, ao lado da casa. Quando era tempo de flores nunca se via nada mais lindo!!! Formava um arco colorido e alegre. Na frente da casa era o correio. Ceinha, esposa do Dimas, tomava conta do correio. Naquele tempo não existiam carteiros; cada pessoa ia buscar a correspondência. Tinha o senhor Algemiro que trazia a correspondência  da estação até o correio. Esse senhor era italiano, pessoa alegre, sempre de bem com a vida. Vinha subindo desde a estação até o correio cantando  músicas da Itália. Cantava assim: ‘Bela Itália, bela Itália, bela Itália inabude’.

Fico até emocionada me lembrando desse tempo. Era também na casa de seu Campos que se hospedavam os padres missionários e as professoras quando vinham para a cidade. Seu Campos era dono do bar da estação. Saindo da casa de seu campos,  era a casa de meus pais. De minha família já falei. Essa nossa casa depois foi do senhor Pedroso. Depois da casa de meus pais era a casa do senhor Salim Elias, marido da dona Rosa. Tinha vários filhos. Que me lembre, a Helena, o Guilherme, o Nicolau, a Súria, o Tanis e o Jamil. Tinham bar e sorveteria.

Na esquina da rua, moravam o Bibe e a Matilde. Tiveram vários filhos, mas não me lembro mais dos nomes. A primeira sorveteria e a primeira televisao de Iperó, foi o Bibe quem trouxe. Ele colocou a televisao no bar e à noite enchia de gente para ver o fenômeno da época. No outro lado da esquina, antes da loja de dona Diva, tinha uma casa de tábuas onde existia uma quitandinha da dona Adélia, mãe da Cristina (esposa de meu sobrinho Kiko).

Depois, moravam noutra  casa de tábuas o sr Zico e dona Maricota, que era irmã da professora Therezinha Galvão. O senhor Zico era cantador de cururu, uma espécie de disputa cantada que existia naquele tempo. Hoje não sei se existe mais. Morríamos de rir das respostas cantadas, muito inteligentes. Vinha depois a casa do único retratista do lugar, senhor Fiuza. Mas só me lembro de uma filha deles que era minha amiga e se chamava Enid .Eles tambem tinham uma quitandinha; iam comprar em Tatuí e Sorocaba  para venderem aí.

Depois vinha a casa do senhor Nicanor e da senhora Zezé. O senhor Nicanor era irmão da professora Therezinha Galvão. Tiveram vários filhos, mas também não me lembro dos nomes. A casa do lado foi de meus pais. Foi nessa casa que eu nasci e também meus irmãos. Quando morávamos nessa casa, foi que trouxeram a luz na cidade. Foi acontecimento muito bom, teve até festa. Eu me lembro disso. Ficávamos acendendo e apagando a luz e mamãe ficava brava. A casa foi vendida  para o senhor Benedito e dona Diva. Era aí que  montaram a primeia loja e depois se mudaram para a esquina onde era a quitanda.

Vinha depois a cadeia, onde também morava o único soldado da cidade. Naquele tempo, calma, não acontecia nada de ruim. O soldado era o senhor Luiz, esposo de dona Maria. Eu me lembro que meu quarto era pegado nas grades e quando tinha algum preso eu morria de medo e ia dormir na cama de meus pais. O senhor Campos, pai da Henory, era o delegado. Ao lado da cadeia  morava o senhor Agenor e, na frente da casa, ele tinha a barbearia. Não me lembro se tiveram filhos.

Depois vinha a casa do senhor Augusto e dona Alice Garcia, pais do Lazinho e da Cida. Tinham um cachorro que deixou saudades. Esse cachorro se chamava Glodô. Seu Augusto tinha uma venda. Naquele tempo não se falava supermercado. Ao lado era também uma venda que pertencia ao sr Calil Eid, esposo da dona Equita, cunhada de minha irmã Eunice. Seu Calil e dona Equita tiveram os filhos: Roque, Cida e Janete.

Aí vinha a casa de dona Sada. Ela tinha a única padaria da cidade. Depois que veio a padaria da Ruth padeira, bem mais para baixo da rua. A dona Sada era mãe do sr Calil,da dona Júlia, da dona Nenê. Na casa ao lado, morava o senhor Gimenez. Não me lembro o nome da esposa, mas me lembro dos nomes dos filhos deles: a Terezinha, Ruth e Toninho. Não me lembro o que tinham na frente da casa, mas tinham algum negócio. Depois deles, essa casa foi do senhor Jamil e da senhora Ana Elias. Tiveram também algum negócio na frente. Foram pais de vários filhos, mas só me lembro da Marina. Se mudaram para Capão Bonito.

Na esquina  havia o açougue da Maria turquinha. Não me lembro o nome do marido dela. Só me lembro no momento de uma filha, a Maria das Dores. Mas tiveram vários outros filhos

 

 

Elisabeth Rodrigues

E não é que hoje acordei pensando na Tuta? Ela era filha do seu Francelino Domingues e morava num casarão onde hoje é a Indelpa. Eram 3 ou 4 irmãs. Lembro-me de Bela, alta, morena, a mais velha, que gostava de passar esmalte na nossa unha e era geladinho. Araci era a do meio e Tuta a mocinha caçula, loira, olhos muito vivos azuis e se comunicava gesticulando muito pois era surda. Essa era uma menina muito criativa. Não me lembro de bonecas mas ela fazia muita roupinha. Tinha o dom do estilismo. Depois de adulta benzia em Iperó, fiquei sabendo, também tinha esse dom de DEUS. Será que a antiga casa do seu Francelino foi fotografada?

 

 

Augusto Daniel Pavon

Sobre a Suely, “de Jesus” é o nome de família do Djalma, do Tuca, mais gente que faz parte importante da nossa história e que por motivos pessoais, como os nossos, se distanciaram. Da mãe dela, Dona Geni, a mim chegaram as histórias da pessoa bondosa que era, e também de seus doces. Já morava em Boituva. Da Suely lembro-me dela na casa do Telo, bem em frente ao armazem do Seu Calil e vizinha ao Murano (isso é prá confundir a cabeça da mulecada-Hugo), ainda quando namorava o Djalma, que está em uma das fotos. Gostaria que a Suely, como fez da família dela, falasse um pouco da família do Djalma, fizesse uma descrição com detalhes da rua, localização, como era o local de comércio da mãe dela. Falasse sobre o salão de barbeiro, como era, quando foi. Descrevesse os bailes com detalhe, o salão, enfim; para que quem lesse sentisse saudades os mais velhos e os mais moços vivessem agora como era a sociedade iperoense na época, entendessem que alguma coisa deve mudar, mesmo que nos moldes de agora. Não dá prá continuar como está. O que vivemos, com detalhes, deve motivar....

 

 

Elisabeth Rodrigues

Lendo o que o pessoal escreve, até parece um filme a que vamos assistindo. O cenário vai mudando conforme a época em que ocorreram os fatos e os personagens vão mudando. Lembro-me vagamente do casario de tábua ali na esquina do Bibe e loja do seu Benedito, mas nunca poderia imaginar uma cadeia naquele quarteirão. Outra construção antiquíssima era um casarão de tábua que havia no sentido Boituva pela ferrovia ao lado esquerdo e ao lado da linha. Acho que antes de eu ir para a escola ele já estava quase em ruínas. Alguém se lembra ou eu estou divagando?
O senhor Zico citado cururueiro seria o ZICO MOREIRA super nome no cururu regional? Aliás Iperó foi nome de destaque no cururu .No antigo Sorocabana eram realizados os desafios e não é qualquer um que pode ser cururueiro pois tem que ser esperto na rima e na resposta ao provocador adversário. O cururu faz parte do folclore paulista e a região de Sorocaba é destaque nessa arte. O pai do Dr Ezio Vestina levava o pessoal do cururu para Iperó e ele é envolvido com todo esse assunto e adora o tema .
E sobre a rua Porfírio será que a família do primeiro fotógrafo da cidade, o sr Fiuza, não teria algum material guardado? Sobre o açougue da Maria turquinha, acho que o casal era dona Maria e João Marques pais do Bisteca, Maria turquinha, Berto e João. Acho que depois o açougue ficou na esquina da Porfirio com antiga Osvaldo Cruz. As crianças estavam brincando calmamente na Duque de Caxias. De repente gritos e correria. Era o boi no laço e tropel de cavalos descendo já perto do (hoje) posto de saude. Pura adrenalina. Criançada assustada nas casas espiando João Marques na briga com o boi no laço juntamente com outros peões. Ufa escapamos dessa. O boi já estava preso no matadouro que era logo ali, no quintal do açougue.

Essa vai para o Hugo. Numa Sexta feira Santa, nossas mães estavam conversando na rua ali na esquina da Duque e eis que vem descendo do campo um ser meio estranho. Todos ali na frente passou bem sossegado pelo meio da rua um porquinho e desceu devagar até a esquina de baixo. E todos observando. Chegou lá embaixo na esquina, olhou de todos os lados e começou a subir novamente. Pergunta básica: alguém de nós esperou o tal porquinho? Pernas prá que te quero e cama!

E os moradores do outro lado nas casas da Sorocabana alguém se lembra?

 

 

Tanaka

- Hugo, eu penso que estou em muitas mais fotos do time de futebol do Sorocabana, pois joguei muito tempo no mesmo. Porém, não sei com quem essas mesmas fotos possam estar. Eu mesmo, não as tenho. No meu tempo, nós disputávamos o campeonato amador e, portanto, havia futebol regularmente todo domingo, durante o ano corrente.
Entravam no campeonato os times de Boituva Cerquilho, Tietê, Tatuí, Laranjal, Pereiras, Conchas etc, além do torneio início. A torcida, aqui inclusa a feminina, era uma coisa única, vibrante em campo. Nós até tínhamos umas fãs que torciam individualmente pra gente. E, olha, muita rixa entre os times. Quando jogávamos contra Boituva, então, a temperatura era altíssima; a coisa fervia mesmo... Dificilmente o jogo terminava sem uma briga, mesmo entre a torcida. Contra o time de Tatuí também a disputa era quente; eles sequer pensavam que poderiam ser derrotados por Iperó.
E o transporte quando jogávamos fora? Era feito de caminhão, meu caro. Comíamos uma poeira danada na estrada. Ah! bons tempos esses... Quando não tínhamos um defeito mecânico no dito cujo. Para sentarmos, caso se conseguisse, eram encaixadas umas tábuas que iam de uma lateral a outra da carroceria, senão íamos em pé mesmo. Algumas vezes fazíamos viagens também de trem.
Eu ascendi ao time titular ainda com pouca idade e para ser inscrito no campeonato a ficha tinha que ser assinada pelo meu pai. Era o único ainda com pouca idade, entre 15 e 16 anos, que disputava o campeonato. Como você vê, foram muitos anos de futebol na santa terrinha. Bem, aqui foi um pouco de reminiscência da minha vida futebolística.

 

- Meu pai trabalhou também na cabine, a mais nova pelo visto. A escada que dava acesso a ela era numa posição bem em aclive (ou declive para quem descia, é óbvio). Me lembro de ter subido lá algumas vezes, ainda criança, e tê-lo presenciado fazendo o manuseio das alavancas ali instaladas que movimentavam os trilhos para direcionar os trens, fossem de passageiros ou de cargas e, mesmo, os que manobravam no pátio de estacionamento, vamos dizer assim. Ela, penso, que devia igualmente fazer a sinalização para os maquinistas dos trens. Não sei se me fiz entender na descrição das funções da cabine, se empreguei as palavras certas, mas a intenção foi esta.
Agora me lembro também do barranco existente que separava a parte de cima das residências dos ferroviários, ao lado do "escadão" de acesso à estação e ao pé e ao lado da cabine, sendo esta separada pela rua do dito barranco, bem íngreme, que nós crianças utilizávamos para escorregar sentados num pedaço de papelão ou de saco, ou outro material qualquer. Era uma emoção só, devido ao declive bem acentuado. Dava mesmo um friozinho na barriga, mas era bem emocionante para nós naquele tempo. Algumas não se atreviam a descer pois ficavam com medo. Era melhor quando o barranco estava úmido, por exemplo, depois de uma chuva.

 

 

Augusto Daniel Pavon

É, eu também, e era um pouco mais assustador do que o Tanaka falou. Descendo a rua do pernoite em direção ao escadão, saindo pela rua da ESQUERDA, não descendo a escada, mas ao lado, íamos em direção ao barranco. Aquilo era um pouquinho mais bonito, só um pouquinho. A casa, como escrevi, descendo a rua à esquerda era do sub chefe, nesta data era do Sr Jaime Pastana Marques, marido da dona Chinda (a Suely enganou-se quando se referia a ela como esposa do Azeredo, que era a Dona Augusta, irma da dona Chinda). Todo escadão tinha o corrimão que era de tijolos, com reboco e pintado, ao lado o local por onde desciam as águas da chuva e, ao lado desse, acompanhando toda a escada, cedrinho, que no alto, contornava a escada e acompanhava o barranco, somente ao lado da escada. O barranco em frente era aberto, descia mais ou menos em 45 graus, não aferi. Entre as casas do barranco e o barranco propriamente dito passavam carros. Bem, é desse baranco que o Tanaka falou. Não foi com ele que fiz isso, na verdade só me lembro de um menino, o Paco, irmão do Tuca, irmão do Djalma então namorado da Suely. Havia mais um ou dois. Nós pulávamos como num mergulho, e logo em seguida agarrávamos no capim, havia muito, a descida também era irregular e íamos parando, sem chegar no solo.Não me lembro dos outros mas do Paco porque "marcou", foi o fim dos pulos. Ele saltou, foi se segurando mas não parou. Não foi queda direta, mas foi parar lá embaixo. Corremos para ver. Ele estava sentado com um pedaço de pau enfiado entre a orelha e a testa. Depois percebemos que não era nada serio, estava preso na pele. Mas imaginem o conjunto das coisas. Foi o fim dessa SADIA brincadeira. Futebol: há muito o que escrever, muito mesmo, porque o que mais fazíamos era isso, agora gente "boa de bola" muito pouco. O Tanaka era MUITO BOM. Fazia gênero de quem não estava "nem aí", como é típico dos "craques", mas conhecia muito de futebol. Mas era estranho, porque eu joguei muito futebol, mas não nasci com o dom, sempre fui perna de pau, minha maior frustração, não me lembro do Tanaka correndo de lá prá cá com a mulecada atrás de bola, "e ói queu andei prá cacete atrás das bola de capotão". Pode ser que eu tenha falhado nessa, o Tanaka que me corrija, mas eu achei que deu um estalo e ele surgiu pra ser titular do time que eu mais amei (DEPOIS DO MEU GLORIOSO TRICOLOR), o Sorocabana Esporte CLube, jogando muita bola, parecia que sempre esteve com ela mas nunca lhe deu atençao, e nunca fez muita questão," fez um afago na gorduchinha" e saiu de cena. O Tanaka nunca me pareceu ser um "doente por futebol", eu sou. Mostrou o que eu jogando a vida inteira naquela campo, fugindo da "Ordaia", lesando os meus dois joelhos, não consegui; "UMA GRANDE INTIMIDADE COM A GORDUCHINHA, SABIA TRATÁ-LA COM CARINHO". Com certeza existem mais fotos,alguem que leia, as terá e poderá emprestá-las. Iperó tinha famílias de bons jogadores, bons de verdade, de encher os olhos de quem gostasse de futebol. O SAID E SEU IRMÃO (O TANAKA), O ULISSES E O OLAVO GUAZZELLI, O QUINHO E SEUS IRMÃOS (FLORES, MARIO E RODOLFO - MANCA), SERGINHO, NELSON E MAURO FOLIM E OUTROS. IA ME ESQUECENDO DO CICA (JOGOU MUITA BOLA, MAS SEMPRE RECUSOU A CONDIÇAO DE TITULAR DO SOROCABANA; GOSTAVA MESMO É DO SEGUNDO TIME) E SEU IRMÃO SILVANO (SEMPRE FOI TITULAR, MAS NUNCA JOGOU COMO O VELHO CICA). ESSE SIM COMO O TANAKA, QUINHO, SAID, OLAVO, JOGOU MUITO. NÃO ADIANTA PERGUNTAR A ELE, PORQUE A HUMILDADE NÃO O DEIXARÁ CONFIRMAR.

 

 

Suely Gonzaga de Jesus

Estive lendo os escritos do Tanaka e também do Augusto. Fiquei com saudades, muitas saudades. bons tempos aqueles! Eu fui torcedora do nosso time,,, me lembrei que iamos juntas a Maria Abigail, a Maria Amelia, a Marilu de Farias, a Aparecida Corvino,todas juntas para torcer.Nao perdiamos um jogo. Iamos tamebm para ver os rapazes de fora, eu confesso.
Sobre o nome da dona Amelia e dona Xinda, eu errei mesmo, desculpe. Elas eram irmãs. A dona Xinda até foi minha mãe de leite. Sobre descer escorregando o barranco do escadao, eu só descia naquele vãozinho ao lado, onde escorria a água de chuva. No barranco de terra, eu tinha medo. Fui menina moleca, de até jogar barrabol e peladas na rua. Naquele tempo não tinham carros, as ruas eram calmas. Voltando a falar da rua Porfirio de Almeida onde morei, no outro lado, eram só casas da estrada de ferro, todas branquinhas, limpinhas, jardinzinhos na frente.
Entre a rua e a entrada dessas casas, havia uma valetona, para mim que era menina, eu a achava muito funda, e para entrar nas casas, sempre tinha uma tabua entre a rua e os portõezinhos de entrada. Eu me lembro que a primeira casa da Sorocabana nessa rua era do sr Zé, a quem chamavam “Zé de Nega”, por causa do nome da esposa dele que era dona Nega. Depois deles, essa casa foi farmacia da Sorocabana.
Eu me lembro dos seguintes moradores: Sr Mundico, pai de vários filhos, mas no momneto só me lembro do Jurandir (meu colega de escola), Sr Bonifacio, marido de dona Gita, Dona Júlia e esposo (ela, tia do Said), sr Kilian e esposa, pais do Rene e do Sergio, sr Dito Pires e esposa, sr Segundo Barba, pais do Segundinho e do Rubinho, sr Adolfo Pires, e esposa (pais da Elza, minha amiga), sr Pavon e dona Ida, que foi costureira da familia, dona Creuza, mãe da Aleixa, do Alcides Zovaro, sr Torrente e esposa (pais da Ana e de varios outros filhos), sr Zezinho Cordeiro e dona Irene (pais da Marcia, Cida e Yvone, muito amigas, que me deixaram muitas saudades), sr Antonio Canal e esposa (pais de vários filhos, mas no momeento só me lembro da Toninha, minha amiga), sr Joao Ferreira e esposa (pais da Irene, Iria e Jonas, gente que também deixou saudades), sra Jandira (mãe do Dito Preto, rapaz muito inteligente), dona Laura, sra Fiica e sr Zibi, sr Murano e esposa, sr Geraldo Politani e minha irmã Eunice (pais do Kiko, Maria Lúcia e Nenê).
Quando me lembrar de mais, eu escrevo. Tem muita gente de quem sinto saudades, gente amiga.

Quem se lembra do Tudo azul? Vivia cantando quando bebia. Está tudo azul, não está? Está legal, não está?
Do Noi e da Anésia que criavam um veadinho no quintal e este comia nas mãos deles?
Da Nha Dita de Nico que benzia o povo da cidade?
Do Jacó Araujo que inventou uma máquina que passava filmes de cinema?
Das cantorias do Dito preto? "Em Tietê, fizeram cadeia nova. E Mariazinha, coitadinha terminosa"?
Do Suruba que fazia as pamonhas mais gostosas de Iperó?
Do Angelim que morava no quintal de seu Campos, pai da Henory?
Do Nho Ditinho curador? Vinha gente de longe procurá-lo.
Do seu Dito carregador? Amigo de meus pais.
Da dona Maria Motta?
Do Bu-bu que corria atrás de nós?
Da Maria Honória que morava na casa do seu Campos e cantava "Bota fogo, cunhanha, ponha um ovo, cunhanha, bota fogo?
Do papagaio louro da Henory que chamava todo mundo pelo nome?
Da Elvira que morava também na casa de seu Campos?
Da Davina que vendia amendoins torrados e pipocas na porta do cinema?
Da Marcimira?
Do seu Valdomiro carteiro, que subia o escadão cantando "Bela Itália, bela Itália, bela Itália, bela Itália inabude?
Quem lembra quando acharam uma baita cobra no cinema?
No carnaval, o boizinho do seu Lucas correndo atrás da criançada?
Do seu Lucas consertando nossas bicicletas?
Do Godói fazendo serenatas tocando violão e cantando com aquela voz maravilhosa que DEUS lhe deu?
Daquele cano que tinha na caixa d'água em frente do cinema, onde escorregávamos?
Do som do sino da igreja que o Olavo Guazelli tocava?
Das aulas de catecismo da dona Eulina e da Henory?
Das sopas da dona Catarina do grupo escolar?
Da debandada geral na saída das aulas quando seu Jaime tocava a sineta?
Dos beliscões que a professora Clarisse dava nos alunos?
No momento, cheia de saudades, me lembrei de tudo isto que passei na minha Iperó.
Quando me lembrar mais, contarei a vocês.
 

 

Tanaka

Nesse precioso espaço de nossas reminiscências pessoais e igualmente de nossa Iperó, oferecido pelo altruístico espírito de solidariedade, de humanidade e boa alma de nosso Hugo Augusto, e que procura resgatar notadamente a história de nossa cidade, quero falar nesta oportunidade e para tanto peço licença a todos, da vida do aluno/a estudante de então, ou seja, da geração anterior de muitos moradores de agora, geração esta da qual faço parte juntamente com os demais amigos e amigas de décadas passadas.
Outrossim, para não perder a oportunidade já que mencionei o seu nome, quero cumprimentá-lo e dizer-lhe Hugo o quão singular notável é a sua personalidade; somente mesmo alguém com esse valor humano, de inteligência de vida, que você é portador, apesar da ainda pouca idade, poderia empreender tão bela e magnífica iniciativa que dignifica o ser humano, qual seja, resgatar a sua raiz. Que ótimo que você surgiu em nossas vidas para sermos o seu parceiro; parabéns aos seus pais que pariram e forjaram, porque não dizer , rara personalidade. Você merece um destaque especial nesta empreitada, sem dúvida, pela batalha que empreende e pela sabedoria peculiar que lhe é intrínseca.
Bem, após o dito acima, voltemos então agora ao que me propus aqui relatar.
Nos finais do ano de 1953 completei 7 anos de idade e, portanto, no ano seguinte de 1954, começaria a minha instrução escolar primária no Grupo Escolar dr. Gaspar Ricardo Jr., que coincidentemente neste ano, também começou a funcionar; antes, a escola primária funcionava no chamado pernoite da Sorocabana.
Lembro-me que comecei bem tímido frequentando as aulas, mas depois com o passar do tempo fui me soltando mais no aprendizado e retendo regularmente a matéria ensinada; quando comecei no 1º ano sentava numa fileira da classe onde estavam os alunos com menos noção de alfabetização, vamos dizer assim; entretanto aula após aula, com boa desenvoltura e entendimento fui absorvendo bem a matéria que era administrada pela professora, passando, assim, para a fila dos mais aptos, enfim, dos que estavam um passo a mais no aprendizado (agora, não sei dizer se era essa a pedagogia de ensino de então).
Com efeito, vieram desta forma os anos seguintes até própriamente a formatura na 4ª série primária; fui um aluno, penso, que não decepcionou no aprendizado passado pelos professores; nunca fui brilhante, mas tampouco fiquei numa escala inferior numa mensuração de valor; porquanto, fiquei no plano mediano do demais colegas de escola.
Entretanto, o que fazer daqui pra frente já que a nossa vida escolar em Iperó terminava aqui, àquele tempo.
É, é aí que mudávamos totalmente a nossa rotina de vida, pois tínhamos que começar a viajar de trem para as cidades onde haviam os cursos acima do primário para aqueles que gostariam e queriam seguir adiante nos estudos; é necessário falar também que nossos pais nos incentivavam para tanto; assim, pois, eles têm uma parcela e tanto no que hoje conseguimos na nossa formação escolar.
Como se vê, começávamos deste modo a viajar cedo de trem, bem como aí inicia-se, por conseguinte, uma nova etapa de nossas vidas escolar e porque não dizer pessoal, pois também estávamos alcançando a adolescência.
Infelizmente, muitos por não poderem seguir adiante, acabavam por ficar apenas com o curso primário; que pena não é mesmo, pois com certeza, muitos com talento para aprender e seguir adiante não o puderam fazer.
Destarte, num estudo sociológico do nosso Brasil, certamente vai se constatar que talentos para a intelectualidade se perdem dessa forma por falta de uma infra-estrutura deveras mais adequada para a grande maioria da nossa população, não é mesmo.
Bem, em seguida eu fui fazer o 5º ano primário em Tatuí; esse quinto ano era para adquirir maior conhecimento, ao que parece, para se poder enfrentar o curso ginasial.
Nós, caipiras de Iperó, estávamos defasado em conhecimento se comparados com os jovens das "cidades grandes"; ainda mais estes vindos de famílias com grau escolar maior; daí ser o nosso esforço um pouco maior.
No ano seguinte fui cursar o ginásio em Sorocaba. Fiz o 1º e 2º anos no Ginásio Anchieta, que ficava, se minha memória não falhou, na rua da Penha.
No ano seguinte que seria o meu terceiro ano ginasial, foi inaugurado o Ginásio Estadual de Boituva, Alferes Mário Pedro Vercellino, e, então, eu me transferi para cá e terminei o curso ginasial na nossa cidade vizinha. Como no ginásio o currículo era formado por várias matérias, cada uma delas ensinada por um professor/a, posso dizer que fui mal aluno em exata e bom em humanas.
Agora, concluído o curso ginasial, não tinha mais como seguir adiante em Boituva estudando, pois o ginásio era o curso mais adiantado no vizinho município; vejam, Iperó, à época, era distrito de Boituva, ora só! Mesmo em Boituva, a viagem tinha que ser feita de trem.
O que fazer então? Pois é, tínhamos que voltar a estudar em Sorocaba. No meu caso, fiz o curso técnico de Química Industrial no Liceu D. Pedro II. foram mais quatro anos de estudo até o recebimento do diploma do aludido curso. Ah! como foi difícil estudar química, pois não tinha nenhum cacoete para tanto; entretanto era o curso da moda à época e como eu não me decidia o que fazer, meu pai, então, me matriculou ali.
Formei-me, felizmente, e a esta altura com 20/21 anos de idade, no ano seguinte, fui para S. Paulo para trabalhar; fui um fracasso como químico, e não poderia ser de outra forma, já que não dava pra coisa; o meu primeiro emprego foi como bancário.
À essa altura tínhamos que sair da nossa cidade, pois não havia como nela trabalhar, diferentemente do que é hoje.
Com 20, 21 anos de idade a debandada dos jovens de então para a "cidade grande" tinha que se dar. A não ser aqueles cujos pais tinham um comércio local, ou atuavam na agricultura ou na pecuária, e os acabavam sucedendo ou mesmo os ajudando, todos nós outros tínhamos que procurar uma vida laboral fora.
Como vocês viram, a intenção foi demonstrar o quão tanto agitada foi a vida do estudante de décadas passadas, cujo tema foi ora por mim escolhido para falar um pouco do passado.
Agora, as farras, as bagunças, as gozações, as diversões, as brincadeiras mil, enfim, que fazíamos e/ou participávamos, tanto nas escolas, nas cidades respectivas, quanto nas viagens de trens, eu deixo para os meus outros colegas contarem.
Ah! viajar com a locomotiva "Maria Fumaça", quanta aventura; tínhamos que ter muito cuidado com as fagulhas que ela soltava, senão tínhamos parte da nossa roupa queimada.
Num aclive um pouco mais custoso para ela desenvolver velocidade, nós descíamos dos carros de passageiros, corríamos a pé acompanhando-a e até mais que ela, e depois subíamos novamente nos vagões respectivos, retornando aos nossos lugares nos bancos dante antes por nós ocupados.
Quero dizer, embora esteja fugindo do tema que acima relatei, mas é que as lembranças acabam vindo à mente, que na minha infância eu fui coroinha e escoteiro também; na fanfarra eu tocava o bumbo. Cheguei a acampar com barraca e tudo no tempo de escoteiro numa das áreas de campo afastada do nosso centro da cidade; é, naquele tempo, um passo mais longo dado e estávamos fora do perímetro urbano da cidade; limpar o terreno na parte que reservávamos para a barraca ser armada, era uma grande aventura para a gente. Meu irmão comandava o escotismo à época. Encontrar uma área de terreno com vegetação ainda densa (muito mato, muitas árvores) não era difícil de ser encontrada. A nossa cidade ficava praticamente da rua Porfírio de Almeida pra baixo, com exceção da Igreja, do Grupo Escolar e mais umas raras residências mais acima e no mesmo lugar que hoje ainda ocupam, o resto tudo se passava aqui pra baixo; lembrem-se do cinema de então.
Ir ao cemitério caminhando por aquela estrada de terra, catando gabirova nos terrenos lindeiros, não tinha nada igual em divertimento para nós crianças; e que frutinha gostosa quando a mordíamos e ela soltava aquele sabor delicioso do fruto para o deleite do nosso paladar.
Bem, chega né; vou ficando por aqui nesta minha participação; já está até doendo o dedo do datilógrafo.
Um grande abraço a todos; e salve o CORINTHIANS (ih!ih!ih! acho que provoquei muita gente).
A irresponsabilidade bem dosada, sem excesso, do jovem de então, quiçá própria de todo jovem, também dá um bom episódio para ser relatado; que se habilitem os meus outros colegas para tanto.
Tem coisas, como se diz, exagerando um pouco, mas apenas para efeito de argumentação, que até Deus duvida.

 

 

Augusto Daniel Pavon

Seguinte o negócio, esse relato passou-se no início do "Grupo Escolar Dr.Gaspar Ricardo", hoje o Gaspar é o mesmo mas o resto mudou tudo, num sei se mudou prá melhor, mas mudou! Nós íamos de uniforme, calças curtas (naquele tempo calça curta era coisa de criança, hoje não sei se os adultos se tornaram crianças ou vice-versa, ou os dois, mas calças curtas e feias, esculachadas, daquelas de fazer cocô em pé, todos usam, inclusive as mulheres), suspensórios, sandálias, e um "borná" (bornalzinho-saco com alças que a própria mãe fazia) com cadernos, livros, lanche, lápis, borracha, caneta,mataborrão, etc...). Nessa época o Tanaka morava onde é ainda hoje a casa dele, esquina Barão do Rio Branco com Duque de Caxias e,por um bom tempo, subiu para o Gaspar arrastado, berrando "que nem um bode" e levando "uns cacete" da sra. sua mãe, dona Nenê, porque o Lindão "num queria ir prá aula". Algumas Véias da época achavam que era um massacre, eu vi algumas vezes e achava que era legal porque era uma espécie de vingança pelos "cacete" que a gente recebia dele. O cara era fera, meu!

 

 

Hugo Augusto

Augusto, a rua que sobe era a Barão do Rio Branco, atualmente João Domingues dos Santos. Mudou também a Duque de Caxias, que agora chama-se Silvano Mioni. Aproveitando o gancho, não sou a favor dessas mudanças de nomes de ruas e prédios públicos - apesar de saber do merecimento dos homenageados -, pois acredito que nossos vereadores tem coisas muito mais importantes a fazer. A cidade cresce, novas ruas são abertas, novos prédios públicos são construídos, e há espaço para homenagear a todos, sem precisar mudar nada. Mas, logicamente, ressalto que esse comportamento não é comum somente em nossa cidade.

 

 

Elisabeth Rodrigues

NÂO ACREDITO. Fiquei espantada ao saber que a rua Duque de Caxias mudou de nome. Como pode uma coisa dessas! Será que nós os elegemos para que cuidem desse tipo de coisa? Será que em Iperó anda tudo cem por cento que vereador tem que estar se preocupando com nome de rua e assim interferindo na própria história da cidade? Acho que nas ruas mais antigas não se mexe, só se PRESERVA. Em muitas cidades há planos para recuperação de ruas e prédios mais antigos. Nada contra o homenageado que foi pessoa muito querida por todos, mas será que não há outras ruas mais recentes e dinâmicas que façam jus à figura do Silvano que todos nós conhecemos? Acredito que muitos são contra a minha opinião. É apenas a opinião de uma pessoa que aprendeu a andar na rua Duque de Caxias numa Iperó de terra e chão batido.

 

MEUS TESOUROS: Daqueles tempos que o Tanaka citou ainda me restam algumas coisas que fizeram parte de um tempo maravilhoso .Ir para a escola era muito bom e lá no pernoite fiz o primeiro ano. O recreio era por ali mesmo perto do escadão .Lembro-me da professora levando a turminha defronte a lousa e tomando a lição na imbatível cartilha CAMINHO SUAVE ..Nunca mais me esqueci de NHA Maria com o feixe de lenha e pra variar também alfabetizei muita criança com essa mesma cartilha . Na estupenda festa de formatura das quartas séries ,lá no SOROCABANA ,o meu padrinho foi o seu Calixto e me deu uma pulseira com pérolas ... Adorei !Depois de bastante tempo na inércia abriu um quinto ano e lá fui eu, a Clarice minha irmã, Titic do Custódio, Dalsim, Seu Zé Alves entre a garotada e muitos outros.
Tive ótimos professores ,que nos deram uma super base para o ginásio em BOITUVA naquele exame de admissão passamos muito bem.Os professores eram o seu Jorge que era ótimo jogador no SOROCABANA e a elegantérrima dona Elvira Tomazella que ´so andava de salto altíssimo . Lá em Boituva fiquei conhecendo as crianças JEAN e Collette no nosso primeiro livro de francês que tenho até hoje .Jean só aprontava em cada lição. Madame Julieta a nossa professora era ótima e só falava em francês na classe .Nossa que aperto dos alunos!... Lembro-me de vários professores Ana ,Rute ,Edson Campioni (matemática), Seu Eli que adorava mexerica (História), Dona Darci (português) O professor de geografia trouxe uma inovação. Os mapas tinham que ser feitos e decorados com anilina. . Cada estado de uma cor e riscado com régua e criando-se os motivos O professor era seu ORTIZ .SEu Mario Galego dava Artes para os meninos . Dona Silvia de Tatui dava Artes e até hoje faço o sapatinho DORIS e o KIQUER e tenho ainda o meu caderno de receitas .Na época tínhamos caderno de POESIAs e fazíamos trocas. Muitos outros professores estiveram ao nosso lado e fizeram sólida base em nossas vidas Muitos também sofreram na pele o que era ficar na ESTAÇÂO principalmente no inverno ,pois alguns vinham de Sorocaba e Madame Julieta vinha de São Paulo Ia me esquecendo de Dona Carolina e a gaitinha de canto que me deixou para segunda época na primeira série por meio ponto e não quis nem saber. Estudei solfejo as férias inteiras esperteza! E tudo tem valido a pena .

 

 

Tanaka

Olá gente, nomeando algumas das nossas brincadeiras e/ou jogos, quando ainda meninos outrora: bolinha de vidro, botão, pião, empinar papagaio, andar de bicicleta, carrinho de rolimã, caçar com estilingue, aquele outro jogo que eram dois contra dois à frente de uma armação de um tripé,(me parece que nós denominávamos esse tripé de casinha) dentro de um círculo que era defendido pela gente com um taco quando o adversário arremessava uma pequena bola que devia ser rechaçada o mais longe possível para então se fazer o ponto e não deixar derrubar o trípé; fazia-se o ponto contando quantas vezes os parceiros conseguiam trocar de posições até que o portador da bolinha voltasse para a sua posição inicial; (no momento não estou me lembrando como denominávanos essa brincadeira); só sei que dois ficavam com o taco e defendiam aquele círculo onde estava colocado o tripé e dois ficavam com a bola devendo arremessá-la para derrubá-lo e, assim, inverter a posição e ficar desa forma com o taco; ganhava o jogo quem fazia um determinado número de ponto préviamente estabelecido; ainda, ficar na espera próximo ao matadouro para ver a chegada da vaca, ou do boi, já laçado, que era recolhido num pequeno curral à espera de ser sacrificado ao depois; parece, até, que o animal adivinhava o que ia lhe acontecer, pois oferecia uma resistência sem igual para ser posto naquele cubículo; e mais, era muita adrelanina quando ele se desviava dali e vinha na nossa direção; saíamos como um foguete em disparada fugindo do dito cujo; me lembro que numa dessa vez, saindo em desabalada correria para uma área com razoável vegetação, pois ele vinha em nossa direção, bati num pequeno arbusto em que havia um enxame e fui picado por dezenas e dezenas de abelhas; batia desesperadamente as mãos sem parar sobre a cabeça e o tronco tentando me livrar delas e agora também correndo das abelhas; cheguei todo inchado em casa e com uma terrível dor; aí era um tal de minha mãe colocar a lateral da faca sobre as picadas, pois dizia-se então que aquilo melhorava o dolorido efeito das picadas e da situação calamitosa em que eu fiquei; ainda bem que aquelas ferroadas das abelhas ficaram "apenas" doloridas, pois se fosse alérgico à picada de abelha possivelmente a coisa seria bem mais feia; além do que levei um esculhaço por ter chegado daquela maneira; futebol(esse então nem se fale).
Lembrar ainda que todas essas brincadeiras/jogos eram feitos no chão de terra batida, já que não havia nenhum tipo de revestimento do solo tanto nas ruas quanto nas calçadas ; bem, até que era melhor assim, pois a marcação do chão era mais fácil de se fazer em quaisquer das modalidades que a gente participava, não é mesmo; riscava-se o chão, ou com o dedo, ou com um caco, ou com um pedaço de pau qualquer.
E a bicicleta; ah, era bom nela quem conseguia se equilibrar sobre a mesma; paradinha ali no lugar, sem se mover, sem se deixar cair por um tempo razoável; quem assim permanecia era "o bom"; me lembro que o Jaiminho, filho do seu Jaime, era muito bom nisso e me ensinou também; sua bicicleta era um pouco menor e ele me emprestou muitas vezes a sua bicicleta.
E o papagaio; pensar que a gente mesmo é que o fazia, cortando direitinho e no maior capricho a folha e as respectivas varetas de sustentação; e, olha! eles saíam muito bem feitos, pois voavam perfeitamente quando nós os empinavam; fiz muitos papagaios na infância, porém não me lembro hoje quem me ensinou para, deste modo, dar o devido crédito a quem de direito; de qualquer modo fica aqui o meu registro a respeito.
Bem, fica aqui a sugestão que os meus demais amigos façam os seus relatos das demais brincadeiras, dos demais jogos de infância e que eu não me lembrei.

 

 

Augusto Daniel Pavon

O Tanaka num tá 'sialembrano', mas quem ensinou ele a fazê papagaio foi o Pedro Loco, flho da Nhá Nina, ficavam horas naquela de fais disfais, até que o Pedro fazia, o Tanaka pagava e tchudu bem!

Me lembro de cada uma, muitos anos após, eu as vejo, eu as ouço, minhas professoras do primário, não me importa qual o nome que hoje tem, e nem se quem vai ler entenderá ou não, minhas professoras do primário. Todas maravilhosas; a primeira, ainda do "jardim da infância" Dona Henory, alegre, expontânea, gorda, falava fácil e bem, amorosa. A segunda, já no velho Gaspar, dona Nina, de Boituva, meiga, comum, não deixou nada além. Dona Terezinha Malatesta, me presenteou com um livro de estória, em três dimensões, muito além da época, que tenho até hoje. Dona Clarisse, rigorosa, até certo ponto dura, mas não rude. Ensinava bem. Outras houveram que decididamente nada significaram. Uma em especial, a melhor de todas, aquela que não estava em evidência, mas a que mais me marcou. Loira, alta, dura e meiga, observadora, compreensiva, conseguiu ver, estimulou, insistiu para que eu lesse, declamasse. Personalizava. Me fez sentir importante. Foi minha melhor professora. A ela meu momento de gratidão. Profa Mirtes Reichet Eid. Um grande beijo no coração.

 

 

Tanaka

Bem, se recordar é viver, que tal relembrarmos mais alguma coisa de nossas vidas; digo nossas vidas mesmo porque vivemos sempre em comunidade e jamais isolados; tudo que somos e temos necessariamente teve o compartilhar de alguém mais. Nesse passo vamos comemorar, "co-memorar" no sentido aqui de lembrar junto, se se é para partilharmos alguns momentos vividos juntos outrora.
Pois é, me vem então à memória o tempo em que recebíamos em nossa cidade a visita pra lá de agradável, mesmo que fosse apenas para uma temporada, da caravana de um circo ou de uma tourada, circo e tourada estes feitos à maneira de então. E isso era bem característico daquela época: o recebimento de uma grande atração que nos iria trazer por certo grande expectativa, grande sentimento, quando das respectivas apresentações.
Lembro-me que quando aqui eles aportavam vivíamos espionando já os seus primeiros passos para o erguimento de toda estrutura, enfim de toda montagem em si, até finalmente a sua concretização física; e quando tudo já estava pronto para a estréia das atrações artísticas que viriam a seguir, que maravilha era então poder assistí-los.
Para nós crianças e porque não dizer para os adultos também, tudo isso era um inegável encantamento; é! isso era um raro acontecimento para uma cidade como a nossa. Quem de nós crianças que não ficava implorando aos pais para conseguir um dinheirinho para comprar o bilhete pra entrar no circo; e quando não conseguíamos entrar pela porta da frente, pela bilheteria, lá íamos nós tentar a passagem por baixo do pano, ou melhor, da lona, literalmente falando, quáquáquá...
E o que dizer propriamente das atrações do circo, essa milenar instituição, com os seus palhaços, os melodramas, os acrobatas, os contorcionistas, os trapezistas, o domador de animais e suas feras, o círculo da morte com os motociclistas, de algumas belas circenses para nós meninos, de alguns circenses galãs para as meninas etc; era inegável que era o que melhor acontecia nas semanas, nos meses, que aqui eles permaneciam; e, olha! muitas vezes dava vontade de partir junto com os próprios para viver aquela vida que nós achavámos que era de pura aventura; mal sabíamos o duro que eles davam por viver aquela vida de nômades. É bem de dizer, enfim, que era a iniciação de um outro lado cultural que nós tínhamos a oportunidade de desfrutar, aprender e apreciar.
Por outro lado, como já acima mencionei, também tinha a tourada; aqui o modo de atração era outro, porém não menos atraente e emocionante, pelo menos pra mim, que ainda hoje curto esse tipo de espetáculo; quem, ali espectador e sentado na arquibancada, não se sentia um tanto quanto atemorizado com aquelas "feras" e o que poderia acontecer com o toureiro e os seus coadjuvantes; aqui nada é e pode ser combinado entre as partes; era alta adrenalina, enfim; e mais, havia ainda aqueles que montavam as ditas cujas, bem como os que pegavam o touro "à unha". Ah! falta dizer que a tourada tinha que ter a colaboração dos donos de bois da nossa cidade, senão nada feito; para isso os nossos sitiantes não deixavam a peteca cair.
Parece-me que o "vô" do Gusto fazia alguma incursão por essa área; me lembro dele com o lenço no pescoço, parecendo um gaucho, chê! O Gusto que diga se é isso mesmo, ou se viajei nessa...
E quanta saudades nos deixavam as respectivas partidas; os do circo por aquela magia, pelo encantamento, pelo sonho, que em nós despertava, próprios desse modo de arte; os da tourada, pela valentia de enfrentar bravos e perigosos animais e com riscos muito pertos de sérios acidentes.
Vendo com os olhos de hoje, penso que podemos dizer que, nós tínhamos uma sala de cinema e salão de baile montados num mesmo espaço, num abrigo de madeira, e tínhamos também quando numa temporada de circo, um teatro coberto de lona; a tourada era, outrossim, a arena de uma Espanha, de um Portugal.
 

 

Augusto Daniel Pavon

- Lindo isso, Tanaka, muito bom. Seria ótimo se junto com os relatos pudéssemos transmitir a emoção que sentíamos. Penso que o segredo de tudo é a simplicidade. Hoje as coisas passam muito depressa e as novidades são muitas e a satisfação é efêmera e já queremos outra, mais sofisticada, como por exemplo o "celular",já não basta mais falar, tem que que fazer muitas outras coisas que as vezes fico em dúvida se ainda sabe falar. A simplicidade, esse foi o fulcro onde colocávamos a alavanca da nossa felicidade ( essa foi foda, foi não?). Deixa prá lá. A nós bastava o circo do Tareco desfilando na velha e querida Porfírio,que acompanhávamos felizes,o circo montado as vezes com sua lona rota,como você citou, a maneira como entrávamos, sendo a melhor vazando por debaixo da lona, sentados na arquibancada de tábuas que se entrecrusavam, nervosos com as cenas mais arriscadas,rindo muito com os palhaços os e com as apresentações teatrais nem sempre comédias. Isso quase sempre era ao lado da casa do Diretor do Gaspar Prof Virgílio, e depois do Zé Borba, ou onde havia um campinho de futebol, acima da casa da Benta. Momentos mágicos. Iperó nunca nos deveu lazer. Sobrava. As touradas, como citou meu amigo também eram perfeitas. Ele poderá descrever com detalhes. Me lembro de dois heróis da arena, um era o seu Henrique Andrade e o outro não era o meu avô Augusto Garcia, mas sim o irmão dele, que já apareceu em uma poesia sobre Iperó, de sua autoria; Acácio Garcia.Mas, como diria o nobre presidente, "estou convencido" que ainda o segredo está na SIMPLICIDADE.

 

- Dois filmes me emocionaram muito por me arremessarem ao passado, precisamente à minha infância em Iperó; um de Fellini chamado "AMACORD" e já escrevi alguma coisa a respeito disso, voltado ao incêndio do velho Templo,o CINE PARADISO que é exatamente o outro filme, este de Giuseppe Tornatore. Dois motivos me fazem escrever, saudosismo, é claro, que é um direito meu, leia quem quiser, pois como bem disse Armando Nogueira, uma coisa boa do envelhecer é reviver o nosso passado e, com muito mais vigor, "é retocar o passado, dando mais colorido" e mostrar que tudo nessa terra foi muito intenso, bem vivido, nunca , mesmo na calmaria de uma cidade pequena do interior,Iperó foi uma cidade morna, mostrar que mesmo sob um enfoque (hoje eu tõ coá macaca, tô não?)moderno, Iperó deve renascer. Depende de políticos; sim depende, más não só deles, muito mais de quem vive agora no local, dá vontade,não de um, de muitos, e com simplicidade, coisas bonitas, alegres, organizadas,mas sempre buscando o bom na simplicidade

 

 

José Roberto Moraga Ramos
Tanaka, debaixo dos caracois dos teus cabelos ainda tem muita historia prá se contar. Voce e " Gusto "( que não tem caracois ) não imaginam a delicia que é ler os seus maravilhosos textos. Não sei porque hoje veio à minha memória o seo Mário Araujo, subindo o escadão com aquele corpanzil e sua mala enorme.
Estou procurando nos jornais da época a despedida que Iperó fez ao teu irmão Said, quando o mesmo partiu para Pirapózinho onde ingressaria como professor. Teve banda Santa Cecilia, Agrupamento de Escoteiros e tudo mais.
Quanto as touradas, cantorias, dança da catira havia também o Inácio ( não lembro o sobrenome ) cunhado do Ditinho Antunes. Seu filho tinha apelido de Dego e trabalhava no açougue do Zé Vitorino na rua Porfirio. E por falar no açougue do Vitorino, lembro-me também do Zelão Mena e da memorável briga com Eudes e Seo Tristão.
Por hora é só.

 

 

Tanaka

Meu amigo Gusto, você é fora de série nas suas intervenções; cara, como você consegue enriquecer, dar mais, ao que propomos transmitir.
Você é o companheiro ideal (companheiro aqui no sentido de dividir, repartir o pão); e porque não no caso em apreço: somar; somar com comicidade inteligente o que acrescentas. É só dar uma deixa pra você entrar com tudo.
Ah! meu outro amigo JR Moraga, você, sim, é sensacional no que você transmite; aliás, já havia dito isso antes quando lá encima tive o prazer de deparar-me com o seus outros textos. Você consegue reminiscências incríveis; agora mesmo, em poucos parágrafos você me fez voltar no tempo com lembranças que eu já não dava conta das mesmas, como a gente costuma falar. Estou torcendo pra você conseguir colocar pra gente o episódio que acabaste de relatar; que memória!
Olha, você está intimado a escrever mais, viu! Como já mencionei antes, suas intervenções são muito ricas de fatos de nossa querida Iperó.
Um abraço.
Tanaca.

 

 

José Roberto Moraga Ramos - "O Jornal de Iperó " (18/05/58)

"Cogita-se no meio ferroviário que dar-se-a por estes dias a aposentadoria do ferroviário sr. Paulino de Morais, velho servidor da E.F.Sorocabana, contando com mais de 30 anos de serviço, ultimamente na estação local, Iperó. Antes de aposentar-se, o mesmo irá gozar 3 meses de licença prêmio. Informaram-nos ainda que seu requerimento, pedindo aposentadoria, datado de 29 de março p.p, deu entrada nos canais competentes na mesma data. No dia do desligamento o mesmo irá oferecer uma cervejada aos colegas e amigos na Cantina São João (Bar do Bibe). Perguntamos ao próprio Paulino se, após aposentado, iria ficar sem afazeres. Respondeu-nos que iria praticar a pesca inclusive no alagado, junto com Olimpio e outros."

Segura essa, Tanaka.

 

 

Tanaka

Ô meu amigo, obrigado, obrigado mesmo; nessa hora as palavras faltam para mensurar o quanto de adjetivação e agradecimento elas deveriam conter, mas você com o seu espírito de solidariedade por certo vai entender. O que posso falar é que: olha! foi muito emotivo; meus olhos umedeceram, mas foi muito bom ler o conteúdo da notícia; foi ótimo repassar pelo tempo ido.
Obrigado também pelas palavras anteriores de elogio; não as mereço, mas as credito ao seu espírito de companheirismo e da amizade que nos une; os amigos são sempre generosos e benevolentes com os amigos.
Tanaca.

 

 

Augusto Daniel Pavon

Volto a citar o "velho cine", cine Sorocabana, todo vermelho, enorme barracão de madeira, vermelho porque era a cor das cercas, portas, janelas, vagões, enfim, penso que de tudo que fosse de madeira na Sorocabana. Ele, o barracão, certamente era feio aos olhos de quem não o conhecesse. Porém tinha história, muita história. Foi parceiro de muitos amores, muitos beijos, muito carinho e, sempre confiável no seu silêncio. Ocasiões havia em que ele se enfeitava e se tornava tão importante para nós, que, acredito, se tornava tão altivo quanto o "Copacabana Palace". Uma dessa ocasiões, na minha infãncia/ adolescência, era o primeiro de ano. Lindo!!!. Todo enfeitado como já citei anteriormente, quando falei do "Nirto Cachaço" e do "Dito Preto"( que Deus os tenha!). Nas laterais, onde ficavam as mesas, era chão de tijolos, e o centro, que seria a pista de dança, era todo de cimento, liso, que permitia o deslize dos pés dos casais, que mais pareciam "um", de tal maneira colados, no "um prá cá e dois prá lá" de um bolero cantado pelo Ary Araujo. As laterais era onde ficavam os pais, as famílias todas iam ao baile de primeiro de ano. Todas muito bem vestidas, produzidas para a ocasião, assim como o "velho salão", porque ele já era velho, também se produzia.Voltando, as laterais eram iluminadas, claras, com as mesas bem distribuidas, sendo servidas pela cantina do Jorge Nassif. Bebidas, lanches eram levadas às mesas pelos garçons que auxiliavam o Jorge e a Lecha (Alexis),de excelente qualidade; pelo menos para mim pareciam ser. Quando a música iniciava, e se não tínhamos namorada, tentávamos com sinais entrar em contato com a menina que queríamos dançar, nos enchíamos de coragem (Cuba libre) e atravessávamos o enorme salão, se não era pelo menos naquele instante se tornava,sob uma cacetada de olhares, e convidá-la à dança, e ela estava na mesa com seus pais. O grande risco era a famosa "tábua", recusa a dança, que servia para deixar você com cara de "cocô" até um mês depois, tal era a "gosação". Dançando, vagarosamente íamos nos dirigindo ao meio do salão onde havia menos claridade (penumbra)que nos permitia dançar mais coladinhos, beijos, enfim...mas me lembro que subitamente, como uma pedra jogada no meio de um lago, todos iam se afastando e o meio ficava uma enorme clareira e então, vagarosamente íamos voltando para o meio. Isso não era infrequente e ocorria quando um daqueles indivíduos que não se sensibizavam com o instante romântico, "soltavam um pum"; tinha dessas...mas haviam outras "cozitas" que nos faziam(os meninos) ficarem com muita vergonha ao devolvermos as senhoritas às mesas de seus pais; a nossa idade, os carinhos trocados, acabavam por obrigar-nos a usar "sunga", aquele protetor que usávamos no futebol para evitar danos quando das boladas nas partes baixas. Tudo natural e normal. Isso tudo é inesquecivel!. Zero hora do dia primeiro de janeiro. As máquinas da ferrovia apitavam incessantemente, poucas buzinas porque havia poucos carros. Muitos rojões, o baile parava, todas as famílias se levantavam das mesas e iam ao centro para os cumprimentos, maravilhoso, emocionante. Isso durava o tempo necessário e então a banda, no palco, executava o Hino Nacional. Após, vinha a troca da diretoria do clube, apresentação da rainha e o "DISCURSO", famoso discurso que podia ser do seu Pedroso, do seu Calil, do novo presidente ou do seu Bonifácio(famozíssimo). Não tinha fim, palavras rebuscadas,repetiçao, levavam ao desespero a mulecada e também os mais velhos que queriam a sequência da festa; o carnaval. Aplaudíamos sem parar, parávamos e voltávamos a aplaudir e nada de teminar o discurso. Quando isso acontecia íamos até o fim "pulando"carnaval. Era a passagem de ano; linda, maravilhosa, feita por uma enorme família, a "FAMÍLIA IPERÓ". Legal!!

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Como foi citado pelo Augusto, o cinemão foi palco de grandes bailes com Tekila de Sorocaba e Star Night de Tatuí onde a Eliete (que teve uma farmácia perto do Calil) era "crooner " ( chique né ), shows de mágica ( lembro-me do SALMAGICO, acredito que era parente da familia Salmasi). Os shows de calouros aqui da terrinha onde Augusto (por falta de conhecimentos musicais dos jurados) não pode prosseguir sua carreira de cantor. E quem não se lembra do Xisto tocando "Saudades de Matão" com a sua gaitinha. Tivemos também muitos responsáveis pela projeção dos filmes, lembro-me do Noi, Zé Coruja, Cristiano. Legal mesmo quando a projeção era interrompida deixando muitos pais com as mãos na cabeça e os filhos/filhas com as mãos em outras partes. Assim era nosso CINEMÃO, feio, sério, por fora e lindo e moleque por dentro.


 

Augusto Daniel Pavon

Até a metade da década de 60, no mundo, as coisas mudavam pouco, alguns detalhes no corte de cabelo dos homens, no penteado das mulheres, talvez na barra das calças, na marca dos cigarros, mas a excência, os hábitos, os costumes, a moral, quase nada mudava. Década de 40,50, metade da de 60,pouca coisa mudava. Por exemplo; a mulher era um mistério, física e mentalmente, e isso fascinava o homem, fazia a sua imginação viajar a mil. Tocar a mão de uma menina era algo de tirar o fôlego. Mulher nua, sexo, era assunto dos recém entrados na adolescência, dos adolescentes , dos solteiros. Ficávamos vidrados quando ouvíamos alguém escolados nos bordéis da vida. No caso de Iperó, a "zona de meretrício de Sorocaba", onde hoje é o aeroporto. Só sei porque o Tanaka, que era mais velho contava. Os livros de biologia, quando os achàvamos de alguém mais velho, que já estava estudando, nós os pegávamos escondido, para folharmos e encontrarmos uma mulher nua.Você estando em frente ao cinema , do lado esquerdo dele havia um local vazio que era um dos campos de futebol nosso. Atrás dele era mato, alto, porque nos encobria. Ali era local de brincadeiras. Havia caverninhas, locais em que tirávamos o mato de baixo mas ficava coberto por cima. Também era local de masturbação coletiva,uma coisa fantástica Havia marcação para início e louvores para o campeão. Quando mais velhos começava a fase de ir ao cinema e "sentar ao lado da namorada". Via de regra nada acontecia mas, quando sentados após o filme em frente a porta de um bar ou venda fechada, vários meninos,aquele que conseguiu se sentar ao lado da namorado, era um herói contando aos outros, que nem piscavam, tudo o que fez na menina. De dez, ele não havia meio. Bem tudo isso para sugerir mais um filme maravilhoso; fotografia, enredo, atores, música, inesqueciveis: "Summer of`42"; Um verão de 42. A atriz é Jennifer o`Neil, belíssima. O filme foi feito em 1971, eu o assisti bem depois em Curitiba.Este, excetuando o fato de que o local era litoral, praia, oceano pacífico, férias escolares, EEUU, era sem dúvida a mulecada do final de 50 iníco de 60 de Iperó, incluindo a paixão desesperada por uma mulher mais velha. Achem e assistam!!

 

 

Tanaka

Quá-quá-quá; ah, é, né! Pó dexá. Tais saindo pela tangente, né! Tudo agora é o Tanaca, né! Pó fazê a mea-culpa, viu!
Aproveitando a oportunidade, gostaria de pedir ao Odemilson Paiffer, que pelo visto tomou conhecimento agora do "site", (falo isso pelo que ele disse acima) que o provesse com tudo o que ele possui a respeito de Ipanema; poxa, vai ser ótimo o seu registro a respeito, pois Ipanema não deixa de ser um extensão de Iperó, não é mesmo. Ademais, é uma comunidade , me parece, com bastante história, tendo recebido a visita de D. Pedro e onde teria sido instalada a primeira siderúrgica do nosso país(é isso mesmo?); é sempre bom saber um pouco mais a respeito da sua história.
No meu tempo de estudante, havia vez ou outra uma excursão que nós fazíamos aí; me lembro que além do piquenique ao redor do lago, de subirmos o morro, nós assistíamos palestra numa espécie de auditório aí existente.
Odemilson, embora não nos conheçamos tomei a liberdade de fazer-lhe esse pedido, pois penso que vai enriquecer ainda mais o "site", bem como a sua compreensão do apelo feito por uma pessoa que lhe é desconhecida; penso que você seja de uma geração posterior à minha, mas pelo visto tem a mesma atenção com a preservação da sua raíz.
Pra finalizar: estudei com uma colega que era residente aí em Ipanema e que se chama Marina; olha, como seria bom revê-la ou mesmo saber sobre ela.

E o Natal em nossa infância; é! na véspera nós punhámos um sapato com muita grama à porta de entrada de nossas casas, afinal as renas que puxavam o trenó do Papai Noel precisavam alimentar-se, com certeza; coitadinhas delas, tínhamos muito carinho por elas; e, no dia seguinte nenhum vestígio dela ali o que comprovava a vinda do bom velhinho; ô ô ô!
Pois bem, ao aproximarem-se as datas, quiçá, as mais comemorativas de todo o ano, eis que elas são quase universais, quero desejar a todos os amigos e amigas: UM FELIZ NATAL E UM PRÓSPERO ANO NOVO.

 

GERALDO POLITANI - entrevista concedida a José Roberto Moraga Ramos em 20 de fevereiro de 2004

Geraldo Politani, nascido em 5 de dezembro de 1925, em Itu. Veio para Iperó em 1 de julho de 1931.

Minha família morou, inicialmente, numa casa de taipa no fim da Rua Porfírio de Almeida. Era perto da casa onde morou, posteriormente, o Chico Lima. Não havia praticamente nada naquela região, a não ser a Escola de Jundiacanga, onde hoje é o Largo de Santa Rita. Dona Glorinha e Dona Dulce foram minhas primeiras professoras, no primeiro e segundo ano. Depois, o terceiro e o quarto ano fui cursar em Boituva, entre 1937 e 1938. Ia para Boituva com o “trenzinho”. Às vezes acontecia algum acidente e a gente precisava voltar a pé.

Meu pai, Francisco Politani, nasceu em 21 de maio de 1888, na cidade de Lago, na Itália. Era filho de João Batista Politani e Vitória Beluzzi. Nas horas vagas, ele trabalhava como funileiro. Fundia bacias, fazia canequinhas de leite condensado e tantos outros objetos. Aquilo servia para ajudar em casa e também para passar o tempo. Entre 1935 e 1936, mudamos para a Vila do Depósito, época em que foram inaguradas aquelas casas. A estação ainda não existia. Havia uma estação menor apenas, que anos depois foi aumentada. 

A vida da criançada era caçar passarinho, jogar bola, pescar e nadar no rio Sorocaba. Havia um campo de futebol em frente ao local onde hoje é o Banco do Brasil. Meu vizinho, naquela época, era o Sr. Fausto, que trabalhava no almoxarifado e não tinha um dos braços. Havia um farmacêutico também, que não me lembro direito. Mais para a frente tinha a casa da Rita Mota. Para baixo tinha a casa do Mário Araújo. No sentido contrário, subindo, havia o armazém do José Pereira Capitão, a venda do Emílio Thomé, a venda do Augusto Garcia – chegou depois –, a barbearia do meu sogro (Luiz Gonzaga de Jesus) e na esquina (onde foi a loja do Benedito Paula Leite anos depois) havia apenas um casa de tábuas onde morava a família do Chico Cóvos. Atravessando a rua, onde era a venda do Bibe, havia um armazém velho e, ao lado, o bar do Joaquim “caixeiro”.

Por volta de 1939-1940, foi construído o Sorocabana Esporte Clube. Nas sessões de cinema, levávamos as cadeiras. Vinham as famílias da vila com as cadeiras. Elias Cunha, Azeredo, Celestino Gouveia. Toda a turma que vinha para o cinema precisava trazer cadeiras. A cada dez minutos, parava-se a sessão para enrolar o filme novamente. Havia uma máquina apenas. A criançada vinha limpinha e voltava igual porco. Nos filmes de faroeste, o mocinho lutava na tela e a criançada lutava em frente à tela. Ninguém conhecia cinema. Era uma coisa divertida. Tenho saudade. As sessões eram bastante concorridas. Às vezes a máquina quebrava e precisávamos levar para consertar em São Paulo, pois nem em Sorocaba havia recursos para aquele tipo de conserto. Quantas vezes o Dito Bom colocou a máquina nas costas e foi até São Paulo de trem. Saía de manhã e voltava no mesmo dia para montar e passar o filme na sessão.

Comecei a trabalhar na ferrovia em 1943. Naquela época, energia elétrica só havia nas casas da vila ferroviária. Nas casas particulares não havia luz. Somente por volta de 1945 é que as demais casas receberam luz elétrica, por intermédio de Floriano Villaça, que na época era interventor em Boituva (prefeito).

Período da Segunda Guerra Mundial aqui em Iperó. Em 1945, eu tinha 20 anos de idade. Daqui saíram o Oscar, João de Oliveira e o Guerino para os campos de batalha. Quando eles voltaram, contavam o que haviam passado e presenciado nos combates. Tenho aqui o salvo conduto do meu pai. Cada vez que ele ia para Sorocaba, precisava levar o documento para o Sr. Gumercindo de Campos assinar e marcar o que ele ia fazer na cidade. Por causa de ele ser italiano, precisava pedir ordem para tudo o que fosse fazer fora da cidade. Os alimentos eram racionado: sal, óleo e mais um que não me lembro. Mas não faltou alimento, graças ao presidente Getúlio Vargas.

Casei-me com a Eunice em 19 de julho de 1947 e tivemos três filhos. Fomos morar próximo do Calil. Depois, mudamos para a rua Duque de Caxias. Dali, para a rua Samuel Domingues. Depois, fui para uma casa da Fepasa, na rua Porfírio de Almeida, graças ao saudoso José Bertolli. Em 1951 acabou o depósito de Iperó, injustamente. Manteve-se apenas o depósito de Itapetininga. Então, fomos embora para lá.

Na rua Santo Antonio, havia essa casa – onde moro hoje – que era do Sr. Antonio Gimenez. Na esquina onde está o Banco do Brasil, havia um armazém que era do Cordeiro. E, aqui na frente, já pertencia aos Domingues. Mais para baixo havia um terreno grande, que depois foi doado para que se construísse o prédio do ginásio. A construção ficou muitos anos servindo apenas como espaço para criação de cabras e para os ciganos pernoitarem. Somente após vários anos é que a obra foi terminada, sendo inaugurada em 1953. Onde hoje é a loja Skina Modas, havia uma casinha onde morava o João Pinto, que foi o primeiro lixeiro de Iperó. Ele tirava lixo numa carrocinha, puxada pelo famoso burro “Pombo”, um burro branco. Me lembro bem. Tenho muitas recordações. Muitas vezes, eu, Dimas, Quirino, Fleury e Agenor, em época de Semana Santa, desmontávamos a carroça do João Pinto e cada um ficava com uma parte. Depois devolvíamos para ele.

O carnaval naquele tempo era uma grande festa. Tinha o Sr. Cruz, que foi presidente do Sorocabana, Epitácio Figueiredo, o Moura, o Ênio Marquezzini. Era um carnaval melhor que o outro. O melhor carnaval foi no tempo do Groff, encarregado dos truqueiros. A frente do clube foi tão enfeitada, que o povo que vinha de fora ficava muito admirado pelo enfeite que nós fazíamos. Desde aquela época, eu e o Dimas já trabalhávamos vendendo artigos carnavalescos, perto de onde havia uma escadinha que subia para a cabine. O carnaval era fantástico. Lembro muito do Horácio Figueiredo, Bibe, Agenor, Pedro Noronha, Zé Noronha, Adão Davi, Piligo, Dona Jacira, Pedro Brasil, Dito Bom e tantos outros.

Saíamos na rua para brincar. Fizemos um bloco. Eram os carnavais mais lindos. As marchinhas “Jardineira”, “Pierrô apaixonado”, “Me dá um dinheiro aí” e “A-lá-lá-ô”, eram tocadas por um conjunto composto pelo meu sogro, pelo Barbosa, Ernesto, Buri, Zibi e Toninho (irmão do meu sogro). Era um conjunto invejável. A harmonia e o respeito que existiam na brincadeira eram marcantes e me trazem boas recordações. Apesar da fama do carnaval de Tatuí, vinha muita gente de lá para participar do carnaval daqui de Iperó. O pessoal vinha com o PS-4, se não me engano, e chegava aqui às 19h. Depois, voltavam com o PS-1, que saía às 5h15. Houve uma vez, num concurso da “Rainha do Carnaval”, que não deixaram o Dito Bom entregar o prêmio. Ela era o diretor esportivo. Foi uma injustiça. Ele chegou a chorar atrás do clube. Eu lamentei essa história e lamento até hoje.

No tempo do prefeito José Homem de Góes, foi feito um tablado na praça e saiu um excelente carnaval também. A turma do Bibe fez um carro alegórico imitando uma plataforma de extração de petróleo. Quando ligava a máquina, ela jogava confete no pessoal que estava brincando. Coisa mais linda. Os Aleixo fizeram um carro alegórico imitando aquelas diligências americanas com cavalos. Os Prestes, com o famoso “boi do Prestes”. E tinha mais carros ainda.

Não me recordo muito bem do primeiro “1º de maio” que foi comemorado aqui, mas foi um dos maiores eventos já realizados em Iperó. Aquele campo de futebol, que era com cerca de madeira, lotou. Tinha tanta gente naquele dia, eu me lembro. Pedro Queiroz, Chico dos Santos, Toninho Antunes, Cizino Dias. Todos nós trabalhamos com barraca naquele dia no campo de futebol para ajudar o esporte na cidade. Churrasco, pipoca, a gente vendia tudo o que havia para vender. E foi tão grande o sucesso, que acabou tudo em pouco tempo. Limpou. Nós compramos, se não me engano, cinquenta caixas de cerveja. E aquilo já era um absurdo pelo número de pessoas que havia em Iperó. Não sobrou uma garrafa. E, interessante, não faltou uma garrafa também. Deu na medida. Da mesma forma, o refrigerante também deu na medida. Tudo o que nós levamos, vendemos.

Em 1963 fui eleito vereador pelo distrito de Iperó, pela coligação PSP-PSD. Adhemar e Juscelino. Foi eleito o Rafael Caetano da Silva como prefeito em Boituva, que não era o candidato que eu apoiava. Sofri grande pressão para que eu passasse para o lado do prefeito. E eu não podia fazer aquilo, pois precisava respeitar “o lado” pelo qual havia sido eleito. Quando houve a emancipação de Iperó, em março de 1965, renunciei ao meu cargo de vereador e a cadeira passou para o Jandir Schincariol. Eu não tinha mais nada a ver com Boituva, não ganhava “um  tostão” e ainda pagava passagem. Eu e o Dito Preto, que também era vereador em Boituva.

Nós começamos a lutar pela emancipação de Iperó em 1961-1962. O prefeito de Boituva, naquela época, era o Saraiva, que deu “uma mão” para nós. Depois, entrou o Rafael e quis impedir. Quem trabalhou aqui foi o José Homem de Góes, o Jorge Nassif e tantos outros. O Jorge Nassif teve prejuízos, perdeu o cartório. No plebiscito de 1963, houve 97 que votaram contra a emancipação de Iperó. Na minha contagem, foram 480 “SIM” e 97 “NÃO”. Esse era o eleitorado de Iperó naquela época. Acredito que não teve brancos e nulos, pois não tenho marcado aqui.

Voltando ao esporte, o Sorocabana chegou a ter 500 sócios. Fui presidente do Sorocabana e durante grande parte da minha vida me dediquei ao clube. Sacrifiquei a minha família, e minha mulher é testemunha disso. Quantas noites de 31 de dezembro para 1 de janeiro, “Revèillon”, estive ajudando na realização da festa. Mas, depois de cansado, em 1980 me desliguei do clube, pois eu era meio “bocudo” e queria as coisas certas. Foi quando pararam de passar filmes e transformaram em discoteca.. Em 1983 voltei a trabalhar com a diretoria eleita no Esplanada, atuando como tesoureiro. Mas as coisas não eram fáceis. A concorrência com o Sorocabana era grande. A gente tentava entrar em acordo com a diretoria do Sorocabana, eles aceitavam, mas na última hora voltavam atrás nas decisões.

 

 

ADIB EID - entrevista concedida a José Roberto Moraga Ramos em 26 de fevereiro de 2004
Adib Eid, nascido em 26 de agosto de 1926. Meus pais eram Sada Jorge e Said Eid. Nasci em Santo Antonio Velho (depois do rio Sorocaba), bairro que até hoje pertence a Boituva. Éramos em dezesseis irmãos, sendo que somente treze chegaram à vida adulta. Meus pais vieram do Líbano e compraram um pequeno sítio naquela região próxima ao rio. Meu pai morreu cedo, de uma doença para a qual não havia cura naquela época. Nem sei o nome. Mamãe ficou com os treze filhos para criar e educar. Estudar era apenas até o quarto ano. Depois, a gente não podia fazer mais nada. Ali, a gente vivia da pequena lavoura (pera, laranja, ameixa), mas não havia muita gente para comprar. Minha irmã enchia uma cestinha e eu ia junto com ela para vender no trem. Certo dia, um dos passageiros disse: “Mocinha, se você lavar o pé, eu compro essas frutas que você está vendendo.”
O maior lucro da nossa familia vinha do comércio de areia para a famosa Estrada de Ferro Sorocabana. Isso foi por volta de 1932. A Sorocabana tinha um desvio que chegava até o local de onde era retirada a areia. Havia uma guarita e, quem ficava no local, era uma senhora. Uma ferroviária. Não me lembro o nome dela, mas todo dia o trabalho dela era virar a chave para que pudéssemos carregar duas gôndolas de areia. Todo dia. E precisava carregar no dia e já entregar, senão a multa era pesada. Não podia ficar com o carregamento parado.
Aqui em Iperó não tinha nada. O nome era Santo Antonio ainda. Não havia cem pessoas aqui. O muito que havia aqui eram três ou quatro casas. A gente vinha de carroça, passava pela ponte que ainda era de madeira. Aqui era tudo mato. A gente vinha caçar. O caminho era outro, passava por baixo da ponte de ferro. Só havia a casa do Emílio Thomé (primeiro comerciante de Iperó), lugar que depois foi comprado pelo Calil. Também havia a casa do José Pereira Capitão, outro comerciante. E uma casa de madeira da mãe do Chico Cóvos, no lugar onde posteriormente foi construído o sobrado do “Dito da loja”.
O meu primeiro emprego surgiu quando eu tinha dez anos. Vim trabalhar com o Calil. Ele havia comprado o armazém do Emílio Thomé e eu vim trabalhar de caixeiro. Isso foi por volta de 1936. Todo dia, mamãe mandava almoço e janta para nós. De lá do sítio, ela mandava marmitas para nós. Quem trazia a comida era o meu irmão mais velho. Depois, surgiu o Chiquinho Pacheco, que instalou-se aqui com uma padaria. Um belo dia, o Chiquinho Pacheco resolveu vender a padaria para um “nortista” e montou um armazém. O “nortista” falou: “Mas, seu Chico, com o que eu vou pagar o senhor? Eu não tenho um vintém furado.” O Chico respondeu: “O senhor vai pagar com trabalho.” Então, esse rapaz falou para o Calil: “Você não quer ceder o Adib para trabalhar comigo no balcão? Eu não tenho ninguém lá.” O Calil respondeu: “Se ele quiser ir, pode ir.” E assim começou minha história de trabalho nas vendas.
O nome desse “nortista” era Altamiro Gastão. Ele chegou do norte sem nada, chegou no armazém do Calil e pediu um pouco de comida. Olha só. E, depois, virou dono da padaria e meu patrão. Ele mandou buscar a mulher dele lá no norte. Nessa época, já trabalhavam na padaria, eu, Urciles e Chico Cóvos. A mulher dele, logo que chegou, passou a nos dar almoço. “Está pronto o almoço, gente.” Ela colocava um caldeirão no fogo, com carne seca e feijão, sem tempero, sem nada. A própria carne seca temperava o feijão. Junto com essa comida, trazia farinha de mandioca. No começo foi muito difícil. O Altamiro ganhou muito dinheiro e começou a fazer loucuras.
Ele começou a mexer com criação de porcos, arrumou um compadre e esse compadre começou a roubá-lo. Esse compadre trabalhava na ferrovia. Nessa época, os porcos começaram a morrer e o Gastão passou a beber muito. Certo dia ele veio falar comigo: “Adib, o prédio aqui é de vocês. Fala para a sua mãe comprar a padaria, que eu vou voltar para o norte, pois estou enterrado de dívidas.” Chamei a mamãe e ela gostou da ideia. Assim começou a nossa vida de comerciante. Eu trabalhei com mamãe até me casar e depois comprei um prédio na esquina da rua Porfírio de Almeida com a rua Santo Antonio.
O prédio pertencia ao Durvalino Pereira. Paguei através de prestações e, quando terminei, derrubei o prédio velho para construir um novo no lugar, que permanece até hoje. Chamei o Geraldo Danesi, o Álvaro Guazelli e o Dito “carregador”, que foram meus pedreiros lá. Falei: “Minha gente, isso aí tem que ser levantado rápido, porque eu estou endividado. O negócio tem que ser rápido.” Isso foi em 1948. Eu e o Salomão amassávamos o barro com o pé, pois naquele tempo não havia cimento. O tijolo era assentado com barro mesmo. Compramos o tijolo no olaria de Iperó, dos Del Vigna. Em tempo recorde, levantamos o prédio. Ali eduquei os meus filhos.
Antes de eu comprar, o Durvalino ofereceu para o Salim, que era inquilino no prédio e, na visão de Durvalino, tinha prioridade na compra. Mas o Salim perguntou: “Durvalino, para que eu vou usar esse chiqueiro?”. Então, Durvalino ficou ofendido e respondeu: “Olha, turco, para você eu não vendo mais, por dinheiro nenhum”. O prédio era uma taipa, construção feita de barro. Mas o ponto era muito bom. Quando eu comprei, o tio Salomão falou que eu havia comprado um chiqueiro. Mas eu falei para ele que era um bom negócio. Aí, fui falar com o Salim: “Infelizmente, o senhor vai ter que desocupar esse lugar que o senhor chama de chiqueiro, porque eu comprei do Durvalino.” O Salim, turco muito bravo e estúpido, falou para mim: “Ninguém mandou você ser burro. Daqui eu não saio. Eu posso até pagar aluguel para você, mas daqui ninguém me tira.” Falei para ele que ia procurar os meus direitos. Peguei o trem até Boituva. Depois, outro trem até Porto Feliz. Cheguei no Fórum e pedi para falar com o juíz. Esperei meia hora e o juíz me mandou entrar. Expliquei a situação e ele me disse: “Pode ir embora, que vou resolver o seu problema.” Dali a quinze dias, o Salim recebeu uma intimação para desocupar o prédio no prazo de 60 dias. Após receber a intimação, ele veio falar comigo, disposto a entregar o prédio em prazo menor que o estipulado pelo juíz, visto que ia construir uma casa ao lado daquele prédio.
Infelizmente, poucos anos depois houve uma tragédia muito grande na casa dele. Ele não fazia “cara bonita” para ninguém e maltratava freguês dele. Um dia, o Rubens Domingues chegou e falou: “Ô, turco!” Aí, o Salim se ofendeu, pois não gostava de ser chamado de turco, e respondeu com palavrão. O Rubens foi para trás do balcão e derrubou o Salim, começando a enforcá-lo. O Guilherme, filho do Salim, quando viu aquilo, pegou o revólver e deu um tiro na cabeça do Rubens, matando-o lá dentro mesmo, na hora. Escutei aquele barulho, aquele tiro e pensei: “O que será que aconteceu?” Daqui a pouco chegaram na minha venda e disseram: “O Guilherme matou o Rubens”. Respondi: “O Guilherme? Ele não mata nem uma formiga. É um coitado.” Mas, infelizmente, para não ver o pai degolado, ele praticou um crime. Entendeu?
Ficou pouco tempo na cadeia, nem dois meses. A família contratou um advogado famoso de Angatuba e, esse advogado falou: “Pasmem, senhores jurados. Um elefante degolando um velho de setenta e poucos anos. Esse moço, o que uma criança dessas, franzina, poderia fazer? O quê? Ia deixar o pai morrer nas mãos de um monstro? E outra coisa, senhores: só tem direito de invadir nossos lares, o Sol e a Lua. Ele invadiu o lar dessa família para matar o velhinho.” Resultado: eram nove jurados e a decisão foi de nove a zero a favor da absolvição. E a gente que já viveu muito tempo, presenciou muitas coisas desagradáveis também aqui em Iperó. Não foram somente coisas boas.
Eu, quando comecei com o bar, fui para São Paulo negociar com a Antártica. A cerveja vinha “empalhada”, embalada em sacos de estopa, com 24 cervejas em cada saco. Às vezes, a cerveja ia parar em Santo Anastácio por engano. Eles colocam apenas “S.A” nas embalagens. Cansei de avisar o pessoal da Sorocabana para escrever sem abreviar. Havia as casas da Sorocabana, que foram construídas quando eu tinha doze anos. Iperó foi crescendo graças ao movimento grande da Sorocabana. O movimento no bar era muito grande. O pessoal que vinha no pernoite passava no bar. Era um movimento bárbaro. Quando a gente queria passear, o único jardim nosso era a estação da Sorocabana. E aquela cabina? Trabalhavam três cabineiros e quase não venciam virar as chaves por causa de tanto movimento. Tinha trens manobrando dia e noite. O armazém tinha um movimento bárbaro.
Vizinho à minha venda havia o Salim. Depois, o sr. Luizinho barbeiro construiu mais para frente. Ele morreu cedo. Era um homem muito bom, mas com a saúde frágil. Tinha o sr. Campos, que mandava em Iperó. Era a casa mais bonita de Iperó. Quando vinham pessoas de fora, pessoas ilustres, eram recebidas na casa dele. Depois, tinha o Felício e, mais para frente, o Jaziel construiu onde está o Ládio hoje.
No tempo em que eu ainda estava na escola, houve muita maleita em Iperó devido à grande umidade e quantidade de insetos na região onde foi construído o aterro do páteo e a estação. Até as árvores tremiam. Você tinha muita febre. Tremia muito. Podia estar um calor de 35 graus, mas você estava tremendo do mesmo jeito. Ficou famosa na região, a maleita de Santo Antonio. Era “barbaridade” de maleita. Se a gente falava que era de Santo Antonio, as pessoas já saíam de perto e orientavam os demais a tomarem cuidado. Terminei o quarto ano em Boituva. Naquele tempo, mamãe dava duzentos réis, porque aqui não tinha quarto ano. Eu ia a pé, todo dia, para estudar em Boituva. Então, eu e meus amigos éramos recebidos na escola com vaia: “Lá vem os maleiteiros! Lá vem os maleiteiros!” A água para nós, na escola, vinha em copos separados. A nossa salvação era o sr. Vital, que apredeu a dar injeção. Todo dia a gente ia tomar injeção com ele. Era uma injeção que fazia você gritar de dor.
Fui engraxate em São Paulo. Quando minha irmã Nenê casou com o Paulino, eu tinha uns doze anos e minha mãe falou: “Filho, vai com a tua irmã, coitada. Ela é daqui do mato.” Não esqueço até hoje. Foram morar na Alameda Olga, 111. O bondinho que passava ali perto, custava duzentos réis. A gente não tinha esse dinheiro, mas precisava levar a comida para o Paulino, na Lapa, onde ele trabalhava. Então, meus colegas arranjaram uma caixa de engraxate, e eu saía para engraxar sapatos. No começo foi difícil. As mulheres gostavam de sapato brilhando e diziam: “Menino, você deve ser lá do mato, né? Não me apareça mais aqui. Isso é modo de engraxar?” Morei nessa época, na Barra Funda, quando a iluminação das ruas era através de lampião ainda. Todo dia, a turma vinha acender os postes. Era interessante.
Depois, de volta para Iperó, cheguei a dar aulas para adultos aqui, onde funcionava o pernoite. Eu tinha dezoito anos naquela época e deixava de namorar para ir dar aulas para marmanjos. Não ganhava nada. Dava aulas durante três horas por noite. Comecei a dar aulas, porque quando peguei meu diploma, eu trabalhava com mamãe e souberam que fui um bom aluno na escola.

Anos depois, fui sub-delegado. O Saraiva, muito amigo da gente, me chamou lá em Boituva e falou que eu seria o sub-delegado daqui. Falei: “O que? Não tenho tempo nem de cuidar da minha vida.” Ele me respondeu que eu era uma pessoa de confiança e iria assumir aquele cargo. Eu tinha apenas 21 anos, mas já era casado naquele tempo. A gente prendia muito ladrão de galinhas e separava brigas. A cadeia era em frente ao meu armazém. As pessoas às vezes preferiam ir para a cadeia, pois ficavam envergonhadas. Um bebia, outro brigava com a mulher. Ali, ele ficava “carpindo” o dia todo em frente à cadeia. Só havia eu e um soldado chamado Joaquim. Era o único soldado.
Lembro de uma ocasião, por volta de 1938, no tempo da ditadura de Vargas. Todo mundo descia na estação para tomar o cafezinho do sr. Campos. Nesse dia, havia um capitão tomando o café. O trem ficava parado apenas dois minutos. O chefe de trem acionou o apito e o trem partiu. Então, esse senhor foi falar com chefe da estação. “Escuta, como é que o senhor manda o trem ir embora com passageiro ainda para embarcar?” O sr. Moura, chefe da estação, respondeu: “Não tenho culpa. É o movimento. Tem horário. Deu dois minutos, o trem vai embora.” O capitão, então, mandou que o trem ficasse parado em Boituva e ordenou que fosse providenciada uma locomotiva com vagão para levá-lo até lá. O trem ficou meia hora retido em Boituva, com dezoito vagões de passageiros.
Tambem me lembro do refeitório da Sorocabana. Eu ia lá almoçar todo dia. Abençoadas mãos do Cizino Dias. Ele era um cozinheiro espetacular. Era meu freguês e eu falava para ele: “Cizino, puxa vida. Eu passo no refeitório e que cheiro gostoso!” Ele falava: “E por que não chega lá para comer?” Eu ia e era três, quatro misturas. Que maravilha era a Sorocabana. É uma pena a Sorocabana ter se esfacelado da forma como aconteceu. Hoje faz muita falta a Sorocabana.
E sobre o cinema: a nossa infância foi no cinema. Êita saudade. Meu pai do céu! A gente assistia filme, tinha baile todo sábado. Era o divertimento de Iperó. Filme duas vezes por semana e baile todo sábado. Iperó não tinha outra coisa. Depois, veio a televisão. A primeira televisão daqui fui eu quem trouxe. Acho que nem em Sorocaba tinha, pois quando eu cheguei lá para pagar a prestação de uma máquina de sorvete que eu havia comprado, estavam chegando dois aparelhos de televisão dos Estados Unidos. O dono da loja me ofereceu, dizendo que a televisão faria sucesso no meu bar. Perguntei: “Televisão? O que é isso? Não sei o que é televisão.” Ele respondeu: “É o seguinte: o pessoal está jogando lá em São Paulo e você consegue ver na sua casa, sem ir até o local do jogo. Para você que tem bar, vai fazer sucesso com a televisão. Você me paga como puder. Você é freguês daqui.”
A transmissão era muito ruim. Não cabia mais gente no bar. Então, eu colocava a televisão na janela. Era só “bang-bang”. Aí veio o presidente do Sorocabana e me disse que eu estava tirando os frequentadores do cinema. Mas, aos domingos, vinha gente de Tatuí, Boituva, Bacaetava, Ipanema. Chegava telegrama na estação reservando mesa no bar. Eu apenas exigia que se consumisse no bar. Quem não consumia, aí eu cobrava a entrada. O porteiro era o Simão. Risos.

 

 

ROMEU DE CAMPOS - entrevista concedida a José Roberto Moraga Ramos em 19 de fevereiro de 2004
Romeu de Campos, nascido em 25 de fevereiro de 1927. Veio para Iperó, juntamente com a família – pai e mãe –, em dezembro de 1931. Saímos de Sarapuí e viemos para cá em busca de melhores condições de vida. Minha mãe era Severina de Campos. Meu pai era Benedito Aires de Campos. Ele trabalhava num olaria em Sarapuí e veio trabalhar como carregador na estação de Iperó. Havia pouca gente aqui, cerca de quarenta famílias apenas. Casas particulares haviam poucas. E eram todas de tábua ou de barro.
Já estava aqui o Mário de Mello, o João Mota, o Paulo “bento” (Antunes Moreira), a Adolphina, o Vital, o Samuel Domigues e algumas outras pessoas. Mas nem nome o lugar tinha ainda. Chamavam de Esplanada, por causa da ferrovia. Depois colocaram o nome de Santo Antonio. Meu primeiro vizinho aqui em Iperó foi o Fleury. Depois, fui vizinho do Samuel Domingues. A gente morava na avenida principal, próximo de onde fica a loja Passo-a-passo hoje. A avenida não tinha nome. Ali não havia quase nada. Nem galinha. Era só a estrada mesmo. Havia umas duas casas de barro apenas.
A nossa diversão era matar passarinho e caçar coelho. Risos. Eu dormia cedo e vivia sossegado. A água vinha do poço e ainda não havia luz elétrica. Em dia de chuva, a gente só saía de Iperó através da Sorocabana. Eu pescava muito por aqui. O rio Sorocaba tinha muito peixe. Hoje ainda tem peixe, mas não prestam mais.
A primeira escola de Iperó pertenceu ao sr. João e ficava próxima do Waldir Paula Leite. Depois, veio a escola da dona Georgina, próxima à pracinha de Santa Rita e do armazém.
Havia um campo de futebol, ruim, no lugar onde hoje está o ginásio (escola Gaspar). Na esquina onde é o mercado do Waldir Paula Leite, existia uma farmácia que pertencia a um italiano. Depois dele, veio outro farmacêutico, chamado Antonio Pinto Resende. Tempos depois, ele vendeu a farmácia para a Sorocabana e veio o farmacêutico Arnaldo Belchior. Essa farmácia funcionou no lugar onde hoje mora o Giba e, posteriormente, foi transferida para a casa que era a antiga cadeia. Foi ali que trabalhou o Benedito Paula Leite. Antes do Benedito, ainda teve o sr. Joaquim e também o Orlando “enfermeiro”.
A vila da Sorocabana foi feita aos poucos. Primeiro quinze casas, depois vinte. Era conforme aumentava o movimento dos trens. Naquela época, o trem vinha de Bacaetava e passava pela ponte com destino a Santo Antonio “velho”. Era uma outra ponte. A ponte de ferro ainda não existia. O trem ia para Boituva, descia por Americaninha e chegava em Tatuí.
Em Iperó não havia nada. As moças moravam no sítio. A ferrovia estava começando a se movimentar. Não tinha a estação do jeito que é hoje. A estação ficava na saída para o ramal e era uma casa de tábuas. O depósito de lenha ficava num lugar onde depois foi construído o armazém da Sorocabana. Quem tomava conta do depósito era o Jairo. Quando construíram o depósito, veio um chefe chamado Colêncio, por volta de 1936. Em seguida foi construído um barracão de tábuas, para onde foi transferida a estação. O chefe da estação chamava Cantílio e o ajudante dele era o Benedito Germano. O escadão, originalmente, era feito com dormentes. Depois, por volta de 1945, é que foi construído com cimento. O pernoite foi construído por volta de 1938-1939. Não existia desvio da linha até o pernoite. O material era levado pelo escadão ou pela rua do armazém. E nessa época, a estação já era considerada a praça de Iperó.
A festa de Santo Antonio era bastante movimentada. Quero dizer, não havia ninguém no lugar, e mesmo assim a festa era movimentada. Vinha muito cavaleiro, muita charrete, carretas de boi trazendo lenha. A igreja matriz ainda nem existia. A festa era na igrejinha de Santa Rita. A igreja matriz de Santo Antonio começou a ser feita por volta de 1938. Trabalhei como servente de pedreiro na construção da matriz antiga. O empreiteiro da obra foi o Alfredo Sartorelli. Os pedreiros eram Luís “garganta”, Totico, Pedro Amaro, Dito “carregador” e Ditinho Roque.
A procissão de Santo Antonio era grande. Quando a igreja ficou pronta, enquanto havia gente saindo pela praça, a outra ponta já estava lá na vila do Depósito. E a banda tocando atrás. Naquele tempo, o fogueteiro era o Nenê Prestes. Os trens paravam até que a procissão atravessasse o pátio. Também existiam grupos de recomenda aqui. Muita gente cantava. O Dito Pedro, o Anísio Bernardo, o Severino Domingues, o Antonio Galvão e outros. Catira também tinha. O Inácio Camargo ensinava catira para as crianças.
E o cinema? Foi construído por volta de 1942, graças à vitória do time de Iperó num campeonato de futebol. O time daqui venceu o Ferroviário de Botucatu e foi campeão da Sorocabana. Foi o Emílio “banqueiro” que, falando em nome do povo que comemorava a vitória, teria pedido à direção da estrada de ferro a construção do cinema. Lembro da inauguração, mas não me lembro do filme que passou. O primeiro presidente do clube foi o Epitácio Figueiredo. Precisava levar cadeira para o cinema. Eu sentava no chão e só passava faroeste. Depois foi melhorando. Os bailes eram animados, mas vinha pouca gente. Tinha um conjunto que tocava e era o Castidório que ficava à frente dos músicos.
A banda de Iperó foi formada na mesma época do cinema. Veio o Ernestinho, o Candota, o Bruninho, o Zibi, os Pigico e diversos músicos. Depois, ganhamos o campo de futebol, quando o dr. Ruy da Costa Rodrigues, diretor da Estrada de Ferro Sorocabana, comprou o terreno do sr. Luiz Rossi para construir o campo. Quem coordenou a construção foi o Horácio Hugo de Moura. Até então, o campo era no lugar onde hoje é a escola Gaspar, e pertencia ao Samuel Domingues.
O time de futebol em Iperó, desde essa época em que eu conheci (1940) até por volta de 1970, era “barbaridade”. Era futebol de verdade. Agora não tem mais nada. Na época, o pessoal jogava bem e o time de Iperó era um dos mais procurados para jogar. Fomos jogar em Jacarezinho, Itararé, Bernardino de Campos, Assis, Itapetininga, Buri. A banda ia acompanhando. Eram dezoito, vinte músicos que iam junto. Todos iam de trem. Naquele tempo, o Moura arrumava o trem para o time e a banda. O Bertolli também foi um grande esportista de Iperó. Como jogador e como amigo da cidade. O que ele precisava, o povo ajudava.
Lembro um pouco do comércio da época. No lugar onde o Bibe tinha a venda, era o comércio do Chiquinho “caixeiro”. E onde tinha o Calil, pertencia a um turco chamado Thomé, Emílio Thomé. A mulher dele chamava-se Dalila. Mais para frente tinha a venda do Guinho Guazelli. Na esquina de baixo, havia a venda do José Pereira Capitão. E lá embaixo, havia outra venda, que pertencia a Benedito Vaz. Ali perto havia a igreja Congregação Cristã, a casa da Maria Mota e a sapataria do Custódio. Subindo a rua, onde depois foi a loja do Benedito, havia uma casa de tábuas que foi do Durvalino Pereira. Quando o Benedito comprou ali, ele desmanchou e construiu o prédio. Pouco antes disso, o Benedito havia montado uma loja com o Francisco Killian. Aí eles terminaram a sociedade e o Benedito continuou com a loja. Depois vinha o Salim Elias e o Luiz “barbeiro” (sogro do Telo). O sr. Campos morava em Boituva e trabalhava no bar da estação de lá. Depois, um sujeito chamado “Areia”, que tomava conta do restaurante, conseguiu negociar para que a família Campos viesse para cá. A primeira padaria daqui de Iperó foi do Altamiro Gastão, onde depois foi a padaria do Salomão, vizinho do Calil. O Luís Ramos veio bem depois. O primeiro açougue foi de Juvenal Machado e do Benedito Vaz. Depois, passou para o Leon Pedro Jacques. Teve também o açougue do José Piva, um italiano.
Lembro também do Gaguinho, que tinha um bar em frente à igreja. Ele era soldado. Lembro que ia buscar as crianças que faltavam na escola. Quando ele chegou, eu já era adulto. Então, não chegou a ir me buscar para ir à escola, não.
Tinha a cadeia, que era “grudada” com o Agenor “barbeiro”, onde trabalhava o Luiz “soldado”. Quem mandava aqui, no início, era o Durvalino Pereira. Tinha o Samuel Domingues também, mas ele nunca foi político.
Meu primeiro emprego foi na Sorocabana. Entrei em primeiro de maio de 1945. Trabalhei no depósito de lenha, onde ficavam as máquinas a fogo. Aposentei em primeiro de julho de 1976, na Bela Vista. Quando eu aposentei, era o Pedrinho Albieri quem estava lá. Antes dele, era o José de Moraes. Eu trabalhava como pedreiro e ajudei a construir aquelas casas onde moravam os engenheiros, o Dito Góes e outros funcionários. Tinha bastante empregados lá naquela época. Ainda não havia escola. A primeira escola da Bela Vista foi construída próxima à usina. Era a escola e a igreja.
Na política, quem mandava aqui em Iperó era o PRP e os “camisas verdes” (integralistas). Era a turma dos Ribeiro quem mandava, parentes do Rafael Caetano. Joaquim Ribeiro e Manoel Ribeiro eram “camisas verdes”. O Paco Gutierrez também. Lembro também que quando acabou a guerra, precisávamos de salvo-conduto para andar de trem. Houve racionamento de óleo, querosene, açúcar, sal e farinha de trigo.
Na minha época havia muitos benzedeiros. Lembro do Joaquim “flor” que morava no sítio, da Efigênia “preta” que morava para baixo da linha e da Valdomira que morava nos fundos da escola Gaspar. E o Nicola? Ele não foi benzedor, foi cigano. E a mulher dele, dona Augusta, também não benzia. Havia também as parteiras. A dona Aurora Redini foi uma das primeiras parteiras. Tinha a dona Maria do sr. Sanches. Depois, veio a dona Isaura. Mas a primeira parteira, de fato, foi a dona Clarinha, mãe do Zibi.
Aqui também teve muita assombração. Tem muita história. Lembro que na revolução de 1932, havia um cabo da polícia, chamado Sodré, que se matou numa capelinha que existia no lugar onde hoje é a loja Nabas. Era a capela de Santa Cruz. Ele se enforcou e a violência do enforcamento foi tão grande que chegou a arrancar a cabeça dele. Então, a gente era criança ainda e morria de medo de passar ali perto. Ficávamos imaginando o homem sem cabeça e um cavalo sem cabeça vindo nos pegar. O cemitério era feio também. Dava medo. Era só uns paus cercando e arame caindo. O pessoal daqui, quando morria, era enterrado em Boituva ou Tatuí.
Também me lembro dos tropeiros que passavam por aqui. Passavam próximo à Bela Vista, vinham no sentido do cemitério e saíam em Bacaetava. Havia trilhas por onde eles seguiam rumo a Sorocaba. Ele paravam próximo aos “Paulas” para descansar e alimentar os animais. Aí, houve um ano em que aconteceu uma grande enchente. A ponte “rodou” e os tropeiros não vieram mais.

 

 

Augusto Daniel Pavon

Futebol é um dom que é dado a alguns privilegiados. Todo menino já no meu e antes do meu tempo sonhou em ser um grande jogador. Naquela época não se pensava no dinheiro, até porque jogadores de futebol, via de regra, ganhavam muito pouco. Passei uma grande parte de minha juventude jogando futebol. Diria que joguei muito futebol; no campinho ao lado do cinema, no campinho entre a São Bento e a rua do meio (dia primeiro-010110- ainda havia gente joganobolalá), no campinho da vila do Moraes, rua que ficava em frente a casa do Sr Moraes e do Sr Feliciano( sogro do Zeca do Calixto),no campinho da Vila do Depósito,onde após os jogos, íamos nadar no porto do Joãozinho-rio Sorocaba. Isso sem contar a Porfírio, em frente a venda de meu avô/ meu pai, onde jogávamos diariamente, apesar dos resmungos do Agenor barbeiro, pois trabalhava com navalha fazendo barba dos fregueses. Razão ele tinha de sobra, mas na época dávamos a ele o nobre título de F.D.P. Fora tudo isso diariamente jogávamos no que havia de melhor, e era muito bom mesmo, o CAMPO DO S.E.C., campo do Sorocabana Esporte Clube- o único time que competia de igual para igual com o glorioso TRICOLOR DO MORUMBI(no meu coração "of course"). Não fui agraciado pelos "deuses do futebol" o que significa que joguei "prá cacete" aprendi o que era permitido para um não escolhido, um sem talento, lesei os dois joelhos e encerrei mais uma. Anteriormente já havia encerrado a de cantor. Tudo isso prá contar que hoje acordei com dor em um dos joelhos lesados e antes de fazer uso de um anlgésico lembrei-me de umas palavras que ouvia muito na minha infância"O que eu coso,perna ou braço trincado, carne rasgada, osso arrebentado....isso mesmo eu coso dizia a benzedeira. Fiquei um tempo pensando na magia dessas benzedeiras, figuras maravilhosas da nossa infância, que muito nos ajudaram, levando nada ou quase nada em troca pelo que nos faziam. Muitas vezes me curaram. Médico nenhum acreditaria nisso, mas também que culpa temos se não nasceram e viveram na nossa Iperó, o azar ´foi deles, foi não? Conversei então com minha mãe,Cida(Garcia Pavon) 82 anos, que me informou o seguinte; na época de meu nascimento, em Iperó, na minha casa, Porfírio 85,ainda minha,havia na cidade 4 benzedeiras. A Benta, que assim fazia; Para benzer homem tinha que ser levado a ela um pedaço de tecido novo de fazer vestido de mulher, um carretel de linha e uma agulha nova. Se fosse para benzer mulher levava tecido de roupa de homem, como por exemplo brim, mais o carretel e a agulha. A Benta tinha uma cavadeira de ferro, a pessoa a ser benzida ficava de costas para ela, que dobrava o tecido, rezava, perguntava:-" O que eu coso(costura), a pessoa repetia,perna ou braço trincado, carne rasgada, osso arrebentado. Então, quando a pessoa que estava sendo benzida acabava de repetir, a Benta dizia; isso mesmo eu coso. Iso era feito por tres dias. No primeiro dia repetia por três vezes, no segundo por cinco vezes e no terceiro por sete vezes. Então saíamos eu e minha mãe para o quintal da casa da Benta, que era vizinho do fundo do Gaspar, e ela levava a cavadeira. Eu o enfermo ficava de costas para a Benta, ela fazia um buraco e enterrava o pano. A benta sempre foi a minha benzedeira e eu diria com mais ou menos 80% de bons resultados. Faltam três que a seguir escreverei sobre elas.

Acrescento que graças aos esforços de minha mãe a nossa casa,na Porfírio, ainda não ruiu. Depois da rede de esgoto na calçada, as casas cujos tijolos são amarradas com barro ( não havia cimento),e apesar disso durariam uma eternidade( é só ver a data no alto da casa do se Calil) começara a rachar, ruir e lá estão num espetáculo Dantesco de pós guerra. Some-se a isso o espetáculo degradante das outrora lindas casas da Sorocabana com suas paredes pintadas todo ano, assim como as cercas, todas vermelho(tipo zarcão) e branco. Lindas de nunca mais sair de nossa memória. Temos então um espetáculo aterrador de decadência, daquela que foi a principal rua de Iperó e por onde passa qualquer reconstrução que queiramos fazer da nossa história. É triste para nós, que vimos. Somos comoas pessoas que viam e perderam a visão. Sentimos falta. Aqueles, cegos, que nasceram sem a visão, não saberão nunca sobre a rua se não contarmos a eles. Se não o fizermos, poderão pensar que sempre foi horrorosa como está agora, ou poderão cultivar os seus escombros e até explorar turísticamente dizendo que foi de uma batalha ocorrida em algum lugar do passado, talvez contra Boituva, sei lá...

 

 

Tanaka

É! nem a condição física e atlética ajuda o "craque perna de pau"; é tentar jogar bola e já estoura o joelho. Não fique bravo comigo, não, é só brincadeirinha viu! quá-quá-quá...
A gente precisa medir as palavras quando fala com são-paulino, afinal eles são muito sensíveis e delicados no trato e podem não gostar, né! quá-quá-quá...
Lembrei-me de uma coisa agora: lembrei-me de seu pai sentado ao pé de uma das portas do armazém; era uma brincadeira que ele fazia com a gente; nós devíamos ter entre 5 e 6 anos de idade; eu ainda morava ali na frente na casa da sorocabana; era assim: nós o provocando para que ele nos pegasse e ele ali esperando, sentado, paciente, que nós nos aproximássemos para dar o "bote" e pegar um de nós; a gente não queria querendo ser pego; sabe como é criança! tinha um certo medo mas queria ser pego; aí ele pegava a gente, punha no colo e começava a fazer cócegas no sovaco, mais embaixo na costela, até a gente não aguentar mais; depois outro e mais outro e assim ia; é, e assim ele nos divertia muito; e quanta paciência dele com todos nós. Me lembro dele assim, alegre e querendo agradar sempre a gente.

Esqueci de dizer que também fui benzido pela dona Benta muitas e muitas vezes. A Sidinézia (a Fia), filha dela, trabalhou anos e anos com a minha vó Sadda.

 

 

Augusto Daniel Pavon

Estive em Iperó, com pessoas que me fizeram muito emocionado. Estive com o Abílio, com o Fonso, hoje sem a "barbinha" que o caracterizava e que lhe rendeu o apelido. Estive com o pai deles, Jorge Nassif, figura muito querida, casado com a Lexa (Alexis), figura ativa, que hoje com 80 anos descansava de um dia na 25 de março na Paulicéia. Foi pessoa de destaque nos anos dourados(meus, pois era adolescente), quando brigou muito pela emancipação política de nossa cidade. Muito parecido com uma figura muito querida na Iperó de outros tempos, seu pai, Sr Abílio. Figura parecidíssima com o filho Jorge, olhos miudos, com uma barba enorme, branca, até um pouco amarelada com uma expressão de bondade infinita, calmo mas, que as vezes, quando colocava um osso quebrado no lugar ou expremia um abscesso, me parecia assustador. As pessoas, seu Abílio, Salomão, Simão, como os conheci, foram pessoas que me marcaram positivamente, cresci entre eles, fazem parte do meu dia dia. Houve um dia que marcou época, como muitos, para o velho Cine Sorocabana. Foi quando pela primeira vez seu Abílio e o Salomão, velhos e queridos libaneses da terrinha, decidiram assistir a um filme, parece-me que o Jorge me disse qual, mas não me lembro. Lembro-me sim da "MARQUESA" cadela enorme linda e bondosa como o dono, Seu Abílio. Havia também um cachoro enorme como a marquesa, que também era do seu Abílio,e que o acompanhava em todos os lugares. Bem, nesse dia foram seu Abílio, Salomão, a marquesa e o cachorro, todos ao cinema, ninguem se atreveu a impedi-los, entraram, se sentaram, os cachorros sob eles. As luzes se apagaram sob o som de um maravilhoso dobrado, o Hino da marinha Americana, que sempre era executado quando o filme ia ter início. Sempre. É lindo esse dobrado. Dobrados eram músicas maravilhosas executadas pelas Bandas, ativas, sempre nos parecendo hinos, que enchiam de alegria dias de festas, aquelas inesquecíveis que tem lugar de destaque em nossa memória, como por exemplos os dobrados "tocados" pela banda mais importante de minha vida, a COORPORAÇÃO MUSICAL SANTA CECÍLIA, A BANDA DA MINHA TERRA, quando seguia aquela enorme serpente que ocupava ruas de Iperó, a procissão de Santo Antônio, aquela que encerrava as festividades em louvor a esse querido Santo. Bem, o filme começou, ia se desenvolvendo até que a marqueza se desentendeu com seu parceiro numa briga e barulho infernal e, quando se entenderam e se acalmaram um dos dois (os cachorros "of course") deu uma bela "cagada" e o odor, o barulho, as queixas,as luzes que se acenderam, os dois libanezes que não estavam entendendo nem o filme, nem o que estava acontecendo, puseram em debandada metade do povo que lá estava encurtou o filme, mas todos permaneceram até o fim, dormindo, seu Abílio, Salomão, marqueza e seu companheiro, só acordando quando novamente o hino da Marinha Americana anunciou o fim da sessão. Existe lembrança mais linda????

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Grande Augusto Daniel.
Maravilha de texto ! Suas intervenções nos remete ao Iperó que só existe dentro de nós.Como você tem uma memória de elefante com certeza nos brindará com uma história do Cica e seu fiel companheiro Nero, do João Marques com seu cavalo Petiço e assim por diante.
Deus o abençoe !

 

 

Hugo Augusto

Nem me fale... o Augusto, com essa sensibilidade que tem, poderia transformar essas histórias num roteiro de filme... seria como o Cinema Paradiso mesmo, que já citamos anteriormente... são histórias de gente simples, mas com muito sentimento... que mexe com qualquer um que passa por aqui e tem a oportunidade de ler... além daqueles que tem o prazer de ouvi-las pessoalmente... enfim, essas são as verdadeiras crônicas, que o nosso amigo Pavon tanto defende e, realmente, são bastante interessantes dentro desse nosso trabalho de resgate histórico da cidade... ajudam, de forma riquíssima, a contar a nossa história... os causos... os detalhes... e tudo mais!!!

Fico admirando a forma com que tantos escritos tem sido compartilhados por tanta gente querida, como o Augusto, tia Ila, tio Zé Moraga, Tanaka, Suely, Eliana, Peixoto, Marcos Cunha, enfim, uma infinidade de pessoas que tem escrito com o coração. Então, achei interessante escrever um pouco também, a respeito da Iperó que conheci. Não menos interessante que aquela dos anos 50 e 60, mas uma Iperó que conheci somente uns trinta anos depois de vocês. Muitos personagens são os mesmos.
A criançada e tudo o que a gente aprontava. Durante grande parte da minha infância morei vizinho ao meus avós paternos, Dolores (Lôia) e Gusto Canaviá. Talvez as melhores lembranças venham desses poucos mais de dez anos de história. O “vô Gusto” se transformou, praticamente, numa das figuras folclóricas da cidade. Aos oitenta anos, pouco antes de falecer, ainda andava de moto, de bicicleta, dirigia o velho Corcel e executava uma série de atividades, não ficando parado de forma alguma. O famoso capacete branco em formato de ‘meia-lua’ era uma das marcas registradas dele. O jeito de falar. O andar, sempre arrastando os pés. As famosas frases e expressões. Quando não queria a gente por perto, dizia: “São daí”. Quando a gente fazia alguma besteira, nos chamava de “arcaide”. Pegava no pé do meu pai, por causa da bebida, sempre alegando o seguinte: “Ê, rapaz! Trabalhei vinte anos num alambique e nunca coloquei um gole de pinga na boca”.
Nos dias de churrasco, fazia questão de cortar carne para todos. O detalhe é que o corte era feito com o mesmo canivete que ele utilizava para fazer todas as demais atividades, inclusive limpeza das unhas. O “sanduba” que ele fazia para nós, que nada mais era do que um pão quente passado no óleo utilizado anteriormente para frituras. Aquela comida preparada logo pela manhã, talvez uma mistura do que havia sobrado do jantar anterior e misturado com cebola. Tinha um cheiro maravilhoso. Parece que sinto aquele cheiro ainda. A famosa “garapa” que nunca faltava. É tanta história. Ele foi um dos barbeiros pioneiros de Iperó e outro aspecto interessante a destacar é o fato de que ele "não perdia" um velório. Estava em todos.
Foi o “vô Gusto” quem nos ensinou a andar de bicicleta. Nos levava para a escola de manhã. Ele empurrava a bicicleta e nós íamos em pé nos pedais. Cada neto de um lado e também na garupa. E ele gostava de inventar, de criar. Havia uma bicicleta com o breque no pé. Quanta saudade. E muita história da “vó Lôia” também. Lembro bem que ela morria de medo de cobra. Quando passava alguma imagem de cobra em documentários da TV, ela imediatamente tirava os pés do chão e colocava sobre o sofá ou uma cadeira. Anos depois soube que aquilo se devia ao fato de que, quando moça, trabalhando na roça, num certo dia ela se ajoelhou sobre uma Cascavel e não percebeu. Aí o bicho começou a se movimentar debaixo das palhas (ou cana, não me lembro) sob os joelhos dela e, quando ela percebeu, precisou se levantar dali com muito jeito. O contato com a tecnologia, quando ganhou um celular. Fez a ligação para uma das filhas, minha tia: “Lange, vem aqui em casa que está perdendo banana”. Em seguida, não falou mais nada e desligou o telefone. O feijão com farinha. O ovo mexido. As histórias que a vó nos contava sobre tudo. Inclusive sobre a luta dela e do vô para que pudessem criar os oito filhos. Histórias da ferrovia. E, talvez, uma das mais interessantes seja a do dia em que, sem freios, uma composição desceu de Boituva para Iperó em menos de cinco minutos, segundo ela. Quando chegou à estação, o trem descarrilou e as gôndolas carregadas de pedra viraram e arremessaram toneladas de pedra em direção ao prédios da estação, quebrando praticamente todos os vidros. O maquinista era o Carlos Speglis e o meu vô estava no “caboso”, último vagão. Acredito que ele já era guarda-chaves na época. A origem do problema na locomotiva eu nunca soube. Isso foi em 1947.
A rua era uma festa para nós. Muitas brincadeiras. Pega-pega. Esconde-esconde. Queimada. Era só correria. Também chutava bola pra cima e pra baixo. Quantas vezes fiquei sem a tampa do dedão durante essas peladas. A gente aprontava muito. Éramos bons para subir em árvores. Não sei se hoje consigo ainda…
Ainda na minha infância cheguei a ser coroinha. E falava que um dia seria padre. A gente, enquanto criança, acha tudo muito bonito. Depois, conhecemos melhor as coisas e vemos que nem tudo é da forma como imaginávamos. Mas, foram cinco anos auxiliando o padre Calixto. Certa vez, derrubei toda a água que seria utilizada pelo padre durante a missa. Derrubei sobre o altar, no meio da missa. Ali conheci muita gente. Eu era o xodó. Era o mais novo de todos. Quanta gente boa entrou na minha vida ali. Mas, talvez, as melhores lembranças desse período sejam as passagens que vivi com um casal espetacular. Benedito Antunes e dona Odete. Eram os ministros naquela época e foram os que primeiro me acolheram quando me tornei coroinha. Tínhamos muito contato, éramos muito próximos. Eu era praticamente mais um dos netos deles, tamanho era o carinho com o qual me tratavam. Para onde iam fazer celebrações (lembro bem do Sapetuba, Corumbá e Bacaetava) eu ia junto. Uma vez caí na igreja do Sapetuba na frente de todos, no meio da celebração. Lembro que eles tinham uma Belina, com a qual íamos para todas essas igrejinhas dos bairros mais distantes. A sineta que me ensinaram a tocar no momento da consagração. Um, dois, três toques. Sempre fui muito precoce. Aos sete anos eu fiz, pela primeira vez, uma leitura na missa. Aos oito anos, ainda com aquela vestimenta de coroinha, fui comentarista pela primeira vez. Era uma batina vermelha com uma espécie de capa branca por cima. Houve uma vez em que dormi durante o sermão e cheguei a roncar. Eles precisaram me acordar. Outra vez eu estava sussurrando algumas músicas durante o sermão e eles precisavam me “avisar” que todos os demais estavam ouvindo. Foi ali também que aprendi a imitar o padre Calixto. Coisa que, por sinal, faço até hoje.
Dos amigos daquela época, talvez o Dito Scruph seja o que continua bastante próximo e com o qual já fizemos muita coisa boa dentro da igreja na área da música. E por falar em música, impossível não citar o Antímeo Martins (irmão do padre Calixto), grande músico, organista e cantor. Inconfundível aquela voz, sempre no fundo da igreja, acompanhando as músicas. Também não dá para esquecer o saudoso Ricardo Pedroso Ramos, pessoa tão participante das atividades da igreja durante tantos anos e, hoje, pouco lembrado pelas pessoas. Fica aqui a homenagem, pois o Ricardo marcou época. Ele era a pessoa que, de certa forma, disciplinava as procissões. Vivi aquela época em que as pessoas ainda formavam duas filas, uma em cada lado da rua. O Ricardo ia com a cruz, à frente, e não deixava que ninguém passasse à frente dele. Puxava orações e músicas. Eu ia por perto dele com a matraca. Fazia um barulhão. As mãos ficavam cheias de bolhas após a procissão. São tradições que já não existem mais, infelizmente. Tudo isso, na época da também saudosa matriz antiga. Quando o Ricardo não ia à missa, eu chegava mais cedo para subir e tocar o sino. Era emocionante. Duas cordas que a gente puxava de forma alternada, através das quais os sinos se movimentavam e saía aquela música (DIIIN-DÓN-DIN-DÓN-DIN-DÓN-DIN-DÓN-DIN... DIIIN-DIIIN) convidando as pessoas a participarem da celebração que estava para começar.
Havia tantas outras pessoas que posso citar, como a Sônia e o Paulo Lino, dona Maria Lino, dona Cida “42”, Cacilda, Cidinha, Lisa, Donizetti, Alcebíades, Carlinhos Feliciano e Claudete, Terezinha Guimarães, além dos saudosos Bignardi, dona Minervina (que fazia o famoso arroz com frango nas festas), dona Catarina e senhor Pedro Berton, dona Zezé e senhor Tristão Rosa, Bibe, dona Nenê (mãe do Tanaka) e mais uma infinidade de gente, cujos nomes não me vem à mente agora. A dona Nenê sempre tão carinhosa com a gente. Toda vez que eu passava próximo à casa dela, ela me chamava para conversar. Sempre rápido. Mas isso me marcou também. A imagem de Nossa Senhora Aparecida, sempre tão valorizada pela família dela. Durante anos ficou naquele mesmo lugar, construído especialmente para a imagem. À noite, inclusive, havia uma luz para reforçar a presença de Nossa Senhora naquele local.
A gente brincava bastante na praça e no coreto (o segundo, aquele que ficava na esquina). E ali era o lugar onde o pessoal da “velha guarda” se encontrava. O Canal (sempre bravo), o meu vô, o Felício Eid, o Chico Cóvos, o Urciles e tantos outros. Era sagrado aquele encontro deles. Praticamente todos os dias ficavam sentados na parte de baixo do coreto durante um bom tempo. Talvez relembrando tantas histórias, como temos feito neste espaço. Ali no coreto, lembro-me de um comício, certa vez. O Bira, então candidato, aproveitou que havia terminado a celebração de um casamento e, com o casal já saindo da igreja, disse: “Que Deus o tenha esse casal que acabou de se casar”. Virou motivo de piada.
Para encerrar, queria aproveitar e falar sobre um dos meus grandes amigos de infância. Douglas Corrêa de Queiroz. A gente vivia junto. Saíamos da escola, almoçávamos e praticamente passávamos o resto da tarde com outros amigos, primeiro fazendo as lições da escola e depois brincando. O Darlan, irmão caçula dele, estava sempre por perto. Eles eram filhos do “Marrom” (Geraldo) e da Léa. Apesar de ainda criança, mas sabendo o que aquilo tudo significava, o dia mais triste foi quando soubemos da morte deles. Morreram no dia de Finados e foram enterrados no dia seguinte, 3 de novembro, aniversário do Douglas. Ele faria nove anos. Era um mês mais novo que eu. E mesmo hoje, mais de 16 anos depois, aqueles três me deixam com muita saudade. Emoção grande foi o dia em que, sem esperar, a Léa chegou no banco e me reconheceu. Tivemos que nos conter, senão teríamos chorado ali mesmo, no meio de todos.
Enfim, há muitas lembranças. E com o tempo espero continuar escrevendo e compartilhando com vocês. Grande abraço!!!

 

 

Augusto Daniel Pavon

São muitos "IPERÓS", Iperó de cada um. Um não menos importante que o outro. É só passar pro computador, deixar fluir, como sabe, sem preocupações com correção que num futuro o Hugo (que hoje desencantou e mostrou uma pequena parte da sua Iperó - tem que continuar) fará. Muito bom Hugo!

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Madrugada abafada de um dia qualquer de verão. Cheiro de dama da noite, embaixo do flamboiant da nossa praça matriz.Todos os bares fechados, só o Felicio estava aberto para atender uma ou outra equipe de maquinistas e chefes de trem que chegavam.As luzes dos postes trêmulas e bêbadas produzindo alguns espectros. Somente a portuguesa de neon, aquela que segurava um frango assado da Cantina São João (leia-se bar do Bibe ) permanecia sóbria.
Eu, um neófito da boêmia, presenciei , fui testemunha ocular e auditiva do encontro de dois monstros da musica local : Dimas de Campos e Benedito Godói. Naquela madrugada silenciosamente, como todo bom ouvinte, com duas cervejas compradas no bar do Felício, e três copos fui agraciado pela genialidade do Godoi no violão e Dimas (sem instrumento) cantarolando sambas, sambas canções,todo tipo de dor de cotovelo, enfim tudo que era de bom do cancioneiro ( chique,né) .
Após Godoi tocar uma musica,Dimas emendava :
Compadre, agora toca aquela .Se Godoi tinha alguma dúvida , Dimas fazia com a boca o som do violão: tá - dim - dom - dom -tá.
Fiquei horas ali,no meu canto, apenas sorvendo todo aquele clima, previlegiado, satisfeito . Foi a primeira vez que detestei ser interrompido pelo canto do galo.
Como diria Augusto : existe lembrança mais linda ?

 

 

Tanaka

Que maravilha foi ler tudo o que vocês acabaram de escrever; dizer maravilha é pouco eu sei, mas não tenho capacidade intelectual para adjetivar tudo que acabei ler e ver; é, digo ver, porque ao mesmo tempo que lia eu fiquei criando as imagens de tudo o que foi dito.
Hugo, eu também fui coroinha e fazia tudo o que você acabou de descrever a respeito. O sonho idealizado por meus pais era que eu fosse padre. Como alguns sabem, o padre que vinha de Conchas ficava em casa entre sábado e domingo para as celebrações religiosas naqueles tempos idos; pois bem, e não é que eles até acabaram por me convencer a ir para o seminário para ali estudar; e num daqueles fim de semana eu acabei acompanhando o padre no domingo quando ele regressava para o seminário; as viagens de ida e volta eram feitas de trem; só que eles não imaginaram que eu me formaria em teologia em uma semana, pois no sábado seguinte estava eu já de volta com o mesmo padre regressando para Iperó. Sabem o que aconteceu durante a semana que eu passei no seminário: eu passei a semana inteira chorando ali e não houve outra alternativa para o padre senão me devolver em casa novamente para os meus pais no sábado seguinte quando ele também para cá vinha; todos aqueles meninos internos do seminário fizeram tudo para que eu me adaptasse ao ambiente, mas não houve jeito de me convencer para eu ali permanecer.
Como se pode ver, essa foi a minha grande experiência em teologia e em interno num seminário.

 

 

Augusto Daniel Pavon

Muito bom!!!!!!!!. Fico feliz. Pensem sempre que com as nossas histórias, estamos refazendo a história maior que surgirá, a história da "GENTE" de Iperó, que é nossa gente. Lindo o que o Tiguera escreveu!

 

 

Hugo Augusto

O carro do vô Gusto, lembro como se fosse hoje, possuía dois furos no assoalho. Um de cada lado. A gente adorava levantar os tapetes e ficar vendo o asfalto passando ali embaixo. Quando ele e a vó iam fazer compra em Boituva (no SESI ou no Supertuba… meu Deus, estou ficando velho…), a gente não via a hora que eles chegassem de volta. Sempre nos traziam doces. Coisa de vô e vó mesmo. A mesma coisa acontecia quando eles participavam daquelas romarias para Aparecida. A gente ficava esperando os ônibus chegarem de volta, na praça, para poder encontrá-los. Já na casa deles, havia a distribuição dos brinquedos (ou “lembrancinhas”, como eles falavam) para os netos. Nunca me esqueço de um pião que, diferentemente dos tradicionais, a gente dava corda, colocava no chão e ele saía rodando. Não precisava de barbante.
Certa vez, o vô construiu uma “carrocinha” e, presa ao carro, nos levava pra cima e pra baixo. Nem tínhamos noção do perigo. O Canaviá gostava de fazer as famosas “gambiarras”. Era a marca registrada dele. Num outro episódio, minha irmã se machucou e ele, sem pensar duas vezes, tampou o machucado dela com cimento. A famosa moto Java que ele possuía e era um xodó. As frutas sempre tão presentes no quintal da casa e também no “lote”. Goiaba, manga, ameixa, abacate, pitanga.
Mas, talvez, a cena mais interessante que presenciei, foi num dia em que ele saiu de casa e não falou nada para ninguém. Havia um parque montado no lugar onde hoje é a piscina do Esplanada. Naquela época, só havia o buraco e algumas ferragens. Pois bem, como éramos crianças, adorávamos ir ver o parque e brincar. E não é de ver que o vô estava lá! Acredito que ele tenha ido realizar um sonho ou coisa parecida. Andar no chapéu mexicano. Aquele brinquedo com cadeiras presas em longos cabos, que giram bastante e rápido. Corremos chamar as tias para que vissem aquela cena também. Ficamos todos admirando o Canaviá no chapéu mexicano. Naquela hora, tenho certeza, ele voltou a ser criança. E nunca mais se falou sobre tal episódio.
Então, é por isso que acho que grande parte das alegrias nos são proporcionadas graças à convivência com nossos avós. E quando eles partem, levam muito disso com eles. As coisas não são como antes. Tudo fica mais frio, não sei. Posso estar errado, mas é a impressão que tenho. Não há saudade maior do que as vezes em que íamos até a Bela Vista para “escolher” pequenos pinheiros que eram transformados em árvore de Natal e ficavam enfeitando a casa durante todo o período do Natal.
Também éramos vizinhos do Jamyl Eid (Jamir). Era uma pessoa bacana, apesar do jeitão dele. Sempre nos oferecendo caju, jabuticaba ou água de poço. E água de poço é uma delícia. Nem sei se a criançada de hoje chegou a experimentar água de poço, tirada daquela forma tradicional. Um balde preso a uma corda que vai até o fundo do poço. Depois a gente enrola a corda até trazer o balde de volta e cheio d’água. Coisas simples, mas que perderam espaço para o computador, para o vídeo-game e tantas outras banalidades. Infelizmente. O Jamir é outra figura folclórica da cidade. Estava, diariamente, fazendo o “carreto” dele. Havia aquela carroça com o famoso “freio-manivela”. Nunca entendi muito bem como funcionava. Mas sempre via ele girando muitas vezes aquele mecanismo e o animal podia fazer a força que quisesse, mas as rodas estavam travadas e a carroça não saía do lugar. E o Jamir era sempre bravo. Sempre falava muito palavrão. Mas, engraçado, com a gente ele nunca levantou o tom da voz. E como para criança tudo é festa, a gente ficava esperando para ver o Jamir somente de cueca, sentado na frente da casa dele à noite. Para nós aquilo era engraçado. Quase toda noite ele estava lá. E era normal. Não havia malícia. Lembro também de uma vez em que a “mula” (ela tinha um nome, mas não lembro agora) dele não aguentou e caiu em frente ao posto de saúde. Foi uma luta para conseguir tirá-la de lá. Tudo o que era possível, ele transportava naquela carroça. Até mesmo um guarda-roupa eu vi em cima daquela carroça. Então, não é de se estranhar ver o animal passando mal devido às cargas que transportava.
Na escola a gente aprontava muito. Todo primeiro dia de aula a minha me levava à escola. Havia aquela chamada já na porta da sala onde ficaríamos durante todo o ano. Acho que até a terceira série foi assim. Nos outros anos eu já fui sozinho. Minha primeira professora foi a minha tia, literalmente. A tia “Crá” (Clarice), irmã mais velha do meu pai. Devo muito a ela. Talvez, se não fosse pela tia “Crá”, acho que esse espaço nem existiria hoje. Falo isso, pois foi ela que, ainda naquela época, há vinte anos, sempre me incentivava a escrever. Foi ali que comecei a tomar gosto pela escrita. E a partir dali, nos anos seguintes, descobri que seguiria a carreira de jornalista, motivado, dentre tantas outras coisas, por essa paixão pela escrita. E a tia “Crá”, não apenas pelo fato de ser minha tia, sempre foi muito atenciosa com todos nós, alunos. Não deixava ninguém se distanciar e, ao mesmo tempo, valorizava a participação de todos. Até mesmo os exercícios que a gente fazia na lousa me deixam com muita saudade. A gente estava começando a escrever. Aprendendo ainda. Então, às vezes saía alguma letra meio “estranha”, precisávamos fazer novamente. E isso foi importante, como tudo foi importante. A gente não via a hora, também, das aulas de educação física e artística. A professora Ginalva era de educação artística. Nome diferente. Acho que por isso nunca me esqueci. A Estela era a professora de educação física. E, num certo dia, durante os exercícios na quadra, não sei o que passou pela nossa cabeça (eu, o Felipe Pegoretti e o Rodrigo Lolli), mas combinamos de passar ‘rebolando’ durante todo o percurso e com as mãos na cintura. Não sei se era para fazer graça com as meninas, não sei. Só sei que a Estela nos deixou um bom tempo sem o futebol, que era tão importante para nós. E nunca mais pensamos em fazer qualquer bobagem dessas novamente.
Engraçado como algumas lembranças surgem nos momentos mais improváveis. Às vezes, durante o dia, durante o trabalho, algumas cenas desse tempo começam a surgir como se fossem no dia em que aconteceram. E muita coisa que estava há muito tempo guardada em alguma gaveta do cérebro, começa a ser “revivida”. Lembro de algumas outras professoras da época. Ana Guazelli, Sônia Sartorelli, Celina, Vilma, Cidinha Gaviolli, além dos diretores Sílvia Paula Leite, Paulo Zovaro e Eney. Quando entrei no Gaspar, era o último ano da dona Eney, diretora pulso firme. A gente morria de medo dela. Quando ela olhava para a gente, já dava um nó na garganta e uma vontade de chorar. Medo. Mas era uma época boa. O Gaspar era uma escola bem conceituada ainda. E dali, saiu muita gente competente, em diversas épocas, para atuar nas mais diversas profissões.
Certa vez, num evento preparado para os alunos, inventaram de me escalar para imitar o padre Calixto. Não pude recusar. No dia, coloquei a roupa de coroinha e fui. Chegando lá, em frente àquele monte de crianças e professores, não sabia muito bem o que falar. Só o fato de estar com a vestimenta de coroinha já era motivo de festa para a criançada. Ai, peguei o microfone e disse: “Eis o mistério da fé!” E já envergonhado, queria sair logo dali e dar o lugar para o próximo. E o pessoal gritou: “Só isso?” Então, voltei e disse: “Tudo isso é mistério da fé!” E o pessoal veio abaixo… muita risada. Aí peguei a famosa frase do padre Calixto e comecei a falar um monte de coisa: “Caros irmãos: adultos, adolescentes, jovens e minhas queridas crianças…”
Tempo bom. Sempre me escalavam para teatrinhos. Uma vez fui marinheiro. E a gente precisava arrastar um barquinho no chão da quadra. Cada coisa que inventavam, mas era legal. Outra vez fui encenar a música “Fogão de lenha”, onde eu era o filho que havia saído de casa. Participei das gincanas de arrecadação de lixo reciclável, que movimentaram toda a escola. Mas num certo dia, chegamos à escola e todo o material havia sido queimado. Nunca foi solucionado aquilo. Nunca se descobriu a autoria daquele incêndio. Para nós foi uma grande tristeza. Tanto trabalho, que em poucas horas foi consumido pelo fogo. Algum tempo depois foi a vez de o cinema ser incendiado. E também nunca foi descoberto o responsável por aquele crime. Pode até ser que um dia tudo isso ainda seja resolvido. Não sei. Senão, vai continuar na galeria dos mistérios que envolvem a nossa cidade.
Enfim, há muita história para contar!!!

 

 

Tanaka

Hugo, numa das passagens do seu belo "conto", você se refere ao meu tio Jamil; de fato ele era sem dúvida uma pessoa "sui generis" da nossa terra; uma figura humana ímpar; mas, olha, uma alma boa aquela e, prestativo sempre. O que lhe pedisse, estava ele disposto a fazer pra gente. Um "transportador", um "carregador" daquele tempo e, com um meio de transporte também único: a sua inseparável carroça e este ou aquele animal, pelo qual ele tinha um imenso carinho.
Talvez alguns não saibam, notadamente os mais jovens, mas a sua casa, aquela que ele fez o seu lar e a sua propriedade material mais valiosa, foi ganha num sorteio da então famosa, àquela época, a "Cesta de Natal Amaral". Àquela época, a referida "Cesta" sorteava uma casa entre todos os seus adquirentes; e não é que foi o Jamil o sorteado e ganhador dela; ficou fixado na parede da frente da casa durante um bom tempo, uma espécie de propaganda que dizia que a casa tinha sido ganha no sorteio da cesta.
Ele de fato era uma pessoa singular; vivia falando, ou melhor, falava gritando pra quem quisesse ouvir, mas era de uma bondade ímpar. Ele chegava a negar a sua nacionalidade, mas tinha um fundamento pra ele; era a notícia da corrupção; era a sua maneira de expressar, de gritar a sua revolta por causa da corrupção que grassava e grassa a nossa sociedade nos seus mais variados setores, embora para a sua ingenuidade isso só ocorresse na nossa sociedade, quando ao contrário está implícita no ser humano, infelizmente, em todas as culturas do mundo. Bem, que saudosa lembrança pra mim é ele.
Ah! e o poço d'água. Também em casa estava lá, a chamada por nós, a área do poço, todo protegido, com área coberta e envidraçada para o seu melhor asseio.
Quem o construiu em casa foi o Canal (de saudosa memória); é, ele era o "expert" no furo do poço, todos diziam em Iperó, além de futebolista, mas principalmente ferroviário. De casa saíram muitos baldes d'água para as vizinhanças. A gente bebia água do poço, sem nenhum tratamento, por entender que aquela água, sim, era de uma pureza sem igual. E, até que podia ser, já que não havia nenhum relato de qualquer doença de quem a tivesse ingerido, coisa que hoje é inconcebível, não é mesmo. Ou se houve, niguém soube...Ela servia para fazer a comida, para tomar banho, pra tudo enfim; enchia-se a caixa d'água do banheiro para tomar aquele gostoso banho de chuveiro. Bem, isto foi quando havia o chuveiro, pois anteriormente era o famoso banho de "caneca"; é, o famoso banho de caneca, depois de ter sido a água esquentada no formidável fogão de lenha.
Tudo isso, é claro, nos traz saudosas recordações, enfim, e que foram relembradas pelo Hugo.

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Tanaca,
Tenho uma foto que fiz do Jamirzinho e Pepê na carroça. Creio que foi logo após a morte do Jamil.
A propósito : a casa sorteada pertenceu ao sr.Luiz Constantino pai da Deise.

 

 

Hugo Augusto

Sim, Tanaka. O "Jamir", juntamente com uma infinidade de pessoas da nossa 'terrinha', faz parte de um grupo (enorme) de pessoas que não podem ser esquecidas de forma alguma. Por isso, é sempre bom a gente relembrar aqui...
Grande abraço,
Hugo.

 

 

Tanaka

Meu amigo Moraga, é verdade, agora você me fez recordar do sr. Luiz Constantino. Você e o Augusto têm uma memória que vou te contar...; a cachola de vocês funciona mesmo, hem!!! Eu já não me recordava desse detalhe.
Um grande abraço.

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Sessão da Câmara de Iperó,por volta de 1967 mais ou menos, primeira gestão do Zé Borba.
O Executivo encaminhou para o Legislativo um projeto para se construir um portão novo no cemitério local.
Alguns vereadores defendiam o projeto e naturalmente o seu custo,enquanto alguns diziam que o custo era muito alto,tinha que se escolher uma outra alternativa,etc..etc..
A discussão avançou noite adentro até que o vereador José Alves, uma figura boníssima, e cá entre nós que o conhecemos , era um Lorde ,
pede a palavra e o presidente Pedroso anuncia : com a palavra o nobre edil José Alves.
José Alves caminha lentamente até a tribuna e dispara :
- Minha gente estamos discutindo a toa, não há sentido nessa discussão toda.
- Como assim ? aparteou outro edil.
- Ora, disse José Alves , prá que portão no cemitério ? Pois quem tá fora não quer entrar e quem está dentro não pode sair.
Depois dessa pérola,o sr. Presidente encerrou a sessão.

 

 

Elisabeth Rodrigues

Moraga, parabéns pelo excelente texto. A música, em todas suas nuances fazem parte do espírito iperoense. Fiquei com saudades dos flamboyans da antiga praça; aliás nela estão faltando plantas, flores, para que ela tenha mais vida. E por falar em praça me lembrei dos brinquedos que eram vendidos na FESTA DE SANTO ANTONIO. Acho que as bolinhas de pó de serra, com o elastiquinho eram as mais vendidas, juntamente com um passarinho amarrado num fio, que a gente virava em círculo e ele assobiava e movimentava o rabo de penas coloridas. Isso no tempo de criança. Já mocinha vinha o correio elegante que as vezes vinha escrito em ZENIT POLAR .

 

 

Tanaka

Uma lembrança de infância que agora vejo e sinto que estava bem guardada pra mim é a da época da colheita da safra de milho verde; foi só dar um empurrãozinho para ela ser reavivada; e o que foi o bastante para relembrar deste fato foi o recebimento de uma foto enviada para mim pelo Hugo onde estamos todos nós. Havia um bonito laço de amizade entre a família do "seo" Carlito Sartorelli e da "dona" Isabel e os meus pais e os meus tio Úrciles e a tia Júlia; estes eram inclusive os padrinhos do Nenê. Dos irmãos do nenê eu convivi mais com ele do que com os outros por ser ele o da minha geração; eu sou um ano mais velho do que o nenê; até hoje o tenho como um grande amigo. Os seus irmãos mais velhos são praticamente da geração do meu irmão, notadamente o Laércio.
E então, naquele tempo na época da colheita do milho, o seo Carlito transportava todos nós para o seu sítio para comemorar a safra do milho, como era do seu costume e até mesmo pra agradecer ao céu, como se costumava dizer, ou mesmo como uma confraternização entre famílias, a bem do gosto de então. E a comemoração era feita como um alegre acontecimento para todos, com muita satisfação e porque não dizer com muita fartura, principalmente na cozinha, ou seja, com as senhoras cozinheiras nossas mães fazendo panelões e mais panelões de pamonha, de curau, de bolo de milho, enfim de quase todo tipo de iguaria do milho; e é claro, para comemorar a safra mencionada; ah! e tudo isso era feito no fogão de lenha, né. E que delícia era degustar tudo aquilo; e comer até não poder mais; nada de restrição de quantidade, pois a fartura era grande; e como cozinhavam as "nossas cozinheiras"; a gente comia mesmo era com gulodice de tão saborosos eram aqueles pratos; comia muito porque gostava mesmo; nada que pudesse ser forçado; e que "mãos pra cozinha" elas tinham; comer o milho verde assado também era uma delícia; a gente espetava o dito cujo, segurava na ponta do espeto e o depositava na brasa, apenas tomando o cuidado de virá-lo até que ele ficasse assado por inteiro e iqualmente; depois era só comê-lo com muito prazer, pois era esse sentimento mesmo que a gente tinha; acho até que fazê-lo, como comumente se faz hoje cozido na água quente, não era usual. Eu, pelo menos até hoje prefiro comê-lo assado, se bem que aqui na cidade eu tenho que comê-lo cozido.
E nós crianças também nos divertíamos muito naquele imenso espaço de terra, antes e depois das refeições. Fazíamos diversas brincadeiras, como não poderia deixar de ser. Fazíamos um cercado circular como se fosse uma arena para brincar de tourada, já que o sítio lembra gado e lá também tinha os seus, e lá lembrava iqualmente a vontade de todo interiorano, pelo menos à época, de ser peão de boiadeiro; e, na "arena" éramos, fazendo um revezamento, uma hora toureiro outra vez touro, e assim íamos passando o tempo. E não é que em algum momento, na mangueira lá existente, ou curral, até que tentávamos montar num bezerro menor de verdade , levados que éramos pelos mais velhos. E o bezerro mal que saia mesmo que devagar do lugar e nós já caíamos nos esborrachando no chão; algumas vezes saíamos embosteados mesmo (quá-quá-quá); que palavrão, né, não leiam na hora da refeição, tá! Mas que curral não tem bosta de gado, né! Fico imaginando aquele tempo o sitiante tirando manualmente o leite da vaca e ela soltando um punhado de bosta perto do vasilhame de depositar o leite... já que a dita cuja vinha lá de cima na vertical, quando a referida se estatelava no chão se espalhava toda e também respingava, né, podendo alcançar o recipiente do leite, não é mesmo. A distância entre as tetas e a origem da mencionada é pouca, né! Bem, com efeito era fazer de tudo que tínhamos direito e vontade por todo aquele espaço de terra que tínhamos à nossa disposição.
Bem, e ao fim do dia, depois de muitas brincadeiras e comilanças, voltávamos nós pra casa carregados com ainda muita quantidade de tudo o que tinha sido lá feito, para podermos nos deliciar e degustar aqueles quitutes nos dias seguintes; e, também muito cansados, sujos, porém satisfeitíssimos por temos passado tão maravilhoso dia. Como ficávamos o tempo todo praticamente brincando fora da casa, (ademais criança naquele tempo não participava de conversa de adulto), hoje fico imaginando quantas conversas não rolaram lá dentro entre os adultos, bem como quanta satisfação eles não externaram por terem passado um dia todo reunidos "jogando conversa fora", como se costuma dizer e, numa confraternização entre amigos que se apreciavam muito; eles devem ter rido muito também de todos os possíveis "causos" contados daquelas maneiras peculiares deles. Bom, penso que são boas lembranças estas. Até hoje sou um comilança sem igual e com muito gosto de tudo o que provém do milho.
Me lembro também agora, mas já numa fase de jovem adulto, que o Aleixo costumava convidar boa parte da nossa população para também a comemoração de uma determinada colheita, com um grandioso churrasco na sua propriedade; agora não me lembro de que grão era a colheita, mas pelo menos uma vez eu estive lá; lá se matava uns bois, cuja carne era assada numas valas de boa extensão que eram abertas no chão para esse fim. A quantidade de gente era grande, e haja carne, e haja espaço para assar a carne, portanto, para todos. Não sei a origem deste tipo de assar carne, mas penso que seja do nosso sul do país.
E a sopa de milho verde com galinha na casa do Zé Borba; bastava começar a escurecer um pouco e íamos nós à cata do milho verde e da galinha. E por que eu disse escurecer? É, a gente fazia isso à noite pra não sermos pegos "roubando" o milho e a coitada da galinha. E olha, que sopa aquela! Era de "lambê o beiço"; parece que feita dessa maneira ela ficava ainda mais gostosa. Bem, hoje eu posso confessar esse fato, pois o delito praticado já está prescrito pelo tempo decorrido e, a punibilidade extinta.

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Tanaka,
Mais uma bela historia. As galinhas roubadas eram da Dona Catarina, o Toninho Caçapa normalmente era o encarregado . A noitinha entrava no galinheiro e com um pedaço de pau colocava suavemente nos pes das galinhas, tranquilamente elas subiam sem dar um pio.
Abraços

 

 

Hugo Augusto

Já encontrei essa história em várias fontes. Então, não deve ser piada. Rs...

"O coronel Toniquinho Pereira era chefe político em Itapetininga, quando se viu obrigado a receber o governador Jânio Quadros, seu adversário, na estação ferroviária de Iperó. Foi cheio de má vontade. Assim que o trem chegou à estação, Toniquinho foi logo reclamando ao chefe da estação, dizendo que uma fagulha entrara no seu olho. O chefe da estação esclareceu que não podia ser, pois o trem era elétrico. Toniquinho reagiu: 'Então foi um quilowatt'"

Será que o chefe da estação era o sr. Bertolli? Alguém se lembra, para confirmar? Deve ter sido por volta de 1956.

 

 

Augusto Daniel Pavon

Sei não, mas acho que foi 59/60. Sá porquê, essa foi a época dá "....varre varre vassorinha, varre varre a bandalheira; o povo já está cansado, de viver dessa maneira...." Esse era o hino do Jânio e a vassourinha seu sìmbolo. Sua eloquência,sua figura grotesca enquanto candidato, seu carisma, seus olhos esbugalhados eram mais ou menos os mesmos que vimos em outra figura; aquela que não usava vassoura, mas saia caçando "Marajás" e terminou de forma também melancólica. Bem, deixemos isso de lado; naquele dia, o dia de sua passagem por Iperó, ele ainda governador do estado, estava já em campanha à presidência do país, com dona Eloá, sua querida esposa, e Tutu, sua filha, aquela que na sua velhice o processou por herança, carregando em seu colo um cachorrinho "pequinês", muito em moda na época. Campanha enquanto governador, nada diferente de hoje.Bem eles vinham em um trem especial, no último vagão, sofisticadíssimo. Eu tinha 12 anos e acho que fui escondido à estação, não para ver o Jânio, mas para pegar as vassourinhas que eram para ser pregados, "botons", como os trevos do Ademar de Barros, Os pintinhos do Carvalho Pinto. Elas, as vassourinhas, foram atiradas, e eu as peguei, como todos. A estaçaõ estava lotada. O Jânio era um populista como o Collor, o Lula, e o povão estava hipnotizado(vide Lula).Os Ferroviários em massa eram Jânio, como os metalúrgicos são Lula. O trem parou, todos foram ao último vagão, praticamente sufocaram o vagão. Nós, a mulecada, de longe prá não sermos trucidados. Resumo; tiveram que se contentar com a Tutu e seu pequinês, porque Jânio estava deitado, alcoolizado, sendo atendido pela sua querida esposa Eloá. Não importa, foi eleito presidente, renunciando depois de um medíocre início de governo e, nós enriquecemos nossas coleções de "botons". Nada muda, só a nosa idade. "Tudo como dantes no quartel de Abrantes"

Meu querido Hugo, como dizia um grande amigo meu, iperoense doentio, falecido e repousando no "campo santo" de nossa cidade; " eu não vi o dilúvio mas pisei na lama.....

 

 

Hugo Augusto

Augusto, é isso mesmo! Você tem razão e MEMÓRIA BOA!

Quem sabe o Jânio passou por aqui em campanha? O trem era um dos principais meios de transporte de passageiros na época e ele precisava de votos das mais diversas regiões (tronco / ramal) para chegar ao governo do Estado. Enfim, susposições...

O fato é que Jânio foi empossado governador somente em 1955 e ficou até 1959. E depois se candidatou a presidente, conforme você citou anteriormente (1959/60).
Grande abraço!!!

 

 

Augusto Daniel Pavon

Penso que em 54 o governador do Estado de São Paulo, Lucas Nogueira Garcez, esteve em Iperó para inaugurar o "Grupo Escolar Dr Gaspar Ricardo Jr.". Neste ano eu estava no "jardim da infância" no Pernoite com a Profa. Henory, pessoa maravilhosa. Você não se lembra disso Hugo? Seu pai, sim.

 

 

Hugo Augusto

Augusto, o governador Garcez esteve aqui em março de 1953 para a inauguração.
Não sei se meu pai se lembra exatamente do dia, mas ele sempre fala sobre a criação de cabras que havia no prédio do Gaspar (ainda em construção) e também dos ciganos que ali ficavam durante temporadas. Tudo isso antes de o prédio ser inaugurado. Depois, foi só escola mesmo... rs...
Grande abraço!!!

 

 

Tanaka

E agora veio-me à memória, já que o assunto acima aborda a passagem de alguns políticos que por aqui estiveram, para fazer o registro e, claro, sem nenhum juízo de valor, de um que inclusive esteve na casa do meu tio Calil, ou seja, o do ex-governador Adhemar de Barros. Meu tio Calil era "adhemarista rôxo"; tinha até a foto dele numa moldura na sala. Bem, os menos moços (rs) sabem das participações políticas do meu tio, aliás de vários dos meus tios. Diziam, até, à época, que o meu tio tinha as "portas abertas" de algumas Secretarias de Estado quando vinha à São Paulo. O meu primo Toniho, cujo prenome completo é Adhemar Antonio, o Adhemar aqui do prenome é em homenagem ao Adhemar governador.

 

 

Augusto Daniel Pavon

Há um e.mail que circula, dos mais significativos que vi, comparando nossa vida ao percurso de um trem (trem, palavra doce, como um mel, nos ouvidos do iperoense de meia idade, como o Tanaka), que , por exemplo, partiria de Epitácio com destino a estação de Júlio Prestes. Em nossa vida, digo em nosso trem, durante esse longo caminho, coisa aconteceriam que nos marcariam.Pessoas estariam conosco desde a partida, amadas, conosco em cada curva, ondes encontramos dificuldades, em cada reta onde a calma é maior, em cada estação, conosco dia e noite,fazendo com que o nosso amor vá a cada dia se tornando maior e de repente para nosso desespero, tristeza, saudade, sem que acreditemos, deixam o trem, subitamente desembarcam deixando um vazio imenso. Pessoas há que entram em uma estação, no meio do percurso, ficam menos tempo,mas nos marcam profundamente, deixando um imenso aprendizado, outras entram e saem sem que, siquer, as vejamos; enfim passageiros existem de todos os tipos enquanto realizamos nossa viagem, como trem que somos, até nossa morte, digo a estação de Júlio Prestes. Meu trem, prá minha felicidade, fez uma parada muito grande em Iperó, talvez por falta de eletricidade, falha mecânica, maquinista tomou um "fogo" e ficou no pernoite mais tempo ; não sei, durou mais ou menos 25 anos. Esse tempo ,pouco, foi o suficiente para que passageiros embarcassem, marcassem de uma forma definitiva e positiva a minha vida, de forma que, 60 anos depois, eu ainda me lembre de detalhes e, com alegria, dos mesmos. Essa convivência foi extremamente saudável para a formaçao de minha personalidade, prá que eu pudesse endender, embora aprecie a sofisticação, que a excência de tudo reside na simplicidade, no café cum leite, no bolo de fubá da tarde, no bolinho de chuva da dona Ruth, no pão com manteiga, no pastel de minha vó, no charuto de dona Nenê,nos quibes da dona Quita, no arroz doce de tia Zenaide, na cinza do fogão da dona Quita que minha mãe passava nas frieiras que eu conseguia jogando bola descalço no campo de futebol, no pão com mortadela e na garrafa de taubaina tomada no gargalo ali, da "venda do meu pai",e ouras tantas.Só tenho a agradecer por essa parada, foi a lição maior, foi a lição definitiva; as vezes penso até que pode ter sido Deus quem segurou o trem, será que ele tá com essa "bola" toda??????

 

 

Hugo Augusto

Esse e-mail, Augusto, sobre o qual você fala, é um dos mais bonitos e com uma mensaagem muito significativa mesmo. Para nós, que temos tanto amor pelo TREM, talvez isso ganhe um sentido ainda maior, não é verdade?
Grande abraço!!!

 

 

Tanaka

É, iperoense que é iperoense dos idos tempos, sabe que tem o trem como o formador preponderante e realçador do seu ser. Se não fosse ele que nos levava e nos trazia a qualquer tempo, fosse este qual fosse, ou incólumes às intempéries da natureza para a mais valia da nossa formação, será que teríamos alcançados, ou mesmo subidos os degraus desta finalidade e chegados aonde hoje estamos. Decerto ele foi um dos meios, um dos veículos proporcionadores e impulsionadores para que realizássemos os nossos sonhos materiais. Sem ele, que nos dava comodidade, será que teríamos alcançados os nossos objetivos ou teríamos ficados a meio do caminho, por não termos o amparo, o suporte material em nossa jornada quotidiana. Sem dúvida ele também contribuiu para a formação da nossa socialização; assim, devido a ele pudemos conviver com outras pessoas, com outros pares que não os da nossa própria comunidade; ele sem dúvida nos abriu as fronteiras para além daquele pedaço de chão em que vivíamos. Ainda, nos proporcionou o direito de ir e vir além das nossas fronteiras; destarte, para aquela época é de se dizer que foram ganhos inquestionáveis esses, portanto, e que são em suma o pleno exercício da nossa cidadania. Bem, se até agora eu me referi a apenas um lado da coisa, no entanto eu não posso deixar de falar do seu lado sentimental, dos nossos sonhos românticos de juventude, já que ele também nos transportava para os nossos encontros com as nossas paqueras, fossem elas onde quer que fossem; e mesmo ali dentro dos seus vagões de passageiros; e mesmo na nossa própria estação. Afora isto iqualmente o lado esportista, de lazer, quando nos transportava para as nossas partidas de futebol, para os nossos passeios; como se vê ele foi sempre quase tudo em quase tudo. Embora se possa sempre fazer a ressalva da exploração material do homem pelo homem, do capital pelo trabalho, não podemos deixar de ressaltar a importância que a ferrovia proporcionou como meio de sobrevivência, como tendo contribuído com um certo bem-estar material, da maioria das famílias de iperoenses que tinham aqui e unicamente aqui o seu "ganha pão", o seu precioso emprego, embora ela pudesse ter feito muito mais. A submissão ao trabalho e o desenvolvimento capitalista tecnológico são os paradoxos da nossa era contemporânea, mas, entretanto, até que um dia isto possa mudar, teremos que seguir nesta mesma linha de conduta. Por outro lado, justiça seja feita também aos nossos ancestrais que nos proporcionaram as demais condições, por mais sacrificadas que elas fossem, para que nós alcançássemos os objetivos a que nos propusemos e que em última análise era a transferência do que eles pretendiam fazer destes mesmos objetivos para si mas que trasladaram aos seus descendentes.
Com efeito, parabéns ao Augusto que abordou acima esse tema e que nos leva às mais diversas reflexões a respeito.

 

 

Augusto Daniel Pavon

No início de 1951, meu avô, Augusto Garcia, vendeu o armazém na Porfírio de Almeida 85, e comprou a chácara que fora de meu bisavô, Emílio Guazzelli, e que na época era de meu tio avô, Euclydes Guazzelli, em Bacaetava( hoje é de meu primo Neto Guazzelli- Museu da Cachaça), e fomos todos morar lá. Prá mim tudo era festa, pois eu tinha 3 anos de idade. Vivemos um ano em Bacaetava, mantivemos a casa da Porfírio, agora alugada ao Sr Lauro Paula Leite, que continuou com o armazem(venda). Lauro é irmão do Seu Benedito Paula Leite, pai do Kico, Carlinhos, Silvia, todos maravilhosos.Em Bacaetava, meu avô continuou com comércio e abriu nova venda, agora no "casarão de meu bisavô, ainda hoje lindo, cheio de charme e muita história, de uma época em que Bacaetava tinha mais vida que Iperó, e Guazzelli era nome de peso porque Emílio Guazzelli era um atacadista, comprovado por livros do armazem e recebia pedido até de Campinas. Permanecemos um ano em Bacaetava e meu avô, que não era homem de ficar parado, vendeu a chácara para meu tio avô Euclydes, dono anterior, mudamos para Sorocaba numa casa de meu avô, que ainda é nossa, e ele comprou um caminhão (grande) Ford do ano 1952, e tornou se "caminhoneiro" levando e trazendo cargas para o Paraná, dias e dias fora de casa, numa época em que as estradas eram de terra. Sempre moramos juntos, meu avô, avó, pai mãe e meu tio Lazinho. Viajavam meu avô e meu pai. 1952 foi o ano da morte de Francisco Alves, "o rei da voz" considerado o maior cantor do Brasil. Disso eu me lembro bem porque morávamos vizinhos do dono da "rádio Cacique", Sorocaba, e o furgão da rádio tocou o dia todo um sucesso do Chico Alves, "criança feliz". 1953 estávamos de volta a querida terra, eu com 5 anos, abrimos outra venda na casa da esquina, onde era do Flamínio Paula Leite, pai do Valdir. Na época era do meu bisavô. A vida recomeçava, eu frequentava o Pernoite no "jardim de infância" com a dona Henory e então Iperó era a doce Iperó dos Versos acima, lindos de morrer e precisam ser comentados........ " Eu me lembro das saias magras, nas caipiras tardes que abraçavam e beijavam as moças não beijadas da pacata Iperó......" Lindo, lindo, lindo!!!!!!!

 

 

Edna dos Santos

Obrigada por essa oportunidade de participar desse trabalho tão bonito que você fez. O site é muito detalhado e, ao mesmo tempo, delicada a forma que retrata os episódios
ocorridos naquela época. E quando aborda sobre as pessoas chega a emocionar.
Eu morei, na minha infância, na Rua do Tráfego, 14. A visão da minha casa (rsrsrsrsr....), olha só (minha casa...), era muito privilegiada, pois observava a Estação de Iperó/pátio, o Depósito/ Solda de Trilhos e também a Vila do Depósito. E como tinha grande movimento de trens e pessoas, era um paraíso.
Outra coisa que grande parte dos empregados da Sorocabana fazia. Os que residiam próximo ao famoso escadão: buscar água potável numa mina d`água, na descida do escadão do lado direito. Que abundância e era tão geladinha! O local onde a água vertia era emoldurado por avencas, samambaias, musgos e era muito divertido, pois algumas vezes eu e outras crianças descíamos pelo próprio barranco. Quantas vezes o balde escapava da mão.
Não vi mencionar o nome do sr. João Afrâneo Lessa, o DR.LESSA, que administrou por tantos anos o Horto Florestal da Bela Vista / Usina de Tratamento de Dormentes. Tecnicamente tão eficiente e como ser humano ofereceu tantas oportunidades de emprego naquele lugar a quem se aventurava a desembarcar com família a procura de vida melhor na Estação de Iperó. Quando não se falava em Recursos Humanos, este homem numa rápida conversa sabia quando deveria contratar um empregado, inclusive favorecendo até a vinda do salário do mesmo, moradia e comida.
Infelizmente ele já faleceu, mas sua esposa (com seus um pouco mais de 80 anos de idade), quando menciona o Horto Bela Vista, se emociona. Também não vi dados sobre a construção do Horto Bela Vista e as suas atividades. Inclusive tinha a olaria, fornos de carvão, utilização de eucalipto, criação de animais (gado) e até mesmo o "varjão" era cedido aos empregados para o plantio(antigamento era chamado roça) de arroz, retirada de taboa para fazer travesseiros, colchões, acolchoados e em outros pontos para feijão, milho, etc. Além da pesca, caça e grande variedade de animais silvestres e flora(lirios vermelhos, copos de leite). Lembro-me que existiam muitos pés de laranja de fazer doce e limão galego.
Estudei no Gaspar Ricardo, sou aposentada da ferrovia (Fepasa-Ferrovia Paulista S/A.), meu pai era o guarda-fios Pedro Francisco dos Santos e minha mãe Flávia Furtado de Lacerda.

 

 

Tanaka

Muito, mas muito boa mesmo a lembrança da Edna Santos. Meus parabéns Edna; você faz uma lembrança das mais prazerosas e com abundância de detalhes para a vida da nossa comunidade de então; do meu, do nosso tempo de criança. Voltei ao tempo com a sua recordação da "nossa mina d'água". Que maravilha isto; bem, até agora ninguém tinha atentado para esse episódio, me parece, nem mesmo as "cacholas do Gusto e do Moraga". Parece-me que nós a denominávamos de: "a biquinha". Assim, isto demonstra o muito que é importante a participação de mais e mais personagens no "site", enfim de todas as pessoas da nossa comunidade. Obrigado pela bela recordação. Afora isto, também muito enriquecedor e históricos os demais detalhes enfocados na sua narrativa. Esses episódios culturais da nossa gente não podem ser esquecidos, não é mesmo...

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Realmente, havia esquecido da biquinha ,e logo eu que morava na casa numero 7, praticamente em cima da dita cuja. Outra fonte que havia era ao lado do córrego perto da casa da Maria Portes que usava uma saia longa com os cabelos presos por um pitote e andava sempre com os pés descalços.
E para deleite do Tanaca, na rua em que eu morava os vizinhos eram Mário de Mello na casa 1, Paco Sanches na 2 (após a saída do meu avô e do Paco, a casas foram ocupadas pelo sr. Evilásio Groff), Elias Mena, pai do João, na 4 era o Tele (Telesfaro) Redini onde morava a Cida Corvino, 5 e 6 Adão Folim, 7 eu, na casa 8 Dito Cardoso, pai do Carlos, Luiz, Juraci, depois deles veio Murano, depois Norberto Coelho e Valdomiro Polo, na 9 Pedro (pai da Edna), apos sr. Toninho. Na casa 10 seu Brienza que tinha no quintal um enorme pé de uvaia (orvalha) se duvidar pergunte para o Augusto (que certamente consultará seu tio Lazinho) e a casa do chefe Bertolli, depois Osmir Castro Neves e Simões ( pai do Adilson ).

 

 

Augusto Daniel Pavon

Cê num tinha nascido ainda quando essa gente toda morava lá, eu era bem pequeno e estava sempre trepado numa baita "arvona" que tinhs no fundo da casa do seu Brienza. Acho que foi o Airtão que contô procê. No máximo você" gatinhava" O Osmir acho que é do seu tempo. Essa gente toda num é nem do tempo do Tanaka, é do tempo do Said. Com certeza foi o Ayrton, seu mano, quem lhe contou. Um abraço.

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Rs... tenho uma excelente memória. O Airton sempre diz que eu sou o mais velho.

 

 

Tanaka

Hahaha... gostei do embate entre vocês dois; como tem-se falado muito em juri nos dias atuais, vamos convocar mais um para vocês duelarem, mas prosaicamente, né...; olha! penso que vai sair muita coisa boa. A Cida Corvino foi namorada do meu irmão.
Moraga, queria que você falasse mais um pouco sobre o córrego; como está ali hoje. Atualmente eu não sei nem mais me localizar ali. Eu me lembro que ia lá constantemente para "pescar aqueles minúsculos peixinhos" com uma garrafa; agora, não era qualquer garrafa, não, tinha que ser aquela de champanhe, que tinha uma reentrância no seu fundo, no seu pé, e onde a gente fazia um furo bem na ponta da reentrância para os peixinhos entrarem nela; para nós tinha que ser somente esse tipo de garrafa, pois acreditávamos que com este padrão de garrafa, os peixinhos que lá entrassem não mais conseguiriam sair dali de dentro; nós a colocávamos submersa na água. Bem, além de "pescar", a gente até ensaiava algumas nadadas ali.

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Antes de tecer algum comentário a respeito do córrego, gostaria de acrescentar que eu e Airton usávamos o mesmo sistema. Garrafa com aquele fundo que você descreveu, geralmente era garrafa de champagne Salton. A gente colocava farinha de milho dentro da garrafa para servir de isca. Não dava outra, a garrafa funcionava como um covo, e os guarus (peixinhos) ficavam presos. Pra pegar caranguejo, a gente punha espiga de milho verde, ligeramente tostada. A espiga era presa por um arame fino, aguardava um tempinho, puxava bem devagar e o bicho vinha tranquilo.
Após a pesca a gente soltava os caranguejos, fazer o que com aquilo.
Quanto ao córrego, existe apenas um fiozinho de agua, sua cabeceira (tanque da Clara ) esta comprometida uma vez que foi loteado irregularmente. Para se ter acesso ao referido tanque, e só entrar pela rua Olimpio Pavon.
Como diria seo Olimpio: Anotou "amarelo"
 

 

Tanaka

Valeu Moraga e obrigado. E eu que queria porque queria lembrar-me da denominação do "peixinho" (guaru) e o bendito nome não me vinha à memória de jeito nenhum; agora você me fez lembrar-me; está solucionado a falta de memória.

 

 

Augusto Daniel Pavon

O caminho é esse, está até melhor, porque de repente a forma de resgate pode ser através de diálogos como o que vocês estão fazendo. Eu só queria saber onde é, era esse córrego, onde era a represa da Clara , quem era a Clara? Quem é o guaru? Quem foi o Mario de Mello? No diálogo poderiam esclarecer. Quanto ao meu pai talvez a rua devesse ser "Marelo". Homem maravilhoso. Descendo pela Porfírio na calçada de casa, indo até a esquina da rua, agora João Domingues dos Santos, pessoa conhecidíssima nos meus tempos de piá, chegamos num terreno que era vazio, mas ficava ao lado do bar do Mingo, outra grande figura de nossa cidade. O Mingo além do bar tinha um galpão enorme, comprido, perpendicular à João Domingues, com vários pilares, trançado de madeira, caibros, coberto de telhas sobre duas pistas para jogo de "bochas". As duas pistas tinham os extremos altos com tábuas sobre tábuas e, no meio as pistas eram separadas por tábuas simples alinhadas uma seguida a outra, até se unirem aos extremos. Ali nos meus tempos assisti a grandes embates, grandes disputas, com premiação, de "bocha" e de peidos,bem coisa de italianos. Conheci grandes jogadores de "bocha" e grande "peidorreiros", verdadeiros campeões. Um deles me impressionou sobremaneira, jamais o esqueci, fez uma roda grande pulando num só pé e a cada pulo um peido. Foi o campeão. Grande campeão, aplaudido por todos. Muitas vezes tentei imitá-lo, em vão.....Havia também os campeões de "bocha", não tão importante como os anteriores, mas também importantes. Conto de dois que certamente estão entre os melhores; Mauro Folin e Brahma Chopp. As diputas eram acirradas, jogavam muito. O Brahma uma pessoa esquisita, ranzinza,meio parecido com aquele juiz dos programas de calouro do Sílvio Santos, fumante com bigodes amarelados, assim como os dedos que prendiam o cigarro que queimava sozinho com aquelas longas cinzas. Rosto marcado por rugas embora não fosse tão velho. Talvez álcool e cigarros. Nunca soube de sua família, quem era afinal. Parecia-me uma pessoa que só existia ali, naqueles momentos, para disputar umas partidas de "bocha" com o Mauro. O Mauro, por sua vez, um meninão maroto, esperto, inteligente, que não entrava nas disputas para perder, e não perdia mesmo. Aquelas partidas tinham preço. A empolgaçao era tanta, com a participaçao de todos, que as vezes eu tinha a impressão que tudo terminaria numa grande briga, mas que nada, era empolgação mesmo. Hoje me lembro com saudade dessas disputas. O Mauro ganhou quase todas que eu acompanhei. Era debochado, irreverente, e seguidamente afirmava que o Brahma havia "Amarelado". Então essa expressão "pegou" em Iperó daqueles anos. Foi ganhando outros significados até chegar a expressão carinhosa "marelo" com a qual meu pai se dirigia às pessoas. Tenho muita saudade de meu pai. Eu o amava,amo,muito

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Emociante relato, meu caro Augusto.
Lembro de todo aquele pessoal mencionado. Qualquer hora lembrarei alguma coisa e escreverei a respeito.
Estava vendo as fotos, qual não foi a surpresa em ver a inauguraçao da loja São Benedito, aparece a famosa portuguesa de neon da Cantina São João.
Que imagem linda ! As vezes esperava escurecer sõ pra vê-la soberana , linda na ligeira escuridão da rua.

 

 

Tanaka

Grande Augusto; muito bem lembrado, meu amigo. E eu morava ali do lado, hem! e assisti muitos embates entre os bochistas.
É, o Mauro, além da bocha era também um exímio taco no jogo de snooker, né...
Quer coisa mais tradicional do que o jogo de bocha no interior... e essa tradição faz parte da cultura interiorana. Qual será a origem desse jogo, hem?
Cara, o guaru é o nome daquele peixinho que fazia parte do habitat do córrego a que o Moraga se referiu, entendeu... A personagem, com certeza o Moraga te dirá.
Há mais ou menos uns dois anos atrás eu estive numa chácara de uma amiga e lá tem um campo de bocha; acabei jogando umas partidas ali e dei um "baile" nos meus adversários; acabei por ser "o bom" do jogo; se bem que os meus adverários eram daqueles, sabe... Gosto desse jogo; de jogar e assistir os bons, até hoje.

 

 

Augusto Daniel Pavon

Eu sei que nós sabemos quem são, quem foram. O que eu quiz dizer é que temos um objetivo com nossas recordações; é resgatar com nossas lembranças pessoas, locais, momentos, que mostrem como era a Iperó da nossa infância e adolescência. Suas ruas, pessoas, hábitos, construções, festas, futebol, brincadeiras e suas épocas, crimes, bailes,o rio e sua importância, sempre, se possível ligadas (as recordações) a um fato, que desperte interesse e, você bem sabe, nós temos histórias muitas. Um abraço meu amigo. Continue em seu diálogo com o grande Zé Tiguera, tiozão do Hugo.

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Ainda a respeito da "biquinha ". A referida ficava entre os Posto de Truqueiros e o Setor de Sinalização, em frente à estação. Daquela bica eram retirados baldes, garrafões e todo de vasilha, da cristalina água para se beber.

A água encanada existia somente nas casas da ferrovia. Em outras casas apelava-se para o velho e bom poço do quintal. A água servida era coletada do tanque do Orlando Sartorelli, lá pelas bandas da Santo Antonio velha (referindo-me a antiga estação) e vinha por gravidade até a "bomba ". De lá, através de recalque, a água ia para três caixas (reservatórios), sendo uma somente para o Depósito, outra para servir a Vila do Depósito e outra para servir as casas do centro. A água era barrenta e havia época que não dava nem para lavar roupas.

Quando Iperó passou a municipio, a água passou a ser distribuída para o resto das casas, até se furar o primeiro poço artesiano e se construir a caixa da Vila Moraes (rua Constantino Pastini ), ao lado da Igreja Congregação Cristã. Convém lembrar que as casas ferroviárias foram construídas na década de 30 e tinham água encanada, luz elétrica e rede de esgoto. Um avanço para época.

 

 

Elisabeth Rodrigues

Alô pessoal. Alguém estava na tourada armada na quadra do Gaspar, quando um touro muito bravo quase matou um peão, que foi conduzido à casa de dona Leonor? Lembro-me que foi a maior correria, pois o touro balançava tudo com o chifre. Eu estava com algumas pessoas, minha mãe e dona Iraídes, esposa do seu João soldado (que tinha dois metros e seis centímetros de altura. Sei, porque dona Iraídes era nossa querida vizinha). Nesse dia, vazamos por debaixo do pano, tanto era o medo. Que cara tinha aquele touro!

 

 

Izildinha Domingues dos Santos

Sobre a família Domingues dos Santos e Iperó: O casal Antonio Vaz e Manoela Vaz Domingues (pais de Antonia Maria de Jesus) radicou-se no bairro antes denominado “Bacaetava” (Iperó) em 1843, época Imperial, cuja mão-de-obra mantida para a agricultura era escravista, conforme documentos da freguesia da Senhora das Dores de Campo largo, hoje Araçoiaba da Serra. Também encontrava-se instalada no “Bairro de Bacaetava”, Maria Ignácia do Espírito Santo, em 1873. Nesse território achava-se a “Real fabrica de Ferro Ipanema”, que encerrou as atividades, sendo transformada em aquartelamento militar e depósito de armas em 1895.

Antonia Maria de Jesus casou-se com João Pedro dos Santos, originando-se a família Domingues dos Santos, cujos rebentos são João Vaz dos Santos, Benedicto Domingues dos Santos, Gertrudes Vaz dos Santos, Emilia da Conceição e Samuel Domingues dos Santos (nascido em 17/11/1879).

João Pedro dos Santos e filhos passam a adquirir terras ainda no denominado “Bairro de Bacaetava”, conforme documentos lavrados em Campo Largo em 1908. Nessa época, Samuel Domingues já estava casado com Belarmina Maria Prestes. De acordo com a época e as características religiosas, as certidões de casamento eram realizadas em Porto Feliz e os registros de nascimento se faziam em Tatuí.

Provavelmente entre o período de 1908 a 1918, vieram unir-se à família Domingues dos Santos, as famílias Antunes Moreira (os Bento), Antunes Vieira (os Caetanos) e Porfírio José de Almeida, casado com Rita Mota, pais de Antonio Galvão. Forma-se assim um pequeno povoado. Diante da afluência e aumento populacional, João Pedro dos Santos e filhos abrem em suas terras, picadas para acesso entre vizinhos. Predominava ainda no “Bairro Bacaetava”, a agricultura, a pecuária de subsistência e o comércio de animais.

Em 1918, Samuel Domingues dos Santos efetiva compra de terras e, continuamente, em 1925, 1926, inclusive direitos hereditários, perfazendo-se o total de 112 alqueires (66800m²). No ano de 1927, Rita Mota negociou junto aos dirigentes da Estrada de Ferro Sorocabana. Ela “cederia” parte de suas terras em troca de algumas citadas ruas: Porfírio de Almeida e São Bento. Partes de terras deixadas por Porfírio José de Almeida a ela e seus filhos: Joaquim de Almeida e Antonio Galvão de Almeida (sendo que nessa época residiam em Tatuí).

Nesse mesmo ano, Samuel Domingues dos Santos estabelece o primeiro comércio de vendas de gêneros alimentícios e carnes, o qual passou a servir aos trabalhadores da terraplenagem do local onde hoje é a atual estação ferroviária. Essa terraplanagem levou os cidadãos a denominá-la de “Esplanada”. Ainda em 1927, com consentimento de Rita Mota, particulares com coordenadoria de Samuel Domingues dos Santos, construíram em seu terreno um prédio para a transferência da denominada “Escola Mista de Judiacanga”, que posteriormente mudou-se para o pernoite da Estrada de Ferro Sorocabana, no “Bairro de Bacaetava”. A escola teve como primeira professora dona Maria Corrêa de Lara.

Em 1930, o então “Bairro de Bacaetava” passa a chamar-se “Nova Santo Antonio” ou “Santo Antonio”, conforme documentos lavrados no cartório de Boituva e no cartório de Iperó. Nesse mesmo ano, Samuel Domingues dos Santos recebe comunicado da Paróquia de São Roque, diocese de Sorocaba, autorizando angariar fundos para construir a matriz de Santo Antonio. O terreno foi doado por Samuel Domingues dos Santos para a construção da igreja. Em 1931, através de seu procurador (Samuel Domingues dos Santos), Rita Mota efetiva a doação do terreno com área de 400m² com a construção da Escola Judiacanga, construída por particulares.

Características da época: comércio de lenha, agricultura e comério de gêneros alimentícios. Em 1937 a Fábrica de Ferro Ipanema passa à jurisdição do Ministério da Agricultura. O povoado denomina-se ainda “Santo Antonio”. Em 1938, por todos serviços prestados à comunidade local, como comissário, Samuel Domingues dos Santos recebeu oficio do sr. João Batista da Costa, prefeito de Campo Largo, agradecendo seus trabalhos e tendo em vista que “Santo Antonio” (Iperó), naquela data, deixava de ser Distrito de Campo Largo para pertencer a Boituva na categoria de Vila. 

Em 1939, Samuel Domingues dos Santos, num de seus gestos mais desprendidos, de forma verbal, cedeu para o Estado, para a construção de uma escola ainda denominada Judiacanga, um terreno na parte central do Distrito, com a área de 6.000m². A escritura foi lavrada em 30/10/1942, com anuência da viúva meeira dona Belarmina Maria Prestes e seus filhos (Maria Domingues Prestes, Francelino Domingues dos Santos, Leonora Maria Prestes, Benedicto Domingues dos Santos, João Domingues dos Santos e José Domingues dos Santos), os quais honraram a promessa feita por Samuel Domingues dos Santos (falecido em 22 de abril de 1941, sem ver seu maior sonho realizado, isto é, a definição sobre a instalação da escola para a qual doou o terreno).

Em 1944 inicia-se a construção do prédio escolar, a nomeação de Gumercindo de Campos como sub-prefeito e a inauguração do Sorocabana Esporte Clube. Em 1945 extinguiu-se a Escola Mista de Judiacanga (hoje igreja Santa Rita), passando a funcionar uma Escola Sorocabana em terreno da própria ferrovia (o “Pernoite”), mudando seu nome para “Dr. Gaspar Ricardo Júnior” (engenheiro da Sorocabana). Nesse mesmo ano, “Nova Santo Antonio” ou “Santo Antonio” passou a chamar-se “Vila Iperó”.

Em 1953, inaugura-se a nova escola “Dr. Gaspar Ricardo Júnior”, quebrando-se com isso, uma promessa do Governo do Estado, feita à viúva e aos filhos, de que a escola receberia o nome de Samuel Domingues dos Santos, o doador do terreno para a construção da mesma.

 

 

Augusto Daniel Pavon

Eu estava, mais uma vez, pensando em coisas de Iperó, e de repente lembrei-me de uma música que em sua letra tinha "prá ver a banda passar, tocando coisas de amor...". Dele, Chico Buarque. Nos bons tempos dizia-se que Chico tinha a capacidade de escrever e musicar sentimentos femininos sem o ser. Escrevo isso porque, talvez, ele também nunca tenha visto uma banda passar. Eu vi, eu acompanhei. Ia aos ensaios que, a princípio, acho eu, eram no Pernoite e foram depois no fundo do quintal de tio Raul (a casa tem a frente voltada para a rua São Bento e os fundos, onde existia um grande barracão de madeira, voltado para a Porfírio). Depois, então, a Banda transferiu-se definitivamente para a sua sede, no fim da Porfírio, numa construção feita em um campinho, em frente ao Chico Lima (sogro do Silvano). Eu já escrevi sobre a hierarquia da EFS, que era respeitada e "uniformizada", conforme a posição hierárquica do funcionário. Já escrevi também, que sempre achei isso muito bonito. A aplicação disso tudo dependia muito do "Chefe da Estação" que, nessa época, era o sr. Bertolli. Era o chefe de estação que na escala hierárquica de autoridades da cidade, comandava. Depois dele vinham o sub-prefeito (assim era chamado porque Iperó era distrito de Boituva e era um cargo de confiança), sub-delegado e o padre (que também era de Boituva). Que me contaram e que eu me lembre, Iperó viveu dois grandes chefes de estação, criativos, bons administradores. Contava-se que a bons jogadores de futebol e bons músicos, dava-se um jeito e, ou eram transferidos ou já entravam na Sorocabana trabalhando em Iperó. Isso quer dizer que, além de serem responsáveis pelo imenso setor deles na ferrovia, investiam na cidade, até mais que as autoridades a quem cabiam as melhorias. Quem viveu em Iperó nessa época viu grandes jogadores de futebol e grandes músicos. Anterior ao sr. Bertolli, com mais iniciativa que ele, diziam os mais antigos, houve o sr. Hugo de Moura, que fez história, boa é claro, como um dos melhores chefes de estação que Iperó já teve. Cresci indo ao campo de futebol do Sorocabana. A entrada era no meio, não na lateral. Logo que entrávamos, pouco à esquerda, havia uma placa em mármore com escritos sulcados e em preto que homenagevam e agradeciam a Hugo de Moura por benfeitorias, incluindo o campo de futebol. Essa placa ficava na altura da minha cabeça, quando criança. Acho que no Brasil todo esse tipo de homenagem nada significa, porque não é cultuada. Ficam lá e pronto. Então vem, tempos depois, um espertinho que desconhece história e respeito. Troca a placa. No nosso caso eu também não gostei, mas como trocaram pelo sr. Bertolli (e lá estavam dona Eulina, sua esposa, e seu filho Zito), tudo bem. Mas eu ainda achava que deveriam ter dado 45 minutos para cada um. Agora, depois trocaram o último, grande líder e administrador por "outro". Homenagem para as pessoas que viveram em Iperó, já escrevi que é muito bonito, também conta a história. Desde o Pedro Louco (da Nhá Nina) até o sr. Bertolli. Como diria o pensador Cica, "todos somos iguais, mas cada novo no cada novo". Não destronemos. Todos são história da cidade. "Vortemos ao assunto". Continuo até hoje perseguindo a Banda. Vou ver a Banda de Jundiaí sempre que posso. É muito linda! Ouços sem me cansar os maravilhosos Dobrados. Quando a estou ouvindo, lembro-me do Pijico "filho" à Tuba, do Pijico "pai" ao Trombone de Vara, do Tino ao Piston (Tino, marido de uma pessoa maravilhosa, Dona Pedrina, grande professora do Gaspar, mãe da Leda e do Eli). Lembro-me do Quinho (irmão do Mário e do Manca) no Repique e lembro-me do Maestro, parado no seu uniforme, pernas juntas e pés afastados, mais ou menos "quinze prás três", como o Chaplin, o Lázaro Rosa, irmão do Tino, maravilhoso músico. Todos de terno azul marinho, gravata preta, friso dourado na calça. Termino escrevendo que ainda hoje três coisas me emocionam muito quando tenho a oportunidade de ver; Trem, Banda e o maravilhoso Rio Sorocaba, seguindo seu curso, calmo, bem arborizado e eu "boiando" com o sol em meu rosto, preocupado com o tempo que não passava, com o que iria escrever no "correio elegante" da festa de Santo Antônio à noite e qual seria a reação da menina que iria recebê-lo. Subitamente um mosquito pousava no meu rosto, quebrava o encanto, então eu me virava e nadava até a margem, pois tinha um longo caminho do Porto do Joãozinho até a minha casa. "ETA VIDA DURA"

 

 

José Roberto Moraga Ramos

A respeito dos campos de bocha de Iperó, além do campo do Mingo, havia o do Sorocabana. Este seria o Maracanã em relação ao do Mingo. Sua estrutura era de trilhos curvados na extinta Oficina de solda de Trilhos e construído quando o sr. Evilásio Groff (pai da Maria Isabel, Marinês, Marita, Luiz Carlos - o Caio e sogro do Nenê Sartorelli ) foi presidente do Sorocabana.
Antes, existiu um ao lado do Cine, que caiu durante um temporal e no vazio deixado, virou um campinho.
As bolas eram feitas em madeira, com uma marca para diferenciá-las. As primeiras bolas feitas em material sintético foram adquiridas quando meu avô Mário de Mello ganhou a concessão para explorar o bar e o campo de bocha. Meus tios Raimundo e Orlando, mais meu irmão Airton, iam de bicicleta à Boituva para trazer pó de serra que depois de esparramado pela cancha era molhado e passava-se saco de estopa fixada num grande rodo.Essa bolas eram coloridas (vermelhas, azuis, brancas), uma sensação para época. Foram compradas em 1959 ou 1960 em Tietê, na Rua Ana Nery, onde estive com meu pai (Victoriano) para fechar o negócio. Vários jogadores participavam de bate-fundo, duplas ou simples demandas.
O velho Brahma (Isaltino dos Santos) falava de forma arrastada e tinha como característica levar as bolas (quatro) mais a cerveja e o copo nos braços. Brigava com os adversários, contestava pontos, enfim, era de gênio difícil e apostava alto. Se não me engano, ele morreu afogado no rio Sorocaba, numa enchente com um barco de lata que havia construido. Com o tempo lembrarei de mais alguma coisa.

 

É engraçado redescobrir depois de algum tempo, os lugares, os espaços, as ruas, até as moitas que fizeram parte de nossa vida. Quando alguém cita o córrego, o rio Sorocaba, o campinho da rua do meio, o campo da Vila do Depósito, Vila Moraes, imediatamente viajamos até lá. Quando se fala do rio Sorocaba, vem à memória o porto do João Domingues, que aos domingos virava nossa Copacabana ou Piscinão de Ramos. Não importa, era nosso espaço.
Ali, presenciamos os saltos acrobáticos que o Santista fazia, pulando do alto do pé de jatobá que solenemente debruçava seus galhos em direção ao rio. O salto era perfeito. Não havia aquela explosão de água. Era somente um "ploft", tal a perfeição.
Ao lado, meio que dormindo, o "batelão" (barco que se usava para retirar areia), instrumento de trabalho do Odilon do Nhô Amirto, reclamava do excesso com seus rangidos.
A molecada caminhava pelo mato, sempre margeando o rio, até chegar perto da carvoaria, na casinha preta. Íamos com água até o peito, pisando nos pedregulhos do fundo do rio e quando não dava mais "pé", subíamos numa boia (câmara de caminhão) e com a barriga pra cima, deixávamos que a correnteza nos levasse, imprimindo seu rítmo preguiçoso.
Sinto até agora a brisa, o cheiro do barro das margens, o canto da "arma de gato", o voo do martin pescador. Aquela meia hora parecia uma eternidade. Era a celebração da liberdade, da alma caipira, do moleque que insiste em não envelhecer.

 

 

Tanaka

Meu amigo Moraga, você me fez agora recordar também dos saltos perfeitos que davam os irmãos Dito e Flávio Scruph. Me lembro que os saltos eram feitos do barranco, mas o barranco ficava um tanto quanto afastado e numa altura bem mais elevada que a da margem mais abaixo do rio. Eles precisavam dar uma corrida para impulsionar os corpos e plasticamente perfeitos na posição horizontal aqueles corpos rígidos e completamente esticados praticamente "voavam" para,  depois deste "voo", alcançarem a parte mais ao meio do rio e caírem de ponta e terem os saltos perfeitamente executados. Como você bem diz, não havia aquela explosão de água, mas era somente um ploft, tal a perfeição na descida dos corpos. Deste modo ninguém se atrevia a fazer, a não ser eles próprios, que eu me lembre. É, tem algumas pessoas que já nascem fisicamente privilegiadas, pois qual deles tiveram um dia um treinamento para tanto, não é mesmo? Ainda mais naquele tempo, que nós nem ouvíamos falar em piscina.

 

 

Augusto Daniel Pavon

Engraçado, pegando o "gancho" do Zé Tanaka, eu conheci um "cara" que quando ia conosco nadar no porto do Joãozinho, rio Sorocaba (bem onde o rio fazia a curva para seguir em frente, deixando o lugar onde nadávamos, havia um "redemoinho", próprio de curvas de rio, onde a água ficava um pouco parada), saia correndo à frente, deixava-nos atrás e, quando chegávamos ele estava sentado à beira do rio. Havia feito cocô naquele local e o mesmo estava boiando, parado no nosso lugar de entrar no rio. Graaaande Cido!!!!!! Não pulava como o Flavião e o Dito Cabra, mas era um artista, SEM SOMBRA DE DÙVIDA. Um atleta...

 

Eu fico sem saber o que escrever quando tento falar sobre minha terra HOJE. Eu não vou com frequência. A cada 15 dias dou uma passada. Não conheço ninguém, mas é normal. O tempo se foi, as coisas mudam, netos de gente conhecidas não são meus conhecidos, porque não estamos juntos no dia a dia. Pedi uma informação ao Abílio, do Jorge Nassif “another day”, chamando-o de senhor e sendo debochado pelo próprio. Enfim, as coisas caminham de um jeito ou outro, goste eu ou não. E eu fico perdido, porque a cidade cresce mas tá mais feia, muito feia. Socê passa uma régua da Silvano Mioni prá baixo (e o "foda" é que prá baixo tá o meu Iperó), é o mapa do inferno, é não? Isso me arrebenta. Cada 15 dias eu vejo a mesma coisa. Vejo a minha Porfírio, berço de TUDO de bom que aconteceu na terrinha e não há quem me desminta. Um lixo (não quero aqui , em hipótese alguma, desrespeitar o lixo). Não há perspectiva. Infelizmente, só resta destruir tudo naquele aspecto de pós guerra e criar coisas novas que atraiam e deem um novo impulso. De resto, tá o que nossas lembranças, a custo nenhum, reconstroem. Quero que as coisas, na medida em que forem construídas ou reconstruídas, o sejam com bom gosto, pensando no "bonito". O fazer é bom, mas não basta. Tem de ser feitas com requinte. “Cê é feia, mas eu te amo” não dá mais!!! Adoro recordar, mas não sou tolo. Quero que as coisas melhorem em qualidade, até porque valorizam minhas propriedades na terrinha onde pago impostos (e não é pouco) e onde voto. Quer dizer, mato a cobra e mostro o pau, embora com a minha idade já não tenha o mesmo “brilho”, se é que teve algum dia!!!!

 

 

Elisabeth Rodrigues

Minha cidade do coração ....
Hoje fui lá. É pequena, mas para mim parece um tesouro de tão valiosa. Experiências de uma vida ali armazenadas. Suas casas, a que eu nasci agora com outro aspecto, ruas simples, algumas mal cuidadas, pessoas circulando por todos os lugares que andei. Por vezes me sinto estranha nesse lugar e isso não faz bem à alma. Desci até a estação completamente abandonada. Janelas com vidros quebrados, paredes sujas e rabiscadas, telhado retorcido pelo vento tão impiedoso quanto o descaso pelas nossas ferrovias.
Voltamos, acompanhando as linhas férreas, que nos exibiam apenas vagões abandonados e carcomidos pelo tempo. Lá pelo Armazém, subimos, atravessamos a Porfírio de Almeida, agora tão triste, e chegamos ao Largo da Capelinha de Santa Rita, agora reformada .
Entramos na Duque de Caxias, que agora mudou de nome, mas não para mim, pois nela dei os primeiros passos. Vou subindo devagar, com o coração meio em dasalinho e piso em flores azuis murchas pelo chão. Ergo os olhos, olho para o arbusto florido e eis o espetáculo do dia. Um belo pé de sapateira carregado de flores lilás dando silencioso show.

Para o Augusto, Hugo e tantos iperoenses indignados com o aspecto da cidade. Pessoal, somos cidadãos iperoenses, pagamos impostos, nossa cidade vem crescendo devagar, pois todos nós a conhecemos pequena, mas seu aspecto está feio. Noto sua FEIURA, principalmente na parte do Ramal, ou seja, toda parte baixa da cidade precisa de socorro, a parte mais antiga. A Porfírio está muito feia, horrível. É preciso revitalizar alguns pontos. Onde era o ensaio da Banda, nossa...

O final da rua do meio. O descidão, como o chamávamos. Final da Duque. Seria preciso destacar no mapa da cidade os pontos a serem revitalizados e os meios para sua realização. Nós poderíamos nos reunir em algum ponto, pensar no assunto e em atitudes concretas para que esse quadro se modifique. Qualquer feriado a gente se reúne em algum salão disponível e começa a delinear alguma coisa ou formar uma sociedade amigos dessa área. O que vocês acham ?

 

 

Augusto Daniel Pavon

Toda véspera de um grande acontecimento "mexe com a adrenalina" e a impressão que tenho é que não é só com a minha, mas com a de todos que estão envolvidos. Uma véspera de uma festa de casamento, de um aniversário, de uma viagem, de uma decisão no futebol, etc. Até hoje sentimos isso. É só prestarmos atenção em nós mesmos. Assim era 30 de abril, há muito tempo atrás em Iperó. Acho até que esse dia, pra mim, era mais excitante que 01 de maio. Era a expectativa, a antecipação de tudo que iria ocorrer no dia seguinte. No dia seguinte, o Dia do Trabalho, eu, escoteiro, lobinho, iria me levantar às 4h da madruga, eufórico, me vestir de azul, com um bonezinho também azul, com a imagem de um lobo na frente, um cinto que pra mim era o máximo (duas partes se encaixavam formando a fivela, hoje comum e nem sei se ainda é usado). Para um lobinho era "demás". Não ficava só nisso, havia um bastão até que pesado, com uma bandeirinha em forma de flâmula que ficava lá no alto, ou eu que era um baixinho e, havia toda uma técnica para marchar com aquele bastão. Fazia meu desjejum rapidíssimo e ia me juntar aos outros escoteiros pra, seguindo a nossa magnífica fanfarra, marchar na madrugada pelas ruas de Iperó, vendo as casas irem acendendo luzes, uma aqui, outra acolá. Era muita emoção quando, em uma esquina, cruzávamos com a Banda, a magnífica Banda de Iperó, que por minutos ofuscava, com seus maravilhosos "dobrados", a nossa fanfarra. Não me aborrecia, porque já me confessei um apaixonado por aquela Banda. Quando o Sol, que surgia lá pelos lados do Pastini, um velho morador de Iperó, já estava a 45 graus, nós, os escoteiros, já estávamos na casa de alguma alma bondosa, via de regra dona Diva, mãe do Kico, tomando um belo de um café, assim como a Banda também estava fazendo o mesmo em outra casa. Então, havia uma pausa de uma ou duas horas e nós, já sem farda, e a maioria dos iperoenses, enchiam “La Vechia Signora”, a Porfírio, nos seus dias de glória (sem imaginar que se tornaria o lixo que é hoje), lá pelos lados do cinema onde aconteceriam as disputas do "cabo de aço", corridas pelas ruas da cidade, corridas de bicicletas Iperó-Boituva, jogos de Bocha, que iam até às 12h e, então, o Grande Desfile, grande mesmo. Todos os times que disputariam o torneio de futebol do Primeiro de Maio: Ipanema, Capela do Alto, Bacaetava, Boituva, Porangaba, Tatuí e Iperó, saíam do cinema e desciam a Porfírio. Penso eu que até o Calixto e, então, subiam ao campo. Essa passagem pela Porfírio, todos uniformizados, seguindo as balizas vestidas a caráter, virando cambalhotas, orgulhosos nos uniformes de seus clubes, rojões espocando sem parar e fechando o desfile, quem? A furiosa, ela, a Banda. Campo do SEC lotado, todos os times postados, virados para o barranco, para os magníficos eucaliptos, virados para os mastros que ostentavam as bandeiras de Iperó, São Paulo e Brasil. Então, a Banda tocava o Hino Nacional. Após os discursos do prefeito, do presidente do clube e de mais uma ou outra autoridade, a bola rolava num torneio de tempo reduzido onde escanteio valia gol. Isso invadia o início da noite com o sol já a 45 graus indo em direção do Varjão. Entrega das taças aos primeiros e segundos. Pensam que terminou? Ainda não. As festividades seriam encerradas com um baile no eterno e glorioso Cinema de Iperó. Isso tudo eu vivia no dia 30 de abril, porque realmente iria acontecer no dia 01 de maio. É sempre assim. Os melhores momentos vivemos antes, porque no dia, vai como um sopro. Assim era o Primeiro de Maio na minha Iperó. Será que olhando hoje para a Porfírio, eu conseguiria me lembrar de tudo ou sentiria uma profunda nostalgia? É, só me restaria chorar...

 

 

Zeca Corrêa Leite

Novamente eu aqui, revisitando Iperó através de imagens, em meio à madrugada fria de Curitiba. E me comovo com alguns nomes que pincei nos registros deixados no Livro de Visitas. Eu, filho do seu Mundico e dona Francisca, morava na casa ao lado do "escadão" (a primeira à esquerda, para quem ia em direção à estação ferroviária). Saí de Iperó aos seis anos de idade, mas guardo na lembrança nomes como Sartorelli, dona Diva, Catarina e o marido Pedro, Bertoli, seu Abdias e dona Sonia, a Aurora, Doroti, Marlene, o pequeno Afonsinho que morreu com uns cinco anos de idade, a dona Carmosina, o Bibe, o Felício, Orlando Surdo (meu padrinho), família Feliciano, a Ironi, Maria Porta, o "veio Garvão" e tanta, tanta gente mais. Por onde anda a maioria deles? Como diria Manoel Bandeira: "dormem, dormem profundamente".

 

 

Jayme Cóvos Marques

Maravilha rever todos os iperoenses. Relatos do Tanaka (irmão do Said), Marcos Cunha (filho da dona Glória), os times de futebol, o rio Sorocaba onde ia pescar e emprestava a chave do cadeado do barco do seu Mioni, a pedido do meu pai, para levar o barco da ponte de terra até a ponte de ferro. Isso era rio acima. Quando meu pai chegava com os amigos por volta das 16 h, o barco já estava cheio de lambari que eu pegava e deixava para isca para eles na pesca noturna. Equilibrar de bicicleta, que o Tanaka lembrou. Foi uma corrida que valia quem chegava por último. Tinha vários colegas competindo. Saída do bar do Bibe até o açougue do Genésio. Desclassificava quem pusesse o pé no chão. Só ficou eu e o Said, que olhou para mim e passou a marca final. Venci, mas devo a vitória também a meu amigo Elias Calixto, que falou: “Vai com a minha bicicleta, que é pneu balão”. Grande abraço ao Hélio, Dinho Elias, Seloni, Cidinho, Tanaka, Marcos, Orlando, Raimundo, Rubinho da Vicentina. Desculpe se esqueci alguns, mas desejo muita paz e saúde a todos.


 

Augusto Daniel Pavon

Penso que Santo Antonio e Copa do Mundo sempre tiveram a ver. Os maiores ganhadores são Brasil e Itália. O que quer dizer, depende do estado de espírito do santo estar “brasileiro” ou “italiano” por ocasião de uma Copa do Mundo. Quando não está muito bem com os dois, ganha outro país. Copa do Mundo de 1962, havia a TV branco e preto, não havia Copa televisionada, mas na noite, após o jogo, havia o VT, pois o evento foi no Chile e avião já havia "of course".
Eu já um adolescente ou pré, 14 anos, ainda me encantava pela festa de Santo Antonio e ela, a festa, fazia por merecer o meu encantamento. As barracas que lotavam a Duque de Caxias, hoje Silvano Mioni, a própria praça, onde se vendia quase tudo, também era vendida a magia para uma cabeça de criança. No salão da igreja, hoje não é mais ao lado da mesma, sempre um almoço ou jantar (arroz com frango ou arroz com "suam") e quentão. Para nós, molecada, aquele quentão é inesquecível. Aliás, nunca mais tomei um igual (dona Rosa, dona Nenê) e penso que o segredo não estava exatamente nas mãos das duas, mas sim na "Rosinha", a pinga Rosa que era colocada em doses homeopáticas, somente umas gotinhas, umas "mir" gotinhas. Na cozinha, eu me lembro de dona Minervina, do seu Pedro Queiroz (marido dela), mais uma das famílias maravilhosas com as quais convivi longos anos. O serviço de alto- falante de nossa igreja, sob o comando do Udovaldo Jaques Eid, irmão do Majó, do Adroaldo, do Gordo, que desperta muita saudade. Informava, executava músicas muito bonitas, sempre destinadas a alguém, mais ou menos assim: “Vocês vão ouvir ‘Boneca cobiçada’, com Anísio Silva, que alguém oferece prá alguém como prova de um grande amor”. E acredito que por trás delas sempre havia um grande amor, na maioria das vezes oculto, pois o nome de quem oferecia nem sempre era real. "Outros tempos". Todo dia, às 18h, ouvíamos Shubert nesse alto-falante, sim Shubert, através da "Ave Maria", muito linda e nostálgica no entardecer, no crepúsculo. Domingo, último dia da festa, a cidade se vestia de gala, roupa nova ou pelo menos a melhor. Andores todos muito bem enfeitados com seus respectivos carregadores e havia até uma disputa para fazer o mais bonito. Nenhum deles poderia ser mais bonito que o de Santo Antonio. A Corporação Musical Santa Cecília, a nossa Banda, estava com os instrumentos brilhando, uniformes passados e os "dobrados", lindos "dobrados, assim como o Hino Nacional, ensaiados. Todos uniformizados. Cruzada Infantil, Filhas de Maria, Congregados Marianos, Sagrado Coração, todos com suas bandeiras à frente, os andores, o povo em geral, e fechando essa procissão, linda, a "furiosa", a Banda. Era o final da festa, era chegado o tão esperado dia da procissão que tinha o tamanho da Iperó. O encerramento era fantástico aos meus olhos. Namorada nova graças ao eficiente "correio elegante". Praça lotada, missa na praça, sorteio de prêmios e, então, a escolha dos novos festeiros que era muito esperada. Os escolhidos ficavam muitos orgulhosos e passavam a ser vistos como "destaques". Cada ano tinha um "santinho" - Santo Antonio - com os nomes dos festeiros. Após, no terreiro entre a casa do "Gaguinho" (onde hoje é a loja do Sidmir/Eliana) e o Grupo Escolar (Gaspar), entrava em ação a bateria de fogos, que para a época parecia-me infindável e maravilhosa. ACABOU!!! Não, não acabou. Nesse ano, 1962, junho, eu e muitos moleques como eu, não queríamos ir, "nem a pau", à procissão. Final de uma Copa do Mundo. Acompanhei todos os jogos pelo rádio e à noite pelos VT, sofri, gritei. Sofri pela ausência do Pelé e gritei pela genialidade do Mané. Pelé/ Mané. Vi tudo! O resto, bem, o resto é o resto!!! Gritei, esperneei, chorei e valeu a última palavra: a de minha mãe. E fui!!! Encerro dizendo que o Brasil ganhou da Tchecolosvaquia por 4x2 e naquele ano, naquele dia, naquela tarde, na Vila do Depósito, onde estava a procissão naquele momento, Santo Antonio não só estava brasileiro, como "vibrou" e "pulou" no andor, como um desesperado. No último gol, Zito de cabeça após um cruzamento de Zagallo pela esquerda, tive a impressão, depois de tanto pulo de Santo Antonio, que não era ele quem pulava, mas os 4 homens que o transportavam. Será que não era Santo Antonio quem estava pulando? Sei não! Sei não!. Só sei que nós iperoenses - e Santo Antonio -, naquela tarde, tornamo-nos bi-campeões do Mundo. É, ele pulou mesmo!!!

 

 

Tanaka

Não querendo ser nostálgico e longe de querer fazer comparações, já que não é e nunca será essa a minha intenção, pois é uma época com suas particularidades e visões próprias daquele momento em que se viveu. Mas não posso deixar de registrar o quão magnífica, fantástica, exuberante, espetacular, envolvente, enfim uma festa de gala, aos meus olhos, era a época das nossas festas juninas. Uma festa que reunia a todos da nossa comunidade e que modestamente posso dizer com convicção ser esse o sentimento nessa ocasião.
Homenagear o santo padroeiro, Santo Antônio, o santo que protege, era a maior honraria para todas as famílias iperoenses, com toda certeza. Quem de nós que não se vestia com a sua melhor roupa de festa para comparecer nos fins de semana ao pátio da nossa Igreja Matriz? E ali, ali sim, que ser humano não se envolvia com redobrado entusiasmo com todas as barracas que o circundavam? Não havia como não entrar naquele clima, naquela atmosfera envolvente e contagiante. E não só isso, mas com todas as pessoas que para ali se reportavam, era um verdadeiro congraçamento de pessoas, festivo e religioso ao mesmo tempo. Não havia uma barraca sequer que não estivesse rodeada de uma grande afluência de pessoas, embora umas se destacassem um pouco mais que as outras. Mas também deve se destacar não só o caráter festivo do acontecimento que ali tomava conta de todos, como igualmente a grande religiosidade que se devotava ao santo padroeiro e protetor. O caráter místico quando se tem a grande religiosidade presente. A prova disso estava na grande procura e disputa que se tinha para pegar o pãozinho bento pelo padre, o pão de Santo Antonio, gentilmente ofertado pela padaria. Comer um pedaço que fosse daquele pão, ah! que bem faria! E a procissão com todos aqueles andores galhardamente enfeitados pelas pessoas encarregadas, que o faziam com muita devoção e fé, tanto no santo padroeiro, como nos demais. Percorrer as ruas principais em procissão, louvando, rezando, cantando, era como uma obrigatoriedade antes das comemorações festivas pagãs propriamente ditas.
Bem, resumidamente falando, esta é uma recordação que comigo terei sempre, durante todos os dias da minha existência, já que, como se diz, recordar é viver. E, se assim é mesmo, vamos sempre recordar para sempre viver, não é mesmo?

 

 

Augusto Daniel Pavon

Dia comum no inverno de Iperó. Era terrível na minha idade dormir cedo e ter que levantar 3h30 ou 3h45 para tomar um trem que se formava em Iperó e que partia às 4h40 da madrugada. Tinha que ser chamado às 3h30, porque até os resmungos habituais, vira prá cá, vira prá lá, até serem vencidos pela conhecida "força de vontade", ou serem vencidas pelos estímulos "carinhosos" de mamãe, o tempo ia passando. Café e pão rápido, sair correndo, parar na "Rua do Meio", segunda casa à direita, subir a escada e esperar o Silvano no seu café (um prato de arroz com feijão tipo peão, que você de um lado não enxerga o outro, em que o que falta é só uma bandeirinha no "cume"). Ele vencia com grande rapidez. Isso, mais as "misturas" que haviam sobrado do jantar da noite anterior. O cara era "seco", mas não por falta de comida. Devia ter alguma verminose, pensava eu. Vá comer assim em outro lugar e permanecer magro!!! Descíamos e tomávamos o trem rumo ao destino: Sorocaba. Uma ou duas vezes, sentado à beira do banco, o trem não ia vazio. Eram poucos carros, mas ia cheio de estudantes e funcionários da ferrovia que iam ao trabalho. Em alguma curva, dormindo, fui atirado ao chão acordando a todos e servindo de diversão. Às 5h30 estávamos na estação de Sorocaba. Todos iam ao trabalho, estação vazia, meninas na sala de espera onde ficavam as senhoras e nós, os marmanjos, aguardando até a hora de ir para a escola, "Estadão", onde as aulas começavam às 7h. O frio, o sono, a fome que já "batia", era o desespero. O que nos levava em frente além do "empurrãozinho" dos pais, era a determinação por alguma coisa que queríamos, embora nem soubéssemos se era exatamente aquilo que queríamos. Às vezes nos parecia muito distante, mas fomos em frente. O caminho contrário já era de céu de inverno, limpo, azul de "Brigadeiro". Do "Estadão" até a estação, eu descia pelo "Scarpa" e vinha ao lado da "linha", comia dois ou três ovos cozidos que levava de casa, é obvio, esperava o trem de volta, almoçava, estudava um pouco e ainda dava tempo de um futebol no nosso querido campo e até um cineminha à noite, quando não, um bailinho na casa de alguém e, algumas vezes na casa do Airton irmão do nosso Zé Tiguera, que à época ainda era muito jovenzinho. Nunca sentimos falta do que fazer na nossa Iperó. Cidadezinha agitada!!!

 

 

Airton Moraga Ramos

Queridos amigos, gostaria de participar desse bate-papo por escrito, relatando algumas situações que vivi no meu tempo de moleque em nossa cidade. Não será em ordem cronológica, pois algumas lembranças vem à tona e outras fogem para mais tarde aparecer. Portanto, conforme for lembrado será relatado. Quando o Gusto Daniel comentou da queda do Paco no barranco, aconteceu quase a mesma coisa com meu irmão Zé, que rolou barranco abaixo em frente à casa que morávamos na Rua do Tráfego nº 7. E meu pai esperando para dar uma bronca, mas o garoto veio com uma estória de que havia encontrado samambaia de metro durante a queda, sem se importar com a gravidade da queda. Pagamos um mico danado na passagem de Jânio Quadros: meu pai nos fez ficar abanando uma vassoura em cima do barranco, aí podia, sem medo de cair.
Nos fundos do quintal havia a nossa área de lazer, como já foi comentada. Mauro Folim, nosso vizinho, jogava bolinha de gude com a gente, mas o cara tinha uma ‘dedeira’, bolinha um pouco maior que partia a nossa ao meio, só dando para aproveitar no estilingue tripa de mico que vivia pendurado no pescoço. Aquele jogo de cachuleta, quando alguém ia para o paredão do cinema era um martírio. Aquelas boladas (borracha vermelha) nas costas. Naquele mato a caminho do valetão havia cavernas. O Liráucio chegou a ser chefe devido a uma lança que ele tinha ganhado do pai, que trouxe do Mato Grosso. O Diógenes Fornel ou o César do “Nhô Amado”, não me lembro qual deles, mandou uma flechada na perna do outro quase atravessando, mas isso fazia parte. O João Mena, ali pertinho, também era participante.

Não sei se estou enganado, mas uma vez amarraram o “Mico do Bonifácio” num pé de eucalipto (“calipe”) e esqueceram o coitado. Quando chegou a noite, a Odete do Ditinho Antunes, mãe do Esmeraldo, do Tuio e do Eloy, ouviu um gemido ao passar por ali e soltou o prisioneiro.

No valetão passava-se de um lado pro outro com uma corda que normalmente arrebentava quando a travessia era feita por dois garotos. Lá iam eles para o buraco. Seguindo esse buraco havia um pequeno poço cheio de samambaias. Já caí dentro dele. A gente seguia e passava por um túnel embaixo do pátio de manobras e saia no córrego, que delícia, só se via montes de roupa que o juíz de menores recolhia e entregava aos nossos pais.
Muito bem, de volta para a rua de cima, a gente combinava então pegar rabeira em caminhão, carro de boi, carroça ou o que viesse. Partia o bando de moleques a caminho do mata-burro ao lado do cemitério. Ficávamos escondidos até apontar lá belas bandas do Aleixo o ônibus (jardineira) que ia para Boituva. Quando passava por ali, diminuía a marcha. Então, vamos nós sentados no pára-choque que era uma lâmina e encostados na lataria até a entrada da cidade onde hoje é a Loja Nabas. Dali a gente esperava o dito cujo mais ou menos perto do posto do Moacir e vamos nós novamente na mesma empreitada. Só que uma vez o ônibus descia um pouco mais embalado para parar na linha do trem do ramal onde a gente saltava. A perna do João Mena estava espremida no pára-choque. Quando ele fez um movimento brusco, eu caí e fui ralando no pedregulho e terra vermelha. Cheguei em casa, minha mãe com muito carinho me olhou, camisa rasgada, rosto e pernas raladas, com muito cuidado me colocou no tanque de lavar roupas, sem roupas me deu uma surra de cordão de ferro e depois tratou dos ferimentos com salmoura. Chique não!?
Eu levava almoço para o pessoal que trabalhava na construção da ponte de cimento entre Iperó e Boituva. Devido ao horário, eu disputava com o trem do ramal quem passava primeiro no cruzamento. Disputava, por que a bicicleta era do meu tio Raimundo e não tinha breque. Teve um dia que eu ia pegar o trem bem no meio, tirei a bicicleta da rota e fomos ao chão. Ainda bem que as marmitas eram firmes, pequenos caldeirões, marmita de alumínio duro mesmo. Do Balmiça, Raimundo, Maninho e a do engenheiro (que eu pegava com a dona Maria do João Marques). Muito bem, recolhi tudo, examinei e segui em frente. Após o almoço, o pessoal conversando, meu tio Raimundo fez um comentário: “Nossa, a Nete (Janete) me mandou um arroz doce com muita canela”. Muito tempo depois eu disse a ele de onde era a canela.

Acidentes pararam de acontecer porque ganhei uma bicicleta Monark verde e o Jaime Caum uma bordô da mesma marca. O Jaime morava perto do João Batata, Ademir Caracu, Fernando, Wando do Pixe, Zé Rubens do Zizi. Por que o apelido Garça? Atrás do posto médico a gente brincava de esconder cinta. Que brincadeira sadia: quem encontrasse saía distribuindo cintada em quem aparecesse na frente. Bom também. Agora não sei quem inventou uma sirene feita de lata de massa de tomate, barbante e elástico, que amarrada na bicicleta, passando pelo eixo da roda traseira, fazia o barulho de uma sirene. O Xisto levava o Kiko na garupa e a gente corria no meio do ‘trânsito’ da rua Porfírio de Almeida até o Guerino da máquina de arroz (pai do Geraldo Testa), passando também pelo bar da Rolinha.

Um dia, eu e meu primo Hermes Figueiredo, saímos dar uma volta de bicicleta Phillips, aro 28, preta, lá pelas bandas da tia Dorfina. O Hermes não alcançava o pedal, então ia pedalando por baixo do cano eu na garupa. Estávamos um pouco embalados quando vinha subindo um cavaleiro girando uma corda. De repente, cadê o Hermes? Tinha sido puxado da bicicleta pelo pescoço pela corda. Deu B.O. Quando dei por mim estava enroscado na cerca do terreno. Quanta adrenalina.

Seu João da Bota e seu guarda chuva a tira colo, guaiaca, morava perto do biscoiteiro conhecido do Mestre de Linha, Dito Felício, Zé Tatu, João do Pito. Mas eu gostava mesmo era do seu João da Sacola que nos ensinava a solfejar na sede da banda, Hermes no bombardino, Geraldo Testa no trompete, eu na caixa (não durou muito não, mas não desisti - pra você Gusto Daniel), segurava a partitura enquanto tocavam. Toquei surdo na fanfarra do Vercelino e para minha felicidade, após 50 anos fiz parte da BANDA SANTA CECÍLIA DE IPERÓ, quando a primeira apresentação foi no SESI de Sorocaba. Não minto: chorei! Portanto, não desista. A única profissão que desisti foi a de eletricista, pois quando morava na 56 da rua Porfírio, primeiramente vizinho do Barberino Mendes, depois do Bonifácio, havia um porão nessa casa onde minha mãe passava roupas. Guardávamos algumas tralhas e havia uma tomada linda na parede onde uma vez com um pedaço de arame bem grosso que introduzi na tal tomada, fui parar mais ou menos uns 10 metros do local. Eletricidade não foi muito meu forte.
No quintal do Haroldo Cóvos havia uma árvore que a gente brincava numa borracha chamada ‘tripa de elefante’. Subia e descia. Bom demais. Por onde será que anda o Girdão? Quando vendia pamonhas na estação, deliciosas por sinal, o Suruba recomendava sempre: “Se alguém perguntar quem faz, diga que é sua vó”.
Nas vésperas de festa de Santo Antonio montavam várias barracas na praça, algumas delas vendiam umas bolinhas verdes, vermelhas, com pó de serra dentro. Era uma delícia acertar as cabeças. Claro que eram brincadeiras de crianças, pois eu era “jovenzinho” segundo o Gusto. No mesmo embalo vinha São João. Daí sim, fósforo colorido, traque, bombinha de 50.
Morei primeiramente na Vila do Depósito. Éramos vizinhos da família Fumes, mais para baixo seu Marcílio, Manoel Azeredo, Osmar do Zé Duia, Mingo Pastini, Verdotti e outros. A maior parte dos 17 anos de Iperó foi vivida no número 7 da rua do barranco. Trabalhei na loja da dona Julieta, no açougue do seu Genésio, na quitanda da tia Adélia, comprava bolacha Maria na venda do seu Lauro, vendia e cobrava todo mês a mensalidade das cestas de natal Amaral (a Columbus era mais chique, mas em ambas vinha a lata de doce 4 em 1).
Sobre os bailinhos, não vamos esquecer da sonata do Dito Cabra, da Marlene, da Shirley, dos discos do Liráucio (Perez Prado, bela coleção), Xisto, Zé Bisteca, Berto, Carlos Michelsen, Vera Ferreira (como dançava bem), Chis e muitos outros. Nos bailes oficiais desfilávamos com gravatas finas ou Bat Masterson, abotoaduras, óleo de lavanda Bourbon, as vezes Gumex, Gintan e lá ia o grupo de Carlinhos de Jesus mostrar os passos naquele chão de cimento queimado cheio de parafina do nosso cinema.

 

 

Augusto Daniel

Não disse que o Airton era jovenzinho, mas sim o Tiguera. O Airton tem a idade do Tanaka. Então, já não é tão jovenzinho assim. Deixando isso de lado, agradeço por esse “flashback” maravilhoso do Airton. Maravilhoso, porque tudo e todos os citados eram do meu tempo. Quando amarraram o Sílvio na “caverninha” de mato, era sob o mato. Havia um corredor que fazíamos sob o mato, atrás do cinema, que nos levava a um local mais largo, também sob o mato. Silvano, Odilon, Airton, Mena e eu, amarramos o Sílvio em uma árvore. Não me lembro o motivo, mas talvez ele fosse um dos bandidos dos nossos filmes de faroeste. Saímos para continuar a brincadeira e esta passou para outra e ele ficou. O resto é como o Airton contou. Continuo depois. Um beijo em seu coração meu amigo, demorou um pouco, mas nos deixou felizes.

Augusto Daniel

 

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar pela vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!


Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado –,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…
{Álvaro de Campos, Poemas}

 

Álvaro de Campos, pseudônimo de Fernando Pessoa, autor do texto/poesia que coloquei em "Fragmentos", abrangente, extensivo a todas as nossas recordações, onde os aniversários, a casa, as pessoas queridas ainda vivas, não são exatamente isso, são porém todas as nossas recordações, toda a nossa vivência, muitas das vezes não completas, fragmentadas, mas que marcaram nossas vidas de maneira indelével, misturando momentos alegres com outros tristes, que deixaram um saldo muito positivo, que nos estimulam a cavocar, buscar lembranças, reconstruir aqueles anos maravilhosos da “nossa querida Iperó”.

 

 

Marco Antonio Moraes

Eu descia e subia a escadaria da estação nos anos 60/66, quando estudei na Escola Salles Gomes de Tatuí. Que saudades!!! Sobre a família Antunes, eu conheci o José “Viturino” Antunes, dono de um açougue na rua Porfirio de Almeida. Os seus filhos são da minha idade: José Adão, Carlinhos, Paulina, Isabel Cristina, Amaro. E a dona Conceição, a matriarca. Bons tempos aqueles!!!

O Olímpio Pavon ia no boteco do meu pai Antonio (Kike). O bar ficava na rua Porfirio de Almeida, ao lado do açougue do Zé Viturino.

 

 

Ubirajara Garcia Moraes

Nasci em Iperó em 1945. Saí dessa cidade com 11 anos e nunca mais voltei para morar. Fiz uma viagem ao passado observando foto por foto. Lembro-me de muita coisa que aconteceu, principamente na décade de 50, anos dourados. Me achei em uma foto do grupo escolar. Conheci o diretor, professor Virgílio, que foi embora da cidade por um suposto “affair” com uma professora (os dois foram encontrados juntos pescando em um barco no rio Sorocaba). Na época, foi um escândalo. Onde já se viu uma coisa dessas em fins de 1952? O professor Virgílio era casado e tinha um casal de filhos. O menino chamava-se Roberto, a menina não me lembro, mas recordo perfeitamente da última formatura presidida pelo professor Virgílio. Sua filha cantou uma música marcante e um dos versos era assim: “A madrugada que passou não volta mais.”
Depois veio a diretora Alzira. E a professora Lilia, então? O que falar delas? Fiquei traumatizado muitos anos. Não tenho saudades. Outras, porém, foram maravilhosas. A professora Henory, professor Lazinho, dona Mirtes, dona Maria Aparecida (maravilhosa, minha primeira professora no antigo grupo escolar onde estudei poucos meses; logo depois era inaugurado o "Gaspar Ricardo Jr." e estive presente agitando bandeirinhas na chegada do governador Lucas Nogueira Garcez).

 

Elisabeth Rodrigues

Em alguns pontos, temos o mesmo passado. Também fiz um pedaço do meu primeiro ano lá no antigo Gaspar, perto da estação. Depois, fomos transferidos para o grupo novo, que era uma maravilha. O chão vermelho era super encerado. Do seu Virgílio lembro-me de algumas coisas. Era um homem inovador para a época . Tocava muito bem violino, que era novidade para uma cidade tão pequena. Fiquei sabendo de tocha acesa , me parece que num “7 de Setembro”. Teve a tocha que os alunos levaram em revesamento e até Dom Pedro I desfilou num cavalo. Será que estou enganada? Eu estava no segundo ou terceiro ano. Outra coisa que me recordo era o sotaque do seu Virgílio. Nos discursos, falava “O purque” disso ou daquilo, ao invés de por que. Só me lembro disso dessa época.

 

 

Augusto Daniel

O Dom Pedro I, num cavalo branco, muito bem ensaiado, foi o irmão da esposa do sr. Dito Bom. Penso que era ou é Valdemar o nome. Era mais velho que eu, devia estar já no 4º ano. Participei dos ensaios, como outros alunos mais novos, para participarmos de todo o ritual festivo, como citado anteriormente. Além da maneira de falar, lembro-me de ser alto, esguio (falava-se até em ter sido tísico), bigode fino, trabalhado, altivo, extremamente dinâmico, muito fez pelo nosso Gaspar. Era de um tempo em que um diretor e os professores eram respeitados na escola e fora dela. Tempos de dona Clarisse e outras. Tempo em que a  professora Henory de Campos (ainda sem o Góes) estava apenas iniciando. Uma das coisa fantásticas que criou foi o “escotismo”, na época extremamente organizado, com uma fanfarra maravilhosa. Criou os desfiles dos escoteiros nos dias festivos, como “7 de Setembro”, madrugadas do “Primeiro de Maio”, etc.

Família maravilhosa: sua esposa dona Sofia, seus filhos Neusa e Roberto, moravam numa casa em frente ao Grupo Escolar, onde depois morou dona Henory e o marido (prefeito de Iperó na emancipação, José Homem de Góes).

A referência a uma pescaria, onde havia uma professora, e que serviu pra falatório: eles estavam lá, de fato, só que não só. Haviam outros, incluindo meu tio Lázaro Garcia, também se iniciando como professor nessa época. E não devia ser o mais importante fato com o qual lembrássemos dele. E mais, citássemos em “Fragmentos”. Assim eu penso.

 

 

Augusto Daniel

7h30. Estou voltando de um plantão que faço há 28 anos e depois de um tempo prolongado sem chuvas, o céu está fechado. Finalmente cai uma "chuvinha". Terça-feira feira, cidade parada, não está frio e também não está quente. Do quarto andar ouço passarinhos diferentes cantando, brinco com meu cachorro e viajo, viajo no tempo, pois hoje é 7 de setembro, “Dia da Independência”. Chego a Iperó, num ano da primeira metade da década de 60. Diferente da maioria que estudava em Sorocaba ou Boituva, eu sempre gostei das datas festivas. E o “7 de Setembro” sempre me encantou. Já citei o trem das 4h40 e eu estava nele mais uma vez. Desta vez, não para estudar, mas para ir desfilar no “7 de setembro” pelo "Ciências e Letras", ginásio tradicional de Sorocaba, com seu lindo blusão que no dorso trazia um desenho lindo, onde se lia em latim "Veritas et Virtus". Já escrevi e traduzi: "A Verdade é uma Virtude".

Chegávamos à estação de Sorocaba às 5h, aguardávamos o desfile que deveria começar às 8h, mas que começaria às 9h. Disso eu não reclamava, gostava demais. Desfilei na 7 de setembro, na Penha e na São Bento muitas vezes. A fanfarra do “Ciências” era fantástica. Havia competição entre as fanfarras do interior do Estado, verdadeiras bandas, e a do “Ciências” sempre entre as primeiras. Luís Marins (o mesmo que escreve nos jornais, aparece na televisão e gosto muito dele), filho do professor Luís Marins (dono e um dos diretores da escola), estava na minha classe. Sol na maioria das vezes, chuva, sede, fome, tudo isso estava presente, mas eu desfilava com vontade. Numa dessas, voltando a Iperó e chegando mais ou menos ao meio dia, ainda muito disposto, almocei como um leão e como anteriormente combinado, saímos para um churrasco. Silvano, hoje nome de rua (ainda chego lá), o Paulão (professor Paulo Zovaro) e havia mais um, mas não era o Cica (porque ele e o Silvano juntos terminava em discussão; não pelo Silvano, mas pelo Cica que já era ranzinza). Cada um levava uma parte. Seguíamos pela linha, trilhos, subíamos na direção de Bacaetava, atravessávamos o corte, passávamos sob o viaduto do Jânio (o Quadros, então governador do Estado), caminhávamos um longo trecho, saíamos pouco depois do término do corte, à esquerda, e seguíamos um caminho que nos levava longe, a um lindo lugar no rio Sorocaba, que ainda hoje é coberto de árvores. Havia um barco, atravessávamos o rio e íamos a um rancho simples, muito bem feito e estava completada a missão.

Agora vinha um período de sacrifício. Éramos obrigados, naquele "calorão", a ficar mergulhando e nadando naquelas águas que "odiávamos". "Puta" vida dura. Como "nóis sufria no perozinho daqueles tempo". Mas o sofrimento não se restringia a isso. Tínhamos que trabalhar para fazer o churrasco e também deixar as "taubaínas" amarradas na água para não esquentarem. Assim era a nossa terrível vida. Com pessoas que não gostávamos, num dia de Sol horrível, numa cidade que não amávamos e comendo carne, tomando “taubaína” num rio que também não gostávamos, após uma manhã que também não nos tinha agradado. Isso tudo pra mostrar como a vida simples, solta, do nosso "anteriormente", fazia um "mal danado". Hoje que é "bão"!!!

 

 

Edna dos Santos

RECOMEÇO DE UMA FAMÍLIA - Em meados da década de 1960, meu pai Pedro Francisco dos Santos, nascido em 28/06/1927 na cidade de Belo Jardim (Estado de Pernambuco), exercendo o cargo de guarda-fios na Estrada de Ferro Sorocaba, foi transferido da cidade de Itararé para Iperó. O cargo de guarda-fios era de muito importância. Afinal, ele era    responsável pela eletricidade (alta e baixa tensão), subestação, torres, posteação e telecomunicação (centro telefônico, seletivo, etc) entre os limites designados pela própria ferrovia.

A chegada foi conturbada, pois o chefe da estação, na época, entregou as chaves de uma residência que não pertencia à Diretoria de Eletricidade à qual o meu pai pertencia. As vilas ferroviárias foram de extrema importância na vida dos empregados. Residências de padrão europeu, dispondo de todo o conforto, inclusive com água encanada, esgoto, eletricidade, algumas até com seletivo (depois, telefone) e com um setor especializado na manutenção dos imóveis.

Os empregados eram contemplados com essa “mordomia” até a aposentadoria. Contudo, num caso de emergência, já estão próximos do trabalho. As residências eram distribuídas de acordo com uma hierarquia de cargos, existindo diferenciadas acomodações. O imóvel correto seria de nº 14, mas o chefe da estação autorizou que outra família utilizasse o referido imóvel. O impasse estava instalado. Alguns empregados espalharam que “era a primeira vez que ele estava enfrentando uma família nordestina”. Até concordo que fomos a primeira família nordestina a morar em Iperó, mas já estávamos há alguns dias acomodados na sala de espera da estação e a nossa mudança dentro de um vagão no pátio. Havia a necessidade de desocupar esse vagão para seguir viagem, afinal era uma cortesia da ferrovia contribuir com o transporte da mobília de seus empregados num caso de transferência, pagamento e até mesmo na morte.

O chefe da estação tentou ser mais brando, demonstrando preocupação com a família. Meu pai aceitou as chaves, não me lembro se era de nº 7 ou 8, mas disse-lhe que seria temporariamente. Nós estávamos com a minha mãe, Flávia Furtado de Lacerda (nascida em 27/03/1935 na cidade de Mauriti, Estado do Ceará), desenganada por médicos e acamada há mais de dois anos, além de crianças pequenas e sua irmã recém-casada. Portanto, era inviável permanecer por mais tempo ali. O risco era muito grande. Minha mãe recordava-se que o seu “Dito carregador” a olhava fixamente com sentimento de pena e dizia: “Tenha fé, a senhora vai ficar boa para criar e cuidar dessas crianças.”

Na casa, tivemos como vizinhos pessoas maravilhosas que nos acolheram com muito carinho: a dona Olinda Pólo, dona Terezinha, Ivone, pessoas que ajudaram muito a  nossa família. O tempo foi passando e a melhora da minha mãe era visível. O clima da cidade ajudou bastante na sua saúde. Não fizemos mudança neste imóvel. Era comum termos nos quintais, hortas, galinheiro, o plantio de árvores frutíferas, um bonito jardim, pois sabíamos que o processo estava tramitando em São Paulo, sede da Ferrovia. Chegamos a comprar uma televisão e outros utensílhos domésticos. A prosperidade voltou a reinar na minha família e também depois de algum tempo veio a ordem da transferência para a residência de nº 14.

Minha mãe faleceu em 02/01/2000 e não admitia que fizessem críticas à cidade de Iperó. Aliás, costumava dizer:

“Para fazer a viagem de Itararé para Iperó precisei tomar quase dois litros de sangue e na Santa Casa os médicos foram sinceros em dizer que dificilmente aguentaria essa viagem. Portanto, caso um dia a cidade de Iperó desapareça do mapa, continuarei a beijar aquele pedaço de chão que só me deu alegria.”

 

 

Augusto Daniel

Ontem, 3 de outubro do 2010 (do ano do Senhor), foi um bom dia. Conheci pessoalmente o Hugo, exatamente o que eu imaginava sem o conhecer pessoalmente. Foi o dia do seu aniversário. Revi seu pai, velho amigo da santa terra. Conheci sua irmã e seu sobrinho. Estive no Gaspar, fiquei na fila, não quis utilizar minha idade; preferi curtir o velho Gaspar com seu pátio, sua escada onde as fotos eram "batidas", suas portas, seus "fantasmas", doces fantamas. Percorri as salas e corredores procurando o meu fantasma, que conviveu com gente como seu Jaime, dona Catarina, professores Lázaro, Henory, Therezinha, Clarisse, Myrtes, Jurema, Virgílio, Alzira, etc. Amigos como Roque, Cica, Paulão, Fio, Tanaka, Zé Augusto, Rosa, Reni e tantos que não seria difícil prá mim enumerá-los. Todos, sem exceção, me ensinaram. Me lembrei de três fatos: um foi uma maçã, que na época era coisa rara e cara, Argentina, envolta em um papel roxo, que mais parecia um presente. Meu pai, numa viagem a São Paulo, 4 horas maravilhosas até a cidade da garoa, cheguei a ver, bem, meu pai me trouxe uma maçã. Resolvi presentear a professora Clarisse, que era dura na queda. Imaginei, talvez, que a teria nas mãos. A maçã ficou sobre a mesa e eu fui crescendo na sala, até que veio a "carcada". Não me conformei, como ela, a Dona Clarisse, havia me feito aquilo depois da maçã. Esperei, a aula terminou, fui até a mesa, peguei a maçã e fui embora. Me lembrei do Ademar Berton que "maroteou" Dona Henory. Foi mandado à diretoria, grudou na carteira e não saía. Foram arrastados, a carteira e ele, até a diretoria, rebocados pela diretora, Dona Alzira, Dona Henory e pela sua mãe, Dona Catarina. Me lembrei do Cláudio Feliciano que à direita de quem está descendo, ao pé da escada que vai ao pátio, teve um "ataque", epilepsia, permaneceu lá até que acabasse (o que não é errado), mas não pelo motivo pelos quais essas pessoas eram evitados; o contato com a baba. Por fim eu me assustei quando fui pedir as bençãos ao “Velho Gaspar” e lá não estava a sua cabeça. Que susto!!! Eu me acalmei quando me disseram que ele estava passando por uma plástica e logo voltaria para acalmar e orientar todos esses nossos fantasmas. Passei o dia com pessoas que também me são muito queridas: o Luiz (enxadão), a Ana, Rosa, Lara, Luis Gustavo, comendo, bebendo e proseando do que tem de melhor, o carinho. Por fim, encerrei o dia feliz com o meu candidato, Serra, indo ao 2º turno. E o Alckmin, num só turno, ao Governo de São Paulo. Que VIVA IPERÓ!!!

 

 

Hugo Augusto

Gustão e demais amigos,

Realmente, ontem foi um dia que será sempre lembrado. Já não somos mais apenas virtuais (um para o outro). Certo?

O Gaspar tem muita história para contar mesmo. Quantos iperoenses passaram por ali e hoje estão nas mais variadas profissões, nos mais variados pontos do país e do mundo, fazendo sucesso! Me orgulho por ter estudado lá, durante 11 anos, e ter conseguido passar pelas etapas seguintes (técnico, graduação e pós-graduação), graças ao conhecimento adquirido durante esses anos iniciais de estudo. A escola não se resume ao corpo docente. Quem faz a escola é o aluno. Se há professores ruins, é por que há alunos ruins. Hoje o aluno é "dono" da sala de aula. Faz o que quer. Mal sabe que está enganando a si mesmo, pois fora da escola será cobrado e não conseguirá responder à altura.

No Gaspar fiz grandes amigos. Vivi boas histórias. Sinto saudade. Ontem também passei por lá. E revi muita gente. Lembrei de tanta coisa. Bateu a saudade. Enfim, e é muito legal a gente lembrar o ponto onde começamos e olharmos todo o caminho que percorremos até chegarmos onde estamos hoje. O quanto crescemos.

Isso nos motiva a continuar batalhando e levando adiante trabalhos como esse que temos desenvolvido, através do qual tem sido possível conhecer tanta gente boa e tão apaixonada pela nossa cidade.

Grande abraço a todos,

Hugo.

 

 

Tabajara Garcia Moraes

Hugo,

Lendo as histórias de nossa terra, tão bem escritas por seus assinantes, não resisti ao ímpeto de me intrometer e registrar algumas impressões de minha infância querida, passada nesse rincão, até os meus 8 anos. E essa idade me faz lembrar o grande Casemiro de Abreu: "Oh, que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais". Filho de maquinista, nasci e morei na Vila do Depósito e, na ótica de criança, esse lugar era muito distante do palco de quase todas as ações relatadas.

Nossos vizinhos eram Abílio Antunes (que explorava uma quitanda em sua residência) pai do Osmir que era o líder da rua, Benedicto Peixoto (pai do Odacir), Sebastião Sena (pai do Tão), Manuel Azeredo (pai do Manuelzinho e do Lúcio), Elias Cunha (pai do Marcos) e outros que me escapam os nomes. Entretanto, quero registrar a amizade de minha família com um casal que morava, como se diz, parede e meia conosco. Ele era Gélson e sua esposa era chamada de Dijinha (não me lembro do nome). Dona Dijinha tinha uma câmera Kodak (um luxo na época) e sempre chamava os meninos para fazerem "pose" para uma foto. Lá íamos animados, arrumando o cabelo, ajeitando a camisa para dentro das calças e então: Clic! A pose era desfeita, a criançada perguntando quando a foto seria revelada e ela se desmanchando de rir ao dizer que a máquina não tinha filme. A criançada era só resmungo. Algum tempo depois, já moradores de Itapetininga, soubemos de sua morte precoce, o que muito nos entristeceu.

Nossas brincadeiras na rua eram "boca de forno", "pular sela", "mocinho e bandido" que chamávamos de farveste, "jogo de taco", "bafo" que consistia em virar, com um tapa, figurinhas que eram postadas no chão com a figura para baixo. Também íamos ao "nadador", uma pequena represa no meio do eucaliptal, buscar taquara do reino da qual cortávamos canudos onde eram introduzidos outros canudinhos de papel, em forma de cone, para soprar nesses enxames que as vespas fazem nas paredes das casas.

Em 1955 entrei no 1º ano, já no Gaspar. A professora era dona Lourdes Caetano da Silva (dessa ninguém se lembrou), muito querida. Pelo relato do Tanaka e do Auguso Daniel, há grande chance de termos estudado na mesma turma. Como já disse o Tanaka, a classe era dividida entre os mais e os menos "adiantados". A sala tinha três fileiras de carteira denominadas seções: seção "A" (os alunos mais atrasados), seção "B" (os intermediários) e seção "C" (os mais adiantados). De se notar, ainda, que havia ascensão e rebaixamento nas seções, sempre cobrados pelos pais. Lembro-me que na hora do recreio muitas mães (a minha inclusive), acostumadas a levar almoço para os maridos na ferrovia, levavam almoço também para os filhos. O colégio era cercado com arame farpado e as mães do lado de fora conversando entre si, enquanto os filhos almoçavam rapidamente. No 2º ano tivemos a professora Elvira Tomazella (essa já foi citada), da qual não guardo boa lembrança. Era muito exigente e, como a época permitia, castigava fisicamente. Na classe tínhamos como colega o Jarbas, filho do sr. Bertolli, garoto muito inteligente e desinibido, queridinho da professora. Ao término daquele ano de 56, meu pai foi transferido para Itapetininga e, então, pouco voltamos para Iperó. Agora, com tantas lembranças revividas, surgiu um desejo de visitar a terra para conferir os avanços que ela vem experimentando, conforme relato dos "escribas" que a frequentam atualmente. Quem sabe uma hora dessas?

 

 

Tanaka

Maravilhosa a sua narrativa, Tabajara. Só de uma coisa eu discordo de você. Ao contrário de você, a professora Elvira Tomazella era a minha queridinha. Era de quem eu não tinha medo. Você sabe, naquele tempo os/as professores/as nos inculcavam algum temor, não é mesmo? Não sei se seria por que ela flertava com o Said e por isso ela me tratasse até com carinho, mas de qualquer maneira era com quem eu tinha mais acesso, vamos dizer assim. Mesmo com minha mãe ela fez amizade. Me lembro também dela ser uma fervorosa católica.

 

 

Augusto Daniel

Muito bom, muito bom o Tabajara. Certamente não me lembro de você e vice-versa. Também não é o mais importante. Importante é que certamente convivemos, certamente dividimos as mesmas situações, conhecemos as mesmas pessoas, incluindo o conhecimento das pessoas da "Vila do Depósito", que mesmo não morando daquele lado, sei das casas de cada um. Fico feliz porque você entrou no clima e peço que relate suas histórias, que podem ser parecidas com as nossas, mas elas serão suas, com o seu toque. E sempre estará falando da nossa terra. Descreva os detalhes que sua memória permitir: a vila, a rua, as crianças, o córrego. Enfim, você chegou. FIQUE!!!! Um abraço.

A Dona Elvira não deu aula, no tempo em que vocês falam, pra mim. Eu me lembro que fiquei muito triste porque fui para a classe da professora Lilian, que deixava muito a desejar. Aliás, me fez muito mal pelas agressões. Pegava em nossos cabelos (meus e de outros) e os puxava, arrancando-os. Do ponto de vista de aprendizado, regredi muito. Dona Elvira eu conheci como professora particular, em minha casa, e gostava muito dela. A verdade é que nosso amigo é muito bem vindo no time, fez até o Tanaka se manifestar novamente. Insisto, não pare.

 

 

Hugo Augusto / Augusto Daniel

Augusto:

- Meu querido Hugo, temos dados que, somados, fazem emergir com muita força, como se fosse Atlântida emergindo do fundo do mar, a cidade de Iperó dos anos que tanto falamos. Surge revitalizada, atestada pelas fotos, crônicas e principalmente pela imprensa (onde aparecem meus tios Acácio e Lázaro Garcia), com participação ativa na política em defesa do então distrito. Os reclames do comércio mostram a grandeza da ‘minha’ Porfírio, agitadíssima. Lá também está a propaganda da nossa casa, “Garcia e Pavon”. Hugo, se você não existisse, talvez eu tivesse que pedir ao seu pai que tomasse uma providência! Estamos conseguindo, a história informal está surgindo, a Atlântida emerge viva e forte numa tríade: crônicas( narrações), fotos e imprensa da época.

 

Hugo:

- Gustão, e já tem tanta coisa interessante… Viu entre as notas de falecimento do jornal, acho que uma sobre a sua bisavó? Dona Honória Ferreira de Almeida. E o comércio? Muito forte mesmo na época... e na Porfírio de Almeida! Enfim, estamos chegando num ponto em que há a necessidade de colocar no impresso mesmo: um livro!

 

Augusto:

- Conheci Vónoria (avó Honória), minha bisavó, mãe de Augusto (meu avô) e de Acácio (meu tio-avô). Meu avô, meu tio, ambos de luta, vindos de família bem carente, não sei exatamente a história, mas consta que o pai era latoeiro, fazia objetos de latas, como canequinhas, por exemplo, mas não tinha um lugar fixo, corria cidades. Infelizmente, não o conheci. Mas os dois irmãos rasgaram espaço e, cada um a seu modo, fizeram seu caminho. Meu avô foi poceiro (fazia poços), pedreiro (fez uma casa, ainda nossa, na rua Silvano Mioni), foi ferroviário (oficinas de Sorocaba), foi caminhoneiro (em 1952 comprou um caminhão e transportava querosene entre São Paulo e Paraná em estradas de terra) e comerciante, entre outras… e graças a Deus foi meu avô. Meu tio Acácio foi feroviário, sindicalista e líder sindical (Sorocabana), mandado embora da ferrovia, como comuna, agitador. Uma vez na rua tornou-se toureiro, TOUREIRO, de desfilar nas ruas com roupas de toureiro, entrar em uma arena e tourear (“pegar touros a unha”), expressão que era a tradução de uma manobra extremamente perigosa, quando o toureiro agarrava o touro pela cabeça, aguardando sua aproximação, ajoelhado. Participou do “O Jornal de Iperó” e foi poeta na poesia sobre Iperó.Voltou à ferrovia, onde se aposentou. Vonória, lembro-me dela vindo de Sorocaba para a minha casa na Porfírio, abraçada à minha tia Lazinha, sua filha, pequena, cabelos encanecidos, testa larga, muito bonita e meiga no andar, sorrir e falar. Tinha a face de uma pessoa da qual a vida cobrou muito e que as dificuldades e a história dela confirmam. Isso a tornou tolerante, compreenssiva e quando estava perto dela, sem que ninguém me falasse, eu sentia que ela irradiava segurança e paz, sem emitir uma palavra. Cidica, Gustico, Lazico, assim se referia à minha mãe (sua neta), meu avô (seu filho) e meu tio (seu neto). Pessoas daquelas que, voltando ao “trem da vida”, estiveram por pouco tempo em nosso trem, mas marcaram presença. Que Deus a proteja onde estiver.

 

 

Tanaka

IPERÓ
Quando eu aprendi há bons anos atrás o que significava o toponímico do nome "Iperó", a sua tradução da língua indígena queria dizer "águas profundas e tortuosas". Bem, eu disse ‘queria dizer’, porque depois de ter tomado conhecimento de outras definições, percebo que o toponímio em apreço não é absolutamente pacífico, pois apresenta controvérsias e que, portanto, outras existem para a sua respectiva designação.
Mas seja qual for o significado que melhor designe o meu torrão natal, que melhor a defina, o que realmente agora desejo é falar do meu berço primeiro, enfim da querida cidade e do meu agradecimento de ter aqui a minha naturalidade. Parafraseando Gil, de quem copio o verso e o adapto, eu diria que “Iperó me deu régua e compasso e, desta forma, o primeiro empurrão para que eu fosse gradualmente me qualificando na vida”. Portanto, sem este início nada teria conseguido. Se ainda hoje não sou um ser humano melhor qualificado e, por isso mesmo, me penitencio, com certeza não o é por culpa dela, mas é devido a toda a minha limitação individual.
E, ao contrário do significado acima expresso, ou qualquer outro que seja, e aqui faço uso da imagem de linguagem da primeira tradução que me foi ensinada, penso que a minha cidade sempre navegou por águas rasas, remansosas, indolentes e próprias da natureza interiorana se comparada aos grandes centros populacionais. Quem me dera, então, ela pudesse sempre continuar assim pela infinitude dos tempos, completamente livre de toda a agitação, a incongruência, o paradoxo, a incoerência, o maniqueísmo, e a todo o desejo de se rotular as coisas, enfim de tudo que é dispensável em nossa contemporaneidade, quando se coisifica, quando se desumaniza a vida, como ocorre nos grandes centros e, sem se deixar levar pelo arremedo de modernidade.
Como faz já um bom tempo, ela caminha pelas próprias pernas, pois há muito se emancipou e há tempos alcançou a maioridade. Assim, pois, ela soube conquistar a sua independência territorial e a sua administração própria, demonstrando desta maneira o que quer. E esse querer é seguir em frente projetando e idealizando tanto o presente quanto o futuro, o próximo e o longínquo, para si e a seus cidadãos. É querer dar sempre o melhor de si à sua comunidade.
E se mais se pudesse citar a seu respeito, do seu modo de ser, eu diria que ela não é pequena e, claro, mui tampouco média ou grande, mas, mais que tudo isso que diz respeito a aumentativo, superlativo, diminutivo, ela é do jeito que tem que ser, porque é assim que ela é e deve continuar a ser. Ela é única por isso. A sua característica é essa como ela é naturalmente aos nossos olhos, aos nossos sentidos, como a gente gosta e quer que ela seja. Por isso mesmo, ela não precisa ser rotulada.
No início, no ontem, ela rodou sobre trilhos e rodas de aço. Sua máquina de ferro e a vapor, movida à queima da lenha, soltava fumaça e brasa. Tomasse-se cuidado para que esta não o alcançasse ou a roupa, senão queimava. Só depois chegou a modernidade, a máquina à eletricidade. Outrora as suas ruas e calçadas de terra batida foram pisadas por pés descalços e solas de borracha. Também trafegadas por carroças e carretas à tração animal com ferraduras do ferreiro artesão. E por rodas de madeira revestidas de ferro para aguentar o rolar e o peso que carregava, senão rachava ou quebrava. Na seca, muita poeira levantava. Na chuva, então, muita lama se formava. Mesmo no tempo normal não tinha jeito: muito buraco aqui e ali pipocava sem igual.
A arquitetura da sua habitação do mesmo formato e cor padronizava a sua construção. Suas paredes de tijolos e cobertura de telhas de barro sustentada por estrutura de madeira e forro era o modelo do melhor conforto. Portas e janelas sob medida, além do fogão à lenha e água encanada, isso, sim, era comodidade e propriedade. Sua economia assim se pautava e o progresso da época a esta maneira aqui estava.
Ela já teve o seu nome de santo e hoje faz um tributo aos primeiros povos nativos indígenas que nesta pátria continente aportaram, sabe-se como, apropriando-se deles o nome brasileiríssimo, nacionalíssimo.
Entretanto, como tudo no mundo muda e esse é o incontrolável ciclo, a quadra da história, da vida, ela também mudou. Hoje ela transita sobre ruas de asfalto e rodas de borracha. Não mais com os pés descalços, mas com os melhores calçados. E a sua diversidade cada vez mais se acentua. Sua aparência e pujança é outra. Nota-se que ela quer e busca se atualizar e dinamizar. Ela não é mais tão rural e cabocla como antes. Ela se veste diferente e estampa a moldura da sua época.
O que, entretanto, entristece, mais do que se lamenta, é o esquecimento e, por que não dizer, o abandono do seu centro original, da sua história inicial que necessita ser recuperada. Onde antes a vila, depois distrito, depois o município nasceu, precisa ter a sua memória preservada e conservada. O centro velho necessita reformar-se, revitalizar-se, atualizar-se sem se descaracterizar.
Enfim, mais adiante, mais uma quadra da sua existência se completará, e ela novamente mudará para complementar mais um período do que será sempre o seu inesgotável ciclo histórico.

 

 

Hugo Augusto

Tanaka, que bela reflexão, meu amigo!
A necessidade de recuperação dessas regiões citadas por você é urgente!
Aqui, virtualmente, temos conseguido resgatar muita coisa, sim, mas é preciso que algo parecido - e em escala maior! - seja feito também no mundo real. Algo de concreto, que recupere esses locais fisicamente.
É uma tristeza passar pela Porfírio de Almeida e arredores. É uma tristeza passar pela vila.
Saber que foi nessas regiões o começo da nossa Iperó! Pena o abandono em que se encontram. Quanta história já foi contada sobre esses lugares!!!
Grande abraço,
Hugo.

 

 

Elisabeth Rodrigues

Oi, Tanaka. Que texto belíssimo sobre nossa Iperó. Encontrei-me em cada trecho, principalmente como criança, quando nos dias de Sol, nossos pés sempre livres pelo chão deixavam na terra batida os vestígios de nossa passagem. Já, quando vinha a chuva, eram os cheiros que chegavam até nós na química do encontro: terra e água da chuva.
E eram as enxurradas que nos atraíam. Quando a chuva estava mais fininha era hora de fazer a represa na valeta da querida “ex” Duque de Caxias. Quanto barro nas nossas mãos!
Parece que tudo era vitaminado, pois ninguém ficava doente. Depois que a chuva ia embora, a valeta ficava bem maior. E daí? Eram as trincheiras de nossas brincadeiras de guerra. Na verdade, só tempo de paz, de brincar, de poder ser criança.

Augusto Daniel

Ary Araújo, grande figura! Mario Araujo, Jacó, Ary, Miltinho, Irene (havia também mais dois meninos que não me lembro o nome). Uma figura da cidade de Iperó. Faz parte importante da história de nossa cidade. Alguns anos mais velho que eu, pessoa muito querida. No esporte, nunca foi um craque, mas sempre jogou futebol; centro avante tipo rompedor, eterno titular do time de aspirantes. Era rompedor, porque quando abaixava a cabeça e partia em direção à área adversária, carregando a bola, literalmente rompia, pois era muito forte. Tinha formação física para "beque central", mas optou por ser centro-avante. Fazia seus gols. Ainda no esporte, foi um grande boxeador. Grande vencedor. Em frente ao portão principal do Gaspar, do outro da rua, era um grande terreno de terra batida, onde se instalavam as "touradas", sobre as quais já falei alguma coisa, incluindo sobre os toureiros. Ali, embora houvesse um outro local, também ficavam os circos. Desse lado da rua (Santo Antonio), um pouco para baixo, era a casa que foi do sr. Virgílio (um dos grandes diretores do Gaspar) e que depois foi habitada durante muito tempo pela professora Henory de Campos Góes (minha professora no Gaspar, pessoa maravilhosa) e pelo seu marido, José Homem de Góes (Zé Borba), com participação ativa na emancipação de Iperó. Bem, o Zé Borba, nesse terreno que citei anteriormente, montou uma arena para a prática do boxe. Ali, o Ary brilhou. Boxeava muito bem. Ágil, tinha noções de técnica, forte, foi vencendo a todos os adversários que surgiram, entre eles o próprio Zé Borba e o "Carioca", uma figura conhecida em Iperó, falante, valente, mas que também caiu. Figura carismática, querida, amiga, esteve presente em tudo que os jovens em Iperó faziam. Brilhou na música, quando uniformizado, desfilava pelas ruas de Iperó com a melhor banda musical que já existiu, a Santa Cecília. Seu instrumento eram os "pratos". Foi aluno do Agenor Barbeiro, tornou-se um ótimo barbeiro e abriu uma barbearia mais ou menos em frente o bar do Gilberto, na Santo Antònio, do outro lado da rua. Eu mesmo deixei de cortar meus cabelos no Agenor e passei a fazê-lo na barbearia do Ary. Deixei por último uma de suas principais atividades, a de cantor. Esteve presente em todos os grande bailes de Iperó - e eles eram maravilhosos - cantando tudo, mas principalmente boleros maravilhosos (La Barca, Relógio e outros), embalando a dança coladinha de jovens apaixonados no maravilhoso salão do Sorocabana, que incluia "cuba-libre", penumbra (meio escurinho) e, às vezes, lembrando o bolero da Elis, até a ponta de um doloroso "band aid" no calcanhar. Tive meus momentos de cantor num antigo programa de calouro que existia na cidade e o Ary me orientou na escolha da música, um "baião" muito bonito que sei até hoje. Eclético, não é mesmo? Mais uma pessoa maravilhosa com a qual tivemos a honra de conviver. Acho até que ser iperoense é sinônimo de ser gente boa.

 

 

Tanaka

Se existia um local concorrido para colocarmos todos os assuntos em dia em nossa época em Iperó, este sem dúvida alguma era a barbearia do Agenor. Hoje eu não sei mais dizer se a dita cuja tinha um nome propriamente dito, comercial, pois só me lembro me referindo a ela pelo nome de seu proprietário, ou seja a “Barbearia do Agenor”.
Para, por exemplo, nos atualizarmos com as notícias do esporte, nenhum outro lugar nos proporcionava gratuitamente a leitura do famoso jornal esportivo da época, ou seja, "A Gazeta Esportiva". Só lá tínhamos, assim, essa oportunidade de manusearmos um jornal e, como disse acima, de graça. E, olha, vindo da capital, que importância para a época! Que iniciativa singular. Portanto, hoje podemos dizer que parece até que ele é quem estava nos incentivando o gosto pela leitura. É claro que essa referência é mera força de expressão, pois com certeza não era essa a intenção, mas sim, a comercial, ou seja, a de fazer mais um agrado, o de cativar mais aos fregueses do que qualquer outra coisa, bem como de não os impacientar tanto com a demorada vez para se sentar na cadeira de barbeiro, pois tinham estes o jornal para a respectiva leitura durante a espera. E tudo isso é que o motivava para a compra do jornal. Agora, nos sábados, então, houvesse paciência para aguardar a longa espera, pois o movimento era por demais concorrido e a barbearia fechava muito mais tarde do que o costume dos demais dias da semana.
E, para falarmos um pouco do jornal, suas fotos ilustrativas e mais as reportagens eram uma sensação só e muita empolgação para todos nós que tínhamos a oportunidade da sua respectiva visualização e leitura. À medida que o líamos, ficávamos imaginando as cenas futebolísticas, os lances de craque ali descritas.
O que também fazia parte das nossas distrações, dos nossos divertimentos, sem dúvida era o jogo de damas. Quem não passou lá horas e horas disputando várias partidas no respectivo tabuleiro, eliminando este e aquele concorrente até ser proclamado o vencedor das concorridas partidas disputadas no dia?
Outro dos nossos costumes interioranos era o de sempre reservarmos principalmente o sábado, para o cuidado com a aparência, como o corte do cabelo, o fazer a barba, o vestir a roupa nova ou a melhor roupa, o namorar, etc… por isso ter-me acima referido que tudo era muito mais concorrido no final de semana.
Quando os fatos estão acontecendo no momento em que vivemos, não nos damos conta da sua importância, mas quando transcorridos depois tantos anos e quando refletimos a respeito, é que podemos aquilatar os acontecimentos vividos e fazermos o nosso reconhecimento a respeito. Quem, portanto, poderia oferecer entretenimento e porque não dizer um pouco mais de atividade prazerosa para todos nós, senão ele, senão a figura humana em apreço, uma figura humana pacífica, a quem, desta forma, rendo a minha homenagem? E falando dele, imediatamente recordo-me da sua esposa, a d. Rute, e seu violino, que também foram marcantes. Portanto, além do esporte, do cinema, dos bailes, era ali naquele pequeno recinto que completávamos as nossas atividades de lazer.
Necessário dizer que ele também não deixou de ser um "professor", um "mestre", pois ensinou para outras pessoas a prática do seu ofício e que fizeram deste a sua profissão. Fez ele com este seu gesto a sua contribuição social para a sua gente.
Eu bem posso dizer da sua personalidade pacífica e da sua paciência com os respectivos fregueses, pois o que eu "brigava" com ele quando ia cortar o meu cabelo, não é pouco não. Eu, pra variar, achava sempre que ele não tinha feito o corte como eu queria, mal tendo a consciência de que o meu cabelo ruim, sim, e que de nenhuma forma colaborava. Muita falta de coerência a minha. Entretanto, ele pacificamente, como disse acima, apenas ouvia sem me revidar com deselegância.
Bem, mas não só de jornal e do jogo de damas consistia a atividade de lazer do salão de barbearia, senão também para tratar de todos os assuntos sociais e fofocas vividos pela nossa comunidade, como muitos com certeza vão se recordar. Também havia muitas discussões acaloradas e gozações ali dentro. Interessante registrar igualmente o costume dos homens adultos da época, com exceção de alguns poucos, de "fazer a barba" exclusivamente na barbearia, diferentemente de hoje. O ritual era mais ou menos o seguinte: depois de devidamente vestido o avental branco, colocado pelo Agenor, que ficava amarrado ao pescoço do freguês na sua extremidade superior pelas duas respectivas tiras, ver aqueles rostos rudes cobertos de muita espuma muito branca e ele afiando pacientemente e demoradamente a navalha numa tira de couro, para depois, com muita habilidade, raspar os pelos da chamada barba. Pode-se hoje dizer que é realmente coisa do passado.
Entretanto, é de registrar que essa sua forma de agir no seu ofício sem nenhuma pressa, esse seu ritual de muita calma chegava às vezes a irritar aquele que estava sentado na cadeira de barbeiro esperando que ele terminasse o mais rápido o que deveria ser feito. Tanto quanto os que estavam esperando a vez, já que ele antes também já haviam demorado um tanto quanto manipulando o seu pincel de barba no pote que acondicionava o creme de barbear para formar a espuma. Parecia interminável o ritual, pois ele ficava também um bom tempo passando a espuma com o pincel no rosto de quem iria barbear, mas que ele com o seu trejeito de se expressar apenas dizia que era para melhor massageá-lo e cortar e não perder o fio da navalha.
Em seguida, vinha a higienização da pele do rosto que era feita com a loção pós-barba, loção esta que era preparada, se não me engano, por ele mesmo, e também muito talco, vejam só, muito talco, que estava acondicionado numa bombinha de borracha que ele apertava e, por diminutos orifícios na parte superior, saía todo aquele pó e era direcionado para o rosto do barbeado. Fechasse-se os olhos, no entanto.
O hábito de fazer a barba no barbeiro, para os mais adultos, estava tão enraizado no costume da época, que eu me lembro que o meu pai, mesmo tendo ganhado um barbeador elétrico do filho, nunca o usou, alegando que não se adaptava com o mesmo. Mas não se adaptava, porque também nunca fez o menor esforço para se adaptar a usá-lo, para ele continuar fazendo a barba na barbearia do Agenor. Era a praticidade. Acabei levando-o comigo para a minha casa e o utilizei por muitos anos, até que adquiri um mais moderno. E, olha, o dito cujo era muito bom. Não quebrava nunca. Apenas o seu desenho ficou um tanto quanto ultrapassado.

 

 

Ubirajara Moraes

Boa, Tanaca! Muito boa a lembrança do "naquele tempo" chamado barbeiro Agenor. Lembro-me muito bem do Agenor. Era chegar lá sentar na cadeira e lá vinha a pergunta: "Americano ou alemão?" Como sempre ia com meu pai, a resposta era sempre ele quem dava: "Alemão!". Acredito que a moda era um resquício dos tempos da Segunda Guerra Mundial. O corte ‘alemão’ era quase raspada a cabeleira toda; já o ‘americano’ era para manter um pouco mais de cabelo na cabeça. Depois, os tempos se foram, vieram os cabeleireiros e os hoje chamados "hair stylist". Interessante. Dá o que pensar. Encontrei por essa vida outros cabeleireiros com esse mesmo nome.
E falando em lembranças das brincadeiras da nossa infância, quem se lembra? Após a chuva, a terra úmida, era a vez do "finca-finca". Se ventava, vinha o que chamávamos de "soltar papagaio", também conhecidos como "quadrado", "pipa", etc. E o pião? A brincadeira era fazer uma roda, soltar os piões e ver quem rachava o pião do outro. O pai do Odacir Peixoto até nos ensinou a fazer o pião com nó de pinho. E onde achar o nó de pinho? De vez em quando passavam vagões carregados, vindos do Paraná! E por aí se vai. "Pular mula", o "balança-caixão", "brincar de mocinho e bandido" baseada nos filmes de faroeste. Alguém se lembra de mais alguma brincadeira? Agora, a coisa ficava boa quando à vista do pai ou da mãe, entravam as meninas para brincar. Vinha o "corre-lenço", o "passanel", "amarelinha". Enfim, o tempo passou e ficou a lembrança.

Ah... ainda tinham as "bolinhas de gude", com duas variantes: os triângulos desenhados no chão com as bolinhas caseadas e o "buraco" (um pequeno buraco no chão) onde o objetivo era colocar a bolinha dentro. E quem jogou, acredito que até hoje se lembra do "perca na buca se não der", significando que perderia a vez se a bolinha não caísse no buraco. "Rodar arco" consistia num pequeno aro redondo, rodado com um arame dobrado em uma das extremidades, que encaixava-se nesse arco. E com as meninas tinha também o "jogo de saquinhos".

 

 

Tanaka

Muito boas lembranças, Ubirajara. Você me fez recordar de uma brincadeira de criança que eu curtia muito, mas que entretanto estava apagada da minha memória: era o rodar um aro com um pedaço de arame que, como você disse, era dobrado em forma de "u" em uma de suas extremidades e que se encaixava nele para impulsioná-lo. E, olha, um bom exercício físico, pois ninguém queria rodá-lo devagar mas sempre com a maior velocidade que se conseguisse e sem deixá-lo escapar do nosso controle. Êta véio tempo esse!

 

 

Silvana Mello

REALMENTE, ISTO É SAUDADE DOS TEMPOS QUE SE PASSARAM, DAS RODAS NAS PRAÇAS, DAS CANTIGAS DE VIOLÃO, DAS AMIZADES SINCERAS, DA BONDADE, DA INGENUIDADE, DOS DELICADOS DA VENDA DO JAPONÊS DA RUA PORFIRIO DE ALMEIDA, DOS VAGÕES DE TREM, DA QUEIMADA NO MEIO DA RUA, DE FICAR HORAS DEITADA NO MEIO DA RUA OLHANDO PARA O CÉU. TUDO BEM, QUASE NEM EXISTIA CARROS NAQUELA ÉPOCA. SAUDADES DA CABRA CEGA, DO ESCONDE-ESCONDE, DAS BRINCADEIRAS DE RODA CANTADA, DOS PÃES CASEIROS, DOS BOLOS, DOS DOCES DE ABÓBORA COM CÔCO E LEITE, DOCE DE MAMÃO VERDE, DOCE DE SIDRA, DE LARANJA. HUM, COMO ISSO TUDO ERA BOM!!!
QUE SAUDADES DOS CHARUTINHOS DE FOLHA DE UVA DA AVÓ FLORIZA. AINDA CONSIGO SENTIR O CHEIRO DAS FOLHAS NOVAS QUE MEU AVÔ VICENTE COLHIA PARA ELA. SAUDADES DO PÉ DE MANGA QUE ELE GOSTAVA. ALIÁS, ELE GOSTAVA DE TODOS OS PÉS DE FRUTAS DO QUINTAL. CLARO QUE SEM ESQUECER O MEU LINDO PÉ DE PITANGA: ESSE EU CARREGO COMIGO...

QUE SAUDADE, SAUDADE DE TUDO QUE A LINDA INFÂNCIA ME DEU. TRAGO VIVO ISSO NA MEMÓRIA. ACHO QUE RELEMBRAR É VIVER E ESTE SITE TRAZ VIVO AS MAIS BELAS LEMBRANÇAS DA MINHA TERRA QUERIDA, MINHA DOCE E ETERNA IPERÓ.

 

Confesso que vivi muito feliz em Iperó, nem sei se posso dizer assim. É que no escrever, acho que tudo se torna verso, poema ou crônica, depende de quem é o critico, ou quem assim se interpreta.
Como se por um instante subitamente ou incondicionalmente achasse que essa elegância de frases poderia se revelar dentro do contexto da sitação acima, não por condição literária, mas pelo encanto que sinto em descrever um pouco dessa beleza, é que as vezes extrapolo na questão da escrita, mas também tenho muito receio da minha gafe.

Pois quem lê sem ter vivido a doce Iperó, fica longe da ideia do escritor (todos somos escritores). Quem não viveu, sempre acaba se identificando com algumas frases que talvez tragam a lembrança da terra Natal.. Mas, continuando, confesso que vivi esta história toda de "Iperó" e é engraçado, pois sempre me pego olhando este site e os trechos desta história em que todos tem o direito de dar continuação, de mantê-la viva.
Este site nos faz sentir convidados de honra, e que honra é também ver os convidados deste site chegando, se expressando com frases, lembranças, saudades, agradecimentos, alguns tímidos com muita discrição, outros mais arrojados, ousados e outros intelectuais.
E eu assim, sem saber escrever tão bem, mas como diz o Patativa do Assaré, acho melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada. E assim a gente vai deixando um pouco de nós, vendo um pouco dos outros com uma espiadinha aqui e outra ali na historia de Iperó, mas alimentando-a com este amor que temos por ela.

 

 

Augusto Daniel

Insisto no seguinte: nós todos temos memória (os véio qui nem eu já estão perdendo), nossa memória envolve fatos que tiveram significado (um perfume, uma música, um instante, uma rua, uma sala, um filme, uma conversa - como muitas que tivemos e ouvimos junto ao Orlando de Mello -, uma dança, uma conversa ao pé do ouvido durante um bolero cantado pelo Ary Araújo num baile, enfim). Antigos ou novos, temos nossas lembranças. Mudam os atores, mas o palco, Iperó, é o mesmo. Peço que "de quarqué manera", com sofisticação ou sem, com erros de português ou sem, escrevamos. Nosso objetivo é, com o "rodar da carruagem", deixarmos uma história, a história de cada um, que reflita a nossa cidade sob a nossa visão, sob a nossa perspectiva. Contrário não andamos, ficamos com elogios e elogios e mais elogios e não acescentamos nada. Somos atores, nosso palco é IPERÓ. Falemos sobre papéis que representamos em algum momento e estaremos falando sobre nossas histórias, acrescentando para uma eventual publicação e tenho dito!

 

 

Silvana Mello

Olá, Augusto. Tudo bem?

Realmente, você tem razão. A história tem que ser lembrada, registrada. Vou deixar um pedaço da minha memória aqui.

Bem, morava na rua Porfirio de Almeida, vizinha do senhor Lucas e Benedita Figueiredo (do lado direito) e do lado esquerdo o senhor Horacio e Maria Figueiredo. Em frente à minha casa havia um imenso pomar lotadinho de frutas que pertencia ao senhor Vital e Julieta, o avó da Leinha. Ali tinha uma fartura de mixirica, coisa linda mesmo. Sempre brincávamos, eu minha irmã Solange, a Léia, o Vitalzinho, às vezes o Beto (filho da dona Maria Figueiredo) e o Watson .
Porém, quando minhas primas vinham de São Paulo, da familia Salmasi, acho ou tenho a impressão que brigávamos e não podíamos ir lá. Só que minhas primas ficavam querendo ir. Éramos todas pequenas e queríamos mixirica. Lembro que até fizemos algumas músicas sobre as frutas. Bem, era tudo engraçado. Essas manias de criança. Mas me lembro que sempre brincava com a Giselma Holtz, a Valdery e a Vaéeria Lourenço, a Terezinha e a Rosana do senhor Olavo. Na rua também tinha a Denise o Adilson, eram tantas as crianças, mas era tudo muito bom.

Lembro da fábrica de arroz, da palha, o barulhão que aquilo fazia. Às vezes brincávamos lá. Me lembro do Pixinho, que era vizinho da fábrica, a família Prata, a Tânia e a Maria que também moravam por ali. Olha, eu lembro que eles eram mais velhos. Lembro que sempre ia pedir vidrinho de esmalte para a Ivone do senhor Dito Bom e para a Bete, filha da dona Maria. Nossa, tem muita história e isso vai ficar para outro dia...

 

 

Augusto Daniel

É isso, menina. É bem isso. Era, e com certeza ainda é, uma bela família. Conheci a todos. O que eu tinha mais contato era o Celoni, mas conheci um tio seu, casado com uma Sartorelli, penso eu já falecida. Também conheci outro tio casado com a Cila Calixto e conheci sua mãe, uma das moças mais bonitas de Iperó. Mas queria lhe contar uma façanha de seu avô, seu Perez, dono da primeira campainha da nossa Iperó, campainha dessas que substituiram as "palmas". Havia um pequeno quintal em frente à casa dele, essa que você acabou de citar. Era um jardim. Bem, ele instalou a campainha numa ripa, dessas de madeira, fincada no meio do jardim. Significa que qualquer indivíduo que resolvesse tocar a campainha teria que entrar no quintal. Mas, não bastasse isso, ele soltou um cachorro que se não mordia, pelo menos fazia um barulho infernal. Nós, bons meninos, questionávamos duas coisas: 1 - pra que serve uma campainha se não podemos apertá-la e introduzir um palitinho do lado e deixá-la tocando sem parar e o dono furioso? 2 - pra que uma campainha se o cachorro já resolve a questão? Penso hoje que ele queria preservar a campainha, visto ser ela "A Primeira da Cidade". Viu que historinha legal do vovô?

Tenho estado na cidade toda última quinta feira de todo mês. Vou com minha mãe. Fico com ela o dia todo. Fico parado em qualquer lugar, observando, pensando, aguardando minha mãe que resolve com a Vera seus problemas de "negócios" nos seus 84 anos. A cidade segue seu destino. Gira ela hoje em torno do velho e querido “Bisteca”. Como o Silvano, virou rua. Mais priviligiado, virou a principal rua da cidade. "The old man", nosso Bisteca antes de se tornar um doutor, era uma marca registrada, uma cabeça pequena (no tamanho), um corpo grande, um cabelo com a conhecida "onda" na frente, que quando seco, ficava "escorrido" caido numa franja cobrindo um olho, a calça bem atual, porque nos anos 60 já mostrava o rego. Nossas tardes eram quase sempre, na época desse folguedo, é claro, passadas no Pernoite em longos "campeonatos" de botão, futebol de botão, em longas disputas onde os campeões eram o Silvano, o João Mena e, vez ou outra, algum outro. Dona Maria nessa época morava bem em frente à rua que sobe da estação. Vizinha do correio, da Chislaine e do Seu Tristão (“Que buniteza”, expressão comum de seu Tristão). Ela tinha um bar. Mãe do nosso "grande" Bisteca. Ele, o Bisteca, neto do Seu Abílio, aquele do cinema, que levou a "Marquesa", cachorra conhecidíssima na cidade e que não gostou do filme e fez cocô no cine. Naquela época, vindo do cinema para baixo, na rua, do lado direito, tínhamos Seu Orlando, já falei sobre ele, um médico na nossa cidade e que como homenagem sempre quis seu nome num hospital da cidade. Ele deu nome ao PA, mas depois, não se sabe por que, foi tirado.Vizinho dele estava o Felício, velho Felício, também descendente de árabes (não de seu Abílio, mas sim de Dona Sada, mãe do Bibe que já esta inserido em um depoimento no "Fragmentos"). Felício, muitas vezes dócil, bondoso, mas quando bravo era de dar medo tal sua força. Era dono de um bar. Após vinha o correio. Havia uma bandeira do Brasil em frente, subíamos uma escada entrávamos no correio. Lembro-me de um ambiente limpo, agradável, móveis escuros, envernizados, com a sala separada por uma parede de madeira e uma janelinha onde víamos dona Céinha, uma mulher educada e bonita, que nos entregava uma correspondência ou enviava a nossa. Uma senhora elegante e importante na cidade na sua função, além do que estava inserida numa família muito respeitada na cidade. Em seguida vinha o bar de Dona Maria e de seu filho, o "Bisteca". Após, vinha seu Tristão e dona Zezé, no famoso bar "do Tristão", que sempre me pareceu de bem com a vida. Em frente ao correio, do outro lado da rua, havia o lugar onde mais brincamos em nosso tempo de criança em Iperó, principalmente à noite: o Posto de Saúde. Voltado para a velha Porfírio, no teto do Posto de Saúde, havia um "enchu", que viu e registrou a infância de muitas gerações e os namoros e os beijos, alguns amassos e não passava disso. Lugar sagrado. Bem, eram vespinhas inofensivas. À época, o Hélio, filho mais novo de seu Tristão, irmão do Teco (figura como tantas, queridas da velha terra e falecido há não muito tempo em um acidente). Bem, o Hélio, nesse tempo ainda gaguejava, e foi picado por uma saúva na bunda. Ficou famoso seu grito; "Eco, Eco, a aúva modeu o meu u". Isso era algo que toda Iperó nos seus 5 mil habitantes sabia e repetia, mesmo deixando o Hélio muito furioso. Bem, deixemos o Hélio e passemos ao vizinho, o famoso Bibe, não sem antes lembrar que foi no bar de seu Tristão que o Tarzã, figura famosa da cidade matou com um tiro de 22 um amigo nosso frequentador dos famosos bailinhos com sonatas e "Chá-Chá-Chá" que fazíamos no cine e nas casas, principalmente na do Ayrton, irmão do Tiguera. O Bibe, o velho Bibe, do melhor sorvete que até hoje experimentei. Tinha um toque de mágica. E o Sebastião, Sebastião Senne Filho, que era um dos nossos, amigo, gente boa, filho de gente boa, seu Sebastião Senne, turmeiro da Sorocabana, honestíssimo, fala baixa, extremamente bondoso, pessoa importante junto de outros turmeiros como seu Pedro Queiroz, Olímpio Passarinho e outros, trabalhou anos com o Bibe e confirmou a maneira artezanal de fazer o sorvete e que isso "num toque de mágica" o transformava no que havia de melhor. Vez ou outra minha avó mandava que fôssemos buscar um canecão enorme, cheio de sorvete, que para nós à época parecia um sonho. Bem, agora chega, porque o Bisteca estava saindo da casa dele e vinha em direção ao Pernoite, onde se desenvolvia uma importante etapa do futebol de botão. Corre-corre, botões eram pegos num passe de mágica, cada um guardava os seus, o campeonato estava encerrado no dia, porque o Dr. José Marques Penteado, nosso querido Bisteca, ótimo jogador de futebol - centro avante Sãopaulino - com letra maiuscula, do grande Rogério Ceni, que matou o curintinha, edil da municipalidade, vinha com seu cabelo caido na cara e calça caida com o rego à mostra, afanar mais um botão para montar o seu time. Pra quem queria um botão, ele ganhou uma rua, a principal. Um beijo no seu coração e que Deus o tenha. Vou embora que minha mãe está saindo da Vera e tenho que me despedir do Zezinho Domingues e sua enorme lista de piadas.

 

 

Tabajara Moraes

O Augusto lembrou muito bem da campainha do sr. Vicente Peres. Só faltou dizer que abaixo do beiral da casa, em lugar bem visível, existia uma luz vermelha que acendia ao mais leve toque na campainha. Isso aguçava nossa curiosidade. Alías, o Sr. Perez era um exímio artesão. Possuia uma oficina completa no quintal, onde materializava sua ideias, sempre engenhosas. Era mestre, também, na arte de produzir enxertos em plantas. Seus vasos de flor-de-maio eram de encher os olhos. Sabia, ainda, como ninguém, preparar com água da chuva que cuidadosamente coletava, por ser naturalmente destilada, deliciosos licores com extratos de plantas que ele mesmo produzia. Só que a receita ele não dava nem por decreto. Grande figura. Deixou saudades. Foi casado com uma prima de minha mãe.

 

 

Ângelo Lourenço Filho

IPERÓ E OS ANOS DOURADOS
USOS E COSTUMES DA ÉPOCA
Por uma questão talvez até mesmo por falta de opções de lazer, as pessoas de vários segmentos da sociedade; abastados ou pobres exercitavam algumas práticas de desintoxicação interior. Nessa época já trabalhavam normalmente psicólogos, psicoterapeutas, psiquiatras, sociólogos, jornalistas. Atividades profissionais normais. Entretanto na maioria das sociedades dessa época, formadas por pequenas comunidades, exemplificando Iperó, era difícil se deparar com pessoas sofrendo de depressão, ansiedade, angústia, solidão. Tomava-se café no bule da cozinha do vizinho. Sempre tinha alguém contando um causo qualquer ao entardecer. Fofocava-se a respeito de fulano e beltrano, mas não passava disso. Certamente ninguém sabia nada sobre stress.
No histórico de Iperó nesses anos dourados, registra-se apenas um caso de homicídio.
A cadeia que nem escrivão e delegado tinha, quando muito servia de hospedagem para uns beberrões que troçavam uns sopapos num bar ou na rua, ou quando em fins de semana, e de vez em quando, os guardas, recolhiam jovens briguentos dos bailes aos sábados. Só saiam da cadeia no domingo de manhã, depois que lavassem e limpassem o pátio em frente e ao redor da prisão.
Obviamente que servia de corretivo para os valentões, já que acabava se tornando uma situação constrangedora, hilária, e motivo de chacota.
A milícia não tinha viatura e era composta de dois soldados da polícia militar.
Tinha reza na igreja católica matriz todo findar da tarde. Era a hora da Ave Maria. O sino da igreja repicava anunciando o fim do dia. Rezava-se o terço na igreja católica. Na igreja evangélica Congregação Cristã, os fiéis oravam no culto evangélico. Na paróquia funcionava um serviço de alto falante, que prestava informações e tocava músicas, antes e depois do terço.
Os domingos eram sagrados. Todo mundo botava a roupa de missa. Os fofoqueiros de plantão, diziam que cada um queria se vestir
melhor que o outro, pois a missa era a passarela da high society.
Com relação à comida, bem ou mal, mais ou menos, havia um franguinho na panela, um pãozinho feito em casa, um feijãozinho, um arroz, ou um macarrão. Muitos deles preparados nos fogões de lenha, à custa dos tocos de eucalipto das máquinas a vapor conhecidas como Maria fumaça.
Os empregados da Sorocabana podiam comprar os mantimentos e material de higiene e limpeza do armazém da empresa que ficava em Sorocaba. Fazia-se o pedido numa caderneta grande, e o valor era descontado na folha de pagamento.
Para os filhos dos ferroviários o mês tinha dois dias de festa. O dia em chegava o trem pagador, pois do que sobrava do pagamento ao menos um sorvete quase todos conseguiam com os pais. O outro dia de festa era quando o vagão carregado com as compras encomendadas do armazém de Sorocaba descarregava os pedidos. Era o povo todo carregando nas costas os mantimentos.
Quem não conseguia levar tudo nas costas, contratava o serviço de transporte animal, as carrocinhas, espécie de taxi sertanejo.
As mulheres compareciam nas igrejas vestidas em estilo social. Invariavelmente usavam véus cobrindo a cabeça. Véu de cor preta se casadas e véu branco se fossem solteiras. As mulheres evangélicas desconheciam calça comprida e cabelo curto. Tinham uma postura discreta e conservadora.
As tardes de domingo eram reservadas para o futebol. Futebol era paixão. Jogadores do Sorocabana eram amadores e só ganhavam o direito de não pagarem o cinema e nem as entradas nos bailes. Como ídolos da terra despertavam suspiros das jovens que de saia e sombrinha se acomodavam em frente do barranco no sentido esquerdo da entrada do estádio, ou a beira do cercado de madeira do lado direito para aplaudirem ou vaiarem os atletas.
Ali não havia rivalidade entre corintianos, são paulinos, palmeirenses e alguns santistas. Tudo era sorocabana.
Exceção de ocasiões especiais como os das festas de Santo Antonio e 1º. de maio, aos domingos o cinema do barracão era o week end. A garotada sentava no chão de frente para tela e era só festa. Cada cortada na fita (e que eram muitas) a luz acendia e era aquela gritaria. Parecia mais torcida de futebol do que um cine. Aplaudia-se o mocinho, e vaiava-se o bandido. O cinema era tão bizarro e divertido que nos fundos do cinema havia um bar que vendia refrigerantes, sorvetes do seu Felício, e guloseimas. As cadeiras eram de madeira sem declive, e que cada um se virasse para enxergar a tela. Antes da película principal, a platéia assistia a um cine jornal. Como esse cine jornal era carioca, aprendemos a decorar os nomes dos jogadores do Vasco, Botafogo, Flamengo e Fluminense. Dos times paulistas só quando havia jogos pelo torneio Rio-São Paulo, ou um, ou outro clássico do nosso estado.
Também antes do filme principal, eram exibidos os precursores das nossas novelas de hoje. Os seriados. Todos os aficionados amavam assistir aos seriados do Zorro, do Fantasma, do Cobra, Durango Kid..
No Barracão ouviam-se músicas uma hora antes do início dos filmes. Muita música mexicana. Até porque a maioria dos filmes era da produtora Pelmex.. Todo mundo conhecia de cor as músicas do Miguel Aceves Mejia.
Às vezes um faroeste, ou um filme de amor. Muito dificilmente um clássico. Extrapolava a capacidade financeira do cinema.
Ainda assim se podia curtir e muito os faroestes com Johan Wayne, Henry Ford, Gregory Peck, Débora Kerr.
Como na música da Rita Lee, vez ou outra o lanterninha flagrava uns beijinhos de casais apaixonados.
Até os meados da década de 60, as transmissões radiofônicas, eram de difícil captação. Os poucos aparelhos em raras casas conseguiam em determinados horários sintonizarem melhor as emissoras em Ondas Longas do RJ. Aprendemos a curtir a programação musical das rádios Nacional e Mairinque Veiga. Os famosos cantores do rádio. Essas rádios apresentavam musicais ao vivo. Ouvia-se sempre Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Emilinha Borba, Elisete Cardoso, Cauby Peixoto.
Das emissoras de São Paulo, a mais sintonizada era a Rádio Tupy. Também as rádios de Sorocaba: Rádio Clube e Rádio Cacique. A Rádio Clube apresentava aos domingos um programa ao vivo, onde alguns postulantes a artista, se aventuravam. Era o princípio da época do ie-ie-ie.
Das vitrolas e dos discos compactos.
Fazia sucesso nas rádios regionais duplas sertanejas, como os eternos Tonico e Tinoco, mas o xodó eram os “Desafios de Cururu”.
Televisão nas residências nem pensar. Na Vila do Depósito apenas uma casa tinha televisão, Era do chefe do depósito o Sr. Egídio. Ele colocava a TV no parapeito da janela da sala de frente para a rua, e até bancos de madeira foram construídos, para o povo sentar e assistir qualquer coisa que a TV conseguisse captar.
A partir de 1961 o mundo explodia. Da América do Norte vinham as notícias sobre a guerra do Vietnã. Da guerra fria com a União Soviética.
Dos Hyppies, da Klu klus kan, Elvis Preslley, Frank Sinatra.
A moçada curtia muito os gibis do Fantasma, Tarzã, Zorro, Billy the Kid. As meninas escondidas das mamães trocavam entre elas as revistas de fotonovelas italianas. Contigo, Sedução, Capricho. Até fã clube dos artistas principais das fotonovelas havia.
Outra forma de diversão era jogar ping pong no salão anexo a igreja católica. Seu Genésio do bazar era o professor da garotada. No mesmo salão de onde num dia brilhariam muitas mentes e de onde surgiram alguns expoentes da sociedade iperoense.
E como o mundo era para os jovens protestarem, nesse mesmo salão foi criado o movimento de jovens iperoenses, que com o incentivo do Padre Calixto começou a inovar as missas domingueiras com canções populares adaptadas para o culto. Alguém arranjou uma guitarra. Outro alguém um baixo.
De um bingo comprou-se uma bateria. E de repente uma dúzia e meia de jovens sedentos por coisas novas estavam tocando e cantando numa missa, e eles próprios realizando os sermões em locais extremamente conservadores, como nas vilas de George Oetterer, Bacaetava, Ipanema.
Como esquecer quando um dia alguém fez uma parodia da música de Roberto Carlos, e muitos chorando e outros rindo cantaram na 1ª. Missa com guitarra.
Assim dizia o jovem poeta na sua paródia:
Olha bem (Meu Jesus) – em 2ª. voz
Preste atenção (nossa súplica) – em 2ª. Voz
Esta é nossa oração
Vamos com ela, seja onde for
Para nunca esquecermos
Do seu amor (por nós) – em 2ª. Voz
Oh! Senhor
Veja bem, (veja bem) – em 2ª. Voz
foi você
a razão e o porque,
de nascer esta oração assim,
pois você é o amor,
que existe sim. (existe sim) – em 2ª. voz
você partiu,
não nos deixou,
sempre e mais,
aqui ficou, (aqui ficou) – em 2ª. Voz
para alegrar
os corações
E sempre vai estar
Nestas nossas
Orações! (nestas nossas orações) – em 2ª. voz
Desse grupo de jovens iria nascer um movimento que perdurou por alguns anos, desenvolvendo atividades culturais e sociais no município. O Gremio Iperoense.
No Brasil inauguração de Brasília. O presidente era Juscelino Kubistchek. Em 1964 Janio Quadros e a ditadura militar. A censura. Escuridão na intelectualidade. Para compensar jovens tardes de domingo. Roberto Carlos e a jovem guarda.

Uma vitrola no palco do cinema barracão consumia as agulhas do braço da vitrola e quase furava os discos de tanto tocar. LPs e compactos dos ídolos do Brasil e do mundo. Surgia o fenômeno da Beatlemania. Inesquecível os bailinhos dos happy hour dos domingos. Naquele universo não campeava a maledicência. Os jovens dançavam pelo simples prazer de dançar.
A disputa por um lugar na vitrola era grande. Como escolher o melhor dentre tantos ídolos?
Internacionais ouvia-se Beatles, Roling Stones, Carpenter’s, The Mamas And Papas, Bee Gees, Jackson Five, Credence, Supremes, The Platers..
Do Brasil no chamado grupo da jovem guarda, além de Roberto e Erasmo, havia espaço também para Ronnie Von, Ronnie Cord, Demetrius, Paulo Sérgio, Vanderley Cardoso, Jerry Adriani, Antonio Marcos, Tony Campelo, Arturzinho, Bob de Carlo, José Ricardo, Ed Wilson, Vanderléia, Rosemary, Cely Campelo, Martinha, Vanuza, Golden Boys, Os Vips, Fivers, Os Incríveis, Renato e seus Blue Caps, Leno & Lilian.
Também estourava os festivais de música popular na TV Record, e uma áurea brilhante, contrapunha-se contra a negritude da censura militar. Os jovens de Iperó vivenciaram e curtiram como nunca, compositores e cantores maravilhosos que germinaram e floresceram nesse período, tais como Edu Lobo, Chico Buarque, Elis Regina, Milton Nascimento, Toquinho, Raul Seixas, Rita Lee, Nara Leão, João Gilberto, Tom Jobim.
Além dos bailinhos, também a sociedade iperoense deleitava com grandes bailes. Bailes com requinte. Traje Social. Mesa reservada.
Orquestras e bandas de primeira qualidade, como Os Três do Rio e Super Som TA. Ao menos uns seis grandes bailes no ano o Sorocabana organizava.
A juventude sentia a necessidade de protestar. Em Iperó até no futebol surgiu uma contracultura. Um jovem da família Jacques Eid, resolver criar um outro time de futebol para contrapor ao Sorocabana EC. A sala de reunião da paróquia viu nascer um novo time. Azul da cor da fita que os congregados usavam. Azul claro piscina. Um uniforme fora dos padrões para a época. Confeccionado em cetim. Um luxo. Puro protesto!
Certamente estarão ausentes alguns nomes perdidos na memória, quando dos primórdios do Congregação Mariana, mas a maioria deve estar nesta relação; Major, Oduvaldo, Adroaldo, Hélio, Carlinhos, Dirceu Paulino, Paulininho, Luiz Enxadão, Cidinho, Dito Escrupe, Flávio Escrupe, Zé Fogaça, Rubens Fogaça, Ademar, Gilo, Paulo Bim.
Um timão. O técnico do time o Oduvaldo só arrumava jogos contra times de nível. Até no Paraná, em Londrina o time foi se aventurar. Jogou contra Alumínio em campo com arquibancada e com vestiário subterrâneo. Perdia quase sempre por goleadas. O resultado dos jogos era o que menos importava.
O Congregação foi o gérmen para nascimento de um novo time que criou raízes e passou a fazer parte da história de Ipéró.: O S.A.C.I. O azul se transformou em vermelho.

Como nem tudo no mundo é um mar de rosas também houve um lado obscuro no modismo. Uma praga alimentada pela indústria cinematográfica americana, que levava as pessoas a começarem a fumar muito jovens. Quem não fumasse era “démodé”. Milhões de brasileiros reduziram o seu tempo de vida devido aos efeitos maléficos e nefastos causados pela nicotina. Como a propaganda do cigarro era extremamente agressiva, o próprio governo fazia vistas grossas e incentivava o consumo, até porque o imposto do tabaco era o mais elevado do país. Sob esse aspecto a população era totalmente ignorante. Mas é importante também que seja registrado o quanto se consumia de cigarros diariamente.
Até 1964 não havia ainda os cigarros com filtro. O que diga se passagem de nada serviram para evitar todo tipo de câncer que o cigarro causava. Só serviu para tapear e incentivar mais ainda o consumo dos cigarros. A partir daí começaram surgir marcas com o filtro de cortiça sintético.
Dentre as marcas mais conhecidas disputavam os bolsos da rapaziada os maços de Continental, Mistura Fina, Fulgor, Pulmann, Hollywood, Malboro, Minister, Carlton, Charme.
Os modelos das roupas usadas foram únicos na história fashion do mundo. As garotas vestiam as famosas mini saias, criadas pela estilista britânica Mary Quant. Variavam em forma de saias com blusa ou vestidos tubinho. Para combinar sapatos de salto alto, e meias de nylon. Os rapazes extrapolavam nas cores. Calças boca de sino coloridas e camisas floridas. Cinturão e sapatos com salto carrapeta. Uns e outros mais abastados conseguiam uma calça jeans Lee, velha e surrada. Era sucesso na certa em qualquer roda que se formasse.
Os cabelos dos meninos longos. Ser cabeludo era primordial. Cuidava-se dos cabelos do jeito que se podia, mas o que não podia era cortar os cabelos.
As meninas apelavam para os bobs à noite antes de dormir, como forma de fixar melhor os cabelos. Junto com a mini saia, ressurgiu a criação da estilista Coco Chanel, de 1910, com os cabelos curtos, as pontas voltadas para dentro do rosto, e a franja bem retinha no alto.
Na época de festas na igreja matriz, rolava uma brincadeira conhecida como correio elegante. Quem estivesse a fim de paquerar alguém comprava um cartãozinho, escrevia-se o que gostaria e pedia-se para a vendedora dos cartões, fazer o trabalho do correio. Podia-se também oferecer música ao paquera, através do serviço de alto falante. Quase sempre no anonimato. Tipo assim: Alguém muito especial oferece esta canção para a moça morena de saia azul e cabelos longos, que está encostada na barraca do bingo.

Como forma de se poder aparecer para um futuro pretendente e também como passatempo, as jovens solteiras andavam em círculo pela praça, em duplas ou em trio, trocando entre elas impressões sobre os “pãos”, que sorrateiramente se posicionavam de maneira estratégica, à espera de um olhar mais ousado e convidativo, para então partirem para o ataque.
Para os homens a prática esportiva se resumia basicamente no futebol. Para os mais idosos atrás do cinema tinha uma cancha de bocha, onde os velhinhos se esforçavam em praticar o esporte, de maneira rudimentar, já que a cancha era construída com terra batida extraída de cupins. A cancha para se jogar era pesada e as bolas muito mais ainda. As bolas de bocha da época eram de, acreditem, madeira. Pesavam uns dois quilos e meia cada uma.
A sociedade num todo era bem machista. Pouca atividade sobrava para as mulheres. As jovens postulantes a um casamento tratavam de preparar o enxoval, desde quando bem novas. A educação das filhas cabia quase que exclusivamente para as mães.
Em Iperó não havia o curso ginasial. Terminado o primário quem pretendesse estudar tinha que prestar um vestibulinho num dos ginásios das cidades de Boituva, Tatuí ou Sorocaba. Em Tatuí havia um curso de Aprendizado Industrial.
Curso médio só em Sorocaba ou Tatuí. Cursos que se resumiam no Curso de Formação de Professores Primários, mais direcionado para o público feminino, o Científico para quem pretendesse estudar ciências exatas e o Clássico, mais voltado para as ciências sociais e humanas.
Concluir um desses cursos médios estudando nas escolas públicas era uma proeza
Primeiro pelas dificuldades naturais inerentes a locomoção de Iperó para alguma das cidades vizinhas, pois não havia ônibus. Só transporte ferroviário com horário dos trens nada adequado. Quem estudasse no Barão de Suruí de Tatuí tinha que pegar um trem às 4:30 da manhã. Voltava só às 15:00 horas.
Para estudar no Júlio Prestes de Albuquerque, - o Estadão –em Sorocaba havia a alternativa dos cursos noturnos. O trem saía de Iperó às 18:00 horas e o retorno era por volta da 1:00 da madrugada! Tudo isso quando os trens não atrasavam. O que também não era raro. Quanta gente, e por tantas vezes não passaram noites de frio e de fome nas estações da Sorocabana, na busca desenfreada de querer adquirir cultura e conhecimento.
Em segundo porque as barreiras se estendiam e deparavam, na exigência que as escolas impunham com professores catedráticos e rigorosíssimos, transformando a tarefa de se tirar um diploma, uma aventura heróica.
Mesmo assim dezenas de jovens conseguiram a façanha. Alguns permaneceram na terrinha, mas a maioria teve que se aventurar pelos desertos do Sinai. Com certeza todos bem sucedidos em idoneidade e caráter. Graças à formação que tiveram: família, escola, tenacidade e disciplina.

 

RETRATO DESCRITIVO DA CIDADE

- Estação e Pátio Ferroviário
- Vila do Depósito
- Adjacências da Vila do Depósito
- Centro Ruas Principais e Casas Comerciais
- Bairro da Minhoca
- Bairro Santa Rita
- Vila Moraes
- Adjacências no sentido de Boituva
- Adjacências no sentido de Tatuí
- Adjacências no sentido de Sorocaba


Estação e Pátio Ferroviário
Alguém que se propusesse a fazer um tour pela estação ferroviária de Iperó, iniciando no sentido desembarque capital/interior iria se deparando com um retrato relativamente assim:
Antes do início da plataforma havia uma caixa d’água grande com uma mangueira de umas cinco polegadas e que servia para abastecer as máquinas a vapor que ainda insistiam em sobreviver à modernidade dos trens elétricos.

Nessa mesma caixa d’água chumbado nela tinha um gancho em forma de anzol em aço e que era utilizado para dependurar malotes com informações que deveriam ser entregues em outras estações, assim como também servia, para recolher outros malotes com o mesmo objetivo.
Sob a plataforma, áreas de embarque e desembarque dos dois lados. Os trens poderiam parar tanto do lado direito quanto do lado esquerdo. A definição da chegada à estação cabia ao responsável técnico que operava a cabine de comando.
Nesse mesmo sentido capital/interior no início propriamente dito da estação um toalete masculino utilizado por passageiros, transeuntes e funcionários.
Do lado esquerdo um largo e amplo pátio ferroviário que atendia a necessidade de manobra de trens que teriam que se postar para a partida, ou no sentido do tronco ferroviário que se estendia até a cidade de Presidente Epitácio, ou no sentido do ramal de Itararé. Iperó é o marco inicial dessa linha ferroviária, que abrange cidades importantíssimas do estado de São Paulo em direção ao estado do Paraná, como Tatuí, Angatuba, Itapetininga, Buri, Itapeva, Itararé.
Do lado direito da estação quem se propusesse a matar a sede com uma límpida e saudável água, sem nenhuma poluição, que filtrava do barranco formado na época da construção da ferrovia, bastava descer da plataforma, atravessar quatro mandos de trilhos, e se deliciar na inesquecível “biquinha”. A biquinha, foi criada canalizando o fio d’água, e acoplando a ela uma torneira, com a finalidade de evitar o desperdício. Claro que um filete de água escorria numa valeta, onde creiam ou não, podia se colher agrião natural brotado naquele regaço minado.
Nesse mesmo lado direito na mesma encosta do barranco funcionava uma oficina de reparos e manutenção. Mais adiante o “escadão” que levava as pessoas ao centro da cidade.
Quase ao lado do “escadão”, um pouco só antes, para dar margem a uma estreita rua, localizava-se a antiga cabine de comando, substituída por outra mais moderna, que os já trens elétricos exigiam.
Seguindo adiante dentro da estação deparava-se com um setor que poderíamos definir como logística, onde numa ampla sala, funcionava uma espécie de correio da ferrovia. Ali quem quisesse enviar uma encomenda para alguém em outra estação fazia a postagem, da mesma forma que também servia de receptação de encomendas para quem morasse em Iperó.
Anexo à sala do chefe da estação funcionava o setor de inteligência da ferrovia. Ali o nível de responsabilidade era de tolerância zero. Não se podia falhar. Nesse departamento funcionava o telégrafo, e seus telegrafistas, enviando as mensagens em código Morse. Alguns anos mais tarde o telégrafo foi substituído pelos sistemas eletrônicos.
Antes do sistema automático a transposição dos trens de uma linha para outra, era feita por um funcionário que recebia a ordem da cabine de comando, para manualmente puxar uma alavanca de ferro fundido, enorme e pesada, realizando assim a operação. Trabalho que também não podia em hipótese alguma ocorrer falha.
Percorrendo ainda a estação, um saguão onde de um lado, as bilheterias, com a exposição acima das aberturas de aquisição das passagens, os informativos de quais trens e dos horários de chegada e de partida, tanto para o interior quanto para a capital. Também ao lado da placa dos horários uma nada agradável lousa, onde, chateado algum funcionário era obrigado a informar aos passageiros os atrasos estimados do tão aguardado transporte.
Do outro lado desse saguão uma sala de espera com toalete para as senhoras. As mulheres tinham esse privilégio de se abrigar do frio, sentadas enquanto coubessem, em bancos de madeira almofadados, razoavelmente confortáveis.
Logo atrás desse pavimento havia outro saguão onde funcionava um bar lanchonete, que vendia um pouco de tudo para atender uma quantidade sempre razoável de passageiros, já que dali quem partia para o ramal de Itararé inexoravelmente tinha que aguardar sempre bons tempos.
Também nesse saguão, quem detinha os direitos de comercialização do ponto vendia pipoca, pirulito e outras guloseimas.
Em alguns trens da época, principalmente os que cruzavam por Iperó no horário da manhã, traziam um serviço de venda de jornais e revistas. Os jornaleiros dos trens quando das paragens quase sempre um pouco longa, tratavam de descer nesse saguão para aos gritos, anunciarem os seus produtos. Era uma correria para comprar um gibi, uma revista de fotonovela, uma revista de notícias, um jornal de São Paul.
Ao final da área de embarque e desembarque, foi construída a nova cabine de comando que aposentou a antiga cabine do lado do “escadão”. Assim como começava a estação terminava ela com outro toalete masculino.
Terminado o acesso da rampa da estação funcionava um pequeno barracão, que servia de abrigo aos abnegados truqueiros. Não jogadores de truco, o conhecido jogo de cartas, mas sim os empregados responsáveis para fazerem o chek up dos vagões, pois era essencial que nos engates de cada vagão tudo estive em perfeita ordem. Desde a acoplagem dos pinos até a mangueira que unia um vagão ao outro de ar comprimido. O termo truqueiro deve-se ao fato de que o
trabalho era específico no conjunto mecânico dos trens conhecido como truck. Com chuva ou frio, de capa nas costas, ou não, lá estavam eles de dia ou de noite, com alicates de pressão e variadas ferramentas, fazendo esse essencial trabalho.
À noite todos sem exceção, utilizavam um artefato de muita utilidade na falta de energia elétrica. Muito mais econômico do que as lanternas a pilha e de muita melhor visibilidade, que eram as estrelas da companhia: os lampiões a carbureto.
Não havia um ferroviário que não tivesse em casa um desses lampiões, até porque a fabricação deles quem fazia eram os próprios empregados, e tinham eles, os lampiões uma enorme utilidade na ausência de energia elétrica.
Além de que também servia de companheiros inseparáveis dos caçadores de animais silvestres e pescadores, que invariavelmente se aventuravam nos finais de tarde a procura de algum remanso das correntezas do rio Sorocaba.
O Rio Sorocaba era o maior parceiro e celeiro da “mistura” de muitos iperoenses. Sua várzea se estendia desde os limítrofes da Vila Bacaetava até a divisa com o município de Tatuí, na reserva florestal da Bela Vista.
Quando da sua cheia entre os meses de dezembro a janeiro de cada ano é que se podia melhor avaliar a profusão e variedade da fauna e da flora da região.
Era a época da piracema, que infelizmente, pela estupidez, ou melhor, a ganância levava os pescadores a dizimarem os cardumes de peixes preparados para a desova, aprisionados em redes que bloqueavam as entradas do rio em cheia para as centenas de lagoas que se formavam na imensa várzea. Peixes esses que morriam sem cumprirem a nobre tarefa a que se propuseram na aventura de subirem o rio nadando contra as corredeiras e obstáculos naturais.
Peixes que também foram aos poucos desaparecendo do cenário de um rio sujo, pobre de vegetação e de animais típicos da região. Rio poluído, morto pelas mãos humanas. Túmulo de tantas espécies em extinção, quando o papel dele seria o de dar vida a essa criaturas divinas.
Peixes que o Rio Sorocaba nunca mais procriou. Espécimes como: Mandi Branco, Mandiúva, Mandi Chorão, Bagreucu, Bagrinho, Tuvira, Pirambóia, Pintado, Jurupoca, Traírão, Traíra Canivete, Piranha, Pacu, Saguerú, Saicanga, Piauçu, Piauzinho, Piavauçu, Piavinha, Chimburé, Lambari, Tambiú, Douradinho, Tabarana, Corimbatá, Corimbataíra, Cascudo,
Tanchim, Acará.
Ao longo do rio e de suas lagoas os pescadores munidos de uma vara e alguma isca natural sempre tinham diversão e uma misturinha garantida para o almoço ou o jantar. Também quando as lagoas iam secando milhares de peixes que não conseguiram retornar ao leito do rio serviriam dentro do processo da cadeia, alimentar outros animais, principalmente uma gama enorme e diversificada de aves.
Aves tais como a Garça, o Martim Pescador, Os Patos Selvagens, os Marrecos, a
Coleirinha do Brejo.
Em toda extensão do Rio Sorocaba, as barrancas eram protegidas de deslizamentos, pelas árvores nativas, principalmente os Ingazeiros, que debruçavam seus galhos acariciando suavemente a flor d água um tanto amarelada, mas sem nenhuma poluição, fio de água esse que retribuía o carinho matando a sede através das folhas e galhos daquela árvore que produziria os frutos amarelados, néctar para serem saboreados pelos peixes que numa situação de ambigüidade, cumplicidade, e simbiose com o ambiente conviviam em perfeita harmonia.
Outra árvore também importante para a preservação do rio eram as touceiras do bambu Jativoca.
Os bambus fixavam suas raízes nos barrancos, e se espalhavam de forma compacta por longas extensões. Serviam ainda de ninho e esconderijo para alguns outros habitantes permanentes daquele habitat, como as serpentes Jararaca, Jararacucu, Jibóia, Caninana, Coral. Nos ramos do bambuzeiro, também sutilmente se acomodavam em ninhos as capivaras e seus filhotes. As capivaras procriavam a beira das lagoas, mas migravam para as encostas do rio, onde o alimento era mais farto, principalmente quando chegava a época da estiagem na várzea.
Sorrateiramente sob as raízes que se desprendiam alguns centímetros abaixo da orla, podia se deparar com jacarés, que saiam dos alagados sempre camuflados pelos guapés, na captura de algum alimento. Como se fossem comparsa dos jacarés ziguezagueando embaixo das águas, as lontras e ariranhas.
Infelizmente, os lampiões de carbureto se apagaram. A ferrovia acabou. O pátio ferroviário se transformou num depósito de sucata. A estação se deteriorou. A modernidade acabou com uma época de glória de Iperó.
Pior: o Rio Sorocaba foi assassinado. Nada restou. Junto com a luz violeta emanada pelos bicos dos lampiões, ele se apagou. Calou.
O murmúrio alegre das suas ondas e redemoinhos virou lamento. Junto com a poluição que transformou o rio num esgoto a céu aberto desapareceram todos os peixes, pássaros, animais silvestres e plantas nativas. A fauna e a flora foram literalmente assassinadas. O homem para pagar o preço de sua luxúria, matou o que Deus tão perfeitamente criou. Esse ônus sobrou para as gerações futuras.

 

Vila do Depósito - várzea e cerrado
Quem desembarcasse de um dos trens na estação e quisesse se dirigir para a Vila do Depósito, deveria se direcionar no sentido sul, à direita. Uma rua de terra e pedregulho se iniciava ao lado da cabine de transformadores, local
rigorosamente vigiado e bem cercado, pois havia perigo eminente a quem não fosse habilitado a manusear qualquer objeto na proximidade da casa de força.
Ao lado dela morava o zelador do local, bem próximo onde também sempre de prontidão para qualquer emergência, funcionava o departamento da rede aérea, em que o posto móvel era um vagão de tamanho acima dos comuns, com um pantógrafo instalado na sua cobertura. Esse vagão era conhecido como “vagão trolley” e sua finalidade era a de dar manutenção na rede aérea, que nada mais é do que os cabos elétricos instalados no alto e sustentadas pelos postes laterais. Os trens elétricos eram equipados com o pantógrafo, que fazia a conexão elétrica entre a rede de 3.000 volts e a casa de máquinas das locomotivas. O “vagão trolley” obviamente necessitava de artefato igual para poder fazer reparos ou eventualmente algum socorro.
Caminhando por uma pequena ladeira deparava-se com um riacho, que cruzava o caminho, descendo suavemente em direção ao rio Sorocaba. Quem arriscasse a dar uma cusparada da ponte de madeira de dormentes transversais, ou jogasse um miolo de pão na água, vislumbraria o burbúrio de pequenos lambaris e guarus sedentos de qualquer alimento. Sob as águas do riacho muita planta aquática como as ninféias e flor de lótus, que embelezavam o cenário com lindas flores brancas ou azuis de miolo amarelo. Em certos trechos elas escondiam por completo aquele pequeno mundo aquático.
Em ambas as bordas brotavam como praga uma vegetação típica dos brejos. A flor taboa ou paina aquática. O caule da taboa é macio e ela lembra um salsichão vermelho. Sua paina quando colhida e seca sempre foi muito utilizada na confecção de travesseiros. As folhas e o caule por serem constituídas de uma fibra resistente também sempre tiveram utilidade na confecção artesanal.
Como os garotos da época necessariamente teriam que ser criativos, e como havia taboa em abundância, de ambos os lados do riacho, turmas rivais das vilas do Meio, Santa Rita e Depósito, construíam cabanas com as ditas cujas e faziam verdadeiras “guerras” de salsichões, pois a técnica era a de cortar o caule bem no seu início e, imitando as varetas de rojões, a turma de um lado atirava os artefatos nos adversários do outro lado. A divisa da batalha era o nosso riozinho e as trincheiras eram as beiradas. Interessante que nunca se soube de alguém machucado. Se bem que se isso acontecesse, os pais, sem violência, mas deixando de forma bem clara que malcriadeza, safadeza e brigas na rua, poderiam muito bem acionar a famosa vara de marmelo. Então, em caso de algum acidente, o jeito era inventar alguma desculpa esfarrapada.
O limite da área de atuação desses “indígenas do brejo” acabava-se no túnel que fora construído para a passagem dos trilhos num nível elevado, pois os trilhos vinham do pátio ferroviário em direção a fábrica de solda, que também servia de depósito de ferro, aço, dormentes e madeira de eucalipto para as locomotivas a vapor.
Após o túnel, o leito do rio foi aprofundado e alargado, pois por falta de qualquer recurso, o “mais simplório e criativo” foi o de despejar no córrego os dejetos acumulados das casas da vila. Era o princípio de um fim já conhecido.
Voltando à nossa ponte de trilho e dormentes, poderia se caminhando pelos fundos das casas que compunham a primeira fileira da rua acima, deparar com canteiros de verduras que os moradores cultivavam no charque. Tinha gente que até uns porquinhos criavam em chiqueiros á beira do córrego.
Uns quinhentos metros acima estava reservado para um xodó da molecada. Um tanque de água represada em forma de dique, que servia de vestibular para quem postulasse num dia nadar no porto de areia do rio. Tudo que era garoto da redondeza (Vila do Depósito, bairro da Minhoca ou os eternos rivais da Vila do Meio) aprendia a nadar no represado.
Ali havia respeito entre as tribos. Como num tratado mudo nada se falava a respeito de futebol, guerra de taboa, estilingue e faroeste. O que interessava a todos em comum acordo era aprender a nadar. Afinal, encarar o porto de areia do Joãozinho Domingues não era para qualquer um.
Tomando-se a direção das casas da vila, à direita havia uma extensa plantação de eucaliptos. Essas plantações faziam parte do projeto da Sorocabana de garantia do combustível das máquinas a vapor. As plantações de eucaliptos se estendiam por quase todo o interior do estado de São Paulo, onde houvesse os trilhos. Esse eucaliptal referido começava às margens do córrego e se estendia até os limites do sítio da família Gamero.
Saindo da trilha que descia para o tanquinho de “aprendizado de natação” e seguindo à esquerda dos eucalíptos a região sofria um contraste. Começando pelo sítio da família do José Leite, até o outro lado da ferrovia, já próximo de Bacaetava, a região se transformava num cerrado. Transpondo os trilhos mais a esquerda no sentido de Tatuí ou Capela do Alto, localizava-se o sítio da família do Carlito Sartorelli, e seguindo no sentido de quem vai ao morro de Ipanema, o sitio da família conhecida como os Paulas.
A vegetação predominante, assim como a fauna e a flora de uma terra árida e seca, classifica a área como a de um cerrado, até porque a exemplo de outros cerrados em diversas regiões do Brasil, eles estão circundados por vetação da mata atlântica. Ali do lado estava o morro de Ipanema com sua exuberância atlântica. O cerrado sempre foi muito rico na sua biodiversidade. E nosso cerrado não poderia ser diferente. Tanto na flora como na fauna poderia se deparar com centenas de espécimes exclusivas dessa topografia. Esse cerrado que tinha seu princípio na Vila do Depósito se
estendia por Bacaetava, Ipanema, George Oetterer e Araçoiaba.
Relativamente a plantas com seus frutos e flores, relacionamos as que não eram e não são comuns nos jardins e nos quintais de Iperó e adjacências: Marcelina do Campo, Taquarinha, Marmelinho, Cereja Roxa, Capim Rabo de Cavalo, Capim Gordura, Araticum, Araticum Cabeça de Negro, Indaiá, Araticuzinho de Árvore, Aroeira. Margaridinha do Campo, Vassourinha, Vassoura de Bruxa, Vassoura de Terreiro, Guanxuma, Picão, Arroz do Diabo, Dorme Dorme, Maria Pretinha, Fruta de Cera, Capim Barba de Bode, Cajarana, Gabiroba, Araçá, Juá Amarelo, Grão de Galo, Carrapicho, Jataí, Sapezal, Mamoninha, Unha de Gato, Amora Silvestre, Azedinha, Maracujá Roxo, Cipó de São João, Sempre Viva, Coqueiro Cachorro do Mato, Cambará, Figueira, Jatobá, Gancheira, Ipê Amarelo, Ipê Roxo.
Da mesma forma podemos mencionar animais silvestres vertebrados e invertebrados que tinham seu habitat no nosso cerrado, tais como: Gaviãozinho Carapinhé, Urubu Rei, Gavião Imperial, Beija Flor Tesoura, Beija Flor Mirim, Papa Capim, Tisiu, Coleirinha, Bigodinho, Pintassilgo, Canário da Terra, Seriema, Bicudo, Bico de Lacre, Pomba do Mato, Juruti, Inhambu Xororó, Anu Branco e Anu Preto, Azulão, Chupim, João de Barro, Sabiá do Campo, Sabiá Laranjeira, Tesourinha, Pica Pau, Periquitinho Verde, Maritaca, Coruja Buraqueira, Coruja de Cupim, Codorninha, Perdiz, Veado Campeiro, Queixada, Tatu Bola, Tatu Vermelho, Cachorro do Mato, Gato do Mato, Lebre, Jaracambé, Preá, Quati, Gambá, Morcego da Figueira, Ouriço, Cascavel, Urutu Cruzeiro, Urutu Dourado, Falsa Coral, Coral Verdadeira, Canina, Jararaca, Jararaca do Rabo Branco, Calango, Lagarto, Lagartixa, Cupim, Aranha Caranguejeira, Abelha Européia, Vespa da Bunda Listada, Abelha Cuivara, Abelha Jataí, Borboleta Imperial, Borboletas do Campo, Borboleta de Madeira, Caramujo, Formiga Taçuíra, Saúva, Formigão Preta de Pau Podre, e Tanajura, Cogumelo do Campo, Cogumelo de Árvores.
Nos meses de calor, após o início da primavera, a longa distância (até quatro quilômetros) era possível sentir o forte aroma exalado pelos frutos amadurecidos do Indaiá, da Gabiroba do Araçá e principalmente do Ariticum de Chão.
Seria relativamente fácil localizar de onde o vento trazia o aroma. Se não houvesse uns porém, principalmente alguns que povoam a cabeça das crianças. Como todo bom lugarejo do interior do Brasil, também na nossa região existia algumas lendas folclóricas. Algumas delas oriundas do cerrado. Diziam os mais antigos que uma assombração conhecida como “Boi-tátá”, nas noites escuras sem luar, adorava comer os caroços do Ariticum. Nos vastos campos em planície do cerrado era possível vê-los indo e vindo com suas bolas de fogo azuladas, amarelas e avermelhadas, voando acima de onde estava o fruto apodrecido. Então, os pais sempre recomendavam aos filhos que mantivessem distância de onde o “Boi-tátá” andava aparecendo, pois se o danado pressentisse que alguém andava surrupiando sua refeição predileta, esse pobre diabo era devorado pelas labaredas do monstro. Recomendava-se cautela e temor em colher a gostosura que era a fruta do Ariticum. Hoje a gente sabe que as bolas de fogo nada mais eram do que gás metano exalado de fósseis de animais expostos no campo.
Outro folclore se referia sobre a coragem que alguém teria em desafiar um ser monstrengo. Ou seja, o de catar coquinhos caídos dos pés do coqueiro de cachorro do mato. A lenda rezava que nas noites de lua cheia, o cachorro chefe da matilha, se escondia atrás dos coqueirais e passava a uivar sem parar. Quando dava meia noite, ele se transformava em lobisomem para daí então atacar os galinheiros de algum sitiante próximo. Era pena que voava de tudo que é lado, cachorros caseiros que ladravam, e sitiantes que se encondiam debaixo das camas. A princípio parace outra besteira do folclore, pois quem atacava os galinheiros nada mais era do que os gambás, ou raposas como eram conhecidas, abundantes no cerrado.
Mas, como dizia Picasso (um assumido ateu): “No creo en las brujas, pero que existen, existen”. Assim sendo, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém. 
Continuando com nossa descrição geográfica, vamos caminhando agora no sentido da esquerda de quem olha e avista ao longe o morro de Ipanema retornando no sentido da vila do depósito pela extensa várzea que margeia o rio em curva. O ponto de partida de retorno é o sitio das famílias Fiúza e Figueiredo, e o marco inicial está no nosso rio, num local conhecido como Poço Fundo.
A várzea é a mesma que se estende até o fundos de outro sítio bem mais adiante que era propriedade da familia do Carlos Speglis. Só é interrompido por um paredão rochoso muito arborizado, que começa no alto da estrada que liga o centro de Iperó à vila. Abaixo do local mencionado, o rio curiosamente dividia-se em dois, para uns dois quilómetros adiante voltar a se juntar. Mencionamos o poço fundo, porque o local era temido até mesmo pelos mais destemindos pescadores e caçadores. Não pela sua profundidade, que era de mais ou menos uns seis metros, quando de sua vazão normal, mas pelas histórias que se contava do lugar. Diziam que na beira do barranco vira e mexe aparecia uma tal de mula sem cabeça correndo e se atolando no brejo, para desaparer aos poucos no lodo, como se fosse numa lagoa de areia movediça. Também de uma mulher de vestido branco, que sentada numa grande pedra, que realmente existía, se insuava para os homens de forma convidativa a acompanhá-la. Lógico que nunca ninguém se meteu a besta, pelo menos é o que se comentava. Não existe nenhum registro de que alguém foi levado para o fundo rio junto com a donzela.
Tinha mais uma lenda. A de um garoto bem negrinho que se sentava nos galhos de um imenso ingazeiro que desprendia seus galhos para quase o meio do rio. A correnteza passava uivando nesses galhos e de repente em redemoinho formava o remanso onde se situava o famoso poço. O que se sabe através dos relatos é que o negrinho era boa gente. Ficava observado os pescadores e só rindo. Quem contava muito dessas estórias era um senhor conhecido como Antonio Custódio, frequentador assíduo das barrancas do rio Sorocaba, desde o poço fundo até os confins da várzea grande (ou “varjão”), como as pessoas a denominavam, muito além da ponte de cimento.
É bem possível que as histórias fossem inventadas por pescadores que sem ter muita mentira para contar dos enormes peixes que eram fisgados e que sempre escapavam, e mais ainda, sob o efeito da marvada rosinha criavam mirabolantes fantasias. Temos que ressaltar que o seu Antonio Custódio não fazia parte da turma da manguaça. Ele não bebía nada de alcool. Tinha crédito no que contava. “Assim sendu, o mior era num duvidá e caí fora do tar poço.”
Uma coisa era verdade. Em toda extensão da imensa várzea desde o sítio da familia Fiúza, passando pelos Speglis, adentrando no terreno do senhor Amadeu Eid, contornando a lagoa dos eucaliptais, atingindo a região onde havia quatro olarias que margeavam a várzea (olarias essas que pertenciam a familia Del Vigna e aos senhores João Branco e Horácio Figueiredo), a visão que se tinha para quem se aventurasse adentrar o varjão era a do Jardim do Éden. Se alguém se propusesse a pesquisar sobre tudo que ali vivia se sentiria embasbacado, e ao mesmo tempo se sentindo culpado por nunca ter percebido do quanto perdeu em tempo para vivenciar aquele beleza. A várzea e o rio em sua jornada, carregavam consigo uma gama incrível de habitantes. Sobre e sob a terra, nos galhos das árvores, nas folhas e flores, e sobre e abaixo da agua proliferavam plantas e animais tais como: Orquídeas, Broméias, Barba de Papai Noel, Lírio do Brejo, Margaridinha da Lagoa, Begônia do Brejo, Samambaia de Àrvore, Samambaia de Chão, Copo de Leite, Ninféias, Flor de Lótus, Aguapés, Taboa, Avencas, Ingazeiros, Jativocas, Capim Navalha, Urtiga, Capim Gordura. Bananeira de Jardim, Ave do Paraíso.  Centena de borboletas azuis, que se multiplicavam beijando o lodo do pântano.
Vejamos a quantidade de animais catalogados que fizeram parte dessa viva natureza: Sobre o chão, na superficie das águas, nos galhos, folhas e flores das plantas, desfilavam Pacas, Preás, Capivaras, Cutias, Jibóias, Jararacuçus, Caninanas, Lagartos, Lagartixas, Sapos, Girinos, Rãs Paulistinha, Rãs Pimenta, Minhocauçu, Minhocas Puladeira, Cobras Cega, Pernilongos, Escaravelhos, Caramujinhos, Cigarras, Mosquitos Pólvora, Besouros, Gafanhotos, Louvas a Deus, Vagalumes, Pitos Velho (helicópteros), Libélulas, Centopéias, Garças, Socós, Marrecos, Patos Selvagem, Martim Pescadores, Coleirinhas do Brejo, Franguinhos D’água, Saracuras, Carangueijos, Mandarovás, Moscas Butuca.
Submersos lá estavam Jacarés, Lontras, Ariranhas, Tartarugas, Cágados, Carangueijos, Acarás, Lambaris, Bagrões, Bagrinhos, Bagres Sapo, Taraíras, Trairões, Tanchins, Tambiús, Corimbatás, Corimbatairas, Pacus, Piranhas, Tabaranas, Chimburés, Piavas, Piavinhas, Piaus, Mandis Chorão, Mandis Branco, Tuviras, Mandiúvas, Pirambóias, Cascudos, Saicangas, e Saguerus.
Retornado da várzea pelo sítio do Amadeu Eid até nossa vila do depósito iremos reparar que ela era constituída por duas fileiras de casas parede de meia, umas de frente para as outras. Deveriam existir umas duzentas casas considerando-se as duas ruas. Em frente ao seu sítio, o sr. Amadeu tinha um estabecimento comercial que vendia um pouco de tudo. Daquilo que seu sítio produzia e também da revenda de gêneros alimentícios e utilidades domésticas. Logo acima da venda do Amadeu, ficava a fábrica de soldagem de trilhos e manutençao de dormentes, que definiu a denominação do bairro.
As casas da primeira rua de quem vinha do centro da cidade eram melhores. Mais espaçosas e com terrenos maiores. Nela moravam as lideranças dos operários. Uma bela residência no meio da primeira rua era destinada ao feitor, que comandava os trabalhadores que faziam os serviços mais braçais da ferrovia (limpeza dos vãos e laterais dos trilhos, troca de dormentes e troca de trilhos), serviço duro, pesado, de enxada, enxadão, picareta e marreta. Na mesma rua havia outra mansão, que era destinada ao chefe do depósito. A última casa da rua era a melhor de todas e quem nela tinha o previlégio de morar era o engenheiro responsável daquele trecho regional da ferrovia.
Subindo a rua em vertical onde se situava a residência do engenheiro, tinha uma caixa d’água enorme. De enorme utilidade. Não só a abastecer as residências, como também servir de observatorio para os garotos que subiam sua escada de ferro até a borda no parapeito do reservatório. Lá de cima era possível divisar a uma distancia de uns mil metros um campinho de futebol de terra batida. A finalidade era ver se já tinha alguém batendo uma bolinha no campo também conhecido como barrancão. Barrancão, porque esse campinho foi o precursor do hoje futebol society, pois de um dos lados não havia lateral, então valia tudo inclusive fazer tabela com o barranco. As través eram de eucalipto e nunca teve redes. O terreno de terra vermelha e toda impregnada de mal formações, causado pelos pisões e barro das chuvas, era o vilão dos dedões da garotada. Como só se jogava descalço, não havia na vila do depósito garoto que jogasse futebol que não tivesse num determinado dia perdido alguma unha dos pés. A paixão era tamanha, que não era raro ver algum garoto com algum dedo amarrado por pedaço de pano e ainda assim insistindo em brincar de bola. Profissional da bola apenas exceções.
São conhecidas duas de meninos que rebentaram as unhas no barrancão. Um foi o Toninho Oliveira (filho do Antono Oliveira, que trabalhava na rede aérea e da Dona Rosa, que depois de mudaram para Ourinhos). Anos mais tarde o Toninho se profissionalizou e jogou em grandes equipes como a Ponte Preta e o Santos.
O outro foi um menino chamado de Verdotinho (filho do Verdotti, que trabalhava na “soca” - denominação dos trabalhadores que davam duro nos trilhos), que foi criado ao Deus dará. É de conhecimento de quem viveu nesse período vizinho dos Verdottis, que muitas mães ajudavam o menino que quase nunca tinha o que comer. Não sabemos como ele chegou ao profissional, só sabemos que jogou no Pará e algum tempo de lateral no Corinthians.
Daquele campinho saíram poucos craques de bola, mas inúmeros craques de lição de vida. A Vila do Depósito como numa benção divina era bafejada por um fluído cósmico universal que transformava as pessoas em lutadores costumaz e por isso vencedores.


ERA UM GAROTO QUE COMO EU...
Dezembro de 1959...
Um garoto de nove anos, caminhando por uma estradinha poeirenta, vai dando um último olhar para aquela casinha de barro e pau a pique, num lugarejo perdido na planície ao pé do morro de Ipanema, no sentido sul, na direção de Sorocaba, conhecido como Araçoiabinha.
Sente o coração doer, ao sentir que vai deixando para trás a inocência de uma infância feliz. Viveu essa infância livre, leve e solto. Andava pela mata descalço e ia para a escola, idem de pés no chão, amparado por um estilingue. Artefato útil em determinadas situações, e de extrema estupidez em outras.
Logo será Natal. Sabe o garoto que naquele Natal, mais uma vez, junto com os já seis irmãos, não haverá presentes. No papai Noel já não acredita. Seu interior tinha dado adeus aos sonhos de criança. Deduzia que papai Noel e cegonha eram frutos da imaginação dos adultos. Nem por isso expressava revolta ou mágoa. À sua maneira era feliz.
Caminha ao lado da mãe. Uma bela mulher, apesar dos calos nas mãos e da prole de seis filhos. Suas três irmãs e os dois irmãos ficaramm na casa dos avós. A menor das irmãs tem dois anos. A mais velha é quem irá cuidar dela por alguns dias.
Andam na direção do morro de Ipanema no sentido norte da região. Esgueiram-se pela bifurcação à direita no sentido de George Oetterer. Sete quilômetros de estrada de terra esburacada e lamacenta. Sua mãe canta. Ele reza e canta. Está feliz. Vai para algum lugar. Não sabe para onde. Mas está feliz.
Seu pai, depois de uma licença de cinco anos imposta por uma tuberculose, curado, voltou a trabalhar na ferrovia. Na Estrada de Ferro Sorocabana, na cidade de Iperó.
Aquele garoto até então nunca havia ouvido falar de tal lugar. Só conhecia a cidade de Sorocaba, e a Vila, que era Araçoiaba da Serra.
Sua mãe explica que irão pegar o trem “japonês” em George Oetterer. O trem parava na estaçãozinha de George Oetterer por volta de 9:00 horas.
Precisavam caminhar rápido. Era de bom tamanho chegarem por volta das 8:30 horas.
Seu pai estará esperando-os na estação ferroviária de Iperó na chegada do trem. Irá ele então explicar o que eles deverão fazer.
A expectativa e ansiedade dominavam o âmago daquele menino. Aquilo representava ultrapassar o pico do morro. Conhecer o outro lado da meia noite. Como ele iria avistar o morro de Ipanema sob outro ângulo? E essa nova vida, e que tal essa vida nova?
O trem japonês verde belo, tão belo quanto o verde dos campos daquelas paragens, desbrava pelos trilhos da forte Sorocabana. Interrompe o trajeto na estação de Varnhagem (Fazenda Ipanema), onde embarcam uns dez passageiros. Vai voando rumo adentro até Bacaetava. A mãe do garoto murmura: - estamos perto. Seu pai me falou que era depois de Bacaetava.
Alguns minutos depois uma sombra se apossa do trem verde. As portas se abrem. O menino e sua mãe descem do trem japonês. Esse trem fazia apenas o trajeto de Sorocaba a Laranjal Paulista. Dali retornava. Nesse mesmo horário na estação de Iperó, que compunha um braço de extensão da ferrovia no sentido sul do Brasil, rumo a Itararé, cidade fronteiriça com o estado do Paraná, está parado outro trem na contramão da estação e que seguia no sentido de São Paulo. O trem P1. O trem P1 era de semi-luxo. Tinha restaurante, jornaleiro, vagões com poltrona classe vip e vagões com bancos não confortáveis classe popular. A Estação de Iperó fervilhava. Era gente que vinha e era gente que ia.
A Estação de Iperó era luxuosa. Tinha toaletes e sala de espera para as senhoras. Também tinha um bar onde podia se tomar café e comer bolo, bolacha, doces e salgados. O Bar do Sr. Campos.
Um paraíso para o bugrinho de pés no chão de Araçoiabinha.
Calça curta, camisa de chita surrada, e cabelo mal cortado com a tesoura desafiada da avó compunham o retrato daquele garoto. A aparência pessoal nada correspondia com a vivacidade, perspicácia, e principalmente o sexto sentido desenvolvido até então, por questões de sobrevivência na mata.
Do pátio da estação não se conseguia avistar a cidade. Apenas as casas de funcionários da estrada de ferro, beirando um barranco com extensão de uns 500 metros.
Para chegar na rua principal era necessário subir uma escada de cimento, conhecida popularmente como escadão. O pai do menino como estava trabalhando naquele horário explicou para sua mãe, que eles deveriam subir o escadão e chegando na primeira rua de nome Porfírio de Almeida, procurar pelo armazém do Seu Augusto. Seu Augusto iria entregar todo o material encomendado para fazer a faxina da casinha que eles iriam dali para frente viver. Uma casinha da Sorocabana situada na Vila do Depósito, do outro lado da cidade.
Fato esse que iria determinar o futuro da vida de muitas pessoas.
Seu Augusto e Dona Alice gentilmente os atenderam, desejando boa sorte e que fossem bem vindos a Iperó. E Deus é testemunha de como eles tiveram sorte.
De posse das chaves do imóvel seguiram até a Vila do Depósito para limpar a casa. A casa era pequena. Com aquela filharada toda seria necessário fazer um barracão nos fundos. Mas uma delícia: tinha água encanada e chuveiro. A uns cem metros dali, imponente e altiva uma linda e enorme caixa d’água. A vila tinha duas ruas com casas de ambos os lados. A casa deles situava-se na segunda rua, e os fundos dela davam para os trilhos de um triângulo de manobra das máquinas que precisavam fazer o engate dos vagões para um movimento de retorno.
Os vizinhos prontamente se dispuseram para ajudar no que fosse possível. Alguém trouxe café com leite. Também pedaço de pão caseiro, e até uma marmita com arroz e feijão.
A partir daquele dia, devidamente instalados, mais uma família se agregava a tantas outras de iperoenses migrantes de várias regiões do estado. Vizinhos da família Lourenço lá estavam os Prestes (Izaltino), os Senna (Sebastião), os de Barros (Antonio), Feliciano (José), os Véttina (Joaquim), os Moura (Arlindo), os Verdotti (José), os Moreno (João), os Ticão (Antonio), os Eid (Amadeu) e mais umas cinqüenta famílias. Gente irmanada num único objetivo: sobreviver nas agruras de uma comunidade carente, educar os filhos do jeito que desse e rezar (orar).
O início do ano de 1960 está chegando e os pais necessitam providenciar a matrícula das crianças na escola. Em Iperó só havia o Grupo Escolar Dr. Gaspar Ricardo Júnior, que atendia as quatro primeiras séries do curso primário. A possibilidade de ficar sem vaga para estudar era enorme. Eram poucas salas de aula disponíveis para atender a demanda e o número de professores também era reduzido. O garoto de Araçoiabinha conseguiu a transferência para a 3ª. Série. Sua professora, uma lenda em Iperó: dona Henory de Campos Góes. A diretora, dona Alzira Vianna. Ai de quem precisasse ter uma conversinha em particular com a dona Alzira. E ai de quem fizesse alguma gracinha na sala de aula da dona Henory. Educadora austera, mas de enorme coração com a gurizada. Que diga um saudoso colega que gostava de judiar dos meninos, todos mais franzinos que ele (e principalmente dos são-paulinos, como o capirinha “picorroto” - esse era o apelido dos nascidos em Araçoiabinha). O colega corintiano detestava os são-paulinos.

O pai do garoto sapeca, descendente de imigrantes do oriente médio, assim como a maioria desses imigrantes que fixaram residência em Iperó, possuía um comércio varejista, que vendia um pouco de tudo. O filho tomava emprestado do armazém lâminas de barbear, a conhecida Gillette, e sendo o teto da sala de aula de assoalho, sempre que dona Henory dava uma relaxada, com uma habilidade fantástica ele atirava as gillettes no teto. Lógico que ninguém era trouxa de dedurar, senão a conversa depois da aula não seria nada agradável. Só que vira e mexe alguma lâmina despencava do alto e pronto: lá vinha dona Henory, soltando o verbo e botando de castigo nosso amiguinho. Nada de sair para o recreio naquele dia. Por mais que ele se fizesse de anjinho, ela evidentemente sabia quem era o autor da proeza. Talvez, e justiça seja feita, ele deve ter pagado alguns castigos injustamente. “Criou fama, deitou na cama”, já dizia o velho ditado. Com o tempo o sapeca filho do proprietário do armazém se esqueceu das brincadeiras com as lâminas e passou a atirar com canudinho de bambu bolotas de papel molhado no teto. Começava tudo de novo! Não fui eu, não sei de nada. Nada tenho com isso, etc e tal. Bronca na diretoria, castigo, e ele nem aí.

E assim a vidinha na cidadezinha pacata, vai transcorrendo.
O picorrotinho conseguiu ser aprovado com muita dificuldade. Safou-se de ter que repetir a 3ª. série com dona Henory.
Em 1962 estava cursando a 4a. série com um anjo de pessoa chamada dona Pedrina Rosa. Mãe do pestinha do Ely Rosa, que fez o menino de Araçoiabinha pagar um mico sem tamanho e inesquecível. Dona Pedrina foi uma precursora do ensino áudio, teatro, visual. Gostava de ilustrar as aulas com leitura dinâmica e simulação de situações em forma de teatrinho. De vez em quando dona Pedrina adaptava de algum livro de história infantil, uma peça de teatro com as crianças. Foi numa dessas que nosso querido Ely aprontou. Dona Pedrina ensaiou a garotada para representar a fábula da “Branca de Neve e os sete anões” no barracão. Ela escolheu os figurinhos, ajudou as mães dos atores a confeccionar as alegorias, enfeitou e preparou o palco. Tudo ensaiado, a platéia lotando o cinema, só que de última hora um dos sete anões teve um mal estar. Coitado do Dunga amarelou. Tinha que ser logo o Dunga! A solução que Dona Pedrina encontrou para a situação emergencial foi apelar para o filhão que não dava sossego. Pegou o Ely que não fazia parte do script, mas que acompanhava a mãe em todos os ensaios, e que obviamente conhecia de cor e salteado o desenrolar do enredo, e pronto, problema solucionado. Solucionado? Tá bom. Tudo vai transcorrendo maravilhosamente bem. A platéia se divertindo, rindo, aplaudindo, até que numa cena em que os anões entram cantando a famosa “Eu vou, eu vou, prá casa agora eu vou...”, o Ely se matando de rir, empurra o coitado do tímido menino ladeira abaixo do palco. Fim do primeiro ato. Fecham-se as cortinas.
Só que teve a volta. Ao final do ano a vítima da “peça” tendo sido aprovado em primeiro lugar, dona Pedrina que sempre presenteava os primeiros colocados da sua turma, agraciou o garoto com um livro de histórias ilustrado e uma bola de capotão número 4. O título do livro era “Os Gansos do Capitólio”. Uma obra prima da literatura infantil.
Ali nasceram duas paixões no coração do menino tímido. A paixão pelo futebol e pela literatura. A bola de capotão sofreu muito com as unhas sujas de terra da garotada da Vila do Depósito. Nem o couro dela sobrou, pois alguns gomos que restaram, serviram de malhas para confecção de estilingues. O livro depois de lido, relido e memorizado “ad eternun” caiu no esquecimento em alguma prateleira, ou baú de livros e revistas velhas manuseadas.
A vida na Vila do Depósito fervilha. Locomotivas a vapor, diesel e elétricas trafegam indo e vindo para o pavilhão de solda de trihos e para o triângulo que habilita as locomotivas a retornarem para o pátio da ferrovia. Os barulhos das máquinas de solda elétrica, dos soquetes de ferro fundido, das picaretas e dos martelos, confundem-se com os murmúrios e correria das donas de casa, atarefadas em preparar o almoço dos operários. Os filhos dos operários que terminaram a quarta série do primário, intuitivamente sentem o peso de meio órfãos. Quase que absolutamente nada a fazer. Estudar no ginásio de Boituva, nem em sonho. Para conseguir isso seria necessário fazer um exame de admissão ao curso ginasial. Os mais abastados poderiam fazer uma preparação ao vestibulinho com um professor particular. Aos menos favorecidos, além das diversões de caçar passarinhos, pescar, nadar no porto de areia e jogar futebol, restava o consolo de no rigor do inverno, ganhar alguns trocados trabalhando de bóia fria na colheita do algodão que representava a única atividade rural compatível à idade deles.
Naquele ano de 1962 o mês de Maria já havia terminado e as comemorações ao padroeiro da cidade Santo Antonio começado. O mesmo menino agora já rapazinho, meio perdido, trabalhava de manhã colhendo algodão, jogando bola à tarde e à noite dando umas voltas pela praça onde estavam instaladas as barracas da quermesse. Tinha uma vontade imensa de ter algum dinheiro para comprar um arroz doce ou um doce de cidra. E também apostar numa das casinhas da brincadeira do coelhinho. A barraca presenteava o ganhador com bonitos brindes utilitários. Na sexta feira que antecedia a festa maior do padroeiro, ele botou uma roupinha bonita, desceu pela rua que ultrapassava o córrego, que antecedia a Vila do Depósito, e subiu até a entrada dos trilhos em direção à estação. Pediu muito para seu anjo da guarda que o ajudasse de alguma forma ter um dinheirinho para comprar os doces e brincar na barraca do coelhinho. O que ele ganhava na colheita de algodão tinha que ajudar na casa. Na inocência de seu íntimo e desse diólogo com a divindade maior, ao menos para ele aconteceu um milagre. Quando ia cruzar os primeiros trilhos da malha ferroviária, numa relva verde daquela noite de inverno rigoroso, em plena escuridão, percebeu uma nota de 10 cruzeiros, tão verdinha quanto aquela relva. Relva umedecida pelo sereno que regava suavemente a graminha e que também suavizava seu rosto, misturando naquele instante mágico as lágrimas que na sua solidão e na sua inabalável fé estavam presentes. Daquele instante em diante suas forças se multiplicaram. Ele sentiu que poderia ser um vencedor. Era sim possível ter uma vida melhor para ele e para a família. O coelhinho da barraca não colaborou, mas os doces ele comprou, comeu e se lembrou dos irmãos.
No final do mês de junho o engenheiro administrador da vila chamou o pai do jovenzinho mirrado. O engenheiro tinha um filho da mesma idade. Dizendo que admirava muito a vivacidade do garoto, estava propondo que ele deixasse a lavoura e fosse fazer o curso de admissão ao ginásio com um professor particular que ministrava as aulas numa salinha improvisada nos fundos da casa. Esse professor se chamava João, e era um expert no embalsamento de animais, morando onde hoje é a casa paroquial da igreja matriz de Santo Antonio. O engenhero assumiu a responsabilidade de bancar o custo das aulas. Como a safra da colheita de algodão já estava terminando, como num outro milagre também surgiu uma alternativa de ajudar na manutenção da casa. Os cafeicultores, para poderem enviar as sacas de café, para os entrepostos que efetuavam a torrefação, necessitavam de mão-de-obra caseira para separar o joio do café. Dava para ganhar uma graninha razoável. Como o trabalho de “catar” café podia ser feito em horários que não prejudicavam as aulas, o dinheiro arrecadado era o suficiente para pagar as aulas do professor João. De qualquer forma tudo foi possível devido ao incentivo recebido do engenheiro administrador.
Novembro de 1962. Não havia alternativa. Era tudo ou nada no ginásio de Boituva. Professor João apresentara a relação de documentos que se faziam necessários para efetivar a matrícula para o exame de admissão. Prova de escolaridade da 4ª. série primária, certidão de nascimento, comprovante de residência e duas fotos 3x4. Comprovante de residência e prova de escolaridade nenhum problema. Mas, certidão de nascimento e fotos? Só tinha um jeito: sozinho com 12 anos e sem ter nenhuma experiência de vida urbana e articulação para resolver problemas, além de seu pequeno mundo, pegou o trem, foi até a rua da Penha em Sorocaba, onde tinha um local que se tirava fotografia e que ficava pronta em 6 horas mais ou menos. Dali até o mercado municipal, embarcou num ônibus direcionado até Araçoiaba da Serra, à procura do cartório, para tirar uma cópia de seu registro de nascimento. Como a sorte bafejava os teus cabelos, a escrevente do cartório de Araçoiaba o reconheceu como parente, e conseguiu liberar a certidão a tempo de pegar outro ônibus de volta para Sorocaba, em condições de retirar as fotos e retornar para Iperó já à noitinha.
O exame admissional era realizado em três dias consecutivos, consistindo de uma prova de matemática com nota mínima de 4,5, outra de português também com nota mínima de 4,5 e a terceira de ciências, história e geografia com nota mínima de 5,0. Tirou 4,8 em matemática, 5,2 em português e 8,0 em ciências, história e geografia. Aquelas notas já definiam o perfil da personalidade do jovem. Foi o único da turma do professor João que passou na primeira chamada. Puts! Legal, maravilha, parabéns, hum e daí? Os dias passam e fevereiro de 1963 chega. Vários outros colegas de Iperó se incorporam para estudar em Boituva, inclusive alguns alunos do professor João. Uns que passaram na segunda chamada e outros que conseguiram a transferência por matrículas efetivadas em escolas de Sorocaba e Tatuí. O amigo, filho do engenheiro benfeitor, foi estudar na Escola Técnica Industrial de Sorocaba e seguiu seu caminho.
À época as escolas adotavam uniformes. Os meninos de calça azul marinho, camisa branca, com bordado em vermelho, escrito “G.E Boituva” no bolso, e ainda um blusão azul claro com o brasão da cidade nas costas. As calças podiam ser de brim coringa, as camisas de tricoline bordadas a máquina e os blusões de algodão e flanela. O conjunto de uniforme era adquirido de algum fabricante ou revendedor autorizado. E quem não tinha dinheiro para comprar? O jeito era se virar. Como a mãe do nosso personagem era costureira, comprou uns panos de brim em Sorocaba. Sorocaba tinha muita revenda de tecido, pois a Manchester Paulista era uma das maiores produtoras de tecidos do Brasil. Com o tecido de brim comprado já dava para confeccionar duas calças. Faltavam as camisas e os bordados. Como a ignorância da maldade nunca se atreveu a contaminar o coração daquela mãe, nem o sangue do garoto, ela ingenuamente catou alguns sacos de algodão branco, que vinham embalando os alimentos comprados no armazém da sorocabana, alvejou, tingiu ou azulou com anil e pronto! Duas camisas estavam prontas. Restavam para a estréia triunfal no pátio do colégio os bordados das camisas e do blusão. Uma jovem que se tornaria uma amiga/irmã, gentilmente cedeu sua blusa para que a esforçada mãe copiasse bordando a mão os dizeres do bolso da camisa. O blusão não iria ter jeito. Não tinha como comprar e até porque também ainda era verão, e em Iperó e Boituva o calor era bravo.
Nesses anos, a impunidade e a bestialidade de alguns poucos, que se julgavam superiores devido à palidez da pele e solidez do bolso, disseminava a discriminação racial e social sem nenhuma polidez em qualquer ambiente. Não é preciso imaginar o que alguém que sonhava em ser alguém, teve que enfrentar um convívio cruel como o que se lhe apresentava. Tomava banho de sabão em pedra ou sabão de cinzas e não conhecia desodorantes. Tinha as mãos e os braços dilacerados pelos espinhos dos frutos do algodoeiro, e as unhas maltratadas pela catança de café. Usava camisas de saco alvejado como uniforme. As cuecas eram calções encardidos pelas águas do rio Sorocaba, culpa maior do vício insaciável de nadar. Cueca de saco também servia de short de natação. Os sapatos velhos, com meia sola reposta várias vezes pelo próprio. Na casa ele tinha um pé de cabra. Pedia a vizinhos que arrumassem sapatos usados com salto e sola, para então, com um formão também adaptado retirar os saltos, recortar as solas e com taxinhas assentar a parte superior dos sapatos.
Com a chegada do inverno, novamente a colheita de algodão. Trabalhava das 6 hs da manhã até 11h30/12h. Como as plantações do algodão eram em terrenos próximos da cidade, saía correndo, chegava suado em casa, tomava um banho, escovava os dentes, colocava o uniforme, pegava os cadernos e livros e corria para pegar o trem que ia para Boituva às 13h30, quase sempre já com fome, pois seu almoço de boia-fria era por volta das 9h. Para vencer só havia uma alternativa: mostrar-se superior às provocações e agregar para si a responsabilidade de ajudar até mesmo os desafetos.
Com sua sabedoria e sapiência nas matérias escolares, aos poucos passou a ser admirado e odiado. Como jogava bem futebol, esse diferencial corroborou com a convivência. Um dia estava no paraíso, outro dia no inferno. Outro fator contraditório em sua vida, e que ajudava também a alimentar a antipatia de muitos, era o seu sucesso com as meninas. Morria de vergonha e timidez, mas mesmo assim era muito assediado. Quando estava cursando a 3ª. série, um colega de Iperó que era repetente e que não poderia repetir mais, senão seria jubilado, tornou-se um excelente amigo. Filho de uma família razoavelmente bem estabelecida, boa gente, brincalhão. Como ele tinha nos gens o feeling para negócios, o negócio de português, história e geografia complicava. Passava de ano aos trancos e barrancos. Foi então que esse amigo, já com a verve de um grande vendedor, conseguiu vender seu peixe para o garotinho de cabelos encaracolados e olhos verdes. Uma proposta irrecusável para quem como ele ia de estômago vazio para a escola. Proposta decente: para cada prova que nosso herói passasse a cola das questões, um doce do seu Firmino, que mantinha um carrinho apetitoso em frente ao portão de entrada do Ginásio Mário Pedro Vercellino. Em caso de atraso do trem, também era garantido um biscoito de polvilho e amendoim vendido no bar da estação. Tudo transcorria do jeito que ambos haviam pedido a Deus. Até que certo dia, já no último bimestre, um professor de geografia que morava em Sorocaba e que ia e voltava no mesmo trem, gentilmente convidou o passador de cola para uma conversa particular. De dedo em riste foi logo dizendo: “Olha aqui garoto! Você pensa que me engana. Tenho absoluta certeza que de alguma forma você é o responsável pela transformação que aconteceu com o colega que senta na sua frente. Também tenho observado que vocês parecem amigos íntimos, pois estão sempre juntos. Se eu descobrir que você está passando cola, ou fazendo as suas e as provas dele, até porque eu não duvido que você tenha capacidade de imitar a caligrafia do fulano, eu relato o fato para o Padre Olavo – diretor do ginásio – e reprovamos os dois.” Jesus! As noites se transormaram em pesadelos. Medo de que o pai viesse a tomar conhecimento dos fatos. Medo de perder tudo até então realizado com tanto sacrifício. Faltariam tão somente o término daquele ano e a seguir o último ano para o diploma do ginásio. Só tinha um jeito: rezar. Apelar para a providência divina e para o sempre onipresente Santo Antonio de Pádua. E não é que a reza deu certo.
Na semana seguinte, o dito professor o chamou novamente, para caminhando juntos apenas os dois, da estação de Boituva até o Ginásio, que devia dar uns 300 metros, ponderou o mestre que ele devia evitar fazer qualquer bobagem que desabonasse sua sempre irreparável conduta. Passar cola ou fazer a prova de outro representava fraude e seria prejudicial para ambos. Também deixou transparecer que o colega que tinha certa dificuldade em matérias humanas e sociais, era bom de matemática, conforme atestavam as notas (coisa nata de comerciante!). Sendo assim passaria a fazer vistas grossas para determinadas situações. E assim terminou o ano de 1965: ambos aprovados em primeira época para a quarta série. No ano seguinte, já bem escolados na técnica de como se ajudarem mutuamente, não houve problema algum. Final de 1966 e diploma na mão.
Mas como tudo na vida do nosso personagem era complicado, até para receber o diploma foi difícil. Ficou decidido que os meninos formandos deveriam se apresentar para a grande festa na recém-inaugurada casa paroquial ,ao lado da igreja, trajados com camisa branca e calça azul marinho. A camisa não foi problema. Uma linda camisa de gola engomada. Tecido bom, ganho de presente da Casa São Benedito. Presente do seu Benedito e de dona Diva Paula Leite. A questão era a calça azul marinho. Sua mãe olhou para o velho guarda roupa e não teve dúvidas. Lá estava a solução. O pai conservava como relíquia um terno de casemira azul marinho, lembrança do casamento. Segundo ele, para ser enterrado com o terno. Que besteira! No dia da festa de formatura, um misto de alegria e tristeza. Não teria a companhia de nenhum parente para assistir ao recebimento do diploma. Nem pai, nem mãe, nem irmãos. Todos tinham vergonha de comparecer na festa sem um traje adequado para o evento. Tal foi o nervosismo que se apossou do jovem, que a solenidade de recebimento do diploma obedecia a uma ordem de entrada, onde cada formando retirava de um grande vaso um ramalhete de rosas, para em seguida ir cumprimentando o corpo docente e as autoridades presentes. Das mãos de um dos membros da mesa, recebia o tão sonhado canudo. Mas não é que nosso herói, na hora de retirar o ramalhete de rosas, e na ânsia de se ver livre daquilo tudo, arrastou consigo uns seis outros ramalhetes enroscados
uns aos outros pelos espinhos? No seu âmago nada mais tinha sentido, pois não teria mesmo para quem entregar a homenagem. Não iria receber cumprimentos de ninguém. Em contrapartida, assim como se representasse um castigo, recebeu algumas vaias e muita risada da platéia. Como consolo ouviu da pessoa que, levantando e usando da sua autoridade máxima, repreendeu os que se divertiram com o momento bizarro. Fez questão de lhe estender os cumprimentos e um pedido a Jesus para que ele tivesse muito sucesso na vida. Essa pessoa era o Padre Olavo, diretor do ginásio, que eticamente se recusava a entregar os diplomas, deixando a incumbência para professores e autoridades presentes.
Esperou terminar a solenidade da formatura. Posteriormente haveria um baile no salão da Sociedade Recreativa Boituvense. Saiu de fininho e começou a caminhar subindo a Rua Cel. Eugênio Motta no sentido de Iperó. Ao cruzar os trilhos da estrada de ferro ouviu alguém chamá-lo. Era seu pai. Deu-lhe um abraço. Deu-lhe os parabéns dizendo: “Fiquei de longe assistindo a sua solenidade. Não tive coragem de entrar. Não dê importância pelos fatos. Nem pela ausência dos teus parentes e nem pela bagunça que você arrumou. Iperó é um tirinho de espingarda. Vamos caminhando noite afora, que já, já, é outro dia e a vida continua.”
A partir de 1963, quando estava na terceira série, nosso garoto começou a colecionar desafetos no âmbito escolar. Motivos poderiam ser vários, mas um deles estava diretamente relacionado ao futebol, que era uma atividade da cadeira de educação física. O professor de educação física inseriu na grade curricular a partir desse ano um campeonato interno. Como eram muitos os alunos de Iperó que estudavam no Mário Vercellino, ele resolveu formar uma equipe só com esses alunos. Até porque as aulas ou atividades físicas, e é claro o futebol, eram realizados no campo do Esporte Clube Votoran agregado da fábrica Votoran, no período da manhã, e os alunos tinham que madrugar para pegar o trem e ficar aguardando o horário das aulas todos juntos, independentemente da série que cursavam. Eram uns doze ou treze meninos. Da relação de atletas constavam bons jogadores, quebra galhos e pernas de pau.
Jogavam no time de Iperó: Cica, Gilo, Zé Carlos Paes, Giba, Tiquinho, Groff, Ely Rosa, Adilson Pestinha, Hélio Saúva, Tio Zé, Carlinhos do Felício, Jorge do Bibe, Carlinhos da Diva, Zé Tiguera, Edvaldo Gasparini, Carlinhos do Genésio, João Alfredo, Rubinho. A molecada de Iperó dava show. Bicampeões em 1965 e 1966, conforme comprovam os diplomas. E se já havia um clima de rivalidade feroz entre os jovens de Iperó e Boituva, depois dos títulos os ânimos se acirraram mais ainda. E direcionado a alguns especificamente. Afinal dentre todos os participantes dos campeonatos, despontavam vários jogadores jovens que posteriormente iriam brilhar vestindo a gloriosa camisa grená da Associação Atlética Boituvense, bem como a camisa verde e vermelha do Esporte Clube Votoran. Só que quem vestiu o manto sagrado preto e branco do Sorocabana Esporte Clube é que sentiu na pele a rivalidade que extrapolava os limites da fronteira intermunicipal das duas cidades. Enquanto as provocações se limitavam à convivência escolar, nada demais sério ou grave tendia a acontecer, mas depois que alguém da turma do passado recente cruzasse em campo vestindo principalmente o uniforme da Boituvense, jogando contra o Sorocabana, lá ou cá, cá ou lá, não tenham dúvidas: o chicote estalava e o pau quebrava.
Dentre inúmeras citações de fatos verídicos ocorridos entre as duas cidades em função da rivalidade futebolística, vamos ilustrar uma ocorrida com o nosso já conhecido personagem, batendo na casa dos 17 anos. O Sorocabana Esporte Clube sempre manteve uma equipe de base (equipe de base hoje é moda). Da equipe de juvenil subiram para a equipe principal dirigida pelo seu Dito Bom, o Tarciso (goleiro), Cumbina (médio apoiador), Rodolfo (meia armador), Bartolo (centro avante) e Gilo (ponta). Disputando uma partida amistosa contra os grenás de Boituva, na Arena dos Eucalíptos, ou Arena Sorocabana (arena também é moda), aconteceu um lance perigoso. Perigoso para o gol da Boituvense e para a cabeça do Gilo. O gol o Gilo fez. Como foi o gol ele não sabe. Um jogador do time adversário acertou não a pelota, e sim a sua orelha. Ele caiu ligeiramente desmaiado. Acordou entre tapas e beijos. Seu pai encostado no alambrado, não gostou nada do que viu. Xingamento pra cá, resposta de lá, juiz “FDP” e coisa e tal, a jiripoca começou a piar e ânimos a esquentar. O pai do Gilo gostava de aquecer as manhãs de domingo, principalmente quando tinha jogo do filho, com umas doses da rosinha nos armazéns do Calil Eid e do Olimpio Pavon. Jogo pegado, bola pro mato, uma escapada do Gilo pela esquerda e lá vem o lateral direito da Boituvense: um negro forte, raçudo e que não alisava nem as ripas do cercado da Arena Sorocabana. Uma ginga do Gilo, um drible a la Leivinha, passando o pé por cima da bola em velocidade e “crau!”: o calção rasgado e duas covas na coxa, lembrança eterna dos pregos da chuteira do grande lateral. O pai do Gilo, seu Ângelo, quando pulou o cercado, já foi com duas ripas na mão. Com ele, mais uma meia dúzia de apaixonados do Sorocabana. Foi uma correria desenfreada para os vestiários. Acabou o jogo. Acabou aquele jogo, mas não a bronca que aquela partida despertou e fez renascer nos corações feridos e magoados. A famosa rivalidade.
Chegamos a 1967. Terminado o ginásio, as opções de dar continuidade nos estudos para nosso jovem era fazer o curso Normal (formação de professores primários) no Instituto de Educação Barão de Suruí em Tatuí. As aulas iniciavam às 8h. No primeiro ano, em 1967, éram quatro (ao invés de seis) irmãos. Irmãos, porque dividíam até o cobertor para se aquecer do frio na gelada estaçãozinha de Tatuí. O trem partia de Iperó pontualmente à 4h25. Não tinha atraso, pois esse trem iniciava sua jornada. Alguns outros jovens que pegavam o mesmo trem para estudar também em Tatuí na Escola Técnica Industrial. Mas no curso Normal, duas garotas e dois rapazes desembarcavam em Tatuí às 5h e tinham que aguardar até por volta das 7h30 para caminhar até a escola. Apenas um dos jovens conseguiu ser aprovado ao final do ano. Teve que seguir daí em diante sozinho no 2º. Ano. Aos dezoito anos jogava futebol, curtia os bailinhos e queria estrangular um galo que sua mãe cuidava como se fosse um bebê. Não tinha como curtir os bailinhos ou um namorinho aos domingos, pois às 20h tinha que estar na cama, senão não aguentaria levantar de madrugada para pegar o trem. Era tão bizarra a situação, que o danado do galo não se sabe como todo santo dia cantava às 4h. Com chuva, sem chuva, com geada, não tinha acordo. Às 4h, o galo cantava. Era o tempo de lavar a cara, escovar os dentes, engolir um cafezinho puro e sair correndo. É, mas tinha os sábados. E em todos os sábados tinha baile. Os garotos de Iperó iam aos bailes de Laranjal Paulista, Cerquilho, Tietê, Tatuí e às vezes em Boituva. Era bom, porque evitava confrontos com os boituvenses. A ciumeira era grande porque as garotas de Iperó tendiam a paquerar mais os do outro lado do rio. Nosso herói tinha um inseparável amigão do peito para os embalos de sábado à noite. O Carlos Alberto Paula Leite. O Carlinhos do Genésio. Como o Carlinhos era 3 anos mais novo que ele e fanático por baile, seu pai só dava permissão e dinheiro, para os bailinhos, não importasse onde, desde que em companhia do amigo. Óbvio que o amigo comportado cuidava do Carlinhos como jóia rara. Afinal, o seu Genésio garantia as passagens de trem, as entradas e as brejas.

Agosto de 1968. Comemoração da festa de São Roque. Bailaço na Sociedade Recreativa Boituvense com o grupo musical Super Som T.A. Imperdível. Duas garotas paqueras da outra margem do rio atiçando os dois pobres coitados. A situação merecia uma análise. Uma tentação. Boituva representava perigo. A possibilidade de encrenca era quase certa. Uma das garotas que era vidrada no menino de olhos verdes, dava a garantia de que nada iria acontecer. Afinal, seu pai era uma figura ilustre na sociedade boituvense. Haveria uma mesa reservada e que ela iria dispor para os dois junto com sua família. Assim sendo, sendo assim, era só convencer seu Genésio de que a barra estava limpíssima. Mil conselhos, dinheiro no bolso (do Carlinhos), roupinha de galãs e lá vai a dupla pegando o trem das 21h. Ingresso na mão, beijinho nas garotas, apresentação para o sisudo papai, e na mesa das gatinhas um litro de Black White e um balde de gelo! My good! Tava do jeito que o elaborador das confusões adora. O ambiente estava propício.

Nesses idos anos, perdurava uma estupidez de algumas sociedades retrógradas, que não permitiam que pessoas negras freqüentassem seus ambientes sociais. A SR Boituvense era uma delas. A moçada dançava, tomava uns golinhos, o maldito cigarro esfumaceava tudo, e na penumbra alguém chegava e sussurrava nos ouvidos do garoto de Iperó: “É hoje, hein! Tem gente aqui dentro que está prometendo quebrar com vocês.” Encostavam uns e outros e diziam: “Lá fora, na saída, tem uns desafetos que querem dar o troco do último jogo da Boituvense com o Sorocabana. O lateral não se esqueceu da ripada nas costas que levou naquele dia. E disse que como não pode entrar no baile, vai ficar de butuca até a saída de vocês. Nem que tenha que esperar o sol raiar.” Já passava das 3h e o baile terminava às 4h. O Carlinhos já estava urinando nas calças. O desafeto do lateral negro sabia que estava enrolado. Era necessário estudar uma saída estratégica. Chamou o Carlinhos e disse: “Seguinte, os carinhas em frente ao clube não te conhecem bem e a bronca não é com você. Sai como quem não quer nada, dá meia volta e se manda para a estação. Esconda-se por lá em algum canto e aguenta até o trem das 6h chegar. Chegando a Iperó não vá pra casa de jeito nenhum. Fica lá pela praça me esperando. Se até às 8h eu não chegar, avise seu pai e mandem me procurar no hospital ou no necrotério. Não fale nada pra minha mãe, nem pro meu pai. Vai...”

Carlinhos foi e ele ficou. Poderia ter falado com o sisudo pai da paquera. Explicar. Não teve coragem. Teve que se esgueirar por entre uns e outros cambaleantes sonolentos retardários da saída do clube, meio que na moita e sem pestanejar, sair correndo como se estivesse dando partida para uma prova de 100 metros. Só teve tempo de olhar para trás e ver que havia muitos correndo e gritando pega! Não parou de correr até o limite da rodovia Castelo Branco. Exausto, se escondeu numa valeta e procurou descansar observando a noite estrelada e fria daquele mês de agosto. Jurou que nunca mais na vida passaria nem em frente da cidade de Boituva. Quando passasse de trem abaixaria para não ver nada. Passava das 6h30, quando um sitiante que fazia uma feirazinha que começava a prosperar na cidade, deu-lhe uma carona no seu trator. Desembarcou do trator em Iperó, quase às 7h. Procurou pelo Carlinhos na praça e não encontrou. Encontrou-o sentado no degrau da porta da sala da casa quietinho. Choromingando. Quando o Carlinhos viu o amigo todo sujo e descabelado, pediu um silêncio. Não podia acordar ninguém. Desceram até a casa do infeliz desalinhado e tiveram que contar para dona Terezinha o motivo do estado lastimável do filho dela. Como o cafezinho quente e forte já estava coado, tomaram um café e deram muita risada. Inclusive a dona Terezinha. E como o universo está sempre em expansão, a vida em Ipero continuava. Os problemas e as dificuldades também. Nada que não tivesse alguma solução.
Início de ano de 1969. Não existe mais nenhuma possibilidade do garoto que amava os Beatles dar continuidade em seus estudos no Barão de Surui. Dezenove anos, cabeludo, jogador de futebol, fumante e sem um centavo no bolso. Seu pai sempre lhe dizia: “Filho homem sem dinheiro, até a sombra é feia.” E era mesmo. A situação tinha ficado preta. A pecha de vagabundo já começava rondar sua pessoa. Não tinha mais como. Precisava trabalhar. Estudar durante o dia era impossível. O sonho de ser professor estava desmoronando. Entretanto, quem acredita consegue, e faz jus que a estrela brilhe. E como uma estrela solitária ou um anjo descendo do céu, um personagem inesperadamente surge em sua vida. Um rapaz chamado José Gamero. Ferroviário, telegrafista, alocado na estação de Sorocaba e estudante do Normal no “Estadão”(I.E. Júlio Prestes de Albuquerque). Numa tarde de sexta-feira, calor bravo, sem um ventinho a amenizar o sufoco, ele procura a mãe dona Terezinha e explica para ela que o “Estadão” estava oferecendo três vagas para a 3ª. série do curso noturno do Normal. Era necessário providenciar os documentos até a próxima sexta-feira, data de encerramento das inscrições para a prova de seleção. Meio desacreditado da questão, pois, como encarar dezenas de concorrentes para três vagas sem ter se preparado? O jeito foi correr até Tatuí no começo da semana, implorar pela ficha modelo 19, que constava as notas e a aprovação das duas séries anteriores e fazer a inscrição para a prova que seria realizada na semana seguinte. Não tinha o garoto que amava os Beatles e os Rollings Stones, a mínima idéia do seria a prova. Levou apenas uma caneta no bolso e a fé inabalável. Ficou sabendo que haviam 83 candidatos às três vagas. Foram distribuídos em 2 salas distintas por ordem alfabética. O responsável pela prova era um professor de português e literatura. A prova era apenas e tão somente uma dissertação definida como “O que nos espera o futuro?”. Talvez influenciada pela corrida espacial, que prenunciava naqueles meados do ano a descida do homem na lua. O examinador ou fiscal da prova ressaltou em bom português, que a dissertação deveria ser composta de no mínimo 10 linhas e no máximo de 30 linhas. O garoto, um dos, das jovens tardes de domingo, foi tomado por inspiração divina. Talvez algo canalizado, mas escreveu duas folhas de papel almasso, sem rasuras. Na hora de entregar a prova, o examinador nem queria receber, pois a recomendação tinha sido clara. No máximo trinta linhas. Sem ter opção teve que aceitar.
Os dias de janeiro continuavam extremamente quentes naquele ano de 1969. Abafado, sem nenhuma brisa para afagar a face e massagear os cabelos das meninas. O ar parece contaminado pelo perfume exalado pelas flores de damas da noite, camélias e jasmins. Era como se o tempo tivesse parado. Isso quando não pairava sobre a atmosfera as cinzas de queimadas campo adentro. À noite uma mistura de sons imensuráveis. Rodas de trens estalando nos trilhos e soltando faíscas. O “talalá, talalá” dos vagões deslizando para os confins. Os sapos resmungando: “foi gol, num foi, foi, num foi, num foi, foi”. Vagalumes iluminando os pequenos arbustos, besouros e mariposas dando trombada nas lâmpadas e pernilongos infernizando. Nesse cenário, o anjo José chegou esbaforindo, suando e gritando na porta da casa da dona Terezinha, semana seguinte, após o concurso no Júlio Prestes de Albuquerque para uma das vagas do 3º. Normal: “Dona Terezinha, onde está teu filho? Eu passei hoje no Estadão para fazer a minha matrícula e está publicado que ele passou em primeiro lugar! Tem até segunda feira para fazer a matrícula.” Ufa! Graças a Deus! Primeiro dia de aula na nova escola, o professor que elaborou a dissertação e que apesar de não compor o corpo docente dos que iriam ministrar as aulas, para o afortunado rapaz, fez questão de conhecê-lo e pedir-lhe autorização para guardar para si uma cópia da redação, pois gostaria de no passar dos anos, conferir se as previsões do postulante à vaga, visionárias, iriam num dia, se concretizar. O ano de 1969 se foi e ficou na memória e na história da vida de um pobre rapaz. Vinte anos de idade. Dia onze de fevereiro de 1970. Quarta-feira de Cinzas. “Morreu Maria quando a folia na quarta feira também morria. E foi de Cinzas seu enxoval. Viveu apenas um carnaval.” Um carnaval que durou 11 anos maravilhosos.

Sentindo-se um zumbi e caminhando por uma estradinha poeirenta, que dá para a estação de Iperó, às 3h30 vai dando um último olhar para aquela casinha com uma área com abertura para a calçada da rua, iguais a quase todas da cidadezinha amada, e que por milhares de dias acolheu numa sacolinha de pano rústico uma garrafa de leite do seu Antonio Andrade com sua charrete, e o pão quentinho das padarias do Del Vigna, do Biscaro ou do João Padeiro. Seu coração está em pedaços. Sabe que o momento da responsabilidade chegou. Da batalha cruel para vencer os obstáculos do capitalismo selvagem. Os anos dourados acabaram e carnaval never more. Leva na bagagem, além das lições aprendidas, dos amores perdidos, o fluxo energético

 

 

Tanaka

Ângelo, que belo texto. Foi muito "gostoso" "degluti-lo" todinho, do começo ao fim.

 

 

Ângelo Lourenço Filho

Amigo Tanaka,
Tenho lido os teus textos e admirado pela forma que você expressa o teu amor pela cidade e pelas pessoas que fizeram o passado dela.
Eu não chequei a te conhecer bem. Você foi embora um pouco antes de eu ter me tornado mais conhecido. Mas eu ia em todos os jogos do Sorocabana e lembro que você jogava de zagueiro ou médio volante. Tinha estilo clássico. Também não me esqueci que uma vez num torneio de 1º de maio, você tomou um "chapéu" de um capetinha chamado Zé Rubens, que estava jogando por Capela do Alto.Eu cheguei a jogar uma vez ou outra junto com o Zé Rubens. Ele foi embora para Londrina e se tornou profissional. Jogou no Noroeste e Ferroviária, que eu meu lembre. Então tomar um drible dele não era desmérito pra nenhum craque....rs.
Tenho conversado com o Hugo Augusto e com o Augusto Pavon. O que escrevi até agora é só um princípio. Tentaremos descrever e retratar (anexando as fotos) o passado de Iperó. É importante que as pessoas do presente saibam que esse presente só existe porque teve muita gente que construiu. E que também o futuro pode ser melhor, se valorizado o que já foi construído.
Vamos juntos anexar informações, dados históricos, fotos, corrigir erros. Remontar datas, nomes e fatos é complicado, mas não impossível. Tem gente competente de monte que pode colaborar nesse processo.
Você é um.
Feliz Páscoa, obrigado pelo elogio e um grande abraço!

 

 

Tabajara Moraes

Ângelo, parabéns!
Sua descrição da velha e querida gare foi magistral. Senti-me acompanhando "pari passu" seu histórico trajeto. Percorri o texto antecipando a informação que se seguiria e lá vinha você com os dados que eu ia relembrando. Muito bom! Ótimo! Quanto aos peixes, senti falta da "bananinha" cujo nome é Tanchim. O Caldas Aulete me esclareceu: é o "canivete" que você menciona - peixinho caracinídeo - dorso listrado, como o paulistinha de aquário, boca pequena. Era o terror dos braços duros da pesca, principalmente das crianças. Ficava mamando na isca, sem sensibilizar o caniço e, quando dávamos conta, restava só o anzol. Lembrei-me, também, do bagre "duiá". Tinha o interior da boca alaranjado, boca enorme. Puxava bem, mas engolia o anzol. Cada um que saía da água passava por uma cirurgia para extração da fisga. Bons tempos. Ângelo, continue com suas lembranças, pois elas fazem o tempo retroagir e isso é muito bom.

 

Ângelo Lourenço Filho

Olá prezado Tabajara,
Obrigado pelo parabéns. Incrível a canalização das idéias. Você menciona que conforme ia lendo, ia se antecipando naquilo que posteriormente eu tinha descrito. Eu por minha vez, quase quebrei a cabeça e não consegui de forma alguma me lembrar do nome daquel

e peixinho danado que eu amava e odiava ao mesmo tempo. O Tanchim (paulistinha, bananinha), e que você tirou o peso da minha consciência. A gente tinha uma "seva" ao lado da ponte de ferro, abaixo do córrego do Amadeu, (como era conhecido o riozinho que descia desde o antigo reservatório de água), onde nos deliciávamos, em pescar ou tentar fiscar uma bananinha. Elas atacavam em cardumes e espantavam os outros peixes. Para deixar a gente mais P da vida, quando conseguíamos fisgar uma delas o beicinho bem frágil estourava, pois ao puxar para fora elas ficavam estremecendo toda e tchau.
Me ajude a lembrar do nome de outros peixes, bem como de aves típicas da várzea e do serrado, sobre quem ainda vou falar. Por exemplo, esqueci de mencionar a Saracura, o Socó, o Biguá, passáros pantaneiros de nossa Iperó.
Grande abraço.

 

 

Augusto Daniel

Olha, vejam que coisa engraçada, falando em animais, como éramos ligados nesses seres. Decididamente nós os amávamos e eles faziam parte de nossa vida, de nossas mais doces recordações. Lembro-me muito bem das vacas. Já disse que recentemente fui operado de um dos meus dois joelhos, até porque não me lembro de alguem que tivesse mais que dois, e que os dois foram lesados no futebol que amava e amo e que pratiquei intensamente no “campão do Sorocabana”, sem nunca ter sido um "Tanaka". Mas nós o praticávamos rotineiramente, embora na maioria das vezes a sra. "Dordaia" não concordasse e saísse em disparada de uma casinha onde morava, lá nos fundos, ao lado dos antigos vestiários (fundo à direita de quem entrava), em nossa direção, dizendo coisas que muito nos ofendiam, como por exemplo "seus fio de uma puta". E nos ofendia pela falta de concordância: “seus” com “fio” e o que é pior: todos de UMA puta só! Isso realmente nos preocupava, a todos, não conseguíamos entender, magoava. Bom, mas deixemos isso de lado, afinal a sra. Dordaia (porque será Dordaia?, será que o Ângelo explicar-nos-ia?), fazia parte e importante de nossa história, desde sr Bertolli até sr Pedroso. Odiava tempos chuvosos  (hoje os amo), porque eles não me permitiam jogar. Perdi um ano de estudo em Sorocaba, quando no mesmo ginásio, Anchieta, na rua da Penha, junto com o Kiko(hoje um importante empresário em Boituva), e o Roque, um grande amigo, daqueles que ficam em nosso coração, fazíamos a primeira série do ginásio e, simplesmente abandonávamos as aulas para tomar o "Luxo" que passava em Sorocaba às duas horas da tarde, para irmos ao "campão" jogar futebol. Na prova final havia um professor, famoso em Sorocaba, Hegas (coisa de grego, talvez), lecionava Latin que me disse:- "conjugue o verbo ser em latim e você está aprovado, quer dizer, o mínimo necessário. Sun, es, est. sumus sunt, estis, acho que é isso, hoje, muitos anos depois eu sei e, se estiver errado vocês também não sabem, e tudo bem; mas naquele dia e hora eu não sabia. Fui reprovado, já era segunda época, mas também foi rápido e eu tive tempo de tomar o "Luxo" e ir ao meu futebol. Me lembro que aquele que estragasse o andar da carruagem, digo, do futebol, com um chute que mandasse a bola para fora do campo, teria que buscá-la. Me lembro que em alguns chutes a bola foi pra fora do campo e no pasto do Joãozinho, o Domingues, pai do Zezinho, aquele que mora perto da Vera do escritório de contabilidade, próximo ao Gaspar, que tem um caderno de piada, para todos os gostos. Estive com minha mãe recentemente em Iperó e vi esse caderno, é imenso, com títulos, você pede a piada ele conta. Parece aqueles programas onde você pede a música. Bem, voltemos à bola. Eu até que gostava de ir buscá-la no pasto do Joãozinho, primeiro porque era um pasto, e aí é que entra a vaca, era uma aventura, e segundo porque sempre jogávamos descalços, e quando andávamos pelo pasto verdjinho, pisávamos naqueles "montes de cocô moles e quentinhos" e sabe que não era ruim!, marcaram tanto que ficou como uma doce lembrança, doce????

 

Correção: Sum, es, est, sumus, estis, sunt. Eu inverti a 2ª pessoa do plural com a 3ª (do nominativo). Ah!, e não fui coroinha como o Tanaka foi, no tempo em que as missas eram em latim e ele roubava vinho do padre!!

 

 

Tanaka

Ângelo, a gente se emociona muito, se empolga, recorda, vai no seu embalo, faltando até o fôlego para te acompanhar na sua preciosa, precisa e detalhíssima narrativa dos diversos fatos por você abordados; parece-me que você está escrevendo num frenético embalo sem parar, sem tomar fôlego, até que chegue ao fim do que se dispôs a narrar; a gente como que quer correr junto contigo; igualmente da maneira como você escreve nas suas descrições dos mais variados casos; vamos como que engolindo apressado guela abaixo as suas palavras para não perder nenhum detalhe do que estamos lendo, presos à máxima atenção e como que hipnotizado, em transe, para não desviarmos do assunto.
Quando você se referiu à varzea formada pelo transbordamento do nosso rio veio-me à lembrança a minha primeira pescaria e, feita na companhia de meu tio Urciles, (já que meu pai não era afeito a isso) quando ainda na infância, ainda criança, e de barco; somente ele e eu no barco ali navegando e, a várzea formada ia ali da ponte de ferro até mais ou menos a divisa da propriedade do meu tio Amadeu; para uma criança de tenra idade, que aventura aquela! que sensação! Bem, ele fazia tudo pra mim; além de colocar a isca (minhoca) no anzol, também me dava as instruções de como deveria fisgar o peixe assim que percebese um movimento sensível da vara; um leve movimento de mão e pronto; mas qual o quê; com a empolgação do momento, o que eu fiz foi quase que arrancar a boca do pobre do lambari fisgado de tão brusco e forte foi movimento que empreendi. E até hoje tenho dúvidas se foi eu mesmo que fisguei aquele lambari ou se ele, pra me incentivar, pra me alegrar, colocou ele próprio o lambari no anzol (um dos que ele já havia pescado e que estava dentro do barco), depois que ele procedia a uma troca de isca que eu já havia perdido; mas a quantidade de peixe era tão abundante naquela época que de qualquer maneira eu acabei pescando outros para a minha grande satisfação. Ele que me ensinou também a fazer a rede de pescar. Lembro-me, ainda, da minhoca sendo arrancada do chão à mão para irmos à pesca.
Também quando você se referiu à planta bambu, me lembrei igualmente que a vara de pescar era extraída daí e, não como hoje, fabricada industrialmente e, dos mais diversos materiais, me parece; o pescador dessa forma também era um artesão, pois a sua vara de pescar era feita por ele próprio; e escolhida entre os diversos galhos da bambuseira aquela que melhor se adaptava para o tipo de peixe que se iria pescar; e cada uma delas diferenciada, dessa maneira.
Pôxa! como usei a calça boca de sino; ela cobria todo o meu sapato nº 42.

O que o Augusto esqueceu-se de dizer no seu texto foi o quanto ele e o Roque aprontavam com o nosso querido Kiko; eles pediam para o Kiko sair correndo na frente e tanto ele como o Roque ao alcançá-lo trançavam com um toque de pé a perna dele para vê-lo cair em plena rua da Penha em Sorocaba; e isso no asfalto ainda; e iam fazendo isso desde a saída do colégio Anchieta até chegar à estação da Sorocabana; e "morriam" de rir do indefeso Kiko; quanta maldade desses dois; é por isso que Deus castigou o Augusto deixando ele hoje sem a farta cabeleireira que possuia; como vocês vêm, esse moço já foi muito maldoso; hoje ele quer dar uma de bonzinho, mas não acreditem muito, não.
E olha que isso foi me dito recentemente pelo meu próprio primo Roque numa conversa telefônica, testemunha ocular e participante do que eu acabei de dizer.

 

 

Hugo Augusto

A respeito da sra. "Dordaia", penso o seguinte: o nome verdadeiro dela era Ordália. Isso é fato. Mas, com esse negócio de interior, ao qual estamos enraizados, era normal que as pessoas se dirigissem a ela como ORDAIA, ou melhor, DONA ORDAIA. Assim, imagino que ao juntar as palavras DONA + ORDAIA, tenha se originado inicialmente "DONORDAIA" e, posteriormente, "DORDAIA". E, logicamente, para a molecada soou legal!!!
Registro que também ouvi muitos xingamentos dela por causa de entrarmos no campo sem ordem... rs... rs...
Bem, acho que é por aí a explicação!
Grande abraço a todos,
Hugo.

 

 

Augusto Daniel

Eu penso que a "Dordaia", extrapola o pequeno local onde habitava, fundo do campo à direita de quem entra, próximo aos antigos vestiários. Transcende à condição de simples "cuidadora do campo de futebol" e invade o nosso imaginário, visto que constante em seu comportamento limitado, atravessou gerações repetindo os mesmos gestos e permitindo que seu "fios de uma puta" ressoasse em muitos ouvidos em épocas diferentes, levando à variedade de interpretações e elocubrações e repousasse em nossos subconscientes, emergindo vez ou outra para nossas conjecturas. Entendo que é uma questão metafísica. Saiu do plano material e se transformou num mito. O "mito Dordaia". Nossa "ÍDALA", já que temos nossa "PRESIDENTA".O Tanaka pensa que só ele escreve dificil, obrigando-me a lê-lo com o Aurélio às mãos?

 

 

Ubirajara Moraes

Quem se lembra do Nhô Dedé, marido da Nhá Nina (benzedeira)?
Coitado do Nhô Dedé. Conheci-o ainda criança na Vila Santo Antonio. Contavam os mais velhos da época que tinha sido chefe de estação, acusado "injustamente" (segundo os mais velhos) de desvio de café nos vagões da Sorocabana. Foi demitido sumariamente. Houve desvio e ele acabou “pagando o pato”, ficou como culpado.
Lembro-me dele vagando pelas duas únicas ruas paralelas que haviam na vila, com o olhar perdido no horizonte. Vestido sempre com um jaquetão azul surrado, antigo uniforme, e um boné também muito velho. Lembranças dos tempos em que foi ferroviário. A história do Nhô Dedé nunca saiu do meu pensamento, pela injustiça!
Ainda hoje fico pensando como conseguia sobreviver sem salário, com um filho doente chamado Pedro, conhecido como “Pedro da Nhá Nina”. E um menino que diziam ser neto da Nhá Nina, mais ou menos da nossa idade, que chamávamos de Toninho.

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Já se falou dos famosos campeonatos de jogo de botão que o Silvano Mioni organizava. Em outras ocasiões falei da "taça" em papel alumínio que ele confeccionava e era dada ao campeão. Um detalhe que estava fugindo da mente: os zagueiros e atacantes eram botões de capa, paletó e ceroula. Porém, o goleiro (“goal keeper”, como diz o Augusto) era uma caixa de fosforo. E para mantê-la em pé, nós derretíamos chumbo (imagina o perigo) coletado na beira da plataforma quando eram retirados os lacres dos vagões .
Naquela época, nós (os menores) sempre fomos vitimas da mala preta, do apito amigo. O campeonato era sempre decidido pelo Augusto, Paulo Zovaro, Orlandinho, etc. Enfim, sempre os mesmos.
A cada rodada, sempre um dos nossos craques (botões) eram surrupiados. Mas os marmanjos apenas "tomavam" emprestados às vezes, nos devolvendo no final da temporada. Afinal, havia sempre o interesse na aquisição do passe, umas bolinhas, um estilingue traquejado, um pião pintado em várias cores e que produzia um efeito inesquecível quando rodava. Até o próximo campeonato, o time adormecia esquecido numa caixa de pó de arroz “Cashemere Bouquet”, pois a temporada de pipa ou papagaio estava começando.

 

 

Ângelo Lourenço Filho

Perfeita a sua lembrança a respeito dos campeonatos de botão. Como não li ainda tudo do "fragmentos", não sei se você menciona que os jogos eram na escada cimentada, bem encerada com aquela cera vermelha, que dava na porta de entrada das casas do Paulo Zovaro ou do Silvano e Cica Mioni.
E que também as "bolas" do jogo eram feijões minguados e escolhidos a dedo, pelo tamanho, já que os mais "idosos", como o Augusto, o Silvano, o Orlandinho, o Paulo, tendiam a... adivinhem. Eu tinha um jogo de botão só de tampa de relógios. Me arrisquei a jogar algumas vezes contra o Cica. Como entre eu e o Cica tudo acabava em briga, preferi ficar mesmo lá pela Vila do Depósito e de vez em quando dar uma sapeada nos craques. Maravilha!

 

 

Augusto Daniel

Há dois dias estive em um clube da cidade, Jundiaí, onde as tradições italianas são cultuadas e muito bem, pelo fato de ser a cidade onde existe a maior população de descendentes, em 3º geração, dos habitantes de "la vecchia signora". Linda!. Decoração, recepção, o espumante servido muito bom, comida e música tudo, tudo a caráter. Mal sentamos e começamos a papear, já nos seviram o "couvert" e o espumante. Começou uma série de Pinno Donaggio, Rita Pavonne, Ornella Vanonni, Peppino di Capri, Domenicco Modugno, Gigliolla Cinquentti, Gianni Moranddi, enfim, todos maravilhosos e com músicas que me atiram mais uma vez em um "tunel do tempo" e fui parar em Iperó, na primeira metade da década de 60, anos mágicos. Desta vez não no "Cine Paradiso", mas na minha Porfírio, na minha casa, 85 (trocaram até o nº), no meu quarto, na minha cama, onde ao lado, achava-se o rádio de meu avô. Não me lembro o porque desse rádio estar do lado da minha cama, pois ele ficava na copa, ao lado da geladeira, onde meu avô Augusto, mesmo com a televisão na sala, fazia questão de ouvir duas coisas: um jornal transmitido com muita classe por Corifeu de Azevedo Marques e um programa de esporte (entenda-se futebol) e só uma parte dele, a que falava do Corinthians, o grande campeão do 4º Centenário de Claudio, Luizinho, Baltazar, Rafael e Simão, e assim mesmo só quando estavam falando "bem". Também me julgo um fanático, pois faço tudo isso, só que herdei o bom gosto de meu pai. Bem, deixemos isso de lado e voltemos ao rádio. Fim dos anos 50 e os 60, nós o tínhamos. Era um "rádio-vitrola". Nele aprendi tudo de música ouvindo os famosos 78 rotações que ainda os tenho. Nele ouvi à exaustão "Adeus 5 letras que choram" - Chico Alves, e"Luzes da ribalta" - Trio de Ouro. Ouvi muito, pois como já citei em outro comentário, participei do programa de calouros no Cine Sorocabana, da linda Ana Azeredo. Só parei "graças às vaias". Então, lá estava o rádio a meu lado e, nas férias, feriados prolongados, eu dormia até um pouco mais tarde: 11h30. Acordava cedo, isso é verdade, minha mãe batia a porta e levava meu café. E que café! Eu merecia, "já" era, naquela época, filho único, então eu não mais dormia, mas também não levantava. Com calma eu esperava o almoço, prá esse eu levantava. Esse tempo eu seguia minha rotina de férias, sofrendo. Ligava o rádio, primeiro a maravilhosa Rádio Portofelicense (acho que é assim), aquela da Altino Arantes, e após, quando acabavam as músicas, rodava o "dial" para a Rádio Cacique, aquela da esquina da Manoel José da Fonseca com a Miranda Azevedo, naquele tempo, na linda Sorocaba. Todos esses cantores, mais Miltinho, Nelson Gonçalves, Miguel Aceves Mejia e Bienvenido Granda desfilaram músicas que embalavam meus sonhos de mancebo apaixonado, que só era interrompido pelo cheiro da comida. Voltei à realidade quando a Cláudia me convidou a dançar, pois estava tocando "Champanhe", grande sucesso de Pepinno di Capri e fomos a bailar, como eu fazia nos velhos tempos, nos salões do Sorocabana, "dois prá lá e um prá cá".

 

 

Ângelo Lourenço Filho

Obrigado por esse instante de deleite que você proporcionou, levando-nos ao túnel do tempo.
Como faz bem aos ouvidos e à alma curtir músicas como:
Una lacrima sul viso e Se piangi, se ridi - Bobby Solo
Perdono - Caterina Caselli
Il silenzio - Dalida acompanhada por Nino Rosso
Volare - Domenico Modugno
Abdronzatissima - Edoardo Vianello
Tu sei cosí - Fred Bongusto
In ginocchio da te e Non son degno di te- Gianni Morandi
Non ho l"ettá e Dio Come Ti Amo - Gigliola Cinquetti
Sapore di sale - Gino Paoli
Non pensare a me - Iva Zanicchi
Il mondo - Jimmy
Ciao amore, ciai - Luigi Tenco
Se mi vuoi lasciare - Michele
Ho capito che ti amo - Nicola di Bari
L"appuntamento - Ornella Vanoni
Roberta e Champagne - Peppino di Capri
Io che non vivo - Pino Donaggio
Cin cin - Richard Anthony
Datemi un Martelo - Rita Pavoni
Não pretendendo ser um saudosista "careta", mas como nosso mundo regrediu na arte musical!!!
Como deixar perdido na memória os festivais da Record e San Remo na Itália?
Parabéns, Augusto!
Ah! E vamos nos reunir em Iperó num canto qualquer, levar uma vitrola, quem tiver, e discos de vinil... rs...
Abração a todos

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Belas lembranças do Augusto. Brilhante como sempre.!
É interessante esse novelo, onde um puxa uma ponta e pronto: já aflora uma lembrancinha que estava lá no fundo adormecida. Quando foi mencionado Corifeu de Azevedo Marques, do grande jornal falado da Rádio Tupi, veio à tona a voz do locutor, uma voz que fugia do padrão da época. Aquele padrão Hélio Ribeiro e Ferreira Martins (Rádio Piratininga) para os mais jovens. Então, depois de algumas notícias, Corifeu anunciava: “Atenção, senhores cotonicultores”. Contonicultores? Mas, que diabos era aquilo? Cotonicultores?
Consultado o velho dicionário estava lá: produtor de algodão .
Foi o que bastou. Em todas as redações escolares, na primeira oportunidade eu dava um jeitinho e arrumava um emprego para os cotonicultores. O meu agradecimento aos cotonicultores de então : Milton Sartorelli, Toninho Antunes e Carlito Sartorelli.
Falando ainda dos tempos da rádio, bom mesmo era acompanhar a Marcha das Apurações (eleição) na Rádio Portofelicense. Mas, isso é uma outra história.

 

Marcha das Apurações: Após algum tempo, era chegado o dia da eleição, depois de xingamentos, boatos e intrigas. 15 de novembro!
A rua Santo Antonio, cheia de papéis, poeira e promessas, aguardava nervosa o pleito acabar. O velho Gaspar recebia a todos. Ricos, pobres e remediados para exercerem o direito ao voto. Meu Deus, quanta gente! Fila longa e a esperança de dias melhores maior ainda…
O dia todo era um entra e sai de pessoas que só víamos nos velórios e não mais lembrava que existiam. Havia alegria, apesar de ser uma época dura (e bota dura nisso né, Dita?). Eram poucas e raras as eleições; mas era uma alegria ver a "gentarada" na rua.
Quando as votações eram encerradas, os presidentes, secretários, mesários, candidatos, fiscais dos partidos, carregavam a urna até o carro da Polícia que as conduzia até o local da apuração em Porto Feliz. Alguns candidatos e fiscais permaneciam em vigília no recinto para "guardar" as urnas, temendo a violação e subtração (talvez) de alguns votos.
No dia seguinte (16/11) começava a apuração. Primeiro Porto Feliz, depois Boituva e por último Iperó (seria uma predestinação?).
Ao redor do velho rádio, ficávamos atentos à apuração. De repente alguém gritava: “Começou!”
Correria, logo a pequena sala estava apinhada. O locutor da Rádio Portofelicense (seria Adélio Mendonça?) anunciava:
“Apuração da seção 29 de Iperó - vinha aquela musiquinha com toques de clarim, eu acho que tem alguma coisa a ver com a Revolução de 32 - para prefeito.”
Expectativa! Silêncio! E então, piiiiiiiiiiiiiii nhommmmmmmm piiiiiiiiii.
A maldita interferência estática invadia a sala . Xingamentos, sopapos no pobre rádio.
Nada adiantava, a emissora já estava fora do ar!
Com certeza, aquilo (fora do ar) era obra do candidato que não era o nosso, que havia cometido aquele atentado.
Decepção estampada no rosto de cada um. O velho Mário de Mello escalava um de nós para aguardar o retorno da emissora. Nada! Altas horas, o plantonista gritava: “Voltou!”
Correria, empurra-empurra e a emissora já estava anunciando os vereadores eleitos de Boituva.
Somente saberíamos quem havia ganhado a eleição, quando Iperó acordasse com os rojões do candidato eleito.
Isso na madrugada do dia 17.

 

 

Augusto Daniel

O São Paulo da década de 50 tinha por lateral direito Newton De Sordi, na época em que lateral direito tinha função defensiva. Ponta direita ainda era aquele que conduzia a bola até a linha de fundo, pra quem sabe o que é isso, e cruzava, cruzava pra Gino Orlandi fazer de cabeça. Poy, De Sordi e Mauro (falecido a pouco em Poços de Caldas com câncer de pâncreas, figura imponente, estilo clássico, pra quem sabe o que eu estou dizendo e com quem era comparado o Ulisses, zagueiro central do velho Sorocabana, da decada de 60, altivo, trato refinado no contato com a "pelota"), Dino, Victor e Riberto, Maurinho, Amaury, Gino Zizinho e Canhoteiro, o maior time de todos os tempos, porque, graças a ele, e bendito seja, hoje sou tricolor. Mas, enfim, qual é o assunto mesmo? Eu entro em transe quando estou pensando no tricolor. De Sordy. Tem família em Jundiaí. Após a Copa de 58 foi embora pro Paraná, casou-se com a filha de um usineiro de açúcar, Meneghel, em Bandeirantes, e seu filho chegou a sr prefeito do local. Tudo isso pra falar do nosso de Sordy, Nélson de Sordy, de nossa Iperó, que talvez tenha recebido esse apelido por ser um tricolor devoto, ou como diz minha mãe, no tempo em que jogava, batia pesado, como o lateral tricolor. Levava uma vida num "dolce far niente", gostava de uma Rosinha (prôs mancebos, Rosinha era uma caninha feita pela tradicional família Rosa, mas põe tradicional nisso, ligada a uma outra também tradicional e importantíssima família de Iperó, os Sartorelli) e eterno frequentador de velórios, aos quais criticava quando faltava o tradicional lanche: tubaina e sanduíche de mortadela. Enfim, mais uma figura folclórica, sem futuro. Um, um... Dia 02/06/2011, quinta feira, eu o vi subindo pela Santo Antônio, próximo ao lugar de sempre, onde levo a minha mãe, escritório da Vera, irmã do Marcos Andrade. Chamei a atenção do mesmo, que parou, ficou a me olhar por alguns minutos e, pondo o dedo no meu nariz, disse- me: "Você é o filho do Límpio!". Não perguntou; afirmou. O De Sordy, dentro de suas fraquezas, sempre foi muito altivo, diria que, até que um tanto que orgulhoso. Não falei, só ouvi. Isso parece fácil, mas pra mim não. Estou tentando me disciplinar, mas hoje tenho certeza que amo ouvir minha voz. De Sordy discorreu sobre tudo, ainda "metido", mas fiquei muito feliz quando não percebi influência do álcool. Falava por si mesmo. Imponente como sempre foi. Dono de si, de seu dinheiro de aposentado, e com muita honra, aposentado da prefeitura. Acreditem se quiserem, mas me senti muito feliz. Feliz de ver e ouvir alguém, na sua simplicidade, diante de minha prepotência, mostrar como ser feliz, se sentir importante, vencer e com muito pouco. Mostrar em uma fração de segundo, o orgulho de ter vencido. Nós fazemos tanto, sentimo-nos tão seguros e importantes e, na maioria das vezes, não somos felizes. Tudo isso não foi para dizer que amo o meu tricolor, mas para dizer muito obrigado ao De Sordy, o Nélson, que também, por acaso, é tricolor. Opa, desculpem-me, acho que estou sendo arrogante...

 

 

Augusto Daniel

Uma sexta, sábado e domingo da Semana Santa na terrinha, na segunda metade da década de 50. Se aqueles tempos eram melhores ou piores, que julgue quem os viveu. Quem não o fez, fique só com o que está. Amanhecíamos na sexta com o rádio coberto (televisão não havia), falando pouco e baixo, não se comia carne, não saíamos de casa, não haviam brincadeiras, futebol, brigas entre as crianças, nada que nos expusesse ao “Diabo”. Nós o temíamos naqueles tempos. Ele ainda está aí, mais ativo que nunca, mais feroz, só que não se acredita nele. Porém, os velhos estavam corretos: ele existe. E naqueles dias “estava solto”, como diziam, porque o Senhor estava “morto”. Então, todo o cuidado era necessário. A tristeza, o clima pesado se instalava na pequena Iperó daqueles anos, com seu 4 ou 5 mil habitantes. Muito linda! Na capela de Santo Antônio, não éramos paróquia, todos os santos cobertos de roxo. Julgo eu que até os paramentos do sacerdote eram roxos. Na noite, senhoras com véu negro e virgens com véu branco (naqueles tempos não casadas usavam véu branco e eram “Filhas de Maria”; senhoras com véu negro eram do “Sagrado Coração”). Acho que hoje as “Filhas de Maria” acabaram, né? “Ou tô inganadu?” Bem, voltemos à procissão. Saía na noite num clima de acompanhamento de féretro e o era o simbolismo do caminho do Senhor até a sua morte. 1º estação, condenação. 2º estação, carregando a cruz. 3º estação, Jesus cai pela primeira vez. 4º estação, Jesus encontra sua Mãe. 5º estação, Simão Cirineu - sempre pensei que fosse seu nome, mas “Cirineu” faz referência ao lugar de onde veio - ajuda a Jesus. 6º estação, Verônica enxuga ao suor e sangue de Jesus - essa estação muito me comovia, porque o canto era pra chorar em dia de festa - como velório em crematório, antes da cremação “of course”, você fica de frente à família, num anfiteatro circular, que por sua vez se vê obrigada a chorar, pois todos os olhares se voltam para eles, e vem uma música, que sem defunto e até sem morto você chora. Então o choro é coletivo. A Verônica, uma moçoila vestida de preto com véu escuro, se dirige a Jesus, uma pessoa que fazia esse “papel”, e o enxugava, deixando a imagem de sua face em vermelho impressa na toalha. Criança ainda, e juntamente com os adultos, chorei muitas vezes. Ainda hoje acho isso muito bonito. 7º estação, Jesus cai pela segunda vez. 8º estação, Jesus consola as mulheres que o acompanhavam e sempre estiveram com Ele, desempenhando o papel que até hoje desempenham, o mais importante. 9º estação, Jesus cai pela terceira vez. 10º estação, Jesus é despido de suas vestes. 11º estação, Jesus é pregado na Cruz. 12º estação, Jesus morre. 13º estação, Jesus é descido da Cruz. 14º estação, Jesus é sepultado. 15º estação, Jesus ressuscita, motivo pelo qual somos cristãos e é devido a isso que essa é a festa máxima do cristianismo. Cês pensam que eu sei tudo isso. É não. Quem me contou foi a Cida, minha mãe. Na madrugada do sábado, com o Diabo ainda solto, vinham as safadezas, que era para dizer serem coisas do capeta. Variavam as pessoas conforme as datas. Dimas, Telo e outros numa data, Said e outros em outra data. Traziam a carroça do seu Pinto, carroça da coleta do lixo na cidade, desde onde hoje é o mercado do Valdir, até o fim da Rua Santo Antonio, quebrada no varal (pra quem sabe o que é o varal), como se ela tivesse descido sozinha lá de cima, davam nó nas crinas dos cavalos e isso já era sabido que nessa época era coisa do demônio, quebravam plantas jogando vasos, vidros, portões batiam, animais eram soltos, etc... Isso assustava e muito. Jesus morto, Diabo solto... mas, como vimos, “os tentados eram sempre os mesmos, trocando a idade conforme a época”. Meio dia de sábado, a festa era comemorada sempre no mesmo lugar: PORFÍRIO DE ALMEIDA, lugar destruído que é a própria história da cidade, num poste na beirada da calçada (hoje são colocados quase no meio) entre a minha casa e a barbearia do Agenor (grande Agenor!), a cidade, crianças e também alguns adultos, malhávamos um Judas muito bem feito, no capricho, não sei por quem. Tradição, tradição. Finalmente, naquele tempo Jesus ressuscitava no sábado e vinha o “Baile da Aleluia”, que como todos os bailes da cidade, era um “puta” baile. E viva, com a minha Porfírio ou sem ela, IPERÓ!

 

 

Liráucio Zovaro

Oi, pessoal do “Fragmentos”, local onde narram-se as façanhas de todos da nossa querida Iperó.

Meus abraços para Augusto Daniel, Tanaca, Moraga, Odacir Peixoto, Elisabeth Rodrigues, Suely, Edna dos Santos, Udovaldo Jacques Eid, Airton Moraga, Maria Silvia Paula Leite e tantos outros.
Eu, conterrâneo de vocês, nasci na querida terrinha aos 14 de fevereiro de 1943. Filho de Benjamin Zovaro e Celina Pissinato Zovaro. Nasci na casa 11 do barranco, frente ao pátio da estação pelas mãos das parteira, dona Maria Sanches, mãe do Paco Sanches portador na estação. Nós morávamos vizinhos do sr. Adão Folim (casa 16) e do sr. Germano que era ajudante de chefe de estação, sendo posteriormente promovido a chefe de estação e indo morar na casa 11.Nesta casa lembro-me de ter falecido um filho do casal Germano chamado Nelci, se não me falha a memória, de tétano. Fomos morar na casa 22, vizinhos de Jaime Pestana Marques e de José de Almeida e dona Adelina.
Estudei até o segundo ano no Grupo Escolar Dr.Gaspar Ricardo Júnior, quando era perto do escadão, com a professora Henory. Dona Henory era muito boa. Certa ocasião deu uma bicicleta para o Laércio, irnão do Loremi, que moravam no bairro da Minhoca para que ele frequentasse as aulas. O terceiro e o quarto ano fiz no grupo novo com a professora dona Pedrina. O diretor da escola, Virgilio Gomes, que formou os escoteiros. Fizemos várias viagens para Itapetininga, Mairinque, Ipanema, Boituva. Certa vez o sr. Virgilio levou-nos até São Paulo, no Campo de Marte, para conhecermos um avião de guerra. Nesse dia, na chegada em S.Paulo, o Zé Marques (Bistecão) deixou cair o chapéu pela janela do trem.
Toca o Jorge Nassif correr até uma loja que vendia equipamentos para escoteiro da terra, como se chamava, e comprar outro.
Em 1955, querendo seguir a profissão de marceneiro como meus avós, fui para a escola em Sorocaba. Escola Técnica Cel. Fernando Prestes. Em 1956, desisti por ser muito dificil ir com o trem SP 2 (4:40) e regressar com o N1 às 18:40. Para não ficar ocioso pelas ruas, fui fazer o quinto ano com a professora Maria Viana. Ia de trem e regressava de caminhão, a pé, e aproveitava para nadar embaixo da ponte de madeira, que chamavam ponte de terra por ter seu assoalho coberto de terra. Fiz um tipo de preparatório com a professora  Therezinha Galvão, quando completei 15 anos que era a idade mínima que se exigia para o exame de seleção para entrar como aluno no Curso Ferroviário (CFT) na escola da Sorocabana.
Concluído o curso entre 1958 e 1959, onde eu, Adilson Nóbrega e Orlando Mello ficamos aguardando vaga para trabalhar até julho de 1962. Por ficar aguardando vaga, fiz datilografia em Sorocaba por seis meses e ajudando no Cartório da tia Alexis (Alexa) Soares Nassif. Ela era escrivã. Trabalhei em várias estações na função de telegrafista em Barra Funda, Gabriel Piza, Iperó e substituindo em várias outras e sempre morando na querida Iperó. Exceto em 1984: fui trabalhar como chefe ajudante e morar em Itapetininga, mas toda semana estava em Iperó. Trabalhei em Mairinque até julho de 1987 e aposentei em Presidente Altino (Osasco) como chefe de estação. Como aposentado continuo morando em Iperó até hoje. Tenho um pedaço de terra onde eu e minha esposa Maria Helena Rosa (filha do maestro Lazinho) cuidamos das nossas cabras, ovelhas, cavalos, vacas, galinhas, gansos, patos e meus cachorros. Faço minhas cavalgadas nos desfiles de cavaleiros nas datas, romaria a Bom Jesus de Pirapora.
Fui batizado e crismado na antiga igreja de Santo Antonio, onde também me casei e meu casamento foi o primeiro casamento da Paroquia de Santo Antonio, celebrado pelo padre Calixto. Meu casamento foi interrompido, pois deu um "branco" no noivo e fui socorrido pelo meu muito amigo Xisto, que me levou até a sacristia e lavou minha cabeça. De volta ao casamento, com aquele cálice brilhante, ele (Xisto) falava baixinho: “Toma mais um pouco que é bom.”
FUTEBOL: Falando em futebol, como o Tanaka frizou na sua mensagem de não possuir fotos, estou enviando uma em que estamos junto com o Murano. Em 1957, quando praticava na estação pelo CFT, o sr. Bertolli era chefe da estação e Diretor Esportivo do Sorocabana. Nas quintas-feiras era dia de treino do time do Sorocabana e o sr. Bertolli me dispensava do trabalho entre 15h e 15h30 e ordenava que fosse até sua residencia. A incumbência era de pegar as bolas com dona Lina (Eulina) encher beme passar sebo de boi para ficar macia e conservação das mesmas. Até que começasse o treino, convidava alguns meninos para bater bola e treinar faltas e pênaltis. Quando o treino começava, ficávamos sentados na arquibancada de tábuas, observando como se jogava 11 contra 11, pois nosso futebol era no campinho da rua do meio e atrás do cinema. Atrás do cinema tinha uma quadra de basquete, com garrafão e cesta. Só que era de moinha (pedrisco) e as divisas eram com tijolos em espelho. Em 1960 formamos o time do Juvenil, o treinador era João Porto. Enfim, começamos jogar no "segundão" e posteriormente reserva no time principal disputando o campeonato portofelicense. Como foi falado, na barbearia do Agenor é que saía a escalação escrita em uma lousa. Posteriormente começou a fazer datilografada para que todos ficassem cientes.
Lembrando do sr. Orlando Ferreira, farmacêutico do Posto de Saúde da Sorocabana. Certo dia, quando passávamos pela casa do mestre de linha, sr. Totó, o meu colega Leonildo Batista (“Mula manca”, por usar aparelho em uma das pernas devido a paralisia infantil) "atiçou" o cachorro do seo Totó. O cachorro partiu para cima de nós dois e Leonildo me ultrapassou na corrida. O cachorro me atacou, me mordeu. Tive que ser levado ao Posto de Saúde para curativo, onde seo Orlando com uma pinça puxava o excesso de carne e cortava com uma tesoura.

Falando em benzedeira, dona Angelina (mãe do Roquinho Boca Rica) certo dia por eu ser alérgico, peguei aroeira e pipocando todo o rosto. Dona Angelina benzeu o local mandando passar salmoura . Aí meus amigos, dancei catira de tanto arder o local.

 

José Roberto Moraga Ramos

Sou suspeito em falar sobre Liráucio, meu amigo. Seu depoimento nos remete aos velhos e bons tempos que certamente estamos todos revivendo. Tenho a convicção de que existe uma expectativa de um futuro grandioso para Iperó, uma vez que seu passado está sendo redescoberto. Parabéns ao Liraucio, extensivo a todos que aqui perpetuam suas lembranças.

 

 

Augusto Daniel

Hugão, grande Hugão, amigos todos, pensem no que estamos conseguindo. Leiam que "puta", no bom sentido, é claro, se é que existe bom sentido nisso; Mas enfim, que "puta" depoimento do Liráucio. Uns dos melhores. 23h. Só torcendo pro Santos pelo Murici, leio uma coisa muito bonita tipo essa que o Liráucio escreveu. Só tenho a agradecer e pedir que continue. Não pare. Escreva cada vez mais. Faça Iperó estar vivo nas suas recordações. Tanta gente tem coisa bonita a escrever e não o faz.

 

 

Odacir Peixoto

Admirado amigo Liraucio, você embora já velhinho, como eu e outros tantos, ainda está com a memória boa como de elefante (rs.). O falecido filho do casal Germano chamava-se, sim, Nelci. E o que o levou à morte, lembro-me, ele cutucou o dedo de uma das mãos no espinho de um pé de roseira. Quanto a esse caso, aproveito pegar um gancho para contar um fato extraordinário que aconteceu comigo somente, que tive mais sorte que o saudoso Nelci, graças a Deus!

Tenho a comentar com os amigos que, no dia do enterro do Nelci, eu estava de molho em casa com um dos pés inflamado e com febre alta. Diante de meu quadro febril, minha mãe sabedora do infortúnio do Nelci, porque dias antes tinha cravado um estrepe de madeira na sola de meu pé. Quando da janela do quarto de minha casa que ficava na Vila do Deposito, pude visualizar quando o caixão com corpo do garoto saiu pelo portão da casa do senhor Germano e começou a descer o escadão em sentido da estação, onde uma locomotiva engatada num vagão de passageiro faria o traslado do corpo até Boituva, onde o franzino Nelci seria sepultado. E sabe por que isso aconteceu? Foi porque um grupo de amigos da minha classe do grupo escolar, dentre eles, eu, o Ico Gamero, o Carlos Fumes, o Quinho, o Tiziu e outros mais que não me recordo o nome, em suma, uma cambada de malucos, os de sempre, quando soubemos que naquele determinado dia todos os alunos do grupo iriam tomar lombrigueiro, nós com o intuito de não tomarmos tal vermífugo, cabulamos a aula e fomos até a “Turma 1” que ficava na linha do ramal antes da Fazenda Bela Vista, fazendo zoada. Foi quando ao voltarmos, eu vindo esfregando meus pés no caminho que era arenoso, senti que algo estranho tinha entrado em meu pé debaixo do dedo mindinho, mas não sabia identificar o que seria. Não estranhem eu dizer que estava esfregando meus pés na areia, sendo que poderia estar com os pés calçados ou usando um mero chinelo! Calçado que nada, pois naquele tempo andávamos mesmo descalços. Calçados só usávamos em ocasiões especialíssimas. Nossa, gente, vocês sequer imaginam o horror que minha saudosa mãe passou naqueles dias enquanto o tal estrepe continuava encravado no meu pé! Salvo engano, fiquei uns cinco dias com ele no pé, e minha mãe utilizando métodos rudimentares, nada comparados com os de hoje, usava cânfora misturada com álcool, diariamente, fazia limpeza do local afetado. Foi quando, uma vez ela usando uma agulha de costura, desinfetada no fogão a lenha, conseguindo alcançar tal objeto conseguiu tira-lo para fora, foi quando ela assustada, observou que se tratava de um pedaço de madeira fina que tinha entrado em meu pé e, quando tirado, estava preto como carvão. Ela só não desmaiou ao ver tal objeto porque foi muito forte no momento, mas veja só gente o que eu passei. Esse foi apenas um dos casos acontecidos em minha vida, mas graças a Deus estou aqui, hoje, com meus 70 anos!
Um grande e significativo abraço a todos!
Odacir Peixoto

 

 

Ângelo Lourenço Filho

Que tal tentarmos relacionar o nome dos estudantes iperoenses que sofreram nos trens da Sorocabana para conseguir um diploma ginasial ou equivalente nas escolas de Sorocaba, Tatuí e Boituva? Cursos do ginasial, do técnico industrial, do normal e do científico?
Os mais jovens que já passaram a estudar o ginásio em Iperó, poderiam fazer o mesmo com os alunos que inauguraram o ginásio do Dr. Gaspar Ricardo Jr. Os primeiros formandos, os professores, inspetores de alunos, secretaria, serventes. Também as listas dos formandos de cada ano a partir de 1968. Na secretaria da escola é possível solicitar.
Estou “remoendo” a memória, para lembrar todos que me é possível. Certamente dezenas de nomes não constam da relação abaixo, e por isso peço a todos que retifiquem algum nome errado, e acrescentem os que estão ausentes, principalmente os que são mais antigos da minha época.
Mulheres: Vera Ferreira, Maria Silvia Paula Leite, Elisabeth Rodrigues, Célia Mioni, Laura Moraes, Leila Pascoal, Ana Maria Guazelli, Rosa Guazelli, Iraí de Barros, Elisabeth Navas, Elizabete Figueiredo, Marlene Domingues, Marisa Rodrigues, Sonia Covos, Ângela Covos, Izilda Domingues, Dinorah Camargo, Vilma Santos, Lourdes Paula Leite, Neide Fogaça, Rute Rezende, Roseli Pascoal, Elisabete Groff, Ondina dos Santos, Edvane Paula Leite, Eliane Paula Leite, Eliana Gasparini, Vera Andrade, Elisabete Santos,...
Homens: Augusto Daniel Pavon, José Aparecido de Moraes (Tanaca), Eloy Antunes, Eduardo Antunes, Udovaldo Jacques Eid (Duvaldo), Adroaldo Jacques Eid(Clodô), Sidney Domingues, Bendito Paula Leite Júnior(Kiko), Silvano Mioni, Afonso Mioni Filho(Cica), Ângelo Lourenço Filho(Gilo), Paulo José Zovaro, Orlando Ferreira Filho (Orlandinho), Antonio Carlos Paula Leite(Carlinho da Diva), Carlos Alberto Paula Leite(Carlinho do Genèsio), Airton Morágua Ramos, José Roberto Morágua Ramos,(Tiguera), Eli Rosa, Luiz Carlos Groff, Gilberto Pedroso Ramos(Giba), Rubens Rezende(Rubinho), Paulo Moraes(Paulo Bim), Antonio José Antunes (Tio Zé), Carlos Eid(Carlinho do Felício), Jorge Eid(Jorge do Bibe), Hélio Rosa(Hélio Saúva), Eugênio Del Vigna(Geninho), José Gamero, Jose Augusto Rodrigues(Zé Augusto), Antonio Arruda(Toninho Arruda), Fernando Arruda, Roque Eid(Roque do Calil), Edson Casagrande, José Carlos Paes, Edvaldo Gasparini, Marcos Antonio Tadeu Andrade, Jaime Caum, etc...
 - Pessoas de quem não me lembro do nome completo.
Adilson e Sueli (filhos do chefe da estação)
Tiquinho e Irmã (filhos de outro chefe da estação)
Luiz Litss e Irmã (moravam na última casa em frente ao antigo armazém da sorocabana)
Tufe e Irmã (filhos do Seu Ramires - mudaram para Angatuba)
Os irmãos Moreira - (Gijo /Fifo)
Os irmãos Domingues Santos (Pretinho...)
Filha do Tranquilo (chefe do Vagão Trolley)
Vilma e Ademir Caracu
As duas filhas do Sr. João (truqueiro)- (moravam na vila do depósito)
Verinha (filha do Mundico)
A irmã do meio da Elisabeteh Rodrigues e da Marisa
A esposa e irmã do Paulo Zovaro
Os irmãos Politani
A irmã do Udovaldo, e o nome do Major –outro irmão
Os dois irmãos e a irmã da família Dimas do correio
Ivan e irmãs (filhos do Dito Bom)
A filha do Felício e o filho mais velho
A irmã do Silvano e do Cica
Josué (Bartolo) e a irmã Madalena
A filha do Flamínio Paula Leite
A irmã da Lourdes e do Carlinhos do Genésio
A filha da Dona Pedrina, irmã do Ely
Gilsinho
E vai por aí......
Quem se lembrar de outros anexe, pois será legal montarmos uma relação de todo esse povo que ajudou na formação da cidade.
Quem tiver outras sugestões vamos agregar.

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Vamos lá, Gilo:
-Adilson e Sueli ( Simões )
-Tiquinho ( Carlos Alberto Nunes )
-Luiz e Cacilda (filhos do sr. Antenor - Mestre de Linha )
-Tufe ( Ivan ) e Lilian filhos do sr. Ramiro Fonseca
-Os irmãos Moreira são primos Fifo ( Jose Antonio ) e Gege ( Altamir irmão do Pretinho)
-Irmãos Domingues dos Santos Pretinho (Valtemir) Sid ( Sidmir ) e Ed ( Edmir )
-Vilma Caetano de Camargo
-Ademir Vidal Costa ( Caracu)
-Neide e Neli Moreno ( filhas do sr. João )
-Vera Corrêa Leite ( Filha do Luiz Mundico e sobrinha do poeta Zeca Correa Leite )
-Cimadocelia ( irmã da Elizabete e Mariza )
- Idejane Ferreira ( esposa do Paulo Zovaro )
- Neusa Zovaro ( Irmã do Paulo )
- Kiko ( Luiz Francisco ) e Nenê ( Antonio Geraldo ) Politani
- Irmãs do Oduvaldo : Leda, Maria e Elisabeth
- Nome do Majó parece-me que é Paulo
- Filhos do Dimas : Gumercindo de Campos Neto, Edmur de Campos Filho (Diminhas) Chislaine e Malfisa
- Ivan, Ivone e Irene Ferreira Lima ( Dito Bom )
- Filhos do Felício : Sonia, Zézinho ( José Gualberto ) Carlos Roberto (kibe) Sada
- Helena irmã do Cica
- Josué ( Bartolo ) e Madalena Lopes
- Lucinha irmã do Carlinhos Genésio
- Neli irmã do Eli
- Gilsinho ( Gilson Leite )

Ademir Vidal Costa ( Caracu)
Neide e Neli Moreno ( filhas do sr. João )
Vera Correa Leite ( Verinha do Mundico )
Cimadocélia ( irmã da Elisabeth e Mariza )
Idejane Ferreira ( esposa do Paulo Zovaro )
Neuza Zovaro ( irmã do Paulo )
Kiko ( Luis Francisco ) e Nenê ( Antonio Geraldo) Politani
Irmãs do Udovaldo : Leda, Maria e Elisabeth
Majó ( Paulo )
Filhos do Dimas : Gumercindo de Campos Neto , Edmur de Campos Filho (Diminhas), Chislaine e Malfisa
Ivan, Ivone e Irene Ferreira Lima
- Filhos do Felicio : Sonia, Zezinho (José Gualberto) e Carlos Roberto ( Kibe )
- Irmã do Cica: Helena
- Josué (Bartolo) e Madalena Lopes
- Irmã do Carlinhos Genésio : Lucinha
- Irmã do Eli : Neli

 

 

Augusto Daniel

Henory de Campos, Lázaro Garcia, Therezinha Galvão, Said Jorge Moraes, Julião, Renê Killian, Sergio Killian, Ulisses Guazzelli, Olavo Guazzelli, Amaro Sartorelli, Joamar Bertolli, Zito Bertolli, Inez Brienza Garcia, Jurema Vital, Dito Cabra, Gracio, Tata, Tuco, Fifo e outros tantos que viveram a aventura de estudar fora da terrinha e o fizeram como pioneiros e com sucesso.

 

 

Ubirajara Moraes

Se é para acrescentar, vamos lá pela década de 50, se a memória não falhar, acrescentamos mais algumas pessoas que residiram em Iperó, onde trabalharam, sonharam nessa terra; amaram; tiveram filhos, enfim viveram...
Mulheres: Benedita Brandão Moraes; Jandira Salmasi; Olívia Peixoto; Ercília Antunes; Augusta Azeredo; Lola Santos; D. Francisca.
Homens: Luiz Garcia Moraes; Orlando Salmasi; Benedito Peixoto; Manoel Azeredo; Benedito Santos; Abílio Antunes; Roberto Gouveia (contundido gravemente quando servia o Exército); os filhos de D. Francisca e sr Emílio: Jorge; José Carlos e Emilinho; Oberdan (falecido tragicamente em plena lua-de-mel no litoral pauista.

 

Augusto Daniel

1 - Essa questão de citar nomes, vai mudando nosso pensamento de uma forma muito rápida e como consequência, muda também o rumo, o objetivo. Se o objetivo é elencar pessoas que para estudarem tiveram que deixar a cidade em busca de ginásio, colegial e faculdade, embora corramos o risco de esquecer alguem, é um risco menor pois são muitas pessoas pensando. Mas, se objetivamos nomear pessoas que contribuiram na criação e desenvolvimento da nossa cidade, a conversa é outra, não passa pelo estudo, passa sim por uma qualidade muito superior ao estudo, que envolve caráter, amor, dedicação. Passa pelos nossos que não estudaram e, não tenho nenhuma dúvida, foram muito melhores que eu. Porem aí o risco é maior, risco de nos limitarmos às pessoas que viveram no nosso tempo, citarmos nomes sem esclarecimentos, e muito pouco significa para o agora. Todas as citadas não foram importantes, são e sempre o serão. Cada um de nós temos uma passagem com essas pessoas, porque não relatamos essa passagem e as trazemos de volta à vida? Digo que cada nome que li virou gente viva e uma recordadção bonita e também viva. Nós os amamos e de uma forma ou outra, independente de serem parentes ou não, ocuparam um lugar "no nosso trem". A maioria já desceu, muitos ainda continuam, mas sempre nos trarão saudade. E se os utilizássemos, mais uma vez, e relatássemos "um causo" os envolvendo. Penso que os ressuscitaríamos e os apresentaríamos ao iperoenses mais jovens, como o Hugo...

 

2 - Tempo houve em que o carnaval era uma festa do povo mesmo. Tempo houve em que um a dois meses antes do carnaval as músicas eram lançadas e exaustivamente tocadas nas rádios, "marchinhas" de música e letras inesquecíveis, interpretadas pelos cantores(as) melhores do país e feitas pelos melhores compositores. Havia uma disputa acirrada para se ganhar um carnaval. A nós, mortais, cabia-nos ouvir, conseguir livrinhos que tinham todas as letras, decorá-las e entrar no carnaval cantando tudo. Músicas lindas que ficaram para sempre. Cantar, pular, jogar confetes, serpentinas, borrifar lança perfume (Rhodia). Tudo um sonho no imenso salão do Sorocabana. Essa festa era das crianças mas principalmente das famílias, que pulavam quatro dias sem se cansar, e trabalhavam no dia seguinte.Nos carnavais da minha terra, além das músicas, eu sempre os encarei com uma camisa listrada e um tubo de lança perfume. Num dos carnavais, não sei exatamente se no de 58, talvez o de 59 ou seria o de 60. Sei não!! Sei que foi lançada uma, mais uma marchinha, que explodiu junto com as outras e que se chamava " Zé Pequeno" , não me lembro mais da letra, embora saiba cantarolar a música... Zé Pequeno era um soldado de morte... e assim ia. Mas eu, na minha inocência, fiquei impressionado como o autor podia saber, escrever e por música no Zé Pequeno; sim, porque não podia haver outro, a não ser o nosso, o nosso Zé Pequeno, ali da cidade. O Seu Zé Pequeno, assim conhecido, porque nós crianças não nos atrevíamos chamá-lo de Zé Pequeno. Importantíssimo dentro do nosso contexto. Venceu ao Chico Padeiro na pipoca, pois este, o Chico, durou pouco, mas o Zé, ah! o Zé, parecia eterno, tal qual a Dordaia. Passou por minha infância e invadiu minha adolescência, até os meus vinte e mais um pouco. Forneceu as pipocas salgadas e doces, amedoins, pinhões, aqueles que sentados nos bancos, lá na frente, lado esquerdo, onde fazíamos de tudo , inclusive, quando interessava, assistiamos ao filme. Tapa nas cabeças, soltar "puns" e acusar o vizinho(Tanaka), arrotar, passa a mão no da frente e descascar inúmeros pinhões e jogar as cascas para trás, tudo de uma forma muito educada, saudável, afinal éramos bons meninos, vindo de boas famílias. Enfim, voltando ao Zé Pequeno, carrinho desleixado, cara de pouca higiene, fumando sobre as pipocas, jaleco sujo, bigode amarelo pelo fumo, barba por fazer, vez ou outra dando uma coçada no saco, outras cutucando o nariz, o que prá nós não era novidade, mas rotina,fazíamos isso direto, mas ao Zé Pequeno conferia um charme e dava um sabor especial; pelo menos prá mulecada, eu, que gostava demais daquela pipoca e dos pinhões. O amendoim nem tanto. Faltava sal, ou porque vinha num pacotinho e ele não punha as mãos? Penso que tudo, filmes, bailes, carnavais, festas, devem, pelo menos no que diz respeito às pipocas e pinhões ao Zé Pequeno. Isso fez com que eu acreditasse que aquela "marchinha" que citei, decididamente, com toda sua beleza, deveria ser muito cantada, deveria ganhar o carnaval, porque ela, com toda a certeza foi uma homenagem ao nosso inesquecível e grande Zé Pequeno. Foi mais uma pessoa comum, simples, mais importantíssima de minha infância e adolescência, na minha pequenina Iperó. E que viva o Zé Pequeno, e que o Senhor esteja com ele.

 

 

Tanaka

Belo texto, meu amigo Augusto. Gostei do preâmbulo pra chegar "aos finalmentes"!
Quanto ao nome dos estudantes, eu acrescento o do Teco (Edson).

Esqueci de dizer que eu fiz o curso de Química Industrial (técnico) no Liceu D. Pedro II; só menciono para acrescentar mais este à lista que já consta; vejam só... até hoje só sei dizer o símbolo químico da água - H2O - e o meu primeiro emprego foi de bancário.

 

 

Augusto Daniel

Hoje, 15 de agosto, dia de Nossa Senhora do Desterro (desterro, porque Maria e José foram desterrados, fugiram de sua terra para o Egito, para preservar a vida do Cristo). Dia da padroeira de Jundiaí. Fomos à catedral para acompanhar a missa e "persegui a purcissão". Na missa, com a igreja lotada, não vi os cruzadas, mas lá estavam os Congregados Marianos, a Irmandade do Coração de Jesus, as Filhas de Maria, enfim, todos mais "nóis". Missa de dia de festa, demorada, daquelas que no corredor de entrada da velha igreja, quando padre Olavo demorava muito no falatório, a mulecada toda saía e ia "batê papo na praça", até que alguém chamasse dizendo que a missa tinha recomeçado. Lá fora estava a banda a postos, uniformizada, preparada. Só não vi o Lazinho Rosa na clarineta, o Tino no piston, o Ulisses no bombardino, o Olavo no piston, o Pigico 'pai' no trombone de vara, o Bagre também no trombone de vara, o Pigico 'filho' na tuba, o Quinho no repique. Não vi nenhum deles, mas pra mim, eles, naquele momento, lá estavam executando "dobrados" maravilhosos. Sai o andor seguido pelo povo todo, rezando e cantando, com suas fitas, seus "terços", fila dupla, andando pelas ruas de Iperó, digo, Jundiaí, numa manhã ensolarada, e a "furiosa" atrás encantando a mim e a minha mãe. Nessa hora a emoção vai a mil, faltando apenas o nostálgico apito de uma locomotiva chegando ou saindo da estação. Quem viu, viu, e quem não viu que fique com cara de pavil!

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Aos decanos desta página. Além do time do Sorocabana (em todas divisões), o SACI, Bela Vista, o Atlético de George Oétterer, o São João da Fazenda Ipanema, etc, tivemos também, por um período muito breve, o C.A.S.A. (Clube Atlético Santo Antonio), que teve como um dos fundadores o Felício (Assad) Eid. Para os mais jovens, o campo do CASA tinha o nome de "Cascavel" e ficava na avenida que vai para o cemitério, nas proximidades onde hoje funciona do bar do Galo. Se a memória não me falha, o Tanaka jogou no C.A.S.A e o Augusto era seu empresário à época.
 

 

Ângelo Lourenço Filho

Eu tenho uma foto minha, meu irmão Toninho "chupa dedo", meu pai e sr. Renatinho, voltando de um jogo do "Cascavel". Tem uma dedicatória do meu pai, pois o Cascavel ganhou o jogo do Cerquilho. Foi a única vez que joguei uma partida de futebol junto com ele.
 

 

Augusto Daniel

Acho isso muito interessante. Não é do meu tempo em Iperó, penso que não... Acho que já tinha saído. Lembro-me bem do SACI, na época um time familiar. O Tanaka já havia saído também. Eu o empresariei, é verdade, mas foi de sua época, treinos, no Corinthians. Não deu certo porque talvez tenhamos exagerado no que pedíamos e porque naquela época o Corinthians tinha o Edson de volante, que depois jogou no São Paulo, com Pedro Rocha e Mirandinha. Mas enfim tentamos. De qualquer modo fico feliz de saber desse desconhecido time, cujo campo se chamava "Cascavel". Acho que é muito bom para as pessoas escreverem, pois não há uma Iperó; há uma Iperó para cada cabeça, e todos elas lindas por refletirem nossa doce memória, de cada um, como essa descoberta em que o Gilo jogou futebol com seu pai, que conheci, e como diz minha mãe, uma pessoa muito educada, de fala baixa. Parabéns, Tiguera, você também uma ótima pessoa. Por pouco não coloquei o Tanaka no Corinthians. Devo dizer que no São Paulo ele não jogou porque não quis. Disse, na ocasião, que jamais jogaria num time "pó de arroz". Naquela época não era "bambi". Fiquei muito magoado e não mais o empresariei, e ele foi ser advogado lá no Taboão onde se aposentou. Fazeoquê!!!

 

 

Ângelo Lourenço Filho

Esse timaço foi criado pelo pessoal que frequentava os armazéns do sr. Olímpio e do sr. Calil Eid. Eram os jogadores de "truco", que apostavam umas "caninhas" e sempre um frango com polenta. Rolava uma conversa "fiada", sempre nos dias seguintes das "batalhas truquíneas", na barbearia do Agenor, que os frangos eram "surrupiados" de galinheiros das redondezas pelo Paulo Berduega e pelo De Sordi, sendo que as "trucadas" eram jogadas à noite em duplas, no sistema "quatro paus", nos fundos do armazém do Calil. O time se diluiu da mesma maneira que surgiu. O apelido "cascavel" me lembro bem, que meu pai comentava, foi dado porque nessa época os butequeiros, jogadores de truco que tomavam todas, eram tratados como "cobras". Tipo bafo de jibóia, etc. E que, pra jogar no Cascavel, era necessário no aquecimento tomar um copo cheio da rosinha. Obviamente que não se incluia aí menores de idade como eu, que joguei nessa partida, só pra complementar o time, que não conseguiu convocar 11 caninanas, cascavéis, urutus, etc...
Abração a todos!
 

 

Augusto Daniel

Havia o cinema. Atrás o jogo de "bocha", ao lado a Porfírio que penso até com outro nome. Na esquina a igreja protestante e do outro lado o terreno vazio, vizinho ao sr. Orlando. Veramente ele terminava num barranco e, lá no alto morava o vô do Paulo Zovaro. A vó, senhora gorda e diferente dos gordos, que são calmos, bondosos; ela era uma fera, brava, de olhar bravo. Uma vez estávamos naquele terreno, eu, o Silvano e o Orlandinho. Tínhamos uma ou duas facas. Como nossa imaginação era "MUNTCHU" fértil, convencemos o Orlandinho a ficar de braços abertos no barranco, para, como nos circos que vinham a Iperó, atirarmos as facas, Essa idéia genial deve ter partido da cabeça do Silvano, não da minha. Eu só topei. Não é que a senhora, avó do Paulão, lá de cima viu. Caceta, meu! Desceu com tudo. Acho que até "rolou". 'Deu uma puta duma carcada ni nóis qui saimu tortu'. Peguei um ódio nela, nunca entendi como uma pessoa adulta podia interferir numa brincadeira de crianças. Devia ser falta do que fazer!!!

 

 

Ubirajara Moraes

Sobre o sr. Sebastião Senna: Recordo-me do saudoso sr. Sebastião, na noite em que foi anunciada a vitória do então candidato à Presidência da República, Juscelino Kubitschek, na vila do Depósito, onde morávamos. Naquele tempo, a contagem manual era demorada. A eleição ocorreu no dia 03/10/55 e a contagem final se deu muitos dias após. Em casa, já tarde da noite, só eu e minha tia estávamos acordados, quando começamos ouvir os rojões que foram ao ar em comemoração, lançados pelo saudoso sr. Sebastião.

 

 

Augusto Daniel

Que lembrança do Ubirajara! Muito bonita! Época em que as pessoas, quando estudavam, no máximo faziam o "primário". Tinham um compromisso; trabalhar para que os filhos pudessem estudar, e trabalhavam como "gigantes". Getúlio foi ditador muitos anos e, nesses anos, o "clima" não era dos mais leves. Havia uma mistura de temor e incertezas com relaçao ao governo que se instalou na capital do país - Rio de Janeiro - lá colocado após uma revoluçao civil. Até quando fui embora pra São Paulo, 1969, sobre um rádio antigo de meu avô, ficava um porta retratos, oval, pequeno, bonito, com a foto do "velho", que quase todos os brasileiros de uma maneira ou outra, guardavam uma. Bem, as pessoas, naquela Iperó dos anos 50, pouco estudavam, já citei que não o faziam para trabalhar e ganhar dinheiro pra criar seus filhos, mas tinham uma profunda noção de brasilidade. Eram patriotas. 54, Getúlio já um presidente eleito, depois de longos anos como ditador, em conflito com o congresso, suicidou-se no "Palácio do Catete", onde ficava o governo da república. 1954, eu com 6 anos, lembro-me da comoção nacional, afinal o temor dos primeiros anos da ditadura, tornou-se respeito, até amor. Iperó, com, talvez, seus 3 ou 4 mil habitantes, não esteve alheio a tudo isso. A tristeza também atingiu os nossos adultos. Todos arrasados. Já havia a tristeza pela perda do campeonato do mundo de 1950 na inauguração do Maracanã. Some-se a isso a morte de Chico Alves, "A voz de Ouro", o maior cantor do Brasil, voz maravilhosa, cantando sobre carrocerias de caminhões no "gogó", sem microfones. Assumiu então pós a morte de Getúlio, seu vice Café Filho - eu na minha criancice achava muito engraçado o nome café, como achava o do Zagallo que me soava como Zé Galo - que ficou no governo até o final dos ano de 55. Juscelino, eleito em 03/10/55, provocou também uma esperança e euforia muito grande na cidade, e o nosso povo de então, na sua humildade, simplicidade, tinha noção política, entendia a importância de um voto, os contava um a um, de ouvido grudado aos velhos rádios e, como seu Sebastião Senna, vibrou e disparou fogos por um Brasil melhor. Decididamente, mostravam que para serem brasileiros, não precisavam de faculdade, mas sim de dignidade, um tanto quanto escassa hoje em dia. Parabéns pela lembrança, meu caro Ubirajara.

 

 

Elisabeth Rodrigues

Alô pessoal, sobre as comemorações de fim de ano dos alunos do Gaspar, lá no nosso querido Sorocabana, alguém tem alguma coisa na memória?

Ah, e antes disso tinha a nossa super EXPOSIÇÃO de artes nas salas do Gaspar. Atrás da nossa Matriz de Santo Antonio, a bem dizer ao lado, acho que a casa foi demolida, ali morava um professor mateiro que fuçava nossas matas e embalsamava animais. Era o professor sr. João. Eu me lembro vagamente desse professor. Era magro, mas com musculatura definida, pele clara, me parece tinha olhos azuis e me parecia ágil e inquieto, talvez por gostar desse estilo aventureiro e investigador. Seria essa sua aparência ou estou enganada? Lá na entrada do Gaspar havia uma ave de asas abertas embalsamada por ele. Essa técnica tem nome: peço ajuda aos universitários. A confirmar, acho que ele virou destaque nessa arte, pois já vi alguma coisa na internet, mas não sei se é a mesma pessoa. Quem souber, com certeza de alguma informação sobre esses dois assuntos, por favor nos ajude a completar mais esse episódio da história.

 

 

José Roberto Moraga Ramos

O professor João era "taxidermista". Era também um grande artista. Quando o Sorocabana adquiriu a tela panorâmica, com a velha tela o professor João pintou a cara de um palhaço, que serviu de entrada durante o carnaval (isso se, minha memória não está falhando). Acho que foi em 1959 ou 1960. Ele também fez uma maquete da estação, que ficou muito tempo exposta na escola, sob os olhares atentos do Gaspar Ricardo.
 

 

Ângelo Lourenço Filho

Meus amigos Zé Roberto e Elisabeth,
O professor João fez parte direta da minha educação e consequentemente da minha vida. É entre tantos um dos maiores ídolos que tive. Me ajudou demais. Como esquecer das aulas que ele nos dava, no processo de admissão ao ginásio, ao lado de lobo guará, de uma cobra sucuri, de passáros, todos embalsamados!? Do odor do cloro! Mararavilha! Inesquecível!
Eu, Cica, tio Zé, Betinha, Bete Navas, Zé Roberto... lágrimas de saudade do Mestre João... meu segundo pai!!!

 

 

Augusto Daniel

Professor João, eu o conheci. Era uma pessoa "taqui", elétrica, penso que seja ainda, espero!!! Eu já não mais estava no Gaspar. Fazia 1º série no Anchieta Sorocaba, mais o Roque, Kico e o Tanaka na 2º. Passei a frequentar a casa do professor, já naquela época a casa era da igreja e ele a alugava. Eu o conhecia de "passagem", mas tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente porque deslumbrado que estava com minhas viagens diárias à Sorocaba e minhas "matadas" de aulas, precisei de seu auxílio em matemática, com aulas particulares. Pessoa eficiente e agradável. Já escrevi das exposições de "trabalhos manuais" de todo final de ano. Eu as achava muito bonitas, eram bem elaboradas e a cidade as visitava mesmo. Nós nos sentíamos importantes. Ocupavam uma ou duas salas (uma delas é onde voto), com sacolas de barbante trançado, porta toalhas desenhados; ano um, ano outro, eu as apresentava, um ano meu pai dava um trato e outro minha vó. Lembro-me que uma vez a Dona Henory quis e começou a cobrar dos "marmanjos" o aprendizado de tricô. Pela primeira vez eu vi uma manifestação em conjunto dos pais "machos", com medo que se tornassem "bambis". Acho que meu pai chegou meio atrasado e hoje, sou um assumido (e viva meu tricolor). Mas voltando ao assunto, essa exposição era muito esperada pela presença dos pais e porque havia uma disputa pelos primeiros lugares. Já escrevi também das festas de formatura no "Cine Paradiso", digo, Sorocabana. A mais linda foi a da minha formatura; cine cheio, cantamos, de Ary Barroso, "Na baixa do sapateiro", claro, após o Hino Nacional, todos bem ensaiados pela professora Sumaia e, muito orgulhosos, recebemos nossos diplomas, chamados um a um, com nossos pais muito mais orgulhosos que nós. Já escrevi que foi a formatura mais linda de minha vida!

 

 

Tabajara Moraes

TAXIDERMIA - A arte de dar forma à pele. O Museu de História Natural de Cornélio Procópio (PR), foi inaugurado em 2002 e funciona na antiga Estação Ferroviária, restaurada pela Prefeitura do município. O acervo pertence ao professor João Aparecido Galdino, fundador do museu. Seria esse o "nosso" professor João?

 

 

Augusto Daniel

1952 moramos em Sorocaba, 1953 voltamos à Ipero e fomos morar na casa da esquina da Porfírio com a que sobe o posto de gasolina. João Domingues? Ali onde era o açougue do Flamínio, era uma casa do meu bisavô, Emílio Guazzelli. Morou tio Raul, morou tio Álvaro e moramos nós no nosso retorno, junto com o tio Álvaro, quatro em um quarto divididos por um lençol (meu avô, avó, pai, mãe e eu), outro quarto era do tio Álvaro, tia Dirce Danezzi Guazzelli, filha do seu Danezzi, que morava na Silvano, bem no meio entre o Gaguinho e o Germano (essa foi pra, no bom sentido, 'of course', 'fuder coá cabeça docêis'), só que ainda não havia a casa do Germano e era só mato (aí a coisa piorou!). No quarto do tio Álvaro moravam o Emílio e o Luizinho, filhos do tio Álvaro. Ficamos ali porque na nossa casa, 85 da Porfírio, estava o Lauro Paula Leite, que alugava a casa do meu avô, Augusto Garcia. Na rua São Bento, lá embaixo, vizinho do tio Raul, havia duas casas, que pertenciam à minha tia Victória (Guazzelli Betolacinni). Meu avô alugou uma delas e pra lá mudamos em 1954 (ano do suicídio do Getúlio). A nossa venda continuou na esquina que depois o Flamínio montou o açougue. Já disse que o local pertencia a meu bisavô. Meu avô, Augusto Garcia, passou ele mesmo, com ajuda a princípio do meu tio Lázaro Garcia, e depois do Zé Pequeno (aquele do carrinho de pipoca), a construir uma casa na Duque de Caxias (hoje Silvano), que fica exatamente no terreno acima da nossa casa da Porfírio. Pra lá mudamos em 1955. Lá ficamos uns dois anos e voltamos pra Porfírio. Meu avô comprou de minha tia Victória a casa em que moramos, a vizinha e a do fundo que fazia frente com a Porfírio. Em 1958, eu com 10 anos, recebíamos em casa a visita do sr. Celso Galvão e dona Amélia, ele muito nosso amigo, ferroviário, que havia se afastado de Iperó e no local pra que fora transferido, o fora como Chefe de Estação (na época coisa de uma importância extrema). Eram muito amigos de minha família. Lembro-me que ele e meu avô e o piá aqui, é claro, fomos andar pelas ruas ainda de terra e pedregulho, todas, e muito lindas, de uma poeira que jamais veremos igual. A data era um pouco, e só um "pouco importante"; festa maravilhosa de Santo Antonio e Copa do Mundo de 1958 (pergunto: precisa mais?). Saimos nós três de casa, na 85, fomos pela calçada da direita (no lado das lindas casa da Sorocabana, haviam as guias mas não o calçamento das calçadas; redundância?). Não digo isso como crítica, jamais; eram lindas, eu as amava. Fomos até a esquina com a Santo Antônio, ainda não havia o magnífico sobrado da dona Diva (não estou brincando, não há ironia; assim eu o via na minha idade e, assim vou vê-lo para sempre. Ainda hoje eu a vejo na sacada; dona Diva). Ali na esquina encontramos o seu Pixe. Já falei sobre essa figura importantíssima da cidade. Subimos a Santo Antônio, eles proseando e eu ouvindo. Pixe afirmava com convicção que se o Uruguai de Don Obdulio Varela chegasse a enfrentar a nossa seleção, esta tremeria de medo como o fez no Maracanã em 1950. Obdulio Varela foi um volante de contenção (famoso centerarfo - digo, center half - o meio da metade), que segundo o falecido Pixe, "no grito" fez tremer toda a maravilhosa esquadra brasileira, do mestre Ziza, que goleou a todos até perder para o Uruguai naquela tarde fatídica, inauguraração do Maraca, última partida. Subimos a Santo Antônio, eu nos meus 10 anos, ainda se lembrando do Zé Galo, que havia feito um gol contra a França, enquanto eu descia a Porfírio para levar um recado de minha avó Alice para a tia Zenaide, esposa de tio Raul, mãe da Ana e da Rosa, que moravam vizinhos da dona Elisa, dona de uma loja, esposa do seu Killian, ferroviário, pai do René, também ferroviário. E aquele grito de Fiore Gilliotti, o maior locutor esportivo do Brasil, da rádio Bandeirantes, pôs em polvorosa a pequena Iperó, narrando o gol do Zé Galo, nos 5x2 do Brasil sobre a França, o time do artilheiro da Copa de 58, "Just Fontaine" falecido recentemente. Fomos até o Cordeiro (não vou ficar explicando tudo), descemos até a esquina do clube (Esplanada - do qual meu pai foi sócio fundador e eu fui sócio remido. Fui porque terminou em pizza). Ali o sr. Jõao Marques Penteado, pai do Bisteca (grande Bisteca), hoje nome da própria rua, emprestou o terreno da esquina (que hoje "num sei" mais o que é), pro leilão de gado. Eu amava tudo isso e acho que amo inté agora. O Pixe gostava de fazer esses comentários que enchiam o saco, mesmo de um piá (dos meus 8 anos em Curitiba) como eu. O sr. Calil, vizinho nosso por uma eternidade na Porfírio, foi e será o eterno leiloeiro, fez mais esse leilão. Não sei quem levou, pois eu ainda estava "puto" da vida com as previsões do sr. Pixe. Concluo dizendo que nos meus 10 anos sem direito a "tape" que somente surgiria em 62, tive um dos momentos mais felizes da minha vida, quando a seleção brasileira de PELÉ e GARRINCHA foi, pela primeira vez, CAMPEÃ DO MUNDO. Como eu nos meus 10 anos gostaria de ter sr. Pixe ao meu lado...

 

 

Ângelo Lourenço Filho

Prezados Moraga e Augusto Pavon,
Apenas neste fim de semana me foi possível ler os e-mails, que vcs me mandaram. Agradeço a ambos pela maneira carinhosa com que trataram de pessoas expressivas, dentre tantas outras, na construção e manutenção da saudosa EFS. Dei muita risada ao saber que em Iperó, além do meu pai, a Portuguesa de Desportos tinha um outro torcedor. Na verdade eu acho que meu pai era corintiano disfarçado. Ele só se tornou portuguesista, porque em 1946, trabalhando em Osasco, como funcionário da DRO (segundo ele), empresa de construção civil, e batendo uma bolinha pelo time da firma, um senhor (que eu conheci pessoalmente, pois acabamos sendo vizinhos décadas após o episódio) me confirmou a veracidade do fato. Esse sr. era o Ângelo Fázio, ou Angelin, como era conhecido, e que indicou meu pai para fazer um teste na Portuguesa, através do grande locutor Geraldo José de Almeida.
Bem, meu pai sempre jurou que foi aprovado nos testes, mas... por causa de uma jovem bonita de Araçoiabinha, chamada Terezinha, ele disistiu de ser jogador de futebol. Meu pai já a idos anos se foi. A bela jovem, e ainda jovem, continua a perambular com seus 84 anos pelas ruas da nossa terrinha. Muito importante a lembrança do Augusto, a respeito dos trabalhadores da "soca". Penso que o termo "soca", é devido à "marreta" que eles utilizavam para implantar os pinos e grampos nos dormentes acoplados nos trilhos de ferro. Se alguém souber explicar para os jovens, seria legal. Principalmente o termo da madeira chamada de 'dormente'.
Abraço a todos.

 

 

José Roberto Moraga Ramos

Gilo, você mencionou a marreta e pinos que na verdade eram conhecidos como pregos de linha (tinha uma cabeça parecida com a de um cachorro) e os parafusos são conhecidos como "tirefonds". O termo é dormente mesmo e a nossa Bela Vista forneceu durante muito tempo para Sorocabana os dormentes que eram cortados do horto, serrados e tratados com um produto à base de pentaclorofenol (altamente cancerígeno ). Grandes figuras trabalharam lá (usina de tratamento de dormentes), entre eles o Quinho (depois foi pra Bauru trabalhar numa usina nova feita pela Fepasa ), Jumbé, Jair Moisés, Celso Esteves, Dito Góes, dentre muitos.
E por falar em ferrovia, aqueles que moraram em suas casas, devem lembrar-se do "trinco" que segurava as venezianas. Pareciam uns soldadinhos de ferro fundido. Eram lindos. Guardiões do nosso tempo!

 

 

Ubirajara Moraes

Gilo, você foi longe quando descreveu os acessórios utilizados na chamada "soca". Até ri, quando li sobre os "tirefonds", que os "tatus" chamavam "tirefons". Como telegrafista no ramal de Itararé, convivi com os "turmeiros" e sempre os admirei. Foram grandes trabalhadores, verdadeiros heróis! Uma classe que honrou e dignificou o trabaho. Aprendi com eles algumas lições de vida, que nenhuma faculdade nos ensina. Valeu, Moraga! Valeu, Gilo!


 

Tanaka

O Trem de Antigamente - um tributo: Bem, como eu mesmo me sugiro, gostaria de demonstrar toda a minha consideração e celebrar com bastante sentimento e porque não dizer também com não poucas saudades, àquele outrora conjunto de carros e/ou vagões devidamente engatados e movidos pelas inesquecíveis "maria-fumaça" ou pela locomotiva elétrica, e que chamamos trem e, assim, como que para prestar-lhe a devida e singela gratidão, já que para mim e penso que para todos nós dos idos tempos ele muito significou, como igualmente acredito que para sempre significará; esse meio de transporte que foi o acessível para a nossa locomoção e que até nos fez com o seu sacolejar por muitas vezes cochilar gostosamente durante aquelas viagens que realizavámos como se estivéssemos a ouvir o tocar de uma canção de ninar; é, e eu digo isso pela razão que, no nosso caso de estudantes, como tínhamos que levantar muito cedo, mas muito cedo mesmo para pegá-lo, não tinha, assim, como conter aquela vontade que dava de quando em vez de tirarmos uma pequena soneca que fosse, já na nossa ida ou então na nossa volta da escola, durante o trajeto da viagem; o seu som característico do contato entre suas rodas e os trilhos e o molejo do seu chassi e que nos induzia ao sono, como assinalei, por certo está gravado na mente de todos aqueles que o recordam e o tem em alta estima, em alta conta, em alto apreço.
Mas, naturalmente, como já dito no título acima, eu falo naturalmente do trem de antigamente, notadamente da minha geração, ou seja, de algumas décadas atrás; ufa! e lá já são passados alguns bons tempos, que o diga o Augusto, mesmo porque hoje, mesmo para os jovens atuais, ele e nenhum outro mais existe, pelo menos em nossa região.
Sem dúvida à época o trem exercia como que uma certa magia em nosso ser e nem precisávamos nele embarcar, pois bastava apenas vê-lo chegando em nossa cidade para mais uma de suas paradas em sua longa viagem, para sermos empurrados descida abaixo em nosso famoso "escadão" para vê-lo passar e admirá-lo; e era esta a motivação para "passearmos" na estação, para paquerarmos as passageiras, e, diga-se, até com certo orgulho, naquela imponente estação que tínhamos outrora; e nele e com ele estava contido tudo aquilo que tínhamos em mente realizar, fosse o que fosse essa realização, ou seja, para nós então jovens o era para estudar, para outros em tão-somente poder deslocar-se pelas mais diversas razões, ou mesmo para viajarmos para um passeio ou uma viagem por mais distante que essa fosse e qualquer que fosse a intenção; ele embalou os nossos sonhos de então.
E como era naturalmente imponente o nosso cavalo de aço exibindo aquela robustez sem igual; para tudo precisávamos dele; ele que transportou todos nós, velhos, moços, crianças, brancos, negros, sem perguntar o origem fosse esta qual fosse; também trouxe o emprego e, por conseguinte, o salário e, assim, o sustento da família, como também movimentou, à sua volta, por conseguinte, o comércio local; assim se desenvolveu todo o nosso micro universo de então; assim, deve-se a ele esse impulso para a expansão da nossa pequenina cidade, já que era um dos agentes principais, dentre outros naturalmente, que compunham a ferrovia; e também fez às vezes de ambulância, quando não de funerária.
O seu apito característico, a fumaça expelida e o ecoar do barulho de suas rodas nos trilhos e mesmo refletido no interior de seus carros e vagões até hoje ressoam em nossa mente.
E para exaltarmos, agora, sim, com mais conteúdo e brilho, nada melhor que terminar com um tributo que duas mentes privilegiadas tão bem o caracterizaram, o descrevem; penso que esses dois gênios patrícios, um pela música, outro pela letra conseguiram sintetizar, notamente na escrita com tão poucas palavras tudo aquilo que gostaríamos de dizer da sua magia e sonhos; vejamos então:

O Trenzinho do Caipira
De: Heitor Villa Lobos e
Ferreira Gular

Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destinio
Cidade e noite a girar

Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra...
Vai pela serra...
Vai pelo mar...

Cantando pela serra o luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar...

 

 

Augusto Daniel

Ah, cheguei agora, tomei "uns par de chopp" e tava pensando na primavera friorenta. As coisas estão um pouco diferentes. Em meus tempos de Iperó, ainda nos brilhos da Porfírio, o inverno é que era o mês do frio. Isso era bom. Era bom porque era julho, mês de férias. Tão esperadas. Eu me levantava tarde. Ouvia todas as rádios, de Lutcho Gatica, Giani Morandi a Bievenido Granda, sonhava com as meninas lindas e, ainda hoje, nos meus 63, lembro-me dos nomes. Não se produziam, nasciam e continuavam lindas. Minha mãe me trazia o café na cama, eu reclamava da interrupção dos meus pensamentos, levantava-me e saia para a rua. Tudo era muito lindo! Mão me arrependo de não ter visto, porque vi, senti, curti o momento. O sol, de inverno, como o de outras estações, nascia lá no alto, pros lados do Pastini, tomava o lado esquerdo de quem descia a Porfírio, pegava de frente o lado comercial da city. Sentávamos do outro lado, todos estudantes, em férias, alegres, agitando. Vejo ainda hoje, na frente da venda, meu pai, João Ferreira, Eugênio Marandola, Dito Preto saindo de seu plantão, começando o dia papeando, já iniciando numas “biritas”. Passávamos a manhã num bate-papo, contando o dia anterior e fazendo a programação do dia que se iniciava às 10h. Havia sacrifícios como aguentar o resto da manhã, pensar no sacrifício do almoço, projetar a tarde no “porto” ou na “prainha”, campo de futebol e a noite. Noite de inverno, bailinho no cinema, escolher as meninas para o "chá-chá-chá", boleros e sambas, de preferência aquelas que deixavam encostar o "rosto" (um pouquinho diferente de hoje). Depois me lembro que sentávamos em frente aàporta da venda de casa, fazíamos um resumo do dia, eu então ficava sozinho, deitava-me no degrau e ficava olhando o céu de inverno. A luz que iluminava era de um poste à beira da calçada, entre o Agenor e a nossa casa, morteira, deixava o céu de inverno escancarado, lotado de estrelas, deslumbrante, na minha "fuça", inesquecível. E eu, pensando nas verrugas que nunca tive, apontava as estrelas pra ver se, no dia seguinte, eu ganhava uma delas; não a estrela, mas a verruga. Eu era feliz e o que é importante: eu sabia!!!

 

 

Edna dos Santos

O Grupo escolar Dr. Gaspar Ricardo Júnior na década de 60 contava com professores do ensino primário polivalentes, cujo único objetivo era formar e informar os alunos transmitindo o conhecimento nas várias matérias do curriculum escolar e também os valores morais sempre enfatizados com muita propriedade. Além disso os alunos eram direcionados e ao mesmo tempo acolhendo conhecimentos sobre bons hábitos, religião, civismo, etc. O professor não era uma "figura" como fala-se na giria atual, ele era o professor que não era "tio ou a tia" pois até mesmo as suas roupas eram elegantes, suas boas maneiras no falar e agir mantinha a sua presença altiva e executava o seu dom de ensinar com competência e dedicação; para isso tinha que ler muito e qualificar-se para exercitar seus conhecimento na vida de cada aluno.
Posso dizer que o ensino naquela época era elitizado devido as conjunturas mas com qualidade. Havia escassez de escolas, as distâncias a serem percorridas e a falta de professores. Procurava e permanecia numa escola a criança que tinha a vontade de aprender e a capacidade de absorver os conhecimentos, mas eram poucos os que estudavam; primeiro porque não havia prioridade social e muito menos familiar. O aluno com sede de aprender e querer ser um cidadão de importância muitas vezes andava quilômetros da sua casa até o Grupo Escolar enfrentando todos os tipos de intempéries da natureza, na sua maioria os pais também não tinham condições de estudo para dar suporte para essa criança e alguns com muita garra e determinação recorriam à "caixinha escolar" mantida pelos pais de alunos mensalmente para ajudar o Grupo Escolar para obter material escolar. Mas o "Gaspar Ricardo" era moderno para aquela época, já fazia atividades pedagógicas extra curriculares, hoje tão exaltadas nos meios políticos e acadêmicos. Os alunos orientados pelos seus professores manifestavam o lado cultural com recital, jogral, coral, colagem em cartolinas (murais) e outras brincadeiras associadas a atividades físicas que faziam a alegria da criançada. Havia também uma opção para os alunos de caráter filantrópico que era adquirir um "selo" para ajudar na Campanha da Tuberculose, na minha ingenuidade de criança eu ficava feliz em colecionar aqueles selinhos até que um dia a minha mãe explicou que aquela doença matava as pessoas e eu simplesmente disse: "Eu já tenho bastante selinhos e cada selinho é uma pessoa e essas não vão morrer."
Por volta de 1969, recordo-me de um Festival da Canção onde um aluno da classe do 4º Ano/Profª Therezinha Galvão Bosco - Marcos Antônio dos Santos, juntamente com outro aluno chamado Joel (não consigo recordar o seu sobrenome), ambos afinadíssimos, chegaram na final. Marcos cantou a música da Jovem Guarda sucesso na época "Tramontana" do cantor Sérgio Murillo, fazendo o pátio da escola agitar-se com aplausos e assovios devido aos seus "trejeitos" no palco enquanto o aluno Joel, lembro-me ser uma menino com pele clara, loiro, cantou a música "Jamais terei ilusão", do cantor Miltinho Rodrigues, também um sucesso caipira que fez a criançada encantar-se com a sua lindíssima voz. O páreo estava difícil, mas os alunos de todas as classes no pátio tiveram que fazer a escolha através de aplausos, e Marcos Antônio dos Santos foi escolhido como "O melhor cantor".

 

 

Augusto Daniel

1 - 1956 ou 1957, quando eu tinha 8 ou 9 anos, época em que para crianças, suspensório era moda e, calças curtas (abaixo dos joelhos) também eram as crianças que usavam (cuecas, calças compridas e cintos eram a nossa entrada na adolescência, junto aos pelos-buço e pubianos). Lembro-me que morávamos na rua Silvano, em frente à casa do velho Danezi e que noutras épocas teve como moradora a professora Therezinha Galvão. Meus avós, meus pais, meu tio Lazinho, eu, meu gato e um enorme cachorro, chamado Leão, "policial" do meu tio. Lembro-me que o Leão estava muito doente, "lambiuvu", essa era a doença. Uma parvovirose hoje evitável através de vacinas, mortal naquela época. Só havia duas saídas; uma era o benzimento. Fazia-se o benzimento, dobrava-se num papel amarrado com fio e, dentro de um pedaço de carne oferecia-o ao cão. Nada! O nosso sofrimento era grande, do meu tio e meu principalmente. O Leão muito "estufado", parado, olhos "vidrados", aguardando a morte. Restava então, e meu avô o fez, chamar o eclético Pixe (ferroviário, delegado de polícia, mecânico, juíz de futebol, motorista, veterinário, etc...). Seu Pixe era uma pessoa falante, altiva, muito segura de si. Chegou como a esperança de todos, e assim se comportava. Dava uma explicação sobre a doença que talvez à época, deixasse boquiaberto qualquer veterinário, mais difícil que médico, então. Após, detalhava a terapêutica e elencava seus sucessos. Punha-se o animal em pé, segurava-se a boca evitando dentadas e ele, o Pixe, colocava, próximo ao pescoço, de cada lado da coluna um polegar, e vinha "espremendo" até o fim da coluna, início do rabo (cauda). Saia um líquido, não pareciam fezes, e era considerado critério de cura, pelo nosso erudito veterinário. Não havia orifício para sair, a não ser o ânus. Com certeza foi por ali que saiu e foi de dor. O Leão morreu de "lambiuvu" e talvez um pouco de Pixe, sei lá! Exatamente nessa ocasião, de um "saco de linho", minha vó fez a minha primeira cueca. Deve ser como o primeiro sutiã das "gurias". Era uma cueca branca como o saco que a originou, grande, com elástico prendendo-a na cintura. Era um dos passaportes para a adolescência. Faltavam a calça comprida, o cinto, fiozinhos de bigode e os pelos pubianos (esses dois últimos as galinhas pretas, do galinheiro de meu avô, resolveriam). Bem, quando as aulas do dia acabaram, a mulecada saindo do Gaspar, tirei a calça curta e desci de cueca até minha casa. Tinha que ser assim, não podia ser diferente, ou podia? A adolescência ainda demorou um pouco, pois eu só tinha 8 anos, mas as coisas começaram a mudar, nunca mais fui mesmo e confesso que tão importante quanto o primeiro amor, a primeira mão que seguramos, o primeiro beijo, foi a primeira cueca, e de saco de linho.

 

2 - A sociologia e a psicologia explicam as reações da "massa", agrupamentos de pessoas que pensam em bloco e sem senso, pelo menos o "bom". Estamos acostumados a ver em campos de futebol, nas ruas após os jogos, nos movimentos do Oriente Médio, muita violência. A frequência com que ela, a violência, se manifesta, leva à banalização da mesma. Começa a se tornar lugar comum. Pensamos estar longe disso, afinal é restrita essa violência das massas, aos campos de futebol, ao Oriente Médio, aos traficantes das favelas cariocas. Mas, quando um linchamento ocorre na cidade de São Paulo, por um acidente de ônibus, segundo a imprensa, não grave, e por ter o motorista "passado mal", matam o mesmo, ficamos mais assustados. Lendo e pensando nesse fato, mais uma vez voltei ao passado e me lembrei de um episódio, não tão violento, que presenciei, nos meus 9 anos, em frente à minha casa. Naquela Iperó ainda descalça, como nós, as crianças, sem lajotas e sem asfalto. Era uma época em que ali naquele local, e penso que nos outros também, a comunicação que se fazia com o resto do mundo era pelo rádio e jornais, jornais e revistas que chegavam diariamente às 10h ou 10h30 por trem, vindo da capital, o conhecidíssimo “P-1”. O povo de Iperó era "antenado" e participava de tudo, principalmente da política local. No auge de sua atividade, a Sorocabana, ferrovia, proporcionalmente, tinha a maior concentração de funcionários na Iperó, e isso é tão real que nos escombros de hoje podemos constatar isso. Todos, todos eram envolvidos nos movimentos sócio-políticos da cidade, ainda distrito de Boituva. Datas comemoradas no velho Gaspar, no clube (cinema), na cidade. As pessoas não estudavam por dificuldades inerentes à época, não era fácil. Como era hábito, hábito mesmo,chegando a tarde/noite, as coisas se acalmavam, as duas portas da "venda" fechadas, todos "jantados" e louça lavada, minha avó arrastava uma cadeira, que tinha os pés gastos pelo arrastão cotidiano, através do corredor que comunicava e comunica o "fundo" da casa com o portão da rua, e a colocava na calçada e ali sentada, aguardava as companheiras: dona Nenê (eterna amiga, mãe do Tanaka) e dona Ruth (esposa do Agenor, nosso famoso barbeiro e vereador). Conversavam, conversavam e conversavam... Eu não entendia como conseguiam, elas, as mulheres, tal façanha. Nós somos breves, mas hoje acho que nós os homens somos breves até no raciocínio. A prova é que gradativamente elas assumem tudo e com custo menor e benefício maior. Voltemos à rua. O teto era o céu estrelado e uma "baita lua", o chão descalço. A calçada era de tijolos, sem cimento e o "meio fio" de blocos de pedra e, por ali passaram imensas enchurradas, onde nós também descalços brincávamos muito. Bem, nessa noite, minha avó subitamente se levantou, as amigas ídem e se foram com alguma pressa. Minha avó apontou lá prá baixo da Porfírio, próximo a venda do Calixto, uma multidão, pelo menos foi o que vi na minha idade, que subia, vinha em direção ao centro, Bibe, cinema. Entramos rapidamente e fomos à venda, todos olhando pelos vidros da janela, em silêncio. Eles, os meus que ali estavam, sabiam de alguma coisa que eu não sabia. Depois entendi. À frente vinham o prefeito do município (éramos distrito de Boituva), Rafael Caetano da Silva, Dito Galvão-Preto, José Pedro da Silva, Darcy (um telegrafista grandão e um tanto arrogante, me parecia...), Abdias, Pixe e outros tantos, enfim uma "multidão" de Janistas, em campanha para a presidência que sucederia a Juscelino (semelhantes aos fanáticos, do velho Getúlio, Collor de Mello, Lula; os grandes populistas de nossa pátria). Nós, nossa família, éramos Ademaristas (Adhemar Pereira de Barros). Janistas eram os aficcionados de Jânio Quadros. Mas a surpresa foi que, na casa da ferrovia, em frente a casa do Agenor, ainda está lá, morava o seu Zé Rodrigues, pai do Teu (Dirceu), um amigo de infância que hoje mora em Tatuí, com quem troco e-mails e, num repente, saiu de sua casa, foi de encontro a "massa", os agredindo verbalmente. A turba, muito mais suave que as de hoje, deu-lhe uma surra, às nossas vistas e, me lembro dele saindo "de quatro", conseguindo se levantar e correr em direção a sua casa. Marcou muito a mim. Foi só o esboço de um linchamento? Exagero meu? Penso que se ele estivesse no lugar do motorista do ônibus nos dias de hoje, talvez não saísse vivo. Decididamente os tempos eram outros, pra sorte dele, é não???

 

3 - Os tempos efetivamente são outros. Não quero entrar no mérito da questão afirmando que aquele foi melhor que este ou vice-versa. Talvez os de hoje estranhem relacionamentos como a declaração do Roque ao Tanaka. Aqueles não eram tempos de "descartáveis". Eram tempos em que amores e amizades ficavam. Cada casal no seu canto, mas com pequenas diferenças, fomos feitos muito próximos, como extensão de outras vidas e de amizades que, de duradouras, talvez incompletas, ficamos juntos novamente nessa existência para, talvez completarmos o ciclo. O Roque e eu nascemos vizinhos, crescemos vizinhos, fomos vizinhos de carteira, daquelas que sentávamos juntos, com um tinteiro nos separando. O Roque sempre foi um menino educado. Me lembro que ele não cutucava o nariz e também não tirava cascas de feridas. Como eu era vizinho, com a ponta de um compasso, tirava as minhas e as dele. Houve um circo que deixou muita saudade, e tinha um palhaço chamado Tareco. Quando foi embora, sob um grande abacateiro que existia no quintal de minha casa, surgiu o Roque como o verdadeiro Tareco, num "cirquinho" cuja entrada era um palito de fósforo e que tinha tambem como atores minhas primas, a Rosa, a Ana e eu. Mas ninguém era tão bom como o Roque, pois transmitir alegria e fazer rir sempre foi uma arte dominada por ele. É um ser definitivamente iluminado. Penso que nunca estivemos separados em espírito. Uma época estivemos juntos em Sorocaba fazendo admissão ao ginásio e primeira série, no ginásio Anchieta, na Penha, juntos também na mesma carteira. Não estudamos, é verdade. Começamos "datilografia" numa escola famosa em Sorocaba, Escola de datilografia São Paulo, na Penha em frente a Drogasil; também não concluimos. Fomos reprovados no ginásio porque havíamos determinado que se as aulas terminavam às 16h, às 16h já deveríamos estar em Iperó para fazermos nossa maior paixão; jogar futebol. Seu Calil, nessa ocasião, penso, era diretor de futebol. Então começávamos na rua Porfírio, em frente as nossas casas, com bolas que sobravam, pois eram guardadas na casa do Roque, nº 5 capotão, com gomos, oficiais, do clube, escondidos do pai dele. Íamos depois ao clube e dessa vez, a dona Dordaia, não nos atormentava. Escurecia com o sol caindo lá pelos lados do "varjão", pra nossa tristeza, e nós jogando bola. Já disse que só não fui um bom jogador porque não tinha o dom. O Roque jogava muito mais que eu, mas nós dois continuávamos perdendo pro Tanaka, que nasceu com o dom. Quando dava, vínhamos de Sorocaba com o trem de luxo das 14h30, ou ficávamos implorando pros chefes de trem nos deixarem ir com eles no "caboso"- como explicar isso, mas era o último vagão de um trem de cargas, onde ficavam o chefe do trem e seu auxiliar. Ainda hoje eu os acho muito lindos. Me lembro que uma ocasião, com a negativa do chefe – 1960 - o “Tucano”, apelido do Roque, graças ao tamanho do seu "nazo", deu a idéia de entrarmos em um vagão, escondidos, sem que o chefe nos visse. Abriríamos a porta, entraríamos e em seguida, lá dentro, fechados, iríamos à Iperó, e no corte, aquele enorme barranco por onde os trens iniciavam a chegada a estação e diminuíam a velocidade, pularíamos. Era assim mesmo que acontecia, pois havia antecedente de outra pessoa, o Mauro Folim. Assim fizemos. Roque, Kico e eu. Aguardamos fechados e quietos. O trem apitou e partiu. Portas fechadas até que saíssemos da cidade. Mais a frente ele parou, ficamos temerosos, ele veio "de fasto", como falávamos. Passou um tempo, fomos abrindo lentamente, e então vimos o seguinte; o trem deu ré e estacionou no pátio, em Sorocaba, onde ficaria por um longo tempo. Fomos, com cara de "cocô", descendo um a um e frustadíssimos voltamos à estação. Fomos reprovados aquele ano, mas foi um grande ano, assim, tenho certeza, pensávamos os três. Fomos para lugares diferentes. O Roque fez Industrial em Tatuí, o Kico e o Tanaka pro Mario Vercelino, em Boituva e eu para o Ciências e Letras em Sorocaba, no largo São Bento. Nunca nos separamos, em espírito sempre estaremos juntos, pois nossa missão é, talvez, darmos continuidade a uma amizade que não se completou em algum lugar do passado. Eu amo esse povo. O Roque se situa entre as pessoas mais decentes que conheci em minha vida. Tenho muito orgulho de falar dele. Um beijo, meu amigo!

 

 

Tanaka

Ver exteriorizado de forma pública esse gesto de altruísmo, de solidariedade pessoal, enfim de humanismo, de humanidade, na melhor acepção da palavra, no seu mais alto grau, como o fazem os queridos amigos, ou melhor, mais do que amigos, irmãos de coração, sem dúvidas não tem como retribuir o carinho recebido por mais que nos esforcemos para ao menos o igualar e, nem palavra para ao menos chegar perto.
Esse sentimento de amor, de amizade, só pode vir mesmo de pessoas com alma nobre, com espiritualidade incomparável, inigualável, como o são estas que nos cruzam o caminho. E, por isso, sou uma pessoa privilegiada por vocês terem-me no rol de suas mais que amizades.
O Augusto é incomparável, para não dizer invejável, nessa sua maneira de expor, exteriorizar, de reduzir a termo as suas inteligentes retratações, de intelectualizar de forma ímpar as suas colocações das reminiscências para recordarmos com muito sentimento tudo isso, sentimento este que vem lá de dentro da alma; e isso, na altura desta nossa jornada nos reconforta com tanta intensidade que nos anima a enfrentar, a seguir, sempre com mais e mais vigor o que se nos espera adiante.
Apenas para recordar de mais uma das muitas imitações do meu primo Roque (já que o Augusto mencionou uma e isso me levou a recordar de outra) e acentuar ainda mais esse seu outro lado da sua personalidade, tem a que ele fazia do Mazzaropi; eu e a minha prima Cida, lá na cozinha ou na sala da sua casa, ríamos tanto dos seus trejeitos imitando o dito cujo que chegava a doer a barriga das incontroláveis gargalhadas sem parar que dávamos; era de perder o fôlego; olha, acho que nem mesmo um profissional do humorismo conseguiria imitar com tanta perfeição como ele o fazia; um talento nato na arte de imitação.
Outrossim, concordo em gênero, número e grau, e assino embaixo tudo o que o Augusto falou do ser humano que ele é.

 

 

Hugo Augusto

Gustão, Roque, Tanaka e demais amigos: eu diria que algumas coisas, quando são verdadeiras, sinceras, com certeza se estendem além da vida e duram uma eternidade. Os tempos eram outros, vocês seguem amigos até hoje, e com certeza ainda hoje, há pessoas vivendo situações parecidas mesmo sendo de outras gerações...
Me incluo entre esse grupo das "outras gerações"... apesar dos 27, é como se eu os conhecesse há 50 anos... ou mais!!! E me alegro a cada vez que entro aqui para mexer em alguma páginas, atualizar o site (ultimamente está faltando um pouco de tempo, mas tenho juntado novos materiais) e vejo vocês contando suas histórias e fazendo suas declarações de amor e carinho aos amigos e à cidade!!!
Enfim, também posso falar do orgulho em ter conhecido cada um de vocês (e aqui estendo isso a todos) e agradeço sempre pela dedicação em ajudar a levar adiante o nosso trabalho...
Grande abraço e fiquem com Deus,
Hugo.

 

- Abaixo, seguem importantes escritos do professor Olavo Lázaro Munhoz Soares, relembrando o episódio na estação envolvendo a bagagem do padre Hilário Henn:

"O ano de 1971 corria celeremente para o seu fim e eu já me preparava para o ritual da passagem da responsabilidade pela paróquia ao meu sucessor. Tive a sorte de escolhê-lo, uma vez que eu queria deixá-la sob a direção de alguém que não decepcionasse o meu povo, sofrido, mas cheio de esperança, alguém que fosse idôneo e continuasse os nossos trabalhos, principalmente, os paroquiais, com eficiência e devoção. Jamais alimentei a veleidade de encontrar um sucessor que preenchesse o meu figurino, principalmente se levássemos em conta que cada um tem personalidade própria e importaria muito, respeitá-la. Então, o Pe. Hilário Henn, que residia em Guarapuava, no Estado do Paraná, já meu velho conhecido, dado que, como padre salvatoriano, de Conchas, havia trabalhado muito conosco e muito me auxiliou, assistindo a igreja de Iperó, nos anos 60, aceitou o nosso convite e veio para Boituva. Sua posse deu-se no dia 4 de março de 1972, um sábado, na estação da missa das 19 h.

Observe-se que estávamos em pleno governo Médici (30.10.69 – 15.03.73), um dos mais repressivos dos governos militares, de pós-64, sob a égide do famigerado AI-5, que bloqueava toda e qualquer possibilidade de manifestação de oposição e até de opinião, contrária às ferrenhas normas oficiais. Tão esdrúxula situação, suscitou a formação de grupos guerrilheiros que assaltavam bancos, sequestravam autoridades estrangeiras para trocá-las por presos políticos e até faziam “justiçamentos políticos” (execuções), com represálias de parte a parte, levando o País a um clima de insegurança terrível, de perseguições gratuitas, de revolta íntima, como jamais houve em nossa História desde o descobrimento. O Brasil já não era o mesmo Brasil que conhecíamos e amávamos desde o nosso nascimento. Então, não havia liberdade de opinião, nem de pensamento, numa terra que, pela extensão territorial, infundiu em seus habitantes, nós, os brasileiros, um inato anseio de liberdade ao arrepio de qualquer constrangimento.

Pois, em meio a esse clima de repressão e desconfiança, de caça às bruxas e a terroristas, presumíveis ou não, o Pe. Hilário despachou para Iperó, via Estrada de Ferro, seus caixotes de roupas, livros e outros pertences, inclusive 2 (dois) revólveres, 1(hum) gravador e 2 (dois) “hand-talkie” (aparelho de comunicação, própria, na época, da polícia), dados seus pendores para a caça e a pesca. No afã de acondicionar esse material, descuidou-se e não verificou se havia balas no pente das armas. E... havia !!! Destarte, os caixotes chegaram ao entardecer na Estação de Iperó e seus funcionários tiraram-nos do vagão de mercadorias os jogaram entre os demais a um canto da plataforma. Foi a conta! Com o impacto, uma das balas, que fora esquecida nas armas, detonou e, por um azar dos diabos, foi atingir a parte superior da coxa, quase na virilha, do ferroviário Antônio Augustinho Fragoso, o que, como um rastilho de pólvora, em questão de segundos, alarmou a todos que estavam na estação, o povo de Iperó e os de fora de Iperó. Não houve quem não ficasse alvoroçado e preocupado! As versões correram mundo, desde a de um corriqueiro acidente até a de possível plano terrorista, já em fase de execução!

Não demorou muito, talvez questão de 40 minutos, e do quartel da Polícia Militar de Sorocaba se deslocou um grupo de soldados, sob o comando do Tenente Ed de Campos, que, numa operação de guerra, ocupou estrategicamente a Delegacia de Polícia de Iperó e se preparava para deter o Pe. Hilário. Este, ao inteirar-se de todo aquele aparato, foi industriado pelo nosso comum amigo, Paulino de Moraes, a rumar diretamente para Boituva, refugiando-se na Casa Paroquial, onde eu o aguardava.

De minha parte, com a cabeça cheia de princípios de Direito, cujo curso estava terminando na Faculdade de Itu, solicitei do advogado, Norberto Agostinho, fosse a Iperó, informar-se das reais dimensões do problema e até onde aquilo tudo implicava em prisão ou não do Pe. Hilário. Depois de muita espera, Norberto tardava, o que aumentou mais ainda a minha tensão. Arrisquei um telefonema à residência dos seus pais. Dr. Norberto, na época, era solteiro e foi ele em pessoa quem me atendeu.

- Mas, como? Eu esperava ansiosamente por você para me dar informações do que ocorria em Iperó...! Afinal, o que está havendo?

- O sr. nem queira saber! A Delegacia estava tomada por soldados. Na porta de entrada, postaram-se dois deles, os mais corpulentos da turma, que logo me foram mandando embora, com alguma palavra de baixo calão, o que me deixou bastante amedrontado.

A partir daquele momento, me convenci que estávamos à mercê do direito da força que poderia se precipitar com toda a tropa invadindo a minha casa para buscar o Pe. Hilário.

Ainda tentei mais dois expedientes. Através do meu vizinho, Washington Thame, companheiro de outras não menos difíceis jornadas, junto do General Agostinho Cortes, procurei me comunicar com o quartel de Itu a fim de solicitar do seu Comandante alguma proteção ao meu colega, mas, Washington retornou dizendo que o oficial de plantão nada podia fazer naquelas horas da noite.

Lancei mão do segundo expediente. Telefonei ao bispo de Sorocaba, D. José Melhado Campos que, também, me respondeu que nada podia fazer e que eu procurasse resolver o problema da maneira que me aprouvesse.

Abandonados à própria sorte, procurei acalmar o Pe. Hilário, afiançando-lhe em face:

- Se você for preso, não irá sozinho. Irei junto para ajudá-lo, aconteça o que acontecer!

E dizer que falava assim, sob um governo repressivo, a quem enfrentar era “correr sério risco de vida” (História do Brasil, de Luiz Koshiba e Denise M. F. Pereira), principalmente, quando as portas que se nos deveriam abrir, fechavam-se, uma a uma, para não se comprometerem!

A noite já ia da metade para o fim e qualquer ruído nos deixava sobressaltados, mas até ao amanhecer, felizmente, ninguém apareceu.

Mais tarde, em 1973, quando eu fazia o Curso de Letras, na Faculdade de Itu, o, agora, Coronel Ed Campos Vieira, que, na época, era Tenente, meu colega de turma e de longa data, me esclareceu toda aquela esdrúxula situação, vivida por nós, na noite da chegada do Pe. Hilário e a detonação das suas armas. Ao saber que eu residia na Casa Paroquial de Boituva, Coronel Ed orientou os seus comandados:

- Ah! É o Olavo que está lá? Deixem-no dormir sossegado. Vamos embora!

Quando amanheceu, às 5h, mais ou menos, conduzi o Pe. Hilário em meu carro, à Sorocaba, saindo pela estrada do Sítio Grande, por pura precaução, e por ser mais deserta e estratégica para uma retirada como aquela. Em Sorocaba, estacionei em frente da casa do Bispo, na esquina da Av. Eugênio Salerno com a Praça 9 de Julho, onde já me esperava o Dr. Roberto Luiz Ayres, nosso Delegado Regional de Polícia, sob cuja responsabilidade e orientação ficaria o problema.

Retornei, de imediato, a Boituva, mais tranquilo, agora. Era como se tivesse me livrado de mais um terrível pesadelo!"

 

 

Augusto Daniel

Passei a tarde em Iperó hoje, 02/03/12. Minha mãe foi acertar nossas coisas. Fui junto. Enquanto ela trabalhava, 85 anos, eu pensava. Excetuando coisas que temos na cidade, as quais vemos com muita frequência, excetuando conhecidos, amigos, que já foram em número muito maior, o que nos liga, nesses tempos, a essa cidade meia feia, meia razoável? Pensei então no que nos liga a uma árvore? Não pode ser a árvore pela árvore, mesmo sendo ela muito bonita. Deve haver algo a mais! Bem, se há, com certeza, é gente! Gente que se abrigou conosco sob a árvore, gente que conosco brincou nos seus galhos, gente que chupou conosco aquelas manguinhas, "rosa", borrando boca, roupa, mão, etc... Gente que deixou gravado em seu tronco o nome da menina amada!!! Bem, pensei então que, apesar da beleza ou da feiura da árvore, o que definitivamente, por todo o sempre, nos liga, com um carinho imenso, a essa árvore, "é gente". Pessoas são importantes, pessoas que roubam com alegria ou tristeza, momentos marcantes para todo o sempre de nossas vidas. E estabelecem uma "cumplicidade histórica" com uma árvore ou com um lugar, que pode ser chamado de Iperó. A cidade agora é o local onde ainda vivem pessoas que significam para mim, onde tenho propriedades, mas isso não é importante para que eu a ame. A divisão com gente de momentos marcantes, bons ou não, mas que geraram emoções fortes, isso sim conta. Cada cômodo de minha casa, cada canto de meu quintal, incluindo onde está o meu umbigo, cada tijolo de suas calçadas, suas esquinas, seu campo de futebol, seu rio, seu cinema, sua igreja... Enfim, ali pisaram, falaram, riram, choraram, venceram, foram derrotados, morreram, as pessoas que mais amei na vida, todos, da família ou não, afinal éramos uma grande família. Eu sou a cidade, gente é a cidade. Então conclui que Iperó jamais será feia porque ela tem uma "cumplicidade histórica" comigo. Somos a cidade, nossa história, alegre e triste, é a nossa história, a mais importante, a mais linda e, se vivemos essa história em Iperó, nada pode ser mais lindo que ela.

 

 

Elisabeth Rodrigues

Augusto, cada vez que leio alguma coisa que você escreve, me vem na lembrança você saindo do corredor da sua casa, todo bem arrumado para pegar o trem e sua mãe sempre cuidadosa com o filho. Por ali também os seus avós. Em épocas do Facebook, compartilho com você dos seus sentimentos e lembranças, que todos nós, os apaixonados pela terrinha, sentimos. Entra prefeito, sai prefeito, nossa cidade, muitas das vezes bem sofrida, vai estar lá, alimentada pelo nosso amor e carinho.
Quantas frutas em nossas vidas. Sinto-me privilegiada: TENHO MANGA ROSA NO MEU QUINTAL. Alguém já reparou nas cores de sua casca? O sabor ninguém nega. Ali na saída para Sorocaba, a casa da Clara (tia do Rubinho) e muitos pés de coquinho na frente. Quanto fiapo nos dentes. Para finalizar um pensamento também do Facebook: O TEMPO TEM UMA FORMA MARAVILHOSA DE NOS MOSTRAR O QUE REALMENTE IMPORTA.

Abraços a todos os iperoenses, pois somos todos uma grande família.

 

 

Tanaka

É muito bom atentar, refletir para o que as pessoas escrevem com sentimento; nos tocam a alma.

Colocar humanismo nas nossas atitudes, nos nossos procedimentos, no nosso cotidiano...

Um beijo no coração dos dois.

 

 

Airton Moraga Ramos

Gusto, filho da mãe, nosso poeta maior.

Um beijo no seu coração.

 

 

Augusto Daniel

- Nós todos temos histórias fantásticas de nossa infância/adolescência, ou não temos meus amigos Airton, Tanaka, Tiguera, Orlandinho, Uduvaldo, Cica, Quinho, Liraucio, Marcos, Elisabeth, Silvia, Hugo, Zé Augusto, etc...? Todos nós fizemos, vivemos intensamente nossa querida cidade. Por que não contamos isso aqui. Caso contrario abriremos espaço para comerciais, comentários insípidos. Este é um espaço que o Hugo nos ofereceu.

Não há idade. Há uma Iperó para cada idade. Nosso projeto é maior... vamos um dia publicar.

Nas nossas lembranças todos somos poetas. Amo vocês.

Com relação ao Gusto, é a maneira mais carinhosa de me chamar.

Joga-me de volta à Iperó que falo tanto.

Grato, Airton!

 

- Que eu me lembre, o primeiro "carrinho de pipoca" que circulou nas ruas de Iperó (cinema, praça da igreja, campo de futebol, ruas - principalmente a Porfírio), higiênico, o pipoqueiro usando um jaleco branco, saia ali da minha rua como quem desce em direção à venda do triângulo ( aquela que primeiro foi do Alfredinho Del Vigna - quando eu vi o primeiro morto matado por uma bala; depois foi do Guerino - que deixou a beneficiadora de arroz lá embaixo, proximo à casa da banda, e veio tocar a venda que ali já existia; depois, por último, lá esteve o João do Vital - figura importante na história da cidade). Penúltima casa da Sorocabana, já que a última era do Sr. Carlos Arruda, de andar imponente, cabelos escuros puxados com auxílio de um gumex, todos pra trás à Gardel e bigodão também escuro, vasto, generoso, pai do Fernando e do Toninho, amigos queridos de infância e marido de Donana, paciente, esposa boa como uma verdadeira Amélia a cuidar de seu Carlos e dos meninos. Bem, nessa pequena casa, a penúltima, ali era o ponto de partida do carrinho de pipoca. Ali era a casa da Irene que casou com o Ticão Gildes, da Geni que casou com o Laerçon Sartorelli, a casa da Dona Maria mãe deles e do Zé (o Zé do Chico Padeiro, que além de ferrovário, deve ter sido padeiro, mas que o conheci pipoqueiro). Ele foi o dono do primeiro carrinho de pipoca de Iperó, que viria a disputar mercado com o Zé Pequeno. Ele era o pai do Zé Vieira, seu único "varão", muito parecido com o pai, rosto de traçado forte, rude, cabelos grossos e espetados como (quase) se usa hoje, e que levava o nome de "escovinha". Usei muito esse corte. Zé que trabalhou, também, no único sobrado de Iperó à época, do seu Benedito e da dona Diva, onde havia uma loja muito bonita. Zé que foi titular absoluto, como centro-avante, do aspirante do SEC, acho que perdeu o lugar pro Ary, o Araujo (cantor- barbeiro). Ambos, como boleiros, simplesmente horríveis, mas deixemos isso prá lá, deixemos a filha dele pensar que ele jogava muito futebol. Como tantas, mais uma família muito importante da terrinha. Mais uma família que passou em nossa vida e marcou.

 

 

Liráucio Zovaro

Augusto Daniel, quero lhe dizer caro amigo, que na tal casa do triângulo também morou o Sr. Inácio Camargo (pai do “Dego botinha”). Sr. Inácio fazia a dança de catira na Festa de Santo Antonio.

 

 

Augusto Daniel

Bom, Liráucio, muito bom e por dois motivos: por você continuar lendo e continuar acrescentando. Eu me lembro do "Botinha", me lembro que ele tinha um irmão. Não me lembro do pai e nem que eles haviam morado no triângulo. Um grande abraço. Continue lendo e escrevendo. A associação de algum fato pitoresco às pessoas faz nos lembrar delas muitos e muitos anos após. Nessa época do “Botinha”, eu ainda estava estudando no “Grupo Gaspar” no primário, e morava em Iperó um tio-avô meu, tio Sinézio, cujo filho mais velho dele se chamava Mauri. Eu me lembro de uma briga muito boa entre ele e o Botinha, ali no início da Santo Antônio, próximo à casa onde morava o Sr. Gasparini. Naquela época a antiga cadeia era uma farmácia onde trabalhava uma senhora muito pra frente, penso ser a farmacêutica, de cabelos encanecidos e que já os deixava meio "lilás", que ainda é moda entre as senhoras de agora.

Seria Maria o nome dela?

O fato que me fez recordar foi a briga. Um abraço!!!

 

 

Airton Moraga Ramos

Quando se falou ainda há pouco de Inácio Camargo, lembro-me muito bem de festas juninas em casa de meu avô Mario de Melo, que armavam um tablado de madeira para a dança de catira. Inácio e familia, Esmeralda, Dego, Baiano, Quinha e Kalu, presença marcante dessa familia em nossas vidas por muitos anos. Só saudades.

 

 

Augusto Daniel

- Li recentemente um artigo muito bonito, no Cruzeiro do Sul, e o autor dizia sobre o café da tarde na Granja Olga, em Sorocaba. Pôr-do-sol sempre me pareceu melancólico. Lindo demais, mas melancólico. Tavez por lembrar o fim. Oposto é a aurora, pois nos mostra a força, a agitação de quem nasce, a vida que se renova, enfim... Ele descrevia a beleza das cores refletidas pelas nuvens, cores oriundas do sol que se recolhia por trás do "jacaré", fazendo destacar a silhueta deste, o "jacaré". Como eu, domingo sim, domingo não, voltando de Brigadeiro (onde passo horas com meu tio, recolhido, que se encontra a uma casa de repouso, onde vai se recuperando de um mal), passo e paro na Granja Olga para um café, logo entendi o "jacare": o nosso "morro de Ipanema". Estou há mais de trinta anos em Jundiaí e o grande orgulho da cidade é a serra do Japi. É linda demais. Me lembrei que cidades do interior do Estado procuram eleger o seu símbolo, aquilo na cidade que será o seu cartão postal.

Li também recentemente que em Bauru houve um certo tumulto quando dessa eleição e por ser vencedora quem foi. Um dos maiores bordéis do Brasil (zona de meretrício), se não o maior, era a "casa da Enyr", local frequentado por políticos como governadores e presidentes. A casa, um "castelinho", provavelmente do final dos anos 40, início dos 50, é uma construção muito bonita. Dizia-se dos homens que se fossem a uma cidade e não visitassem a "zona", não conheceram a cidade. E que uma cidade se conhecia pela mesma. Então vocês podem imaginar o que era Bauru, já então famosa pelo lanche que lá se originou. A grande disputa foi ente duas relíquias. De um lado a estação ferroviária, desativada, linda, também rica em recordações, e de outro uma relíquia, talvez nem tanto para as senhoras, a casa da "Enyr", com suas muitas histórias, transformadas em livro. Venceu a Enyr.

Em Jundiaí venceu a serra, serra do Japi. Pensei que nós passamos nossa "mocidade" com pessoas e coisas lindas no físico e principalmente no espírito, e não as notamos. Quando vamos envelhecendo, quando os interesses vão mudando, e temos sensibilidade (porque envelhecer não é passaporte à sabedoria ou a uma sensibilidade maior), as coisa lindas que sempre estiveram ao nosso lado vão aflorando e passamos a admirá-las muito, a apreciar detalhes que sempre lá estiveram. Quando são pessoas, fica a lembrança, pois quase sempre já partiram. Mas o "jacare" não! Ele está lá. Hoje eu o vejo mais lindo do que nunca. Sempre lá esteve, mas a ebulição da juventude o ofuscava. Quando vou a Iperó, vindo de Boituva, o "jacare", imponente, salta aos meus olhos e emoldura a nossa cidade. Enche-me os olhos. Quando deixo a cidade pela Benedito Paula Leite Júnior, já na primeira descida, mais uma vez ele se mostra, agora mais próximo, com suas várias tonalidades de verde, com toda a beleza da região onde Iperó se insere.

Então eu pensei: não seria o "jacaré", o morro de Ipanema, ou o morro Araçoiaba, ou o "morro de Iperó", pois se encontra no nosso município, um sério candidato a representar a cidade? Talvez tivesse que disputar com o rio Sorocaba, com o "pernoite", com a "estação", com o "campo de futebol" ( infelizmente não mais com o cinema), mas certamente uma bela disputa. Prestem mais atenção ao morro e imaginem nossa cidade sem o mesmo. Ele é a serra do Japi de nossa cidade, não da vizinhança! E viva o "nosso JACARÉ!!!

 

- Durante um bom tempo, o Amaro e eu ficávamos desfilando as pessoas que moravam na Porfírio, do lado oposto às casas dos funcionários da ferrovia. Não era muito difícil porque muito pouco mudava. A dificuldade mesmo era elencar os moradores das casas da ferrovia. Pessoas de idades diferentes desfilam moradores diferentes. Estou voltando a um assunto sobre o qual já escrevi. Hoje, conversando com minha mãe, 85 "years ago", ela me dizia que ali na Porfirio, em frente a casa que era do seu Benedito Paula Leite, hoje está reformada e é de sua filha (Silvia), ao lado da casa que desabou, morava seu Killian, e no fundo, na "rua do meio", em uma das casas seu Zanini e na outra seu Marchesini, pai de dona Lola, esposa de seu Alfredinho Del Vigna, ano de 1942, minha mãe com 15 anos. Bem, já dissemos que tempo houve em que decididamente Iperó era uma grande Família. Dona Ida, esposa do seu Marquesini, adoeceu, relatos de minha mãe, e entrou em cena uma das pessoas mais decentes que conheci, seu Orlando, Orlando Ferreira, já no ano de 42. Havia uma passagem que comunicava (fundo do quintal) com a casa do seu Zanini e dele, por por um portão, para a casa da dona Ida. Seu Orlando representava com muita dignidade o enfermeiro, o médico, o conselheiro. Tinha uma farmácia que o deixou bem, não rico; o que não é comum entre os proprietários de farmácias. Muito sério, como conta minha mãe, chegava de mansinho, sorria muito pouco, trazia consigo a famosa caixinha onde fervia seringa, agulhas, para que fossem aplicadas as injeções. Tinha o porte, sobriedade dos médicos de antigamente. Mudávamos de postura à sua presença. Ele foi até a dona Ida, sentiu que o problema era mais sério, chamou o médico, que veio de Boituva, e o diagnóstico foi de pneumonia; doença que até hoje mata. Fez a receita e se foi. Então entrou em cena seu Orlando. Minha mãe com 15 anos foi designada a ajudá-la (dona Ida). Atravessava da Porfírio até a rua do meio pelo quintal do seu Killian. Lá foi orientada pelo seu Orlando. Orientou quanto à alimentação (nutricionista), cozinhar a carne, separar o caldo, temperá-lo e oferecê-lo à dona Ida duas ou três vezes ao dia. Fazer compressas quentes no local em que sentia dor, as costas, mas pediu que minha mãe não ficasse aquecendo suas mãos no feitio das compressas, porque após, no contato com o ar frio, poderia adoecer. Tomasse o pano pelas extremidades, megulhasse o meio na água fervente e então o aplicasse às costas de dona Ida. Após, orientou melhor, criou uma bolsa de água quente, e assim deveria proceder minha mãe: " tomar a farinha de linhaça, cozê-la, após, já fora do fogo, mas ainda muito quente, formar uma pasta, que envolta por um pano manteria o calor por um tempo mais prolongado (farmacêutico)". Fazia visitas diárias (médico). Aplicava uma injeção no músculo a cada dois dias - provavelmente penicilina - pois Fleming a criou por essa época (farmacêutico). Isso em plena 2º guerra mundial (1942). Eu o conheci - que minha memória permite - nas minhas amigdalites (54,55,56). Mais envelhecido, mas o mesmo, até que se mudou pra Sorocaba. Deve ter morrido com a mesma dignidade, na simplicidade que o caracterizou. Já repararam que as pessoas que dão nome às ruas, hospitais, estradas, viram "estaltas" nas praças, se formos atrás, não tinha nenhuma dessas qualidades? São lembradas nas respectivas datas por qualidades que comumente nós lhes atribuimos, mas que lá, bem lá, não as tinham. Penso, com pesar, que essas qualidades de seu Orlando e de outros, decididamente não são merecedoras de lembranças - não dão ibope. Acho que são qualidades para reconhecimento em outras dimensões, naquelas em que o julgamento não será feito pelos nossos critérios. Talvez se seu Orlando tivesse enriquecido (e ele teve tudo para fazê-lo), hoje ele tivesse o seu dia – “o dia de seu Orlando” -, fosse "praca" de rua e quem sabe, até o nome do Hospital de Iperó - "Hospital Orlando Ferreira". Acho que todos nós deveríamos pensar um pouquinho nisso. 

 

 

JOSÉ HOMEM DE GÓES - Entrevista concedida a Hugo Augusto Rodrigues e José Roberto Moraga Ramos em 2 de setembro de 2013

José Homem de Góes (Zé Borba). Fui pra Iperó em 1955. Fevereiro, por aí, cheguei e acabei gostando do lugar. Teve um baile. Conheci a Henory e ela dançava bem. Eu gostava de dançar tango e valsa. Ela acompanhava ‘em cima’, gostava de baile. Então deu certo. Sentamos por lá, bebemos alguma coisa. O irmão dela, o Dimas, tocava no conjunto. Começamos a namorar e foi o que me segurou. Depois nos casamos. A vida é assim. Faz 45 anos que ela morreu. Logo depois, me casei com a Olga e estamos casados até hoje. O Rodrigo [filho] está com 36 anos e muito bem.

Quando comecei a trabalhar na estação, já namorava a Henory. Tinha trem a cada 15 minutos. Chegava um do lado de cá e um do lado de lá da estação. Às vezes o trem chegava com a sapata queimando e, até eles trocarem aquilo, o povo descia e enchia a estação. Compravam tudo o que havia no bar. A gente fazia muito sanduíche de mortadela, porque era o mais barato e o que o povo queria. O pessoal chegava e dizia: “Põe 5 pra mim num saquinho; põe 10 num saquinho.” De manhã, a gente pegava uma mortadela grande, picava e fazia tudo em sanduíche. De tarde, não tinha mais nada. Pão, o padeiro levava em grandes sacos, mas também não durava quase nada. Vendia muito.

A molecada que trabalhava vendendo pipoca e no bar, tomava café em casa nas madrugadas. O que sobrava, a gente colocava em saquinhos e todos eles levavam. O bar fechava às 20h e às 3h já abria novamente. A gente vendia tudo, pra começar o outro dia com coisa nova. O Suruba era quem fazia a pamonha pra nós. Levava bastante e vendia tudo. O povo gostava. E a pamonha dele era boa mesmo. Ele não plantava milho, mas fazia muita pamonha.

Aquela escada [o ‘escadão’]... que sofrimento para subir por ali. Quando chegava um trem, todo o povo queria subir. Uma loucura. Mas eu tinha muita prática; em três tempos estava lá em cima e chegava no Pedroso. A dona Maria fazia uma comida gostosa. Perto da estação tinha o refeitório da Sorocabana também. O Sizino trabalhava lá. Era um homem bom. Cheguei a comer com eles.

Com o Bertolli eu tinha um amizadão, mas não era muito chegado. Ele não ligava muito pra política. Era um pouco diferente de nós. Era o ‘chefão’ na Sorocabana. Tinha bastante gente que ajudava ele, mas era ele quem mandava em tudo. O maior negócio que havia em Iperó, o maior movimento, era a estação. Então, ele era muito respeitado.

Em Iperó tinha um soldado chamado Joãolão, um grandão. E o Luís soldado, que bebia como um danado. Depois veio o Aniba. Um ' grandão'  demais e um ‘pequenininhos’. A cadeia era vizinha do Agenor barbeiro. Até eu uma vez, antes de Iperó emancipar, fui nomeado delegado. Eu não queria, mas fiquei uns meses.

Eu gostava do Nersão [Nélson Costa] também, pai do Jumbé. Ele não saía da minha casa. Jogava com a gente. Gostava de jogar truco.

Nesse tempo havia uma rixa entre os ‘janistas’ e os ‘adhemaristas’. O Carlos Arruda e o pessoal da ferrovia, por exemplo, era ‘janista’. Já o sr. Campos, o Pedroso e a turminha deles era ‘adhemarista’. O Jânio tinha aquele jeitão, mas foi um bom governador. Mas, pra mim, o melhor governador foi o Adhemar de Barros.

Eu achava que Iperó tinha que melhorar, porque o movimento era só de trens. A estação e mais nada. O centro não existia. Aí eu falei para a turma: “Vamos [emancipar]...” Tinha, dentre tantos, o Gabriel Américo (um cara muito bom), o Jorge Nassif (um companheirão para a emancipação). E nos reunimos. O Jorge era ‘polícia da Sorocabana’ naquele tempo e trabalhava em São Paulo. Ele começou a ajudar na emancipação junto comigo e eu ganhei a confiança do Adhemar. O palácio ficava nos Campos Elíseos, perto da estação. A gente, toda vez que ia pra São Paulo, toda segunda-feira, ia até o palácio. O Adhemar falava: “Vocês não saem daqui?” Mas eu agradava ele. Sempre levava um ‘quartão’ de leitoa, sempre levava alguma coisa pra ele lá. Tinha os cozinheiros do palácio que faziam as comidas e ele gostava muito. Era um homem criado na fazenda; então ele gostava. E começou a me ajudar.

O Roberto Cardoso Alves era a favor de Boituva, pra não deixar Iperó emancipar. Lutou junto com o pessoal de Boituva, mas a sorte é que ele já era deputado federal e perdeu a influência na Assembleia. Boituva fez de tudo para não permitir a emancipação. A nossa divisa era perto do Santo Antonio. Iperó pegava toda aquela área dos Rosa, mas o pessoal de Boituva só era favorável à emancipação se mudasse a divisa. Concordamos. Aquela área hoje tem bastante indústrias, mas naquele tempo não tinha nada. A divisa veio para o rio e não teve jeito mais. Então, nós ficamos ‘pequenininhos’. O Carlos Arruda era ‘rafaelista’ e trabalhou contra nós na emancipação. O Suruba, o José Pedro e mais uma ‘turminha’ de Iperó foram contra também. Aí, o Felício trabalhava na Prefeitura de Boituva e tinha mais um outro de Iperó que também trabalhava. Falei que não ia aceitar os funcionários da prefeitura de lá e ia colocar funcionários novos em Iperó. Então, eles voltaram a trabalhar em Boituva e ficaram contra nós também.

Quando chegou a votação para a emancipação de cada cidade, Iperó não tinha condições, porque era muito pequena. Assim [na época do plebiscito] surgiu a ideia de falar com a turma de Bacaetava, pois eles eram distrito de Araçoiaba da Serra. Lá havia o sr. Benedito Bertolaccini (que era o ‘chefão’) e aquele senhor da casa da esquina; não lembro o nome dele, mas era um homem bom pra caramba. Os dois pegaram firme e me disseram o seguinte: “Nós concordamos. Vamos trabalhar pra isso, para passarmos para Iperó e sairmos de Araçoiaba, porque Araçoiaba não faz nada por nós. A única coisa que vamos exigir é que você traga a água pra nós.”

O distrito é Bacaetava. A divisa vai até Araçoiabinha. Metade de Araçoiabinha pertence a Iperó. Ipanema e tudo aquilo lá pertence ao distrito de Bacaetava e veio automaticamente na emancipação. Valeu o que o povo queria. Queria pertencer a Iperó. Os eleitores de Bacaetava, Ipanema e George Oétterer votaram favoráveis a Iperó. George Oétterer nunca vai passar para outro lugar, porque lá é bairro e não distrito. No geral, o plebiscito ainda teve 80 votos contra a emancipação.

O projeto foi para a Assembleia Legislativa, que aprovou a emancipação. Apareceu uma meia dúzia de municípios tão pobres quanto Iperó e o Adhemar vetou, inclusive Iperó. Ele já estava ‘caduco’. Apareceu o veto e na outra segunda-feira eu estava lá brigando com ele. Ele disse: “Puxa... eu vetei, mas não queria vetar Iperó. Queria que vocês emancipassem. Vamos fazer o seguinte: traga o Cyro [Albuquerque, presidente da Assembleia Legislativa] aqui.” Fui atrás do Cyro na casa dele, no Ibirapuera, e voltamos ao palácio para falar com o Adhemar novamente. Ele disse: “Cyro, eu vetei Iperó, mas vocês vão derrubar o veto. Controle os deputados lá. Eu vou ligar para a turma minha, para que todos votem favoráveis a derrubar o veto.” A única deputada que votou contra foi a Conceição Costa Neves, que achou que era algum ‘rolo’ que estavam fazendo. Segundo ela, como iria emancipar um município que não tinha condições nem de ser distrito? Ela acabou com a gente. Mas chegou na hora, a turma derrubou o veto e ela ficou com uma cara louca de brava.

Por causa disso tudo, as nossas primeiras eleições saíram atrasadas. Ficou assim durante quatro mandatos: meu, do Carlito, do Paula Leite e quando voltei. A eleição era em novembro e a gente tomava posse em março. Assim, 21 de março de 1965 foi a data da nossa posse.

Sorte nossa foi o Cyro. Ele foi o nosso pai. Era o presidente da Assembleia e trabalhou pra caramba. Se não fosse ele, a gente não teria emancipado Iperó. Mas foi bom, porque o povo de Iperó também ajudou bastante. Eu e o Jorge estávamos em São Paulo quando a Assembleia derrubou o veto. De lá, ligamos pra Iperó. “Já somos município!” Dá até vontade de chorar em lembrar daquilo. O João Domingues tinha um caminhão, o Oscarzão tinha um caminhão velho, o Orlando Sartorelli tinha uma caminhonete, o Moraes tinha um carrinho. Sei que reuniram a turma toda e a maior parte do povo foi a pé de Iperó até Boituva para me esperar. Foi uma coisa medonha. Precisei ir pra Sorocaba, uns dois dias após o fim da festa da emancipação, para ‘curar’ a região genital, de tanto que a turma me carregava nas costas e levava pra lá e pra cá. Faziam aquela ‘barbaridade’. Vinha um, vinha outro e dizia: dá aqui que eu quero carregar também. Quase me rasgaram no meio. O Zé do Joãozinho Domingues foi um dos que mais me carregaram. Foi uma coisa do outro mundo. Veio aquele povão, com rojão (não sei onde arrumaram tanto rojão), por aquela estradinha velha de terra. Descemos de Boituva até Iperó fazendo festa e foi até de madrugada.

O padre Olavo era muito ‘esquentado’ e ‘violento’. Também era contra a emancipação. Perdeu, ficou ‘louco’ de bravo. Eu andei dando uns ‘coices’ nele, duros, e ele se tornou meu inimigo. Com a emancipação, ele pediu para sair de Iperó e disse que não ia mais atender Iperó. A igreja ficou fechada durante mais de um mês. Depois veio o padre Hilário, com o qual negociamos a casa da igreja para se tornar a sede da prefeitura. 

Sei que, no fim, vencemos tudo. Foi difícil, porque a gente sabia que não tinha condições. Mas entramos na luta e queríamos ver no que ia dar. Conseguimos realizar o que queríamos. Tanto, que no começo eu disse: “Vamos colocar um outro candidato. Tem o Milton Sartorelli, que é de Iperó, família de Iperó. Que seja ele o candidato.” A turma disse: “Não, tem que ser você. Você conseguiu a emancipação, então vai ser o candidato.” O Jorge também não quis saber e não aceitou nem sair como vice. Aí o vice foi o Milton. Mas ele ficou bravo - naquele tempo votava para prefeito e depois para vice separadamente – porque teve 38 ou 48 votos a menos que eu e nunca pôs o pé na prefeitura.

O começo de Iperó foi duro. Naquele tempo, cada um tinha o seu pocinho e era um tal de queimar aquelas bombas flutuantes. O pessoal ficava sem água e reclamava. Eu disse: “Vamos dar um jeito de melhorar.” Não tinha dinheiro para fazer os poços. Coloquei uma Kombi na rifa. Saímos vender aqui e fomos vendendo até Presidente Prudente; fomos para o Paraná vendendo e voltamos pra Iperó. Vendemos bastante. Deu pra pagar muita coisa e comprar tudo o que precisava. Foi sofrido, mas deu tudo certo.

Prometi e levei a água para Bacaetava. Fiz dois poços artesianos para abastecer as duas vilas. Levei a luz até a região do ‘Sítio Grande’, onde hoje é a Aramar. Foi tudo no meu tempo de prefeito. Ficou em 92 ‘contos’. O dinheiro veio para a Caixa Econômica Federal em Sorocaba. O Adhemar autorizou e mandou o dinheiro. Nós não tínhamos banco; não tinha nada em Iperó. Fomos buscar o dinheiro na agência, na rua 15 de novembro. Fui com uma perua velha e encostamos lá. Eu mandei fazer um saco de couro em Tatuí, de um metro e pouco de altura. Os 92 ‘contos’ encheram até a ‘boca’ do saco e levamos o dinheiro. Ficou combinado que eu ia buscar o dinheiro e pagar a turma da ‘Light’ na prefeitura. Tinha um mesão na Câmara (era tudo junto, Câmara e Prefeitura, na casa da igreja) e viramos aquele sacão de dinheiro ali em cima. Esparramou tudo por tudo ali. Reunimos os vereadores, sr. Pedroso, Dito Pires, João Gonçalves Camargo (um cara com quem eu tinha muita amizade e de quem eu gostava muito), Adão Folim e os outros. Reunimos todos e a turma da ‘Light’ para contar aquela ‘dinheirama’. Demorou umas quatro horas para separar e conferir tudo. Pagamos aquilo, logo em seguida começaram o serviço e chegou a luz em Bacaetava.

Na minha eleição, Bacaetava tinha mais de 400 eleitores e eu cheguei a ter 400 votos. Foi difícil. Eu só não larguei a prefeitura, porque tinha vergonha. Era a coisa mais dura que existia, porque no começo não ganhava nada e só havia despesa. Sorte que eu ganhava bem na estação. Eu ia lá e fazia o que tinha que fazer. Quantas vezes estava trabalhando na estação e tinha que largar, porque o pessoal queria uma ambulância para levar doente pra algum lugar. Naquele tempo era difícil conseguir um motorista e deixar à disposição (a prefeitura não tinha dinheiro). Então, a gente precisava levar. Na época do segundo mandato, eu montei o posto de gasolina na avenida. Assim, deu pra ir ‘tocando’. Tempos depois, criaram um ‘ordenado’ para vereador e prefeito.

Fiz o matadouro, a ponte sobre o rio Sorocaba, a ponte sobre o rio Ipanema, a usina de asfalto, as primeiras ruas asfaltadas, a prefeitura e o muro do cemitério. Antes, o cemitério era fechado com arame. O gado do Joãozinho andava por cima dos túmulos onde o pessoal estava enterrado. Às vezes, naqueles lugares de terra mole [oca], eles afundavam as patas e quase pisavam na cabeça do pessoal enterrado. Aí eu fechei com muro lá.

Tinha o caminhão onde levavam a carne do gado abatido no matadouro. Era chamado de ‘carne verde’. O João do Hamilton dirigia. Ele ajudava o Olavo Redini matar os bois e depois entregava a carne para o Genésio, o Zeca e o Flamínio. Nessa época veio o desentendimento entre o Flamínio e o Pedroso, por causa de não deixar mais matar os animais no perímetro urbano. Antes, eles matavam ali no centro, onde hoje é o Esplanada. A Câmara aprovou a lei proibindo e o Pedroso era o presidente da Câmara. Sempre, à noite, ele [Pedroso] subia para jogar truco lá em casa. O Flamínio, numa noite, rodeou por ali. A turma viu que ele estava rodeando e mostrando o revólver. Quando ele atirou, o tiro pegou na barriga do Pedroso e não fez nada. Sobrou para o Pedroso. Não foi o prefeito quem proibiu; o prefeito cumpriu a ordem da Câmara. Mas não sei o que aconteceu; o Flamínio era gente boa. Eu gostava dele e comigo ele tinha um ‘amizadão’. Eu sempre fazia coisas para ele, e para mim ele era muito bom. Nossa.

Quando terminou o primeiro mandato, entrou o Carlito, que era o meu candidato. Mas não dei palpite na administração dele. Assim como o Marcos, que era o meu candidato quando foi eleito na primeira vez. Eu deixava que cada um fizesse o que quisesse. Alguma coisa que precisavam e não conheciam em São Paulo, eu orientava, porque eu tinha muito conhecimento. Orientei muitas vezes o Carlito. Mas, palpite na administração eu nunca dei. Inclusive, para falar a verdade, na primeira administração do Marcos eu só assisti a posse e não entrei mais na prefeitura durante os anos do mandato dele.  

Quando o Carlito estava para sair, o Dito foi candidato. Mas a gente estava brigado e eu não trabalhei para ele. O pessoal vinha me perguntar: “Zé, nós vamos votar no Paula Leite?” E eu respondia: “Eu não vou.” E ele ganhou, mas com pouca diferença, pois eram poucos eleitores na cidade naquela época e teve muito voto em branco. O pessoal até que ‘me obedecia bem’...

Quando o Dito estava terminando o mandato, eu me candidatei. Todo mundo achou que era fácil e queria ser candidato. Tinha ARENA 1 e ARENA 2, MDB 1 e MDB 2. Ele lançou o candidato e não quis nem conversa comigo. Aí eu pensei: “Que leve a breca, mas agora eu vou sair. Quem sabe eu consigo ganhar do candidato dele.” Saíram, além de mim com o Dinho, o Mauri ‘japonês’, a Neide e o Silvano, o Candinho Nabas e o Alcides Zovaro. Eu achava que com essas divisões não ia ganhar. No fim da história, somei os votos de todos os outros e ainda tive 111 votos a mais.

No meu segundo mandato, para a chegada da indústria, a Indelpa até compraria o terreno do Paula Leite. Tentei negociar para ele vender para a indústria, mas ele estava bravo (o candidato dele havia perdido a eleição). E o que aconteceu? Eu disse: “O senhor não vai vender, mas eu me interesso pelo terreno. Se o senhor não vender, a prefeitura vai desapropriar.” Ele disse: “Faça o que quiser. Vocês não vão conseguir tomar de mim.” Sei que eu fiz a desapropriação. Porto Feliz veio avaliar o terreno, o quanto valia. Ficava mais ou menos 500 e poucos ‘contos’. Consegui um financiamento na Caixa Econômica Federal para pagar o terreno. O dinheiro saiu, estava na conta da prefeitura já, mas o meu mandato estava nos últimos dias. Então, deixei para o Marcos [Andrade] pagar.

Não tenho boas lembranças de ser prefeito. Tanto, que podem oferecer a melhor prefeitura pra mim hoje, que não quero nem saber. Outro dia eu estava lembrando do pessoal daquele tempo: ali na Porfírio havia o sr. Orlando da farmácia que era do meu lado, sr. Tristão Rosa e a família inteira eram do meu lado, sr. Campos e a família, o Bibe e a família, Paula Leite e a família naquele tempo eram do meu lado, o João Del vigna, o Agenor, o Olímpio Pavon era ‘fanático’ da gente, a mãe do Bisteca, o Genésio, o Mingo também era ‘fanático’, o João do Vital, o Zeca, o João Sarubi, o sr. Orlando Sartorelli, o Zé Vitorino, o Zé Calixto (e o Rei, pena que morreu muito novo), o Gusto Canaviá. Tinha muito ‘evangelista’ também, que eram gente fina, mas não falavam sobre o voto; o único que falava era o Sebastião Senna e a família inteira que eram do meu lado também. Sempre que eu ia pra Iperó, ia à casa dele; era um amigão.

Não queria mais ser prefeito, mas ainda fui candidato a vereador em Iperó há alguns anos. E só depois fui pensar que mais de 80% dos meus eleitores já haviam morrido.

 

 

Augusto Daniel

- Diferente do que vivemos dizendo ("o tempo passa muito rápido, a semana voa, já está chegando o natal e nem tiramos a mesa da ceia"), nós é que não temos mais tempo "pra ver o tempo passar ou pra ver a banda passar". A nossa agenda exclui a passagem do tempo, mas só ela, porque ele, o tempo, flui normalmente. Uma vez fui a Iperó bem cedo pra resolver um problema no cartório, com mil problemas a resolver a mais ou menos 90 km dali. Lembro-me que cheguei bem cedo, estava aberto, na esquina da antiga Duque de Caxias, onde era a casa da Prof. Clarisse Zaguetti (ótima professora, em um tempo onde eles, os professores, já não ganhavam bem, mas eram diferenciados e tratados com muito respeito; aliás, ainda não vi homenagem alguma a ela). Foi minha professora no antigo 2º ano do primário, 55/56 do século XX , e contava uma passagem do início de sua carreira, quando lecionava bem afastada de qualquer centro e foi convidada a almoçar na casa de um aluno. Quando foi à mesa o arroz, feito naquele instante, estava servido em um penico-urinol (para quem não sabe, época houve em que as privadas era as conhecidas "fossas negras" - um buraco fundo, no quintal, distante dos poços de água e um assento feito com tijolos, o local onde sentávamos feito de madeira, com um buraco no meio, à parede um gancho onde ficavam recortes de jornal, papel, pois não havia papel higiênico. Era a casinha! À noite era difícil, tinha que se caminhar fora da casa, no escuro, ir ao fundo do quintal para as necessidades fisiológicas. A solução era o penico, que na manhã seguinte era lavado. Bem, esclarecido o penico, voltemos à dona Clarisse, que mesmo tendo absoluta certeza de ser um substituto da panela, e só isso, ficou estupefata ao ver a cena e, mesmo sendo uma professora exigente, fez a "molecada" rir muito. Hoje, 2014, século XXI, ainda me lembro. Então, ali próximo à antiga casa do Prof. Paulo Zovaro e próximo ao terreno onde era a casa da Prof. Laura, do edil José Alves, da sra. Fiica, era o correio. Entrei, andei impaciente de um lado para outro, resmungando, olhando incessantemente ao relógio, já proferindo algumas palavras impróprias, quando vi uma pessoa conhecida, amiga, saindo calmamente de outra casa, onde havia ido tomar o café da manhã, entrando no correio, cumprimentando-me alegremente, com tempo para perguntar de todos em casa e falar sobre todos, na casa dela. Só depois fomos à questão que me levara até a santa terrinha. O tempo era rápido demais para mim, para o meu modo de vida. Nós, na Iperó de minha infância, "curtíamos" o tempo. Um a dois meses antes começávamos a viver o carnaval, era lançado um livrinho com a letra de todas as músicas, marchinhas até hoje tocadas e cantadas, que ouvíamos diariamente nos programas de rádio, até "decorarmos todas".  As mesas já iam sendo vendidas no Sorocabana, o velho clube. As fantasias já iam sendo providenciadas, eu pessoalmente, desde que comecei ir às matinês, sempre fui com uma camisa listrada e um frasco de "lança-perfume" da Rhodia, o bom. O clube já começava a coletar ofertas junto ao comércio de enfeites que deixariam o Sorocabana melhor que o Copacabana Palace, pelos menos pra mim e acredito que pra todos. A banda se transformava em orquestra e deixava os dobrados por marchas lindas que eu as sabia todas. Esse mês ou dois antes dos 4 dias de carnaval eram vividos tão intensamente, que quando chegava não era tão bom, porque acabava rápido. Nós nos permitíamos a esse passar lento do tempo, a "curtí-lo", mastigar bem. Hoje , se tivéssemos de ir à "casinha", com tantos afazeres, talvez aproveitássemos uma moita no início do caminho, para não perder tempo. Tudo se passa num só tempo, numa só velocidade, que não achamos tempo para saborear, prosear e fundimos  as preparações com as comemorações e ainda temos que achar um tempo para outra atividade qualquer. Sábado fui ao matinê e estou esperando o de terça, assim era! Eu e os adultos que também reduziam o ritmo de trabalho tentando aproveitar ao máximo o carnaval que voltaria somente no próximo ano e "demorava". Hoje as coisas são tão velozes que o próximo Natal, ano novo, carnaval, Páscoa, aniversário, são logo ali. "Não leva um ano". Falta saborear!

 

- Iperó, terra querida!!! Plagiando Gardel em tango escrito por De Lapera, brasileiro, paulista, santista, autor também da letra de "La noche que me quieras". Hoje, dia 30 de maio de 2014 estive em Iperó, saí a andar e parei no Gaspar. Assustei-me porque não vi a cabeça do Gaspar. Havia uma foto acima, mas não a cabeça do Gaspar. Quando fazia eu o primeiro 4º ano, porque fiz dois, já alguém houvera partido o pescoço do Gaspar, isso há exatamente 60 anos. Na última eleição disseram-me que a sua cabeça (a do Gaspar) passava por reparos e hoje eu não a vi e não houve justificativa. Fique sabendo que há verba e novas construções estão surgindo na minha Porfírio, que a farão ficar mais digna... fico muito feliz. Aquilo é a minha Iperó. Ali está meu umbigo. Eu amarei eternamente a minha rua. Ali está a minha Iperó!! O resto só é Iperó se passar pela mãe... a Porfírio... ali está a história, minha e da cidade.

Desci para a praça, a da Santo Antonio, e ali, na renovação da praça, que eu não estava entendendo onde iria chegar, se era coisa do padre que, ainda, pouco tem a ver com minha cidade, veio a grande surpresa... linda, linda, maravilhosa. Fiquei alguns momentos boquiaberto, perplexo com o mosaico exibindo de uma forma nítida a minha igreja e a minha praça, dos meus tempos de infância, adolescência. Da minha corporação musical, Santa Cecília... A BANDA, do padre Olavo, do padre Calixto, das festas de Santo Antonio, dos leilões do velho leiloeiro Calil, do “Dito curadô” e sua imensidão de filhos, dos correios elegantes, dos namoricos que assim se iniciavam e que acabavam após a festa, das missas em que padre Olavo falava de política e padre Calixto da guerra do Vietnã, dos arroz com frango e arroz com suã de dona Joana ou dona Minervina, dos fogos ao final da festa, da expectativa do anúncio dos novos festeiros para o próximo ano, enfim... do saudosista irrecuperável que sou, mas que vê com otimismo o futuro.

De prefeito em prefeito, seguindo o traçado, ainda veremos uma Iperó do tamanho que ela merece, muito grande!!!

Esta cidade é um retrato, em cada fresta, das maiores emoções que vivi. Eu sou Iperó e vice-versa... e tenho dito!!!

 

- Nem tudo foi bom na década de 60, mas sem dúvida ela, a década em questão, morna não foi.
Movimentou o mundo (movimento estudantil na França, revoluções na América Latina, incluindo o Brasil, revolução na igreja com o maravilhoso João XXIII, Woodstock e o movimento hyppie nos EUA, etc), época do início do "amor livre", que quer dizer "da transa sem compromisso", dos movimentos feministas iniciando; nosso país, Brasil, com o bicampeonato mundial no Chile quando ouvíamos no rádio o jogo durante o dia e à noite víamos o VT, um avanço; com a renúncia do Jânio, fenômeno eleitoral, mas sem Congresso e que quis se impor pela renúncia, para voltar carregado pelo povo que o elegeu, numa espécie de ditador; a tentativa de presidenciar o vice, Jango, de esquerda, uma incógnita, vice opositor ao que renunciava, mas que num movimento que cresceu, apoiado e estimulado pela igreja, “Movimento com Deus pela liberdade”, não só caiu o Jango, como deu início a uma longa ditadura, militar e de direita.

No Estado tínhamos a hegemonia do Santos de Pelé, tínhamos o gigante do Morumbi em fase final, a transformação das ferrovias, com histórias e tradições diferentes, e não eram poucas, em FEPASA (Ferrovias Paulistas S.A.) no início do que seria o desmantelamento do funcionalismo público naquele sistema de emprego vitalício e, na pequena Iperó, com seus 5000 ou 6000 habitantes, ainda distrito de Boituva, com seus “saraivas”, “rafaeis” e “padres” (Olavo, que num momento de furor político castigou o povo fechando a então capela de Iperó, vingança, obrigando-nos a ir à missa em Boituva), tinha início o movimento pra emancipação, bonito, ativo, pois envolveu e uniu mais a pequena grande cidade, com seus Jorge Nassif, Said, Zé Borba e muitos outros. Saíamos pela cidade pela emancipação, como saímos no “Movimento com Deus pela liberdade”.

Iperó teve o maior e melhor time de futebol de todos os tempos, com Hélio, Oswaldo e Jumbé, Ulisses e Jorge, Julião e Otávio, Orlando, Olavo, Serginho e Quinho, uma máquina de jogar futebol. Época dos apitos solitários das máquinas puxando os vagões na noite, lindos; do N1, P1, dos trens que nasciam na madrugada nos levando a Sorocaba para estudarmos. Época das tardes no rio Sorocaba, dos bailinhos e bailões, dos filmes e paixões, épocas de Iperó; época em que ficávamos no fundão da igreja e quando o padre, o mesmo de anteriormente, começava na homilia, a falar de política, saíamos e ficávamos na praça, esperando o fim da mesma para voltarmos.

Lá se vão 50 anos... pessoas foram, outras ainda estão, outras chegando e Iperó... bem, Iperó vai indo. Cresceu aqui, estagnou ali e parou lá, lá na Porfírio que as fotos mostram o que foi na década de 60. Nós continuamos acreditando e amando, até porque temos o nosso umbigo num quintal da Porfírio, 85, sob uma jabuticabeira... "i vamu qui vamu".

 

- Pondo o passado aos nossos olhos... Porfírio de Almeida, antes de qualquer outra, a rua de Iperó, está sendo escavada, de uma maneira rude, mas como os exploradores ingleses fizeram no Egito, trazendo à tona nossos fantasmas. E eles vêm na forma de terra, sim, porque removem com certeza a nossa terra, aquela que pisamos pouco antes da lajota.

Nela, a terra, desfilamos nossa infância e juventude, nossas angústias, nossas alegrias, nossos sonhos, poeiras e lamas. Nela, a terra, aprendemos a caminhar, a soltar papagaios, bolinhas de gude, piões, futebol, desfiles, banda, enfim, naquela terra que ali está exposta, vivemos intensamente a nossa Iperó. Não lamento, apenas constato! Tenho confiança que ela renascerá, porque dela nasceu!!! Com outra cara, sem dona Diva, Agenor, meu avô e meu pai, sem seu Calil, sem o charme que me pertence, mas renascerá e sempre será o berço da Santo Antonio, da Iperó, da minha cidade, daquilo que sempre estará comigo nos meus pensamentos.

Parabéns a quem está brigando por isso, até porque foi criado também nela, a Porfírio!!!

 

- 22h, estava vendo um resumo de "Out of Africa" com Maryl Streep e Robert Redford, fundo musical de Mozart. Enredo, música, fotografia, desempenho, simplesmente maravilhosos. Nostalgia ao extremo. Sensação de, como disse um amigo meu, de "saideira". Daquelas coisas que não saem de sua cabeça, ficam martelando, extrema sensação de perda...

“Um verão de 42”, “Em algum lugar no passado” e outros que enquanto duraram pareciam eternos, mas que encerraram deixando uma profunda nostalgia, sem a mínima chance. Esse é o mal que Iperó me deixa: misto de amor e vazio, um consequência do outro. Há uma necessidade de estar lá, mas fere, pois como já escrevi... cada esquina é uma vida!!!

Vida vivida intensamente, que preenchia cada momento com atividades, com relacionamentos que ainda duram, mas em nossa imaginação, e machucam. Egoísmo talvez, pois seria mais lógico agradecer e estar feliz por ter tido a oportunidade de ter compartilhado tudo isso com gente boa, num lugar igualmente muito bom. Aquele bem melhor que este. Aquele se bastava e eu só era adolescente!!!

Iperó era linda...hoje, bem, hoje já não sei!!! Já não tem só iperoense, já não tem o cinema, mas para compensar tem um presídio! Já não tem banda, mas tem uma fanfarra! Já não tem a mesma praça, mas tem uma foto na atual que é muito linda! Já não tem o mesmo "charme", mas tem o De Sordi que ainda perambula pelas ruas, talvez não mais reclamando dos velórios que não serviam um café e um pão com mortadela!

Enfim, não tem a nós, como éramos, e aos nossos... mas... há a nostagia e isso basta para que sempre estejamos lá esperando, talvez, numa tarde ensolarada, numa esquina qualquer, cruzarmos com o nosso passado, ficarmos nos olhando e, por alguns instantes, voltarmos a ser adolescentes... pode ser, pode ser!!!

 

Jovens tardes de domingo

Composição: Roberto Carlos

 

Eu me lembro com saudade o tempo que passou
O tempo passa tão depressa, mas em mim deixou
Jovens tardes de domingo, tantas alegrias
Velhos tempos, belos dias.

 

Canções usavam formas simples pra falar de amor
Carrões e gente numa festa de sorriso e cor
Jovens tardes de domingo, tantas alegrias
Velhos tempos, belos dias.

 

Hoje os meus domingos são doces recordações
Daquelas tardes de guitarras, sonhos e emoções
O que foi felicidade me mata agora de saudade
Velhos tempos, belos dias.

 

Hoje os meus domingos são doces recordações

Daquelas tardes de guitarras, flores e emoções

O que foi felicidade me mata agora de saudade

Velhos tempos, belos dias.

 

 

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